{"id":617,"date":"2024-10-29T14:48:50","date_gmt":"2024-10-29T17:48:50","guid":{"rendered":"https:\/\/localhost\/wordpress\/?p=617"},"modified":"2025-09-22T11:38:20","modified_gmt":"2025-09-22T14:38:20","slug":"alimento-mandioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/mup111\/alimento-mandioca\/","title":{"rendered":"Mandioca"},"content":{"rendered":"\r\n<p><strong>Julia Rampazzo Cavalcanti<\/strong><\/p>\r\n<p>A mandioca, tamb\u00e9m conhecida como aipi, aipim, castelinha, macaxeira, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, p\u00e3o-de-pobre e uapi, \u00e9 uma planta tropical sul americana de raiz tuberosa, pertencente \u00e0 fam\u00edlia das Euphorbiaceae. Seu nome cient\u00edfico \u00e9 Manihot esculenta. \u00c9 uma esp\u00e9cie arbustiva, lenhosa e perene, a qual pode atingir alturas vari\u00e1veis. A mandioca apresenta ra\u00edzes grossas e palmin\u00e9rveas que se inserem no caule em disposi\u00e7\u00e3o alterna espiralada, com caule ereto e flores pequenas, geralmente verde-amareladas ou vermelhas, dispostas em infloresc\u00eancias. A cultura da mandioca \u00e9 amplamente distribu\u00edda em todo o territ\u00f3rio brasileiro, sendo uma das plantas mais importantes para a agricultura de subsist\u00eancia e para a economia do pa\u00eds. A planta adapta-se bem ao clima quente e \u00famido e a solos n\u00e3o encharcados, sendo mais apropriados os solos arenosos, f\u00e9rteis, profundos e perme\u00e1veis. A mandioca \u00e9 cultivada principalmente por suas ra\u00edzes tuberosas, sua parte comest\u00edvel mais conhecida e valorizada. Estas ra\u00edzes s\u00e3o ricas em amido e podem ser consumidas de diversas formas (cozidas, assadas, fritas etc), al\u00e9m de serem processadas em farinhas e bebidas fermentadas. As folhas e ramas, apesar de menos populares, tamb\u00e9m s\u00e3o comest\u00edveis e s\u00e3o utilizadas como verduras e alimentos para animais em diversas culturas, al\u00e9m de atuarem como mat\u00e9ria-prima para a fabrica\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool e derivados (LAROUSSE, 1995).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Rela\u00e7\u00e3o com o material estudado: A cultura da mandioca foi relatada em diferentes localidades ao longo do livro <em>Viagem pelo Brasil<\/em>. Spix e Martius a documentaram extensivamente, cobrindo t\u00f3picos variados do alimento, dentre eles cultivo e variedades, uso e processamento, papel fundamental na alimenta\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e coloniais e papel econ\u00f4mico.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No cultivo da esp\u00e9cie Manihot esculenta, as manivas de mandioca come\u00e7am a germinar ap\u00f3s quatorze dias. E em um per\u00edodo de dezoito a vinte e dois meses as ra\u00edzes atingem o seu desenvolvimento m\u00e1ximo, com cuidados para eliminar bot\u00f5es e controlar seu crescimento vertical (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 126, v. 1). De acordo com a narrativa, as muitas variedades da esp\u00e9cie podem ser classificadas em duas categorias principais com base no teor de toxicidade [\u00e1cido cian\u00eddrico1] presente nas ra\u00edzes: a mandioca brava e a mandioca mansa. A mandioca brava possui n\u00edveis elevados de \u00e1cido cian\u00eddrico, o que a torna t\u00f3xica para o consumo direto sem o processamento adequado para remover seu suco t\u00f3xico. J\u00e1 a mandioca mansa tem um teor muito baixo de \u00e1cido cian\u00eddrico, tornando-a segura para o consumo ap\u00f3s cozimento simples. O m\u00e9todo de processamento tradicional foi detalhadamente descrito por Spix e Martius em seus relatos sobre a regi\u00e3o Nordeste:<\/p>\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\r\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201cCom a ra\u00edz de ambas esp\u00e9cies, prepara-se a \u00e1gua fornecida pelos tub\u00e9rculos ralados e<br \/>espremidos, deixando-a decantar em grandes cubas de madeira, onde se deposita o p\u00f3.<br \/>Este \u00e9 logo lavado em diversas \u00e1guas, expostos ao sol para secar e, finalmente, passado<br \/>no forno\u201d. (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 405, v. 2)<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Os viajantes relatam que o processo de raspagem, tritura\u00e7\u00e3o, prensagem, retirada do l\u00edquido venenoso \u2013 da mandioca brava \u2013 e a secagem ao sol bastante comum no Nordeste. Nessas regi\u00f5es, especialmente nos estados da Bahia, Pernambuco e Alagoas, a mandioca brava \u00e9 amplamente cultivada e processada para a produ\u00e7\u00e3o de farinha, utilizando t\u00e9cnicas tradicionais transmitidas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n<p>Al\u00e9m desse m\u00e9todo, os autores tamb\u00e9m descrevem a produ\u00e7\u00e3o do tucupi \u2013 l\u00edquido amarelo extra\u00eddo da mandioca brava \u2013 durante sua estada em terras paraenses:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\r\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201cUm cesto cil\u00edndrico (tipiti) de duas toesas de comprimento, cheio de mandioca ralada<br \/>e, em sua parte inferior, carregado com uma pedra, pende de uma das travessas da<br \/>cho\u00e7a. Deste modo simples, o suco venenoso das ra\u00edzes frescas \u00e9 espremido e cai num<br \/>recipiente. Esse suco engrossado ao fogo \u00e9 misturado com pimenta (capsicum), seca,<br \/>produz o tucupi, tempo usual de todos os pratos de carne, da qual os paraenses fazem<br \/>t\u00e3o constante uso como os indianos da soja.\u201d (SPIX; MARTIUS, 2017, p. 106-107, v. 3)<\/p>\r\n<\/blockquote>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O m\u00e9todo t\u00edpico das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas locais ilustra o uso diverso da esp\u00e9cie. Conforme os relatos, a mandioca doce possu\u00eda protagonismo no territ\u00f3rio amaz\u00f4nico. A variedade era extensivamente cultivada e, conforme observado, assumia um papel alimentar e tamb\u00e9m um papel ritual.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A mandioca foi ent\u00e3o relatada por Spix e Martius ao viajarem da prov\u00edncia de Minas Gerais a S\u00e3o Paulo. Nessas prov\u00edncias a presen\u00e7a da mandioca era tamb\u00e9m comum. O alimento manifestava-se em suas duas categorias e era cultivado pelos pequenos agricultores da regi\u00e3o. Encaixava-se na din\u00e2mica colonial como um artigo da agricultura de subsist\u00eancia, atuando como fonte crucial de calorias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O material estudado permite-nos compreender a presen\u00e7a ineg\u00e1vel da esp\u00e9cie Manihot esculenta. Ela invade pouco a pouco, expande com facilidade. Surge nos relatos como alimento, de forma simples e complexo, transforma-se em destilado e depois reaparece como um elemento, em um complexidade que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender em um artigo. Nas regi\u00f5es Norte e Nordeste \u00e9 elemento cultural \u2013 intr\u00ednseca ao ritual \u2013 e em dire\u00e7\u00e3o ao sul, na dieta colonial surge diversas vezes durante os relatos ao lado do feij\u00e3o, caf\u00e9 e milho, evidenciando sua presen\u00e7a ineg\u00e1vel no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/p>\r\n<p>ENCICLOP\u00c9DIA Larousse Cultural. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1995.<br \/>NUNES, Jos\u00e9 Luis da Silva. Caracter\u00edsticas da mandioca. Dispon\u00edvel em:<br \/><a href=\"https:\/\/www.agrolink.com.br\/culturas\/mandioca\/informacoes-da-cultura\/informacoes-gerais\/caracteristicas-da-mandioca_438403.html.\">https:\/\/www.agrolink.com.br\/culturas\/mandioca\/informacoes-da-cultura\/informacoes-gerais\/caracteristicas-da-mandioca_438403.html.<\/a> Acesso em: 22 jun. 2024.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><br \/>SANTANA, Di\u00f4go Anderson Fonseca. Avalia\u00e7\u00e3o de adaptabilidade de variedades de mandioca<br \/>cultivadas no munic\u00edpio de Mari-PB.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><br \/>SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil<br \/>(1817-1820). v. 1. Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00facia Furquim Lahmeyer. Bras\u00edlia: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><br \/>SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil<br \/>(1817-1820). v. 2. Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00facia Furquim Lahmeyer. Bras\u00edlia: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><br \/>SPIX, Johann Baptist von; MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil<br \/>(1817-1820). v. 3. Tradu\u00e7\u00e3o de L\u00facia Furquim Lahmeyer. Bras\u00edlia: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julia Rampazzo Cavalcanti A mandioca, tamb\u00e9m conhecida como aipi, aipim, castelinha, macaxeira, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, p\u00e3o-de-pobre e uapi, \u00e9 uma planta tropical sul americana de raiz tuberosa, pertencente \u00e0 fam\u00edlia das Euphorbiaceae. Seu nome cient\u00edfico \u00e9 Manihot esculenta. \u00c9 uma esp\u00e9cie arbustiva, lenhosa e perene, a qual pode atingir alturas vari\u00e1veis. 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