Júlia Dall’Agnol dos Santos
Tags: papo; bócio; Campinas; Edmund Pink.
O “papo” é o nome popular que se dá principal sintoma relacionado ao bócio endêmico. É caracterizado pelo aumento do volume da tireoide localizada na região do pescoço, adquirindo um aspecto que pode lembrar um papo, tal como possuem alguns animais. Hoje sabe-se que a causa mais comum para o bócio é a deficiência de iodo, porém, durante os séculos XIX e até meados do XX (quando é sancionada a lei que prevê a adição do iodo ao sal de cozinha, em 1953), o bócio apresenta-se como uma doença comum em regiões afastadas do litoral, que tinham maior dificuldade de acesso ao sal iodado (que pode ser encontrado naturalmente de proveniência marinha). Isso pode-se relacionar com a maior incidência de doenças relacionadas à deficiência de iodo tal como é o bócio endêmico (“endêmico” aparece na nomenclatura da doença, justamente pelo motivo de estar relacionado às regiões específicas, na qual a deficiência do iodo na alimentação ocasiona o aumento de casos da doença entre a população). Vê-se também, a influência da limitação da circulação comercial do século XIX como contribuinte para maior incidência do bócio, principalmente em regiões do interior, devido à questão da pouca diversidade e quantidade de produtos circulados, dificultando o seu acesso às populações empobrecidas ou vulneráveis como a população indígena.
O comerciante inglês Edmund Pink (1802-?), passando em São Paulo entre os meses de maio a outubro do ano de 1823, escreve em seu diário que não deixa de notar a “doença dos papos” entre a população de Campinas. Mais especificamente, observa que apenas indivíduos indígenas são acometidos pela condição. O viajante nota, portanto, a endemia do bócio na região por meio do papo , que chama a sua atenção pelos numerosos indígenas “papudos” na região de Campinas, ao que ele infere ser, por desconhecimento na época, devido aos seus modos de vida na floresta e costume de beber muita água. É relevante ressaltar que esse apontamento aparece como a única menção aos povos indígenas feita no diário, que por ser incompleto, não é possível concluir se houve outras.
No século XIX, a compreensão sobre o bócio era de que a doença era procedente do consumo de água em certas regiões, tendo o seu aspecto endêmico já percebido, e também que afetava principalmente a população não branca, ao que era atribuído às noções eugênicas da época. Uma hipótese que pode ser levantada em relação à maior incidência entre essa população indígena de Campinas do bócio endêmico, é referente ao seu acesso ao sal ou ainda, de peixes marinhos, que só poderiam ser obtidos a partir do comércio na região. Essa hipótese, em extensão, implicaria na marginalidade e falta de acesso do indígena com o comércio do litoral com o interior, que seria representado por Campinas. Dessa forma, o sal iodado e os peixes marinhos não seriam produtos comumente consumidos entre as populações indígenas de Campinas no século XIX.
Aqui nós testemunhamos numerosas pessoas com inchaço no pescoço, chamado papo. Somente nativos que foram acostumados a uma vida dentro das florestas parecem estar sujeitos a esta enfermidade, que decorre de sua maneira de viver e beber tanta água. [ Diário de Edmund Pink, dia 27 de junho de 1823, Campinas ] . (Pink, 2000, p.
Here we witnessed numbers of persons with swellings on the Neck Called Papo – only natives who have been accustomed to a life in the woods – seem to be subject to this disorder – arising from their manner of living and drinking so much water. (texto original, em inglês)
Imagem:

Referências:
MARQUES, Rita de Cássia. Sobre papos, águas, barbeiros e iodo: a História do Bócio Endêmico em Minas Gerais. In : MONTEIRO, Yara Nogueira (org.). História da saúde : olhares e veredas. São Paulo: Instituto de Saúde, 2010. p. 123-139.
PINK, Edmund. Diário de uma viagem através das províncias do Rio de Janeiro e São Paulo [1823]. In : MINDLIN, José; SEVCENKO, Nicolau (apres.). A São Paulo de Edmund Pink . Transcrição e tradução paleográfica Cristina Antunes. São Paulo: DBA, 2000.


