Mulheres

As mineiras do século XIX

Julia Francisca Oliveira Correia

Spix e Martius viajaram pelo Brasil de 1817 a 1820 passando por diversos estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. Elencando uma vasta quantidade de estudos científicos sobre o Brasil, suas observações perpassam a antropologia, mineralogia, paleontologia, história, botânica, etnografia, entre outras produções. Para registrar seu tempo no Brasil, os naturalistas publicaram um relato da viagem, intitulado Viagem pelo Brasil, em 1823. O verbete em questão tem como objetivo analisar o período de estadia de Spix e Martius em Minas Gerais e principalmente, sua impressão sobre as mulheres mineiras.

As mulheres viajam em liteiras carregadas por bestas ou
negros, ou se sentam numa cadeirinha segura às costas de
mulas, vestidas com larga amazona azul e chapéu redondo.
No mais, excetuando a cabeça, que é protegida apenas por
guarda-sol, elas vestem-se à moda francesa, tendo a
bainha de baixo da saia branca não raro guarnecida com
flores, bordados ou estampados, ou mesmo com galantes
versos.”(MARTIUS, 1823, p.255)

 

Os naturalistas não pouparam elogios ao tempo que ficaram hospedados em Minas Gerais, principalmente quanto a hospitalidade dos habitantes dessa região “esse costume hospitaleiro e igual bondade encontram-se em grande parte de Minas” (p.246), entretanto, o que mais parece surpreender os autores são as vestimentas dessa população, Martius nota uma certa predileção dos mineiros pelos produtos e vestiários europeus, ele compara os trajes e o comportamento do mineiro com os de um inglês.

A vista disso, seu único parágrafo dedicado às mulheres mineiras do século XIX é uma descrição de suas vestes. Os autores não gastam muita tinta mas, pela descrição, fica claro que escolheram descrever mulheres da elite mineira, visto que, eram “carregadas por bestas ou negros” e se vestiam a “moda francesa”, para além disso, não se encontra registros nos relatos sobre a presença da mulher negra e nem indigena no território. Contrariamente, os autores dedicam um espaço considerável no seu relato para descrever não só as vestes dos homens mineiros como também, características físicas e sociais desses indivíduos, tanto os do centro quanto os do interior de Minas.

Observa-se, portanto, que o carinho de Spix e Martius pela população mineira não se reserva apenas ao acolhimento recebido, o centro mineiro foi o mais perto da Europa que os naturalistas encontraram no Brasil do século XIX, essa pequena representação do que eles consideram como “civilização”, colaborou para enxergar o território positivamente. Nesse sentido, observa-se que a representação das mulheres mineiras em “Viagem pelo Brasil”, não escapa das lentes sociais que Spix e Martius propõem, as mulheres são personagens secundárias do seu relato mas ainda assim, é possível enxergar sua agência na construção do Brasil que conhecemos.

As imagens acima não são de Minas Gerais, entretanto, por ser de um período semelhante, foram escolhidas como forma de ilustração das liteiras, o meio de transporte utilizado pelas mineiras na descrição de Martius.

Une dame portée em caderinha, allant a la
messe, 1839, Rio de janeiro, Thierry Frères

Litière pour voyager dans l’interieur, Thierry
Frères, 1835, Rio de Janeiro

REFERÊNCIAS:


MARTIUS, Karl Friedrich Von; SPIX, Johann Baptist Ritter Von. Viagem pelo Brasil
(1817-1920). Brasília: Senado Federal, v. 1, n. 3, p. 197-255 ,2017.


CAMPOS, Maria das Graças; GONÇALVES, Marlene; CASTRILLON, Maria de Lourdes F. As
mulheres nos relatos dos viajantes estrangeiros no século XIX na província de Mato Grosso.
Revista da Faculdade de Educação, [S. l.], v. 35, n. 1, p. 195–212, 2021.


Disponível em: https://periodicos.unemat.br/index.php/ppgedu/article/view/5765.. Acesso em: 15 jun. 2024.

 

 

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