Julia Doine Silva
Tags : Chácara das Mangueiras; hospedagem; viajantes; British Legation; Rio de Janeiro; William Gore Ouseley; Adalberto da Prússia.
No início do século XVII, as terras que formariam a Chácara das Mangueiras pertenciam ao sesmeiro João Lopes, mas, após seu abandono em 1603, foram consideradas sem dono e leiloadas em três partes. Uma dessas parcelas deu origem à chácara, que se estendia da praia até o alto do morro do Desterro, atualmente Santa Teresa. O local era privilegiado, oferecendo uma vista ampla do mar e das regiões ao redor.
A Chácara possuía uma localização estratégica, com a parte da frente voltada para o mar e a de trás alcançando o alto do morro do Desterro. A área na frente da propriedade, com uma grande inclinação até o mar, correspondia a boa parte do lado direito da r ua da Lapa, indo do largo até a r ua Joaquim Silva. Nessa época, o local era uma praia que se entendia até uma ponta rochosa, que junto à Ponta do Cafofo (mais tarde se tornaria o Calabouço), marcava os limites do saco ou boqueirão da Carioca, onde ficava a lagoa do Boqueirão, uma área insalubre aterrada durante o governo do vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza, o conde de Figueiró, entre 1779 e 1790.
Com o tempo, a propriedade passou por diversas transações. Por muitos anos foi propriedade do capitão Antônio Rabelo Pereira, que ao longo tempo , fez importantes doações de terras para a construção de instituições religiosas. Entre essas iniciativas, destaca-se a construção de uma capela e de um seminário dedicados à Nossa Senhora da Lapa do Desterro, que mais tarde se tornaram o convento das Carmelitas.
Em 1750, o capitão decidiu vender sua propriedade ao conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, que, além de governador, teve papel importante na criação de novos espaços na cidade. Durante a sua administração, o governo municipal tomou providências para a abertura de várias ruas na área da chácara, como as ruas da Lapa, Santa Teresa (hoje conhecida como r ua Joaquim Silva) e Mangueira (atualmente Visconde de Maranguape). O restante das terras, foram doadas às religiosas de Santa Teresa.
Além disso, a chácara foi hospedagem de várias personalidades que passaram pelo Rio de Janeiro no século XIX . Conforme o artigo, O viajante e a paisagem brasileira , de Ana Maria de Moraes Belluzzo, a chácara “era um casarão construído por um arquiteto italiano no subúrbio carioca e havia sido ocupada temporariamente pela British Legation” (2009, p. 48 ). Além disso, foi um ponto de passagem e residência de viajantes que visitaram o Brasil no século XIX. Um deles foi o inglês William Gore Ouseley (1797-1866), que residiu na chácara entre 1835 e 1842. Ouseley produziu uma gravura da propriedade intitulada Mangueiras: suburbs of Rio de Janeiro (for sumir years occupied by the British Legation) , que faz parte de seu álbum Views in South America: from original drawings made in Brazil, the River Plate, the Parana .
Após a saída de Ouseley, o príncipe Adalberto da Prússia [Adalbert Heinrich Wilhelm] (1811-1873) ficou hospedado na Chácara, em 1842, quando passou alguns meses no Rio de Janeiro. Em seu diário de viagem Brasil: Amazonas-Xingu , ele menciona a beleza do local: “(…) erguia-se uma bonita e elegante casa de campo que tinha sido alugada para mim. É impossível imaginar-se uma situação mais encantadora, do que a da Chácara das Mangueiras ou a Mangueira, (…)” ( Adalberto , 1977)
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Disponível em: https://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon393049/icon393049_19.jpg.
Referências:
ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas-Xingu. Editora Itatiaia, 1977.
BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. O viajante e a paisagem brasileira. PORTO ARTE: Revista de Artes Visuais 15 (25), 2009. DOI: 10.22456/2179-8001.10514. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/PortoArte/article/view/10514 . Acesso em: 22 nov. 2024.
OLIVEIRA, Paulo Olinto de. Folhinha nacional brasileira . Anuário do Museu Imperial. Petrópolis, 1945. Disponível em: http://www.rio.rj.gov.br/dlstatic/10112/4204430/4101442/sao_sebast_rj_terras_fatos.pdf . Acesso em: 23 nov. 2024.
GONÇALVES, Aureliano Restier. Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro: terras e fatos. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal das Culturas, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2004.
Mangueiras : suburbs of Rio de Janeiro (for some years occupied by the British Legation) . Acesso em: 23 nov. 2024.
https://www.multirio.rj.gov.br/index.php/reportagens/659-santa-teresa-o-bairro-das-1001-historias . Acesso em: 23 nov. 2024.
https://machadodeassis.net/referencia/rua-das-mangueiras/10555 . Acesso em: 23 nov. 2024.


