Metamorfose – Direito & Literatura

Entre Pregos, Fantasmas e Infâncias Perdidas: Kramp de Maria José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose

Entre Pregos, Fantasmas e Infâncias Perdidas: Kramp de Maria José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose

Entre Pregos, Fantasmas e Infâncias Perdidas: Kramp de Maria José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose

Entre Pregos, Fantasmas e Infâncias Perdidas: Kramp de Maria José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose

Grupo Metamorfose:

por Gilson Roberto Genaro Aza

Uma narrativa que percorre as estradas, os armazéns e as dores de um país, revelando que a vida – como os produtos Kramp – é feita de peças que se perdem, se substituem e às vezes deixam de existir. Enfim, Kramp de María José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose.

O primeiro encontro do Clube do Livro Metamorfose do 2º semestre de 2025 foi dedicado ao delicado e impactante Kramp, de Maria José Ferrada, romance que marcou a transição da autora da literatura infantil para a ficção adulta. Com capítulos curtos, quase fragmentos de memória, a obra acompanha M, uma menina que, aos sete anos, passa a viajar com o pai vendedor de ferragens, descobrindo o mundo através de listas, catálogos e observações precoces.

Ambientada durante a ditadura militar do Chile (1973-1990), a narrativa entrelaça a descoberta do mundo adulto com o peso do contexto histórico. O livro sugere, mais do que explica, a violência da época: personagens somem, memórias são silenciadas e a própria infância de M é atravessada por perdas.

No encontro, os participantes discutiram temas como a adultização da infância, o silêncio como metáfora política, o pragmatismo como forma de sobrevivência, a simbologia dos produtos Kramp e o luto pela infância perdida. Também analisaram a linguagem poética de Ferrada, que alterna humor, dor e contemplação, e comentaram como a cena final marca a entrada definitiva de M no mundo adulto.

Kramp de Maria José Ferrada no Clube do Livro Metamorfose

O encontro inaugural do Clube do Livro Metamorfose de 2025/2 teve como foco a leitura e análise de Kramp, romance de María José Ferrada. Originalmente publicado no Chile como novela e posteriormente lançado no Brasil pela Editora Moinhos, Kramp conquistou reconhecimento por sua narrativa poética, fragmentada e sensível, acompanhando a infância de M em meio ao contexto da ditadura militar chilena.

A reunião não se limitou à trama, mas buscou também investigar os recursos formais empregados pela autora, os símbolos presentes ao longo do texto e a maneira como a narrativa se conecta com a memória coletiva do Chile. Os participantes ressaltaram que a leitura combina acessibilidade e densidade, suscitando reflexões profundas sobre infância, perda, pragmatismo e política.

A Narrativa e a Protagonista M

Narrado em primeira pessoa, o livro apresenta a trajetória de M, que desde os sete anos acompanha o pai, D, em suas viagens como caixeiro-viajante (FERRADA, 2020, caps. I, V, VI). A personagem cria uma “epistemologia” própria, dividindo os acontecimentos em “prováveis” e “improváveis” (Ibid., cap. III) e utilizando o catálogo da Kramp como ferramenta para interpretar o mundo (Ibid., cap. VIII, IX) .

O grupo destacou a tensão entre a linguagem infantil e as reflexões maduras de M, percebendo que Ferrada constrói uma infância adiantada, marcada pela responsabilidade, pelo contato precoce com o trabalho e pela consciência política indireta. Essa mistura de ingenuidade e lucidez foi considerada uma das maiores riquezas do livro.

O Contexto da Ditadura Militar do Chile

Embora Kramp não se proponha a ser um romance histórico ou panfletário, a ditadura militar chilena (1973-1990) constitui o pano de fundo inevitável da narrativa. O golpe de estado de 11 de setembro de 1973 derrubou o governo de Salvador Allende e instaurou um regime autoritário sob Augusto Pinochet, responsável pela supressão de partidos políticos, perseguição de dissidentes e violações de direitos humanos, com mais de 3.000 mortos ou desaparecidos e dezenas de milhares de torturados ou exilados.

Na leitura, a ditadura aparece pelas ausências, pelo silêncio dos adultos e pelas histórias de desaparecimento. O personagem E, fotógrafo e amigo de D, é descrito como alguém que “caçava fantasmas” (Ibid., cap. XV), em clara alusão às vítimas da repressão. Sua própria morte e desaparecimento (Ibid., cap. XXVIII, XXX) simbolizam a brutalidade do período. A mãe de M, por sua vez, carrega um luto silencioso, ligado ao assassinato de seu primeiro amor, Jaime Andrés Suárez Moncada, cujo corpo foi encontrado anos depois com sinais de violência (Ibid., cap. XXXIV). Essa dor explica sua “metade ausente” (Ibid., cap. VII), um estado de tristeza permanente que marca a infância de M.

Os participantes do encontro observaram que o silêncio, os gestos contidos e as metáforas são a forma que Ferrada encontrou para falar de um país ferido sem transformar o livro em denúncia explícita.

Personagens e suas Relações

D (o pai)

D é ao mesmo tempo mestre e cúmplice de M. Ele lhe ensina que “toda vida tem sua alunissagem” (Ibid., cap. I) e que o mundo é um conjunto de partes conectadas como parafusos (Ibid., cap. IX). Ao longo do livro, D se revela pragmático, falsificando faturas e criando cadernetas falsas para sobreviver (Ibid., cap. XIV, XVI), o que foi interpretado como uma metáfora para a necessidade de “ajeitar a verdade” em contextos opressivos.

A Mãe

A mãe aparece como uma figura de presença intermitente, marcada pela melancolia e pela perda de metade da visão do olho esquerdo (Ibid., cap. VII). Na reunião, discutiu-se se essa “ausência” seria apenas um recurso estilístico para concentrar a narrativa na relação de M com o pai ou se é também um retrato da paralisia emocional causada pela violência política.

E (o fotógrafo)

E representa a ponte entre M e a dimensão mais sombria da ditadura. Sua câmera, “a mesma que registrou a Guerra do Vietnã” (Ibid., cap. XV), carrega o peso do testemunho histórico. Sua morte foi lida como um lembrete de que, naqueles anos, a memória era frequentemente silenciada à força.

S (o vendedor)

S é um personagem tragicômico, carregado de humor e desespero. Sua revelação de que os vendedores tinham um pacto de suicídio coletivo para o dia em que o último negócio fechasse (Ibid., cap. XXXVII) foi comentada como uma metáfora para a precariedade econômica e a perda de sentido de uma geração de trabalhadores.

Temas Recorrentes

  • Adultização da infância: M fuma, negocia, lida com dinheiro e com perdas de forma precoce (Ibid., cap. V, XII, XXI).

  • Memória e fratura: o fim da Kramp e a mentira do pai (Ibid., cap. XXXIX-XL) representam o colapso do mundo infantil e inauguram um “antes e depois” na vida de M.

  • Sobrevivência pragmática: estratégias como pegar comprovantes de pedágio de outros motoristas ou adulterar notas são apresentadas como modos de resistir às dificuldades (Ibid., cap. XIV).

  • Silêncio e luto: a mãe de M, E e mesmo D carregam dores não verbalizadas, e esse silêncio estrutura a narrativa.

  • Impermanência: o “mecanismo que não podíamos deter” (Ibid., cap. XLI) sintetiza a percepção de que tudo está sujeito a desaparecer – pessoas, empresas, relações.

 

Estilo e Linguagem

Ferrada usa capítulos curtos, quase fragmentos de memória, e uma linguagem poética que alterna humor, leveza e dor. As metáforas recorrentes – “alunissagem”, “Grande Carpinteiro”, “fantasmas”, “insetos da sorte” – criam uma tessitura simbólica que reforça o caráter contemplativo da narrativa. O grupo comentou que a leitura, apesar de breve, exige tempo de digestão, pois cada capítulo sugere muito mais do que explicita.

Conclusões do Clube do Livro

Os participantes consideraram Kramp uma obra tocante, que une delicadeza e profundidade ao tratar de temas duros como ditadura, luto e amadurecimento precoce. Foi consenso que a narrativa convida o leitor a preencher as lacunas e a refletir sobre sua própria relação com o passado. A cena final, marcada pela separação definitiva entre M e D, foi lida como o fim de um ciclo – um rito de passagem que sela a entrada de M no mundo adulto e encerra, simbolicamente, a infância.

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Nossos agradecimentos

Após o nosso encontro inaugural deste semestre dedicado ao livro dedicado a Kramp, agradecemos imensamente a todos que leram, refletiram e compartilharam suas perspectivas – sua adesão torna o Clube cada vez mais rico e colaborativo. Também agradecemos àqueles que participaram, mesmo que não tivessem concluído a leitura completa, e destacamos a continuidade do projeto Vozes, que registra comentários e impressões sobre nossos encontros, publicados tanto no portal do Metamorfose quanto no Instagram. Se quiser colaborar e aparecer em nosso perfil ou site, participe! Suas observações sempre serão bem-vindas, e sua voz, sempre ouvida!

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Nosso próximo encontro!

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No próximo encontro, vamos discutir o livro Quem Matou Meu Pai, de Édouard Louis. O encontro acontecerá no dia 25/9, às 18h30, nas salas da Biblioteca da FDRP e é aberto ao público, ou seja, qualquer pessoa, dentro ou fora da USP, poderá participar. Se não der tempo de ler o livro – completo ou parcialmente – não se preocupe, todos serão bem-vindos (mas sujeitos a spoiler 😄).

Para quem deseja certificado de horas ou comprovação de presença, inscreva-se pelo Sympla: e adicione o evento à sua agenda.

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Fiquem atentos: mais informações serão divulgadas em breve no portal do Metamorfose e no Instagram. Contamos com a participação de todos para mais uma conversa intensa, reflexiva e inspiradora!

Fontes para a escrita desta matéria:

  1. FERRADA, Maria José. KRAMP. Traduzido por Silvia Massimini Belo Horizonte, MG : Moinhos, 2020. 88 p.
  2. Ditadura militar chilena. In: Wikipedia, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Fundation, 2025c. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ditadura_militar_chilena. Acesso em: 30 ago. 2025.

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