{"id":4617,"date":"2025-08-05T10:50:19","date_gmt":"2025-08-05T13:50:19","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/?p=4617"},"modified":"2025-08-12T11:43:07","modified_gmt":"2025-08-12T14:43:07","slug":"sistema-de-barracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/sistema-de-barracao\/","title":{"rendered":"Sistema de barrac\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>Yasmin Manuelle da Mota Hernandes<\/h2>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <b>Tags<\/b><\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> : trabalho; sistema de barrac\u00e3o; servid\u00e3o por d\u00edvida; escravid\u00e3o;<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Sistema de barrac\u00e3o, tamb\u00e9m chamado de <\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <i>truck system<\/i><\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> , servid\u00e3o por d\u00edvida, ou apenas barrac\u00e3o, \u00e9 uma pr\u00e1tica de endividamento de trabalhadores que funciona a partir do fornecimento de alimentos, itens de higiene, materiais de trabalho, materiais gerais, drogas legais ou ilegais, rem\u00e9dios etc., podendo ser uma cantina ou mercado, onde os trabalhadores s\u00e3o obrigados a comprar por meio de coer\u00e7\u00e3o ou depend\u00eancia.<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> [&#8230;] Perante o exposto, o sistema de barrac\u00e3o pautava as rela\u00e7\u00f5es empregat\u00edcias, condicionando os trabalhadores a um regime an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o. A utiliza\u00e7\u00e3o dos armaz\u00e9ns ou das \u201cvendas\u201d, que forneciam g\u00eaneros aliment\u00edcios e equipamentos de trabalho, foi pr\u00e1tica comum em constru\u00e7\u00f5es, fazendas, seringais e minas em regi\u00f5es isoladas (Trubiliano, 2017).<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Utilizado principalmente no trabalho rural, o sistema de barrac\u00e3o passou a ser associado como pr\u00e1tica que configura trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o a partir de 2003, com a revis\u00e3o do art. 149 do C\u00f3digo Penal (Decreto-Lei n.\u00ba 2.848, de 7 de dezembro de 1940), no qual foi definido que reduzir algu\u00e9m \u00e0 condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga a de escravizado \u00e9 submet\u00ea-lo &#8220;a trabalhos for\u00e7ados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condi\u00e7\u00f5es degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomo\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o de d\u00edvida contra\u00edda com o empregador ou preposto&#8221; (Brasil, 2003).<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> Ocorr\u00eancia da pr\u00e1tica foi registrada por Johann Jacob von Tschudi (1818-1889) em seu livro &#8220;Viagem \u00e0s Prov\u00edncias do Rio de Janeiro e S. Paulo&#8221; (1866), com tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas publicada em 1953:<\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> L\u00ea-se igualmente que o sr. Justino Franco em Limeira e o sr. Lima em Rio Claro, pagariam o valor desta nota em moeda legal. Estes dois homens s\u00e3o pequenos propriet\u00e1rios de venda e quando um colono os procurava para trocar uma destas notas em dinheiro corrente eles se recusavam. O colono era, pois, for\u00e7ado a comprar alguma cousa, para receber o troco em moeda corrente. Como n\u00e3o havia outro comerciante na regi\u00e3o que aceitasse este dinheiro, os colonos eram obrigados a comprar nas vendas dos dois acima citados, para assim conseguir trocar, pelo menos em parte, esses vales em moeda legal, embora lhes fosse muito mais vantajoso adquirir as mercadorias necess\u00e1rias em outras casas. (1953 [1866], p. 180)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_4618\" aria-describedby=\"caption-attachment-4618\" style=\"width: 467px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-content\/uploads\/sites\/1637\/2025\/08\/Exemplo-de-nota-usada-para-pagar-os-colonos-na-Fazenda-Ibicaba-em-meados-do-seculo-XIX-obrigando-os-a-comprar-apenas-nas-vendas-onde-a-moeda-era-aceita.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4618\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-content\/uploads\/sites\/1637\/2025\/08\/Exemplo-de-nota-usada-para-pagar-os-colonos-na-Fazenda-Ibicaba-em-meados-do-seculo-XIX-obrigando-os-a-comprar-apenas-nas-vendas-onde-a-moeda-era-aceita.png\" alt=\"\" width=\"467\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-content\/uploads\/sites\/1637\/2025\/08\/Exemplo-de-nota-usada-para-pagar-os-colonos-na-Fazenda-Ibicaba-em-meados-do-seculo-XIX-obrigando-os-a-comprar-apenas-nas-vendas-onde-a-moeda-era-aceita.png 467w, https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-content\/uploads\/sites\/1637\/2025\/08\/Exemplo-de-nota-usada-para-pagar-os-colonos-na-Fazenda-Ibicaba-em-meados-do-seculo-XIX-obrigando-os-a-comprar-apenas-nas-vendas-onde-a-moeda-era-aceita-300x181.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-content\/uploads\/sites\/1637\/2025\/08\/Exemplo-de-nota-usada-para-pagar-os-colonos-na-Fazenda-Ibicaba-em-meados-do-seculo-XIX-obrigando-os-a-comprar-apenas-nas-vendas-onde-a-moeda-era-aceita-400x241.png 400w\" sizes=\"(max-width: 467px) 100vw, 467px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-4618\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #000000;\">Exemplo de nota usada para pagar os colonos na Fazenda Ibicaba em meados do s\u00e9culo XIX, obrigando-os a comprar apenas nas vendas onde a moeda era aceita. Dispon\u00edvel no livro &#8220;Viagem \u00e0s Prov\u00edncias do Rio de Janeiro e S. Paulo&#8221;, p. 180. Dispon\u00edvel em: https:\/\/digital.bbm.usp.br\/view\/?45000030105&amp;bbm\/7001#page\/196\/mode\/2up.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <b>Refer\u00eancias: <\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> BAPTISTA, Rodrigo Martins et al.<\/span><b> <\/b><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> A roda da escravid\u00e3o moderna: uma nova abordagem te\u00f3rica. <\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <i>Cadernos EBAPE.BR<\/i><\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> , Rio de Janeiro, v. 21, n. 3, e2022-0063, 2023. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/cebape\/a\/LpKXnjqyQgjcnjyhjSBcpVx\/abstract\/?lang=pt\"><span style=\"color: #1155cc;\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <u>https:\/\/www.scielo.br\/j\/cebape\/a\/LpKXnjqyQgjcnjyhjSBcpVx\/abstract\/?lang=pt<\/u><\/span><\/span><\/a><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> . Acesso em: 21 jun. 2025.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> BRASIL. Lei n. 10.803, de 11 de dezembro de 2003. Altera o art. 149 do Decreto-Lei n<\/span><sup><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> o<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> 2.848, de 7 de dezembro de 1940 &#8211; C\u00f3digo Penal, para estabelecer penas ao crime nele tipificado e indicar as hip\u00f3teses em que se configura condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de escravo. Bras\u00edlia: Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, 2003.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> TRUBILIANO, Carlos Alexandre Barros. Explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ind\u00edgena na forma\u00e7\u00e3o dos seringais em Rond\u00f4nia. <\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <i>Di\u00e1logos: Revista do Departamento de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria<\/i><\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> , Maring\u00e1, v. 21, n. 3, p. 51-63, set. 2017. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/periodicos.uem.br\/ojs\/index.php\/Dialogos\/article\/view\/39275\"><span style=\"color: #1155cc;\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <u>https:\/\/periodicos.uem.br\/ojs\/index.php\/Dialogos\/article\/view\/39275<\/u><\/span><\/span><\/a><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> . Acesso em: 21 jun. 2025.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> TSCHUDI, Johann Jakob von. <\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <i>Viagem \u00e0s prov\u00edncias do Rio de Janeiro e S. Paulo. <\/i><\/span><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> S\u00e3o Paulo: Martins, 1953. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/digital.bbm.usp.br\/handle\/bbm\/7001\"><span style=\"color: #1155cc;\"><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> <u>https:\/\/digital.bbm.usp.br\/handle\/bbm\/7001<\/u><\/span><\/span><\/a><span style=\"font-family: Calibri, serif;\"> . Acesso em: 21 jun. 2025.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yasmin Manuelle da Mota Hernandes Tags : trabalho; sistema de barrac\u00e3o; servid\u00e3o por d\u00edvida; escravid\u00e3o; Sistema de barrac\u00e3o, tamb\u00e9m chamado de truck system , servid\u00e3o por d\u00edvida, ou apenas barrac\u00e3o, \u00e9 uma pr\u00e1tica de endividamento de trabalhadores que funciona a partir do fornecimento de alimentos, itens de higiene, materiais de trabalho, materiais gerais, drogas legais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24567,"featured_media":4618,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[183,31],"tags":[61,42,186,185,184],"class_list":["post-4617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-1-semestre-de-2025","category-verbetes","tag-escravidao","tag-praticas-culturais-costumes-acessorios-objetos-e-tecnologias","tag-servidao-por-divida","tag-sistema-de-barracao","tag-trabalho","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24567"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4617"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4784,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4617\/revisions\/4784"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}