Prefeitura de São Paulo lança protocolo de terapia hormonal para mulheres no climatério e pós-menopausa

A Prefeitura de São Paulo lançou recentemente um novo protocolo de terapia hormonal voltado a mulheres na pós-menopausa e no climatério. A medida representa um avanço significativo no cuidado com a saúde feminina, sobretudo na atenção primária.

Para explicar os detalhes dessa iniciativa, a médica ginecologista Dra. Lídia Santos Mascarenhas destacou que o protocolo surge da necessidade de garantir atendimento mais abrangente às mulheres que estão envelhecendo. Dra. Lídia é especialista em PTGI (Patologia  do trato genital  fitoterapia e sexualidade humana. Atuou como assessora técnica da área da Saúde da População Negra na Secretaria Municipal da Saúde entre 2020 e 2023 e atualmente coordena a Área Técnica de Saúde da Mulher.

Segundo ela, a prefeitura de São Paulo precisa seguir as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), que preveem um atendimento integral, universal e equânime. No entanto, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), ainda prevalece uma visão de saúde da mulher restrita ao cuidado materno-infantil.

“Hoje, as mulheres estão tendo cada vez menos filhos e estão envelhecendo mais. Precisamos olhar para essas mulheres que estão numa nova fase — e que vão permanecer nela por muito tempo — com um olhar adequado, de saúde integral. Daí a necessidade de criar o protocolo”, afirmou.

Ela explicou que, apenas na cidade de São Paulo, existem mais de 4 milhões de mulheres entre 40 e 70 anos. Essa população, até então, não estava sendo devidamente contemplada nas políticas públicas. Por isso, o protocolo busca transformar essa realidade, reconhecendo as necessidades específicas desse grupo.

Quem pode ser atendido pelo protocolo?

De acordo com a Dra. Lídia, os principais beneficiados são mulheres que estão nessa fase da vida, mas a abrangência é maior: “A gente fala ‘mulher’, mas qualquer pessoa com útero que esteja com sintomas de climatério ou que já atingiu a pós-menopausa pode ser atendida. Não há nenhuma restrição para o público LGBTQIA+ dentro desse novo protocolo.”

Onde e como acessar os medicamentos?

A medicação já está disponível em todas as UBSs da cidade de São Paulo. Basta procurar a unidade mais próxima para iniciar o acompanhamento e receber o medicamento, se for indicado.

Dra. Lídia destacou que não é necessário marcar consulta com ginecologista para ter acesso ao tratamento. A proposta do protocolo é justamente ampliar o acesso. “Boa parte das UBSs funciona no formato Estratégia de Saúde da Família. O próprio médico generalista pode fazer esse atendimento e medicar essa pessoa, caso ela tenha desejo e esteja dentro das condições do protocolo.”

Embora o protocolo seja voltado para profissionais de saúde, ele está disponível publicamente na página da Saúde da Mulher da Prefeitura de São Paulo, podendo ser acessado por qualquer pessoa interessada.

Etapas do atendimento

Para receber o tratamento na rede de atenção primária, a pessoa deve agendar uma consulta na UBS para avaliação de suas condições clínicas gerais. Algumas mulheres podem ter contraindicações à terapia hormonal, mas, nesses casos, ainda assim podem se beneficiar de outras abordagens terapêuticas.

Se for necessário, o médico generalista poderá encaminhar a paciente para outros especialistas ou mesmo para ambulatórios especializados, como os da Faculdade de Medicina da USP.

Quais medicamentos estão disponíveis?

A professora Dra. Isabel Cristina Esposito Sorpreso, que também participou da discussão, explicou quais medicamentos estão atualmente disponíveis para o tratamento. Ela é Professora  Associada  e livre-docente pela Disciplina de Ginecologia do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e é responsável pelo projeto Menopausando.

Ela lembrou que o tratamento para o ailivio dos sintomas menopausais  contempla tanto medicamentos hormonais quanto não hormonais. Especificamente entre os hormonais, descritos  pelo protocolo , estão  incluídos:

  • Valerato de estradiol 1 mg (via oral) – um acréscimo aos medicamentos disponíveis. Agora passa a ser oferecido nas UBSs da cidade de São Paulo.

Outra importante inclusão no protocolo é o:

  • Dispositivo intrauterino (DIU) com levonorgestrel 52 mg, que tem três indicações clássicas: tratamento de sangramento uterino anormal durante a transição para a menopausa, anticoncepção na perimenopausa e terapia hormonal coadjuvante. Dra. Isabel destacou a relevância dessa aquisição no protocolo assistencial da saúde da mulher na capital.

Para o tratamento da síndrome geniturinária da menopausa, também está disponível:

  • Estriol creme vaginal 1 mg/grama utilizado para alivio dos  sintomas da sindrome genitourinária da menopausa  como ressecamento vaginal, redução da lubrificação, desconforto na relação sexual e outros desconfortos associados à atrofia urogenital, decorrente do hipoestrogenismo.

Segundo a professora, esses medicamentos estão descritos no protocolo da prefeitura de São Paulo  e, portanto,  nas UBSs de São Paulo. Além disso, a prefeitura prevê, em breve, a disponibilização de:

  • Progesterona micronizada 100 mg, um progestagênio que será utilizado como coadjuvante da terapia hormonal, oferecendo proteção endometrial para pacientes com útero que optarem pelo uso de estrogênio.

Dra. Isabel parabenizou a Prefeitura de São Paulo e a coordenação da Área Técnica da Saúde da Mulher pelo protocolo. “É um protocolo bastante amplo, e temos que parabenizar a Dra. Lídia, que teve esse olhar para ampliação do acesso aos tratamentos para as mulheres na transição para a menopausa e pós-menopausa.”

Um incentivo à busca por cuidado

Ao final, Dra. Lídia deixou uma mensagem importante para as mulheres: “Quero incentivar que não sofram em silêncio. Se tiverem necessidade de fazer acompanhamento, procurem atendimento médico. É público, gratuito, e elas podem desfrutar de uma menopausa e um pós-menopausa mais saudáveis e completos.”

A criação desse protocolo representa um marco importante para garantir cuidado digno, com base em evidências científicas e acesso ampliado. Iniciativas como essa apontam para uma atenção básica mais fortalecida e equânime, capaz de acolher e cuidar das mulheres em todas as fases da vida.

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