A visão do viajante

Luísa Mendes Paulo

Tags : Parati; Angra dos Reis ; protestantismo; Daniel Kidder.

A descrição de Paraty, pelo viajante Daniel Parish Kidder (1815-1891), reflete a visão estrangeira e missionária sobre o Brasil no século XIX. Kidder, um missionário protestante vindo dos Estados Unidos, enxergava o Brasil como um “paraíso a ser desenvolvido”, tanto em termos materiais quanto espirituais. Para ele, o país era um território promissor para o avanço da fé protestante e dos valores ocidentais, que considerava essenciais para o progresso da nação.

Ana Maria Belluzzo ressalta, em suas obras sobre os viajantes, que o olhar dos estrangeiros sobre o Brasil não apenas expressa uma visão externa, mas também molda a maneira como os brasileiros passaram a se perceber por meio dessas impressões. Assim, ao analisar relatos de viajantes, é essencial compreender o contexto de onde esses discursos emergem e quais são seus objetivos. A escrita desses estrangeiros nunca foi neutra ou despretensiosa; pelo contrário, ela carrega intenções específicas e uma perspectiva frequentemente parcial. Esses relatos são moldados pelas visões de mundo, preconceitos e interesses de seus autores, e é indispensável compreender essas intenções para realizar uma leitura crítica de suas narrativas.

A viagem de Daniel Kidder ao Brasil, realizada entre 1837 e 1840, exemplifica bem esse fenômeno. Sua experiência no país contribuiu para a construção de um discurso identitário que influenciou a postura dos protestantes no Brasil nas décadas seguintes. Kidder, com uma perspectiva de desenvolvimento marcada por valores protestantes, demonstrava incômodo com o que considerava o atraso local, refletido em suas críticas à estrutura social, cultural e religiosa do país. Para ele, a Igreja Católica e, especialmente, as ordens conventuais, não se alinhavam com as ideias modernas e progressistas que julgava essenciais para o avanço de uma nação. Esse ponto de vista é claro em sua passagem por Angra dos Reis, onde Kidder faz uma crítica direta à instituição católica: “a instituição conventual não se harmonizava com as ideias da nossa era esclarecida, nem se podia harmonizar com o governo e as circunstâncias do país” (2001, p. 174).

Essa afirmação revela sua crença de que o progresso e o desenvolvimento estavam intrinsecamente ligados a uma moralidade protestante, que ele via como uma alternativa “mais iluminada” e “racional” em relação ao sistema de crenças predominante no Brasil. Esse olhar externo, carregado de valores e expectativas específicos, contribuiu para estabelecer uma visão crítica e reformista entre os protestantes que posteriormente se fixaram no país, moldando a relação entre religião e progresso no contexto brasileiro.

Cidade d’Angra dos Reis, tomada do morro de São Bento. Ludwig & Briggs, 1845-1846.
Cidade d’Angra dos Reis, tomada do morro da Bica da Olaria. Ludwig & Briggs, 1845-1846.

Referências :

KIDDER, Daniel Parrish. Reminiscências de viagens e permanência no Brasil : Rio de Janeiro e província de São Paulo, compreendendo notícias históricas e geográficas do Império e das diversas províncias. Tradução Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001. p. 15-17, 19-20, 171-194. (Coleção O Brasil visto por estrangeiros. Série viajantes).

DE ALMEIDA, Vasni; SOUSA GOMES, José Neto. Daniel Parish Kidder: sociedade, identidade e cultura nas narrativas de um protestante viajante no século XIX. Plura: Journal for the Study of Religion/Revista de Estudos de Religião , v. 7, n. 2, 2016.

BELLUZZO, Ana Maria. A propósito do Brasil dos viajantes. Revista da USP, São Paulo, n. 30, p. 9-20, 1996. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25903 . Acesso em : 24 nov. 2024.

 

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