Nathalia Gomes da Costa
Tags : Vale do Paraíba; Paisagem; Bananal; Vila do Barreiro; Areias; Queluz; Silveiras; Lorena; Viandante observador; digressões de viagem; Augusto Emílio Zaluar; Theresa da Baviera .
Entre os anos de 1860 e 1861, em sua viagem que teve início em Barra Mansa (RJ) e término em Santos (SP), Augusto Emílio Zaluar (1826-1882) dá especial destaque ao trecho do Vale do Paraíba, um dos principais centros econômicos do Brasil imperial, marcado pelas fazendas escravistas dedicadas à produção de café para exportação. O viajante descreveu com minúcia a riqueza das fazendas locais, as características dos municípios e as interações com as pessoas descobertas ao longo da trajetória (Duarte, 2010).
No trecho que abrange de Bananal a Lorena, Zaluar reflete sobre diversos contrastes, como: campo versus cidade; a presença da natureza em oposição à da arquitetura; as desigualdades sociais em relação às transformações urbanas; a convivência entre a cidade antiga e a cidade moderna; além da conservação das estradas e das edificações. Ele também abordou temas como economia, história, educação, costumes e a influência dessas questões na dinâmica social (Cocchi; Costa, 2024). Em suas observações, o viajante registra detalhes urbanos relacionados à transformação da paisagem, evidenciando a marcação temporal nas construções arquitetônicas. Paralelamente, Zaluar analisa elementos imateriais, direcionando-se a estudos demográficos, econômicos e culturais das populações que habitavam os locais visitados ( Idem ).
A visão minuciosa de Augusto Zaluar permeia todo o texto, destacando-se, em especial, duas expressões que sintetizam sua abordagem narrativa: “ viandante observador ” e “ digressões de viagem ” . Essas expressões exemplificam de forma precisa a essência das reflexões e especificidades pelo autor em sua obra.
A cidade do Bananal não oferece, para quem vem deste ponto, quadro algum aprazível […]; no entanto, o aspecto geral da cidade é risonho, e alguns edifícios importantes saltam à vista do viandante observador, que merece ser examinado com mais detida atenção (Zaluar, 1861, p. 43).
No trecho citado, as palavras “viandante observador” possuem um significado que destaca o papel ativo e atento do viajante. “Viandante” se refere a alguém que viaja, particularmente a pé, e, no contexto do texto, confere um tom formal ou poético ao conceito de “viajante” . Já “observador” caracteriza alguém que olhe com atenção e interesse, destacando-se por perceber detalhes ao seu redor. Portanto, a expressão “viandante observador” descreve um viajante que, ao invés de simplesmente transitar pelo ambiente, dedica-se a uma observação detalhada, notando aspectos relevantes, como os edifícios que se destacam na cidade de Bananal. Este viajante é sensível ao que o rodeia, atento aos detalhes e reflexivo sobre o que encontra no seu caminho.
A Figura 1, selecionada para representar o conceito de “viandante observador”, retrata uma fotografia de Theresa da Baviera durante sua expedição ao Brasil em 1888. A imagem mostra Theresa ao centro, acompanhada por seus auxiliares e equipamentos modernos, essenciais para que a viajante pudesse registrar e estudar os mínimos detalhes de sua viagem científica pelo Brasil.

Significado das palavras:
Viandante: Aquele que viaja, especialmente a pé; caminhão. Deriva de “viandar”, que significa peregrinar ou viajar ( Priberam , 2008-2024).
Observador: Aquele que observa, alguém atento aos detalhes, seja de maneira casual ou científica. Também pode se referir a uma pessoa que assiste ou participa de uma especificidade, ou que cumpre rigorosamente a sua função de observar ( Priberam , 2008-2024).
Termo em outros viajantes:
A expressão “viandante observador” também é utilizada em outros textos de viajantes, como no exemplo: “Há duas curiosidades naturais em Itu , que não devem escapar ao observador viandante. São o seu grande salto no rio Tietê e a pedreira.” ( Revista Popular – Jornal Ilustrado , 1862, p. 214), estabelecendo o uso de tal figura de linguagem para descrever o viajante atento e curioso diante dos detalhes do ambiente que percorre.
Embora não tenha sido possível identificar a autoria do texto “Cidade de Itu” , do qual o trecho foi extraído, pode-se inferir, com base nos dados e no conteúdo do relato, que o autor provavelmente foi Daniel Kidder, que realizou sua viagem por território paulista em 1839, passando por Itu, onde fez observações feitas sobre a hidrografia do Rio Tietê no seu livro Reminiscências de viagens e permanências no Brasil (Brasiliana, 2024).
Esta expressão, portanto, encapsula a ideia de um viajante que não apenas percorre um local, mas que observa profundamente o seu entorno, percebendo nuances e características que escapam ao olhar comum : “ Creio ter dito bastante para se fazer uma ideia exata do que é Bananal, primeira povoação da província de S. Paulo, onde me levaram as minhas digressões de viagem ” (Zaluar, 1861, p. 43).
Contexto e significado na leitura:
No trecho citado, as palavras “digressões de viagem” assumem um significado que reflete os desvios ou afastamentos do percurso original do viajante. “Digressões” se re f erem a desvios ou variações, seja no percurso físico ou nas ideias e reflexões que surgem ao longo da jornada.
No contexto da viagem de Zaluar, essas “digressões” indicam mudanças no itinerário ou explorações que variam fora do trajeto planejado. Essas variações são tanto espaciais, envolvendo locais não previstos inicialmente, quanto narrativas, com reflexões e questões específicas que surgem durante a viagem. Assim, Zaluar sugere que sua chegada a Bananal foi um desses desvios ou explorações adicionais de sua jornada.
Significado das palavras :
Digressão: O termo digressão pode ser compreendido de várias maneiras. No seu sentido mais comum, refere-se ao desvio de um barco ou de um assunto, diminuindo um afastamento do foco principal. Também pode significar o ato de passear ou fazer um passeio, além de ser utilizado para descrever uma viagem com paradas pré-definidas para um fim específico, como uma viagem de negócios ou artística. Em um sentido figurado, a digressão pode ser entendida como uma evasiva ou subterfúgio, e, na astronomia, como o desvio aparente de um planeta em relação ao Sol ( Priberam , 2008-2024).
Viagem: Já a viagem diz respeito ao ato de transportar-se de um ponto a outro distante, abrangendo também a navegação ou travessia no contexto marítimo. Em outro contexto, a viagem pode ser o percurso eficaz realizado ou até mesmo a relação escrita dos acontecimentos e dos resultados causados pela jornada ( Priberam , 2008-2024).

A Figura 2 representa o trabalho dos tropeiros no século XIX, destacando seu papel fundamental nas viagens e no transporte de mercadorias. Essa imagem estabelece uma relação direta com o conceito de “digressão de viagem”, evocando os percursos e os desafios enfrentados pelos tropeiros durante suas jornadas.
Termo utilizado por outros viajantes :
Um exemplo do uso do termo “digressão” por outros viajantes é encontrado no seguinte trecho: “Finaliza aqui a nossa digressão pelos municípios do Sul. Vamos, portanto, regressar à capital, e d’ahi seguiremos para Santos, último marco da nossa peregrinação pelo território de S. Paulo.” ( Revista Popular – Jornal Ilustrado , 1862, p. 216). Tal uso reforça a ideia de uma exploração fora do trajeto principal, acompanhada de observações e reflexões sobre o caminho percorrido.
Referências :
BNDigital. Periódicos e Literatura, Augusto Emílio Zaluar. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/periodicos-literatura/personagens-periodicos-literatura/a-e-zaluar/. Acesso em: 2 out. 2024.
BRASIL. Revista Popular do Rio de Janeiro . Edição 16, ano 1862. Cidade de Itu . p. 210-216. Disponível em: https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=181773&pagfis =6142. Acesso em: 5 dez. 2024.
COCCHI, Kevin; COSTA, Nathalia. Augusto Emílio Zaluar . Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024. Seminário “ Imagens e relatos: viajantes e a construção de narrativas ”.
DUARTE, Denise Aparecida Sousa. Augusto Emílio Zaluar: aspectos da trajetória e produção de um intelectual português no Brasil do século XIX. Revista Brasileira de História , São Paulo, v. 30, n. 59, p. 101-130, 2010.
PRIBERAM. Digressões . In : Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. 2008-2024. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/digress %C3 %B5es. Acesso em: 5 dez. 2024.
PRIBERAM. Observador . In : Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. 2008-2024. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/observador. Acesso em: 5 dez. 2024.
PRIBERAM. Viagem . In : Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. 2008-2024. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/viagem. Acesso em: 5 dez. 2024.
PRIBERAM. Viandante . In : Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]. 2008-2024. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/viandante. Acesso em: 5 dez. 2024.
VIAJANTES – Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://viajantes.bbm.usp.br/?q =&filters =nome_cluster %3AKIDDER %2C +Daniel. Acesso em: 5 dez. 2024.
ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S.Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976. (Biblioteca Histórica Paulista, 2)


