{"id":2861,"date":"2024-10-29T13:59:40","date_gmt":"2024-10-29T16:59:40","guid":{"rendered":"https:\/\/localhost\/wordpress\/?p=590"},"modified":"2025-07-10T19:23:34","modified_gmt":"2025-07-10T22:23:34","slug":"verbete-doenca-papeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/verbete-doenca-papeira\/","title":{"rendered":"Papeira"},"content":{"rendered":"\r\n<p><strong>Diego Miguel Mendes Silva<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A papeira, tamb\u00e9m conhecida popularmente como Caxumba, \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o viral aguda e contagiosa, de baixa letalidade e alta morbidade, aparecendo de forma end\u00eamica ou surtos. Sua causalidade decorre do v\u00edrus da fam\u00edlia Paramyxoviridae, do g\u00eanero Paramixov\u00edrus. A papeira pode acometer qualquer tecido nervoso e glandular do corpo humano, sendo mais frequente nas gl\u00e2ndulas par\u00f3tidas, respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de saliva, ou nas gl\u00e2ndulas submandibulares e sublinguais, localizadas pr\u00f3ximas ao ouvido. A transmiss\u00e3o ocorre por via a\u00e9rea, atrav\u00e9s do contato direto com a saliva de pessoas infectadas, ou por contato indireto pela dispers\u00e3o de got\u00edculas. Embora menos frequente, a transmiss\u00e3o indireta pode acontecer ao tocar objetos e\/ou utens\u00edlios contaminados com as secre\u00e7\u00f5es do nariz e\/ou boca. O per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o, ou seja, o tempo at\u00e9 o surgimento dos sintomas, \u00e9 de 12 a 25 dias. A transmissibilidade da doen\u00e7a come\u00e7a entre 6 e 7 dias antes das manifesta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e continua at\u00e9 9 dias ap\u00f3s o aparecimento dos sintomas. Dentro os sintomas, o mais comum e principal da papeira \u00e9 o aumento das gl\u00e2ndulas salivares, geralmente acompanhado de febre. No entanto, aproximadamente 30% das infec\u00e7\u00f5es podem n\u00e3o mostrar aumento evidente dessas gl\u00e2ndulas (BRASIL, 2024).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A papeira foi relatada por Spix e Martius ao viajarem do Rio de Janeiro \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo, especialmente quando passaram pela regi\u00e3o do Vale do Para\u00edba. Eles relataram que os habitantes dessa regi\u00e3o possu\u00edam um alto grau de incha\u00e7os end\u00eamicos localizados na gl\u00e2ndula tireoide. Os incha\u00e7os tomavam conta de todo o pesco\u00e7o e afetavam principalmente a maioria das pessoas de cor que, na percep\u00e7\u00e3o dos autores, j\u00e1 n\u00e3o eram agrad\u00e1veis e, por conta do incha\u00e7o, possu\u00edam apar\u00eancias ainda mais horr\u00edveis.<\/p>\r\n<p>Relatam que, no pa\u00eds, o b\u00f3cio era visto mais como um embelezamento do que uma deforma\u00e7\u00e3o e que, em muitas ocasi\u00f5es, as mulheres enfeitavam o b\u00f3cio com correntes de ouro e prata, exibindo-se com cachimbos ou fusos na m\u00e3o, fiando algod\u00e3o, sentadas na frente de suas casas (SPIX; MARTIUS, 2017, p.161).<\/p>\r\n<p>De acordo com os relatos, a papeira atingia especialmente os negros, mulatos e mamelucos que formavam a maoria da popula\u00e7\u00e3o. Entre as pessoas brancas, as mulheres eram as que mais sofriam. Os viajantes explicam que a doen\u00e7a, assim como na maior parte dos pa\u00edses, n\u00e3o se desenvolve em regi\u00f5es altas, frias e ventiladas, contrariamente ao que acontece no vale profundo do Para\u00edba, que frequentemente est\u00e1 coberto por nevoeiros densos. Gra\u00e7as \u00e0s serras do sul e do norte que bloqueiam a sa\u00edda das exala\u00e7\u00f5es, a neblina que \u00e9 formada acima dos rios e brejos \u00e9 a mesma que cai novamente \u00e0 noite, na espacialidade do vale (ibid., p. 163).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outras poss\u00edveis causas da doen\u00e7a s\u00e3o citadas pelos autores. Dentre elas est\u00e3o: o calor intenso; a utiliza\u00e7\u00e3o e consumo de \u00e1gua turva, morna e impura de rios; casas com pouca higiene, ventila\u00e7\u00e3o e alta umidade; o consumo de fub\u00e1 grosseiro que \u00e9 mais nutritivo, mas mais indigesto; o alto consumo de toucinho; e os excessos sexuais. Em rela\u00e7\u00e3o a esse \u00faltimo fator, os viajantes apontam que \u201cassim como no Rio de Janeiro, a causa conjunta da sarcocele e da hidrocele, e igualmente a do b\u00f3cio, embora n\u00e3o se veja aqui o triste espet\u00e1culo do cretinismo, que na Europa anda de par com o b\u00f3cio end\u00eamico, nota-se, entretanto, no aspecto das pessoas atacadas pela doen\u00e7a em alto grau, n\u00e3o s\u00f3 moleza e falta de energia, caracter\u00edsticas do cretino, mas tamb\u00e9m verdadeira estupidez\u201d (ibid., p. 163).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Para tratar a doen\u00e7a, era preparado um cataplasma (mistura\/pasta) quente de ab\u00f3bora que era aplicado externamente na pele, enquanto que internamente os pacientes bebiam \u00e1gua que foi deixada em contato com uma massa feita de casas de cupins trituradas por alguns dias. A utiliza\u00e7\u00e3o dessas casas de cupins para o tratamento da doen\u00e7a deve-se ao fato de que, para a constru\u00e7\u00e3o de suas casas, que possuem entorno de 5 a 6 p\u00e9s, os insetos utilizam uma subst\u00e2ncia viscosa que funcionaria como cimento, acreditando-se que essa subst\u00e2ncia possu\u00eda propriedades curativas contra o b\u00f3cio. Al\u00e9m disso, os autores relatam que se acreditava que o \u00e1cido f\u00f3rmico, subst\u00e2ncia encontrada nesses insetos e em outros, tinha efeitos ben\u00e9ficos, auxiliando no fortalecimento do sistema nervoso e linf\u00e1tico dos pacientes (ibid., p. 163). Paralelamente a isso, os viajantes relatam e tra\u00e7am uma rela\u00e7\u00e3o entre alguns costumes africanos, em que os negros utilizavam subst\u00e2ncias viscosas como, por exemplo, a goma ar\u00e1bica, que era usada para o tratamento do b\u00f3cio, haja visto que o problema se tratava de uma quest\u00e3o de nutri\u00e7\u00e3o (ibid., p. 163).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Refer\u00eancias utilizadas:<\/strong><\/p>\r\n<p><br \/>BRASIL. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Caxumba. [Bras\u00edlia]: Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 2024. Dispon\u00edvel<br \/>em: https:\/\/www.gov.br\/saude\/pt-br\/assuntos\/saude-de-a-a-z\/c\/caxumba. Acesso em: 9<br \/>de junho de 2024.<\/p>\r\n<p>SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Karl Friedrich Philipp von. Eine mameluca aus der<br \/>Provinz St. Paulo; Eine cafusa aus der Provinz St. Paulo. 1823-1831. Dispon\u00edvel em:<br \/>https:\/\/bdlb.bn.gov.br\/acervo\/handle\/20.500.12156.3\/33680. Acesso em: 09 de junho<br \/>de 2024.<\/p>\r\n<p>SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Karl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil<br \/>(1817-1820). Bras\u00edlia: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Miguel Mendes Silva A papeira, tamb\u00e9m conhecida popularmente como Caxumba, \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o viral aguda e contagiosa, de baixa letalidade e alta morbidade, aparecendo de forma end\u00eamica ou surtos. Sua causalidade decorre do v\u00edrus da fam\u00edlia Paramyxoviridae, do g\u00eanero Paramixov\u00edrus. 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