Iwan Oliveira Silva
Tags: tropeirismo; cana-de-açúcar; café; escravidão; trabalho; pitoresco; lavoura; construções urbanas; Campinas; Auguste de Saint-Hilaire; Débora Bendocchi Diniz; Maria Luiza Marcílio Sampaio.
A cidade de Campinas, localizada no interior paulista, surgiu oficialmente como freguesia em 1774, sendo elevada à categoria de vila em 1797. Sua fundação esteve relacionada às rotas de tropeirismo que ligavam o planalto paulista ao interior do Brasil. No início do século XIX, Campinas consolidou-se como um polo regional de produção agrícola, primeiramente de cana-de-açúcar e, a partir da década de 1830, como importante centro cafeeiro. A expansão econômica da vila foi acompanhada por uma forte dependência da mão de obra escravizada, que passou a compor a maioria da população local.
Em 1819, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) passou por Campinas e descreveu a vila como um espaço já relativamente desenvolvido, com ruas largas e arborizadas. Apesar de seus comentários sobre a natureza e o “bom gosto” de algumas casas, ele também registrou, ainda que de modo passageiro, a presença constante de pessoas negras escravizadas em diversas tarefas urbanas: “ […] Logo ao entrar na vila, vi escravos carregando água em grandes talhas sobre os ombros, outros cuidando do transporte de mercadorias nos lombos, sempre sob o olhar atento de seus senhores ou feitores.” (1976, p. 183)
Relatos como o de Saint-Hilaire revelam aspectos importantes da vida social da vila, mas também refletem o olhar europeu marcado pelo exotismo e pela estetização da escravidão. Muitos viajantes do período, ao descreverem o cotidiano brasileiro, o faziam a partir de noções de “pitoresco”, que suavizavam ou romantizavam realidades violentas.
Estudos historiográficos mais recentes, como os de Débora Bendocchi Diniz e Maria Luiza Marcílio Sampaio, revelam a centralidade da escravidão em Campinas, não só como força de trabalho nas lavouras e na construção urbana, mas também como componente fundamental da organização social e das hierarquias locais. Diniz mostra como as famílias escravistas de Campinas controlavam vastas propriedades e redes de parentesco que consolidavam o poder político da elite. Já Sampaio analisa a estrutura urbana da vila, revelando como o espaço da cidade era moldado para reforçar as distinções sociais entre senhores e escravizados — por exemplo, na localização dos sobrados, senzalas e espaços públicos.
Campinas, portanto, foi uma cidade profundamente marcada pela escravidão: do ponto de vista econômico, político e simbólico. Os relatos de viajantes como Saint-Hilaire, quando lidos criticamente e cruzados com a historiografia atual, nos permitem compreender como a escravidão estruturava não só a produção agrícola, mas toda a vida cotidiana da vila no século XIX.
Imagens :

Sem título [Construção da matriz de Campinas], 07/08/1845
grafite sobre papel, 24,4 x 37,1 cm
Instituto Moreira Salles – Coleção Cyrillo Hercules Florence
Disponível em: https://acervos.ims.com.br/portals/#/detailpage/4294990724

Fazenda de Antonio Manuel Teixeira – Venda Grande, Campinas, 1845
aquarela sobre papel, 16 x 29 cm
Museu Republicano Convenção de Itu – Museu Paulista da USP
Disponível em: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/34/Fazenda_de_Antonio_Manuel_Teixeira_-_Venda_Grande%2C_Campinas%2C_Museu_Republicano_Conven%C3%A7%C3%A3o_de_Itu_%28MR370%29.jpg.
Referências utilizadas:
DINIZ, Débora Bendocchi. A cidade escravocrata: Campinas, 1800–1850. Campinas: Ed. da Unicamp, 2003.
SAMPAIO, Maria Luiza Marcílio. A cidade de Campinas no século XIX: estrutura urbana e vida cotidiana. São Paulo: Hucitec, 1986.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à província de São Paulo e resumo das viagens ao Brasil . Belo Horizonte: Itatiaia: São Paulo: Edusp, 1976.


