Fernanda Grigolin Moraes
Tags: mulheres viajantes; travessia; costumes; escravidão; Rio de Janeiro; Adèle Toussaint-Samson; Ida Pfeiffer.
Eis o momento em que vamos nos encontrar reunidos pela primeira vez com quem viajamos, pois, na véspera, a gente mal se viu. Todos se olham disfarçadamente e estudam-se com cuidado.
Saibam, em primeiro lugar, que a senhora sentada à direita do capitão é aquela que ele considera a mais importante de suas passageiras, seja quanto à beleza, seja quanto à fortuna ou posição social. A senhora sentada à sua esquerda deverá naturalmente suceder à outra, no direito às atenções e aos pequenos cuidados. Após isso, as demais passageiras sentam-se como quiserem. No entanto, as mais distintas geralmente ocupam o centro da mesa, enquanto as demais, a ponta.
Adèle Toussaint-Samson, 2003 [ 1883], p. 272.
Cada viajante faz o trajeto à sua maneira. A autora, Adèle Toussaint-Samson, descreve os tipos de passageiros que encontrou no navio, traçando perfis psicológicos e sociais. Ela observa as interações entre eles, os costumes e as regras de etiqueta que ditam a vida a bordo, como a importância da discrição para as mulheres que viajam sozinhas. A autora detalha a rotina a bordo, as refeições, as conversas, os jogos e as poucas distrações que quebram a monotonia da longa travessia.
A epígrafe foi retirada da tradução do excerto que inclui o prefácio e parte do primeiro capítulo, intitulado “A vida a bordo”, do livro Une Parisienne au Br ésil ( Uma pariense no Brasil) , de Adéle Toussaint-Samson. A tradução, publicada na Revista Nota do Tradutor , 20 23 , é de Vera Lúcia de Azevedo Siqueira.
O texto revela características da autora como viajante:
-
Observadora atenta: Toussaint-Samson demonstra ser uma observadora atenta aos detalhes, descrevendo com precisão o ambiente a bordo, os costumes dos passageiros e as paisagens que avista durante a viagem;
-
Senso crítico: a autora analisa criticamente o comportamento dos viajantes, especialmente dos franceses, que considera pouco convenientes em sua maioria;
-
Independência e reserva: ela se descreve como uma viajante séria e independente, que prefere o estudo e a contemplação à frivolidade e à busca por atenção.
Adèle Toussaint-Samson (1826-1911) foi uma escritora e poeta francesa conhecida por seu livro Uma parisiense no Brasil , publicado originalmente em 1883. Nascida em Paris, Adèle iniciou sua carreira literária em 1843, publicando poemas. Por volta de 1849-1850, mudou-se para o Brasil com seu marido, onde viveu por volta de 12 anos . O livro reúne suas memórias e impressões sobre o Brasil, oferecendo um olhar crítico e perspicaz sobre a sociedade, os costumes e a paisagem brasileira da época. Durante o período em que v iveu na cidade do Rio de Janeiro exerceu múltiplas funções:
-
Ensinou línguas: Adèle ministrou cursos de francês e italiano;
-
Colaborou com o Jornal das Senhoras ; 1
-
Publicou artigos em outros periódicos: é de 1856 uma pequena crônica intitulada “ De la F emme I ncomprise ” (Da mulher incompr eendida) no jornal Courrier du Brésil ;
-
Participou da vida social da corte: foi recebida em eventos da família imperial;
-
Adaptou a comédia Les Plaideurs (Os litigantes) , de Racine, para ser encenada pelas princesas;
-
Escreveu e publicou poemas: em 1855, foi mencionada no Jornal do Commercio , Rio de Janeiro, a convocação para o exame de habilitação para o ensino de língua francesa de “Marie Adèle Toussaint”, seu nome de solteira.
Ela está entre as pioneiras na literatura de viagens: foi uma das mulheres a publicar relatos de viagem no século XIX. Diferentemente de Ida Pfeiffer (1797-1858), viajante austríaca que publicou sobre suas voltas ao mundo cinco capítulos sobre o Brasil, Adèle Toussaint-Samson viveu no Brasil e falava português, relacionou-se com os costumes do Brasil imperial e ofereceu uma perspectiva diferente da maioria dos viajantes. Seus relatos detalhados sobre a vida cotidiana, os costumes e as contradições da sociedade brasileira do século XIX são uma fonte valiosa para historiadores e pesquisadores.
Os temas centrais em Uma parisiense no Brasil , segundo June Edith Hahner (2001), são a escravidão e as relações de gênero. D estaca que o relato de Toussaint-Samson oferece uma percepção sobre a escravidão no Brasil dos anos 1850, especialmente no que diz respeito à vida cotidiana dos escravizados. A autora descreve as condições de vida dos escravizados, suas relações com seus senhores e as diferentes formas de resistência que eles empregavam. A própria Hahner reconhece a importância do relato de Toussaint-Samson para a compreensão da escravidão, observando que poucas viajantes da época se dedicaram a descrever a vida das pessoas escravizadas nas plantações da maneira como ela o fez ; também enfatiza a crítica incisiva de Toussaint-Samson às relações de gênero no Brasil da época. A autora francesa critica a posição submissa das mulheres brasileiras e o comportamento dos homens, tanto brasileiros quanto estrangeiros, em relação às mulheres. Hahner destaca a importância de Toussaint-Samson ter detalhado suas próprias condutas com relação às mulheres brasileiras de diferentes classes sociais, desde as brancas da elite até as mulheres negras. ( Apud Leite, 2004)
Adèle Toussaint-Samson utilizou fotografias para ilustrar Uma parisiense no Brasil . Ela considerava as imagens um complemento importante para seus relatos escritos, que buscavam retratar a sociedade brasileira com a “mais escrupulosa veracidade”. As fotografias incluíam imagens de igrejas, praças e pessoas locais. O primeiro tradutor da obra de Adèle Toussaint-Samson para o português foi A. E. C. C. [A. Estev ão da Costa e Cunha] (Leite, 2004, p. 251) que destacou objeções em relação a :
-
Erros geográficos e de redação: A. E. C. C. critica os equívocos de geografia e redação presentes na obra, compartilhando o sentimento de outros brasileiros que se sentiram ofendidos pelas observações superficiais de estrangeiros sobre o Brasil;
-
Arrogância e falta de relevância: A. E. C. C. acusa Adèle Toussaint-Samson de arrogância, julgando que os esforços da autora para publicar seu livro na França e o interesse da população brasileira residente em Paris na obra não possuem relevância ou atualidade para estudiosos das relações de gênero.
Vale ressaltar que as fontes não especificam a identidade completa de A. E. C. C., mencionando apenas que ele era autor de livros didáticos para o ensino primário. É importante observar que a crítica de A. E. C. C. reflete uma tendência comum na época, em que intelectuais brasileiros se posicionavam contra a visão eurocêntrica e, muitas vezes, preconceituosa de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. As críticas foram muito mais contundentes com as mulheres. Por exemplo, Ida Pfiffer também recebeu críticas de Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1858). (1952, p. 219-225)
Adèle Toussaint-Samson faleceu em 1911, aos 92 anos, em um acidente . Tais informações foram extraídas do jornal Le Figaro e citadas na tese de Camila de Souza Lopes (2023, p. 150). Dessa maneira foram o bras publicadas de Adèle Toussaint-Samson:
-
Épaves, sourires et larmes (poemas, 1870);
-
Les chemins de la vie (estudo de costumes, 1880);
-
Une parisienne au Brési l (relatos de viagem, 1883).
Traduções:
-
Uma parisiense no Brasil (tradução de Maria Lucia Machado, 2003);
-
A Parisian in Brazil (tradução de Emma Toussaint e introdução June E. Hahner, 2001).
1 O Jornal das Senhoras foi um dos primeiros periódicos brasileiros dedicados ao público feminino. Foi fundado por Joana Paula Manso de Noronha (1819-1875), uma importante escritora, jornalista e ativista pelos direitos das mulheres no Brasil e na Argentina. O jornal se propunha a discutir temas relevantes para as mulheres, como educação, literatura, moda, trabalhos manuais e questões sociais. Uma versão similar também foi publicada na argentina como o nome Álbum de señoritas.

Negra vendedora de frutas na cidade do Rio de Janeiro [No livro de Adèle Toussaint-Samson: Negra do mercado], cerca de 1870
Disponível em: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Alberto_Henschel_-_Negra_vendedora.jpg.

Arcos, Santa Thereza e Glória [No livro de Adèle Toussaint-Samson: Aqueduto da Carioca], cerca de 1867
Instituto Moreira Salles
Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/4433.
Referências:
LEITE, Miriam Lifchitz Moreira. Adèle Toussaint-Samson em dose dupla [resenha de: “Uma parisiense no Brasil. O relato da viagem de uma francesa no século XIX. Rio de Janeiro” e “Uma parisiense no Brasil” de Adèle Toussaint-Samson]. Estudos Feministas , Florianópolis, v. 12, n. 2, p. 251-253, maio-ago. 2004. https://doi.org/10.1590/S0104-026X2004000200020 . Acesso em: 4 dez. 2024.
LOPES, Camila de Souza. Pela pena de Toussaint . A escravidão na cidade do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX pelos relatos de Adèle Toussaint-Samson. 2023. Dissertação (Mestrado em História)- Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2023. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/4bc4b991-8d5d-4012-a83b-7142281a9fc1/content .
TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. Trecho da viagem de Ida Pfeiffer de Santos e São Paulo. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo , v. 50. São Paulo, 1952. p. 219-228. Disponível em: http://ihgsp.org.br/revista-ihgsp-vol-50/. Acesso em: 29 nov. 2024.
TOUSSAINT-SAMSON, Adèle. Uma parisiense no Brasil|Une parisienne au Brésil. Trad. Vera Lúcia de Azevedo Siqueira. ( n.t. ), n. 26, v. 1, jun. 2023, p. 249-275. Disponível em: https://ia601405.us.archive.org/30/items/n.t.-revista-nota-do-tradutor-26/(n.t.)%20Revista%20Nota%20do%20Tradutor%2026.pdf . Acesso em: 3 dez. 2024.


