{"id":372,"date":"2019-11-21T16:18:08","date_gmt":"2019-11-21T18:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/?p=372"},"modified":"2019-11-21T17:14:38","modified_gmt":"2019-11-21T19:14:38","slug":"revolucao-4-0","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/revolucao-4-0\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o 4.0"},"content":{"rendered":"<header>\n<h3><em>Entrevista especial do Instituto Humanitas UNISINOS On-line com Mario Sergio Salerno<\/em><\/h3>\n<\/header>\n<section class=\"entry fix\">&nbsp;<\/p>\n<p>Texto original dispon\u00edvel\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/572440-a-revolucao-4-0-e-o-atraso-da-industria-brasileira-entrevista-especial-com-mario-sergio-salerno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cO que caracteriza o que vem sendo chamado de Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 \u2014 4.0 rigorosamente \u00e9 um nome quase que comercial ou uma manufatura avan\u00e7ada, como os americanos chamam \u2014 \u00e9 o aproveitamento e a reuni\u00e3o de uma s\u00e9rie de desenvolvimentos. Uma boa parte deles est\u00e1 relacionada ao poder computacional, ao sensoriamento, \u00e0 internet das coisas e aos m\u00e9todos computacionais para tratamento de grandes bases de dados, que s\u00e3o, basicamente, m\u00e9todos estat\u00edsticos. Ent\u00e3o, a jun\u00e7\u00e3o dessas tecnologias \u00e9 o que est\u00e1 na raiz do que se chama hoje de Revolu\u00e7\u00e3o 4.0\u201d, explica Mario Sergio Salerno \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone, Salerno comenta a situa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria brasileira diante da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 e frisa que ela est\u00e1 \u201catrasada\u201d. \u201cComo no Brasil n\u00e3o est\u00e1 havendo investimento novo, a perspectiva de que haja uma atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mais forte n\u00e3o est\u00e1 colocada, exceto em alguns servi\u00e7os. Mas para a ind\u00fastria, com exce\u00e7\u00f5es, isso n\u00e3o est\u00e1 colocado no horizonte pr\u00f3ximo. O pior de tudo \u00e9 que, do ponto de vista dessa gera\u00e7\u00e3o de tecnologia de empresas que produzam equipamentos, sistemas, softwares ou qualquer coisa ligada \u00e0 manufatura avan\u00e7ada, n\u00f3s estamos muito, muito fracos, pois n\u00e3o existe um programa de apoio a esse tipo de desenvolvimento no pa\u00eds\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0, Salerno pontua que \u201cao mesmo tempo, temos que tomar um certo cuidado, pois tem muita onda em torno da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 e tamb\u00e9m tem muito interesse comercial por tr\u00e1s disso\u201d. A 4.0, adverte, \u201c\u00e9 praticamente uma marca da ind\u00fastria de m\u00e1quinas alem\u00e3s, que conta com o apoio do governo alem\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma panaceia, ningu\u00e9m vai ficar pior ou melhor hoje por conta disso. Essas tecnologias se difundem muito devagar e com investimento novo\u201d.<\/p>\n<p>Salerno tamb\u00e9m reflete sobre as implica\u00e7\u00f5es que a Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 poder\u00e1 gerar nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho e menciona que alguns setores provavelmente ser\u00e3o mais impactados que outros. \u201cAdvogados t\u00eam mais chance de serem impactados pela Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 do que os encanadores, porque uma parte do trabalho dos advogados pode ser codificada com grandes bases de dados e tratamento estat\u00edstico, mas o trabalho do encanador, n\u00e3o. Uma parte do trabalho dos m\u00e9dicos, dos engenheiros e de outros setores poderia ser impactada. Por outro lado, tem uma possibilidade de oferta quase infinita de servi\u00e7os, e a oportunidade de neg\u00f3cios e de gera\u00e7\u00e3o de outros tipos de empregos tamb\u00e9m parece muito grande\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-373\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-content\/uploads\/sites\/632\/2019\/11\/6-10-mario_segio_salerno-iea-usp-300x160.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"160\" \/><\/p>\n<p>Mario Salerno | Foto: IEA\/USP<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u00e9 graduado em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o pela Escola Polit\u00e9cnica da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP, mestre em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o pela Escola Polit\u00e9cnica da USP. \u00c9 professor do Departamento de Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica da USP, onde coordena o Laborat\u00f3rio de Gest\u00e3o da Inova\u00e7\u00e3o. \u00c9 coordenador do Observat\u00f3rio da Inova\u00e7\u00e3o e Competitividade do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como compreende o fen\u00f4meno da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 O que caracteriza o que vem sendo chamado de Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 \u2014 4.0 rigorosamente \u00e9 um nome quase que comercial ou uma manufatura avan\u00e7ada, como os americanos chamam \u2014 \u00e9 o aproveitamento e a reuni\u00e3o de uma s\u00e9rie de desenvolvimentos. Uma boa parte deles est\u00e1 relacionada ao poder computacional, ao sensoriamento, \u00e0 internet das coisas e aos m\u00e9todos computacionais para tratamento de grandes bases de dados, que s\u00e3o, basicamente, m\u00e9todos estat\u00edsticos. Ent\u00e3o, a jun\u00e7\u00e3o dessas tecnologias \u00e9 o que est\u00e1 na raiz do que se chama hoje de Revolu\u00e7\u00e3o 4.0. H\u00e1 mais coisas envolvidas nisso, mas a mec\u00e2nica fina e a rob\u00f3tica, por exemplo, j\u00e1 s\u00e3o assuntos mais conhecidos. Ent\u00e3o, essa revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionada ao poder computacional e \u00e0 possibilidade de manipular grandes bases de dados, isto \u00e9, de gerar grandes bases de dados integrando quase tudo que se consiga sensoriar.<\/p>\n<p>O que vem sendo rotulado de 4.0 ou manufatura avan\u00e7ada \u00e9 algo muito mais hier\u00e1rquico, ou seja, trata-se de um computador que d\u00e1 uma ordem para uma m\u00e1quina, a qual executa uma atividade \u2014 \u00e9 isso que se chama de Manufatura Integrada por Computador \u2013 CIM. Vou explicar como isso funciona a partir do seguinte exemplo: quando se projeta uma pe\u00e7a em um sistema gr\u00e1fico e de engenharia no computador, \u00e9 gerado um programa de comando num\u00e9rico, e esse programa \u00e9 enviado para a m\u00e1quina, que come\u00e7a a operar. Logo, esse \u00e9 um sistema que vem de cima para baixo. Hoje temos a possibilidade, dado o poder computacional e a evolu\u00e7\u00e3o do sensoriamento, de articular m\u00e1quinas horizontalmente, e n\u00e3o s\u00f3 verticalmente, e fazer a informa\u00e7\u00e3o de baixo para cima tamb\u00e9m. Entretanto, h\u00e1 muito mais promessa do que realidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o 4.0, porque pode demorar muito tempo para essa revolu\u00e7\u00e3o se concretizar, j\u00e1 que isso tamb\u00e9m depende do custo e de outros fatores. Mas mudan\u00e7as importantes est\u00e3o \u00e0 vista, sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Pode explicar melhor como se d\u00e1 essa rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre as m\u00e1quinas? Um rob\u00f4 sabe o que o outro est\u00e1 fazendo para saber qual ser\u00e1 o passo seguinte num determinado processo?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 Vou citar um exemplo: \u00e9 poss\u00edvel rastrear mais facilmente o que est\u00e1 acontecendo num determinado processo, ent\u00e3o, conforme um evento acontece em uma m\u00e1quina, a outra j\u00e1 pode receber um comando, porque ela fica sabendo horizontalmente o que se passa. Vamos imaginar a mec\u00e2nica: tem uma pe\u00e7a de metal que est\u00e1 sendo produzida em determinada f\u00e1brica. Essa pe\u00e7a foi projetada por um sistema computacional, com isso temos o projeto dessa pe\u00e7a, temos o programa de produ\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, e esse programa desce para o local de produ\u00e7\u00e3o. O programa come\u00e7a a acumular dados de como acontece efetivamente a produ\u00e7\u00e3o e consegue interpretar que se, por exemplo, o desenho da pe\u00e7a for modificado, \u00e9 poss\u00edvel ter v\u00e1rios ganhos. Ent\u00e3o, essa informa\u00e7\u00e3o que vem de baixo para cima acaba modificando o projeto da pe\u00e7a para facilitar a produ\u00e7\u00e3o. Mas provavelmente o grande campo da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 est\u00e1 fora da f\u00e1brica, pois toda essa parte de Big Data, de grandes bases de dados, tratamentos estat\u00edsticos, aprendizagem de m\u00e1quinas e intelig\u00eancia artificial se desenvolvem fora do local fabril.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do Brasil no cen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses? Quais s\u00e3o as dificuldades do pa\u00eds em avan\u00e7ar na \u00e1rea tecnol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 A ind\u00fastria brasileira \u00e9 bem atrasada desse ponto de vista \u2014 e de alguns outros tamb\u00e9m. Sempre h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas, ao mesmo tempo, temos que tomar um certo cuidado, pois tem muita onda em torno da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 e tamb\u00e9m tem muito interesse comercial por tr\u00e1s disso. A 4.0 \u00e9 praticamente uma marca da ind\u00fastria de m\u00e1quinas alem\u00e3s, que conta com o apoio do governo alem\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma panaceia, ningu\u00e9m vai ficar pior ou melhor hoje por conta disso. Essas tecnologias se difundem muito devagar e com investimento novo.<\/p>\n<p>Como, no Brasil, n\u00e3o est\u00e1 havendo investimento novo, a perspectiva de que haja uma atualiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mais forte n\u00e3o est\u00e1 colocada, exceto em alguns servi\u00e7os. Mas, para a ind\u00fastria, com exce\u00e7\u00f5es, isso n\u00e3o est\u00e1 colocado no horizonte pr\u00f3ximo. O pior de tudo \u00e9 que, do ponto de vista dessa gera\u00e7\u00e3o de tecnologia de empresas que produzam equipamentos, sistemas, softwares ou qualquer coisa ligada \u00e0 manufatura avan\u00e7ada, n\u00f3s estamos muito, muito fracos, pois n\u00e3o existe um programa de apoio a esse tipo de desenvolvimento no pa\u00eds. Em S\u00e3o Paulo existe a Fapesp, que lan\u00e7ou um edital para procurar aproximar, de modo direcionado, universidades e empresas, mas, rigorosamente, n\u00e3o existem empresas. Ent\u00e3o, n\u00e3o temos problemas de pesquisa universit\u00e1ria mais b\u00e1sica. O problema de transformar isso em tecnologia aplicada e neg\u00f3cio ocorre porque o agente que faz isso \u2014 a empresa \u2014 \u00e9 fraco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 De onde vem essa dificuldade das empresas brasileiras?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 Isso \u00e9 hist\u00f3rico no Brasil. O pa\u00eds s\u00f3 come\u00e7ou a ter alguma ind\u00fastria quando a Fam\u00edlia Real Portuguesa veio para c\u00e1, em 1808, pois at\u00e9 ent\u00e3o era proibido ter ind\u00fastria no Brasil. A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial j\u00e1 tinha acontecido h\u00e1 d\u00e9cadas na Inglaterra e aqui n\u00e3o existiam ind\u00fastrias. A ind\u00fastria no pa\u00eds \u00e9 relativamente recente e foi impulsionada \u00e0 \u00e9poca do governo Juscelino Kubitschek, mas para possibilitar uma industrializa\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida, houve uma pol\u00edtica de desfavorecer as empresas estrangeiras \u2014 isso em si n\u00e3o \u00e9 um problema, talvez como foi feito tenha sido um problema \u2014, e o Brasil virou um local de produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de desenvolvimento de produtos e de tecnologia. Isso perdura, grosso modo, at\u00e9 hoje, com exce\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de cosm\u00e9ticos, com empresas como a Natura e o Botic\u00e1rio, da \u00e1rea farmac\u00eautica que est\u00e1 evoluindo e da \u00e1rea de celulose. Mas o grosso da ind\u00fastria brasileira n\u00e3o tem os centros decis\u00f3rio e tecnol\u00f3gico aqui, ent\u00e3o ela \u00e9, praticamente, \u201cdemandante\u201d, importadora e licenciadora de tecnologias de fora. Logo, quando ocorre uma mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica, o Brasil fica para tr\u00e1s. Foi assim com a eletr\u00f4nica, pois o pa\u00eds n\u00e3o conseguiu entrar no desenvolvimento de produtos nessa \u00e1rea. Ali\u00e1s, o Brasil \u00e9 fraqu\u00edssimo nessa \u00e1rea, praticamente n\u00e3o existe ind\u00fastria de componentes eletr\u00f4nicos no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>O fato de n\u00e3o haver centro de tecnologia no Brasil implica que o grau de inova\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo e, se o grau de inova\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo, a produtividade \u00e9 menor, a din\u00e2mica da ind\u00fastria \u00e9 menor e assim por diante<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>A Zona Franca de Manaus piora o quadro porque ela incentiva a que n\u00e3o haja produ\u00e7\u00e3o de componentes no pa\u00eds. Como tudo \u00e9 feito em Manaus, como a montagem de importados, isso n\u00e3o estimula a ind\u00fastria a investir e tem reflexo no agregado da economia. Esse \u00e9 um problema de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um problema real. Portanto, a ind\u00fastria \u00e9 atrasada por v\u00e1rios fatores, entre eles, o fato de a produtividade do Brasil estar estagnada a muito tempo. Enfim, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o relativamente cr\u00edtica, pois n\u00e3o tem nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica mais orquestrada para tentar impulsionar um pouco a inova\u00e7\u00e3o. O fato de n\u00e3o haver centro de tecnologia no Brasil implica que o grau de inova\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo e, se o grau de inova\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo, a produtividade \u00e9 menor, a din\u00e2mica da ind\u00fastria \u00e9 menor e assim por diante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Em quais setores da ind\u00fastria brasileira a Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 j\u00e1 \u00e9 uma realidade?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 N\u00e3o sei responder. Primeiro seria preciso ter uma longa conversa para compreendermos como se mede a Revolu\u00e7\u00e3o 4.0. N\u00e3o existe um pacote pronto ao qual podemos nos referir para apontar e afirmar que todo o processo est\u00e1 atrelado \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o 4.0, principalmente na ind\u00fastria metal\u00fargica, que \u00e9 mais conhecida. Logo, uma parte do processo pode funcionar de uma forma e outra parte, de outra.<\/p>\n<p>Por exemplo, nos anos 1990 visitei uma f\u00e1brica de autom\u00f3veis, na Fran\u00e7a, que estava produzindo um carro que estava tendo muito sucesso. A arma\u00e7\u00e3o da carroceria desse carro, a solda que fecha as partes da carroceria, era extremamente automatizada. Esse carro fez tanto sucesso que come\u00e7ou a ter uma demanda maior do que a capacidade da f\u00e1brica de produzi-lo. Para resolver o problema, o que a empresa fez? Chamou os soldadores aposentados de volta. Eles constru\u00edram cavaletes de madeira, que \u00e9 uma tecnologia dos anos 1950, colocavam as pe\u00e7as nos cavaletes e as soldavam \u00e0 m\u00e3o, ao lado do processo robotizado. Ou seja, dois processos de produ\u00e7\u00e3o estavam convivendo, e \u00e9 assim que funciona em muitas empresas. Esse processo \u00e9 menos misturado na ind\u00fastria qu\u00edmica e petroqu\u00edmica, mas nessa ind\u00fastria os controles autom\u00e1ticos s\u00e3o difundidos, s\u00e3o quase que inerentes, caso contr\u00e1rio n\u00e3o d\u00e1 para produzir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Diante do avan\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0, uma das preocupa\u00e7\u00f5es que surgem \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao emprego. Entretanto, os pesquisadores da \u00e1rea divergem acerca de quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias dessa modifica\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, o que deve mudar nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho com a Revolu\u00e7\u00e3o 4.0?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 A Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 tem um impacto potencial enorme, sim, mas \u00e9 imposs\u00edvel medir isso agora, porque tudo depende de como vai se dar o seu desenvolvimento, com qual velocidade, com quais salvaguardas sociais etc. Tem umas equipes que tradicionalmente fazem esse tipo de an\u00e1lise de \u201cfuturologia\u201d, considerando que se tudo fosse igual a hoje, do ponto de vista das rela\u00e7\u00f5es sociais, dos contratos de trabalho, dos acordos sindicais, e houvesse uma difus\u00e3o de tecnologia de manufatura avan\u00e7ada, que \u00e9 um pouco mais do que a ind\u00fastria 4.0, usando base de dados, biotecnologia aplicada, fot\u00f4nica, mais de 40% dos empregos nos Estados Unidos seriam perdidos. Entretanto, sempre se fez esse tipo de an\u00e1lise muito catastr\u00f3fica, mas essa realidade nunca se realizou, porque a sociedade reage.<\/p>\n<p>O diferente, talvez, na onda atual, \u00e9 o potencial de se atingir n\u00e3o s\u00f3 profiss\u00f5es ou atividades pouco qualificadas, mas tamb\u00e9m profiss\u00f5es muito qualificadas. Por exemplo, fizemos um semin\u00e1rio na USP com pesquisadores de aprendizagem de m\u00e1quinas, que \u00e9 um ramo da intelig\u00eancia artificial que trabalha com muitos dados, os quais consideram que advogados t\u00eam mais chance de serem impactados pela Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 do que os encanadores, porque uma parte do trabalho dos advogados pode ser codificada com grandes bases de dados e tratamento estat\u00edstico, mas o trabalho do encanador, n\u00e3o. Uma parte do trabalho dos m\u00e9dicos, dos engenheiros e de outros setores poderia ser impactada. Por outro lado, tem uma possibilidade de oferta quase infinita de servi\u00e7os, e a oportunidade de neg\u00f3cios e de gera\u00e7\u00e3o de outros tipos de empregos tamb\u00e9m parece muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Quais tipos de empregos?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 Fazendo um pouco de \u201cfuturologia\u201d, por exemplo, vamos considerar os carros aut\u00f4nomos \u2014 eu n\u00e3o acredito que esses carros ter\u00e3o algum uso razo\u00e1vel nos pr\u00f3ximos 30 anos, pois s\u00f3 o sensor que vai em cima deles custa 70 mil d\u00f3lares. Trata-se de uma brincadeira tecnol\u00f3gica legal, mas n\u00e3o \u00e9 para difus\u00e3o em massa. Agora, existem outras tecnologias nos carros \u00e0s quais j\u00e1 temos acesso, como, por exemplo, um computador, atrav\u00e9s do qual podemos nos conectar com o celular. O que fazemos com os computadores que temos em casa? Compramos ingressos de cinema, reservamos restaurantes etc. A partir da internet das coisas, uma s\u00e9rie de tecnologias podem se comunicar ou saber onde cada um est\u00e1; por exemplo, j\u00e1 existem sistemas desse tipo nos celulares, pois se algu\u00e9m est\u00e1 num lugar, aparece no sistema do celular uma mensagem informando onde a pessoa est\u00e1 e perguntando que avalia\u00e7\u00e3o ela faz do local. Isso vai criando uma base de dados com informa\u00e7\u00f5es sobre o que a pessoa usa e gosta, e o sistema vai informando a ela sobre produtos e servi\u00e7os desse tipo. Nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel oferecer uma s\u00e9rie de servi\u00e7os, como entretenimento e servi\u00e7os em geral, que n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o associados \u00e0 ind\u00fastria, mas que est\u00e3o ligados ao autom\u00f3vel, por exemplo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel haver uma disputa por quem ir\u00e1 controlar esse tipo de servi\u00e7o. Ser\u00e1 a ind\u00fastria automobil\u00edstica que vai permitir ou n\u00e3o que se acesse o sistema do carro? Esse processo ser\u00e1 mais livre? Qualquer um poder\u00e1 faz\u00ea-lo? Ent\u00e3o no futuro, esse tipo de tecnologia ter\u00e1 uma difus\u00e3o mais r\u00e1pida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Uma \u00fanica empresa de internet das coisas americana tem dois mil engenheiros trabalhando com software e hardware<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra brasileira, considerando o cen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o 4.0? Ela d\u00e1 conta das demandas postas pela mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 N\u00e3o. Se tivesse que escolher uma forma\u00e7\u00e3o para incentivar, eu apostaria na Engenharia de Computa\u00e7\u00e3o, nas Ci\u00eancias da Computa\u00e7\u00e3o. O Brasil tem pessoas formadas nessas \u00e1reas, mas ainda \u00e9 muito pouco. Uma \u00fanica empresa de internet das coisas americana tem dois mil engenheiros trabalhando com software e hardware. N\u00f3s formamos quantos engenheiros de computa\u00e7\u00e3o no Brasil? Na ordem de centenas, e olhe l\u00e1. Portanto, ainda precisamos investir muito para que se consiga gerar aqui esses neg\u00f3cios, porque isso gira a economia, d\u00e1 empregos etc. Do contr\u00e1rio, usaremos apenas aplicativos feitos fora do pa\u00eds e n\u00e3o geraremos nenhum emprego.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Qual o papel das universidades nesse processo?<\/p>\n<p>Mario Sergio Salerno \u2014 As universidades t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a qual \u00e9 frequentemente esquecida, que \u00e9 a de formar pessoas. A principal fun\u00e7\u00e3o da universidade \u00e9 formar pessoas bem preparadas do ponto de vista b\u00e1sico. N\u00e3o \u00e9 formar pessoas para trabalhar em determinado emprego; \u00e9 formar pessoas para que consigam se mexer na profiss\u00e3o, acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o, independente da empresa em que v\u00e3o trabalhar, porque o que \u00e9 espec\u00edfico da empresa, a pessoa aprende na empresa.<\/p>\n<p>Outra coisa que algumas universidades podem fazer \u00e9 avan\u00e7ar em pesquisa, mas n\u00e3o adianta ter pesquisa universit\u00e1ria se n\u00e3o tiver empresas que transformem essa pesquisa em neg\u00f3cio, em faturamento, pois inova\u00e7\u00e3o se realiza no mercado e n\u00e3o na pesquisa acad\u00eamica em si. \u00c9 \u00f3timo ter ci\u00eancia e pesquisa acad\u00eamica, mas a ci\u00eancia por si s\u00f3 n\u00e3o puxa o neg\u00f3cio; \u00e9 preciso ter o agente que faz o neg\u00f3cio, e o agente que faz neg\u00f3cios na nossa sociedade \u00e9 a empresa. Ent\u00e3o, sem um tecido empresarial forte, n\u00e3o vamos ir para a frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Sem um tecido empresarial forte, n\u00e3o vamos ir para a frente<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2014 Como o Brasil deveria se preparar para a Revolu\u00e7\u00e3o 4.0?<br \/>\nMario Sergio Salerno \u2014 Primeiro, o Brasil tem que dar um \u201cbanho\u201d de educa\u00e7\u00e3o; isso \u00e9 importante para qualquer revolu\u00e7\u00e3o. Estamos melhorando em educa\u00e7\u00e3o, mas estamos melhorando lentamente. Alguns estados est\u00e3o dando um show, como o Cear\u00e1, que melhorou sua educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Outros estados est\u00e3o relativamente estagnados, como S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul. N\u00e3o teremos bons engenheiros de computa\u00e7\u00e3o se eles forem semianalfabetos, se n\u00e3o souberem fazer as quatro opera\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o tiverem racioc\u00ednio abstrato, que \u00e9 desenvolvido desde o prim\u00e1rio. Isso \u00e9 algo que precisa ser cuidado.<\/p>\n<p>As universidades precisam focar, sim, porque o recurso \u00e9 escasso, mas eu n\u00e3o acho que toda universidade tem que ser uma universidade de pesquisa; isso mais atrapalha o Brasil do que ajuda. Poder\u00edamos ter excelentes universidades cujo princ\u00edpio seja formar pessoas, como existe na Fran\u00e7a, na It\u00e1lia, nos EUA, e faz pesquisa quem consegue. Hoje se n\u00e3o se faz pesquisa nas universidades brasileiras, cai o status da universidade. Isso \u00e9 ruim, porque o custo da forma\u00e7\u00e3o sobe muito, e \u00e9 poss\u00edvel reduzir o custo em forma\u00e7\u00e3o sem obrigar todos a fazerem pesquisa.<\/p>\n<p>Eu investiria em programas de inova\u00e7\u00e3o articulados a demandas, coisa que os EUA fazem excepcionalmente bem, e a Europa tamb\u00e9m aprendeu a fazer. Por exemplo, se tem uma demanda qualquer, como a produ\u00e7\u00e3o de uma vacina para Zika, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade poderia fazer um edital dizendo que comprar\u00e1 uma quantidade de vacinas durante dez anos, e isso possibilita o neg\u00f3cio, gera desenvolvimento. Quando o Brasil fez isso no programa de sat\u00e9lite, conseguiu alguma coisa, mas isso \u00e9 feito de forma descontinuada no pa\u00eds; e quando o programa \u00e9 descontinuado, as empresas quebram. Essas coisas precisam ser constantes, isso oxigena o tecido industrial e a inova\u00e7\u00e3o na empresa. \u00c9 isso que se v\u00ea nos pa\u00edses que v\u00e3o para frente com inova\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um dos motores b\u00e1sicos que incentivam o desenvolvimento da tecnologia 4.0 na Alemanha, nos EUA, na China, que t\u00eam foco estatal direcionado n\u00e3o para escolher \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d, mas para escolher tecnologias a serem desenvolvidas e necessidades do pa\u00eds que precisam ser supridas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por: Patricia Fachin e Ricardo Machado | 09 Outubro 2017<\/p>\n<\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista especial do Instituto Humanitas UNISINOS On-line com Mario Sergio Salerno &nbsp; Texto original dispon\u00edvel\u00a0aqui. &nbsp; \u201cO que caracteriza o que vem sendo chamado de Revolu\u00e7\u00e3o 4.0 \u2014 4.0 rigorosamente \u00e9 um nome quase que comercial ou uma manufatura avan\u00e7ada, como os americanos chamam \u2014 \u00e9 o aproveitamento e a reuni\u00e3o de uma s\u00e9rie de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1228,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-372","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1228"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=372"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":499,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/372\/revisions\/499"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/lgi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}