{"id":960,"date":"2021-04-19T13:07:50","date_gmt":"2021-04-19T15:07:50","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/?page_id=960"},"modified":"2021-04-19T13:10:35","modified_gmt":"2021-04-19T15:10:35","slug":"sanitarismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/tematicas-2\/sanitarismo\/","title":{"rendered":"Sanitarismo"},"content":{"rendered":"<h2>Sanitarismo<\/h2>\n<p>O crescimento urbano associado a imigra\u00e7\u00e3o e aumento de oficinas e f\u00e1bricas, desde os primeiros anos do regime republicano no Brasil significou riqueza e implementa\u00e7\u00e3o das chamadas \u201cmelhorias urbanas\u201d; contudo, segundo Telarolli Junior (1996, p. 270), o grande n\u00famero de pessoas entrando no pa\u00eds de forma acelerada cooperou para agravar problemas sanit\u00e1rios e epid\u00eamicos nas cidades do pa\u00eds onde esses homens e mulheres se concentravam. Dentre as doen\u00e7as, que j\u00e1 castigavam os brasileiros, e que foram difundidas entre imigrantes que ficavam aglutinados nas col\u00f4nias ou ocupavam corti\u00e7os das cidades, pode-se destacar a var\u00edola, a febre amarela, a mal\u00e1ria, a tuberculose e a ancilostomose (FARIA, 2006, p. 180). De acordo com Gondra, o reordenamento econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural que ocorreu no Brasil desde o final do s\u00e9culo XIX determina novos signos, um exemplo disto \u00e9 a ideia de progresso, que marcou o pa\u00eds no in\u00edcio do Novecentos, entretanto, \u201c(&#8230;) \u00e9 poss\u00edvel detectar perman\u00eancias sendo uma delas a pr\u00f3pria vontade de higienizar a sociedade, a escola e a inf\u00e2ncia\u201d (2002, p. 315).<br \/>\n\u200b<br \/>\nNas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o republicana, ordeira e progressista foi estruturada de forma interligada com os temas educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. Essa educa\u00e7\u00e3o, escolar ou n\u00e3o, foi influenciada pelos discursos da higiene[1], do saneamento, e, depois, da eugenia[2].<\/p>\n<p>Os ideais eug\u00eanicos que no Brasil receberam \u00eanfase nas chamadas \u201cpr\u00e1ticas de melhoramento\u201d (como nos h\u00e1bitos de higiene), assim como a preocupa\u00e7\u00e3o com a constitui\u00e7\u00e3o do brasileiro eram pautas significativas dos sanitaristas nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. De acordo com Mota (2003), essas concep\u00e7\u00f5es eug\u00eanicas se apresentavam principalmente com uma metodologia estruturada na perspectiva higi\u00eanica.<\/p>\n<p>\u200bEssa preocupa\u00e7\u00e3o com a boa constitui\u00e7\u00e3o do brasileiro perpassa v\u00e1rios segmentos sociais em diferentes partes do Brasil e ser\u00e1 parte significativa da pauta dos sanitaristas em meados dos anos 1910 e de ideais eug\u00eanicos, que no Brasil receberam \u00eanfase nas chamadas \u201cpr\u00e1ticas de melhoramento\u201d (como os h\u00e1bitos de higiene). Desta forma, no final do s\u00e9culo XIX e na primeira metade do s\u00e9culo XX as pol\u00edticas p\u00fablicas de saneamento seriam influenciadas pelas concep\u00e7\u00f5es eug\u00eanicas que se apresentavam de forma modificada e com metodologia estruturada na perspectiva higi\u00eanica (MOTA, 2003)[3].<\/p>\n<p>\u200bNeste contexto de transforma\u00e7\u00f5es, cuidar da sa\u00fade, ampliar a educa\u00e7\u00e3o higi\u00eanica e sanit\u00e1ria de crian\u00e7as e m\u00e3es \u00e9 evidente.<\/p>\n<p>Um Estado constitu\u00eddo sobre o fortalecimento da fam\u00edlia e da propriedade do lar salubre; pelo saneamento; pela educa\u00e7\u00e3o higi\u00eanica, eug\u00eanica, intelectual e moral; pela assist\u00eancia principalmente \u00e0s m\u00e3es e \u00e0 inf\u00e2ncia, e pelo est\u00edmulo e amparo ao trabalho seria um Estado onde reinariam \u201ca paz, a sa\u00fade, a prosperidade e a alegria, em virtude da vitalidade das c\u00e9lulas do organismo social\u201d (CARVALHO, 1998, p. 163).<\/p>\n<p>Pouco a pouco, foi sendo constitu\u00edda uma rede com \u201cintelectuais de diferentes \u00e1reas como m\u00e9dicos, \u201csoci\u00f3logos\u201d, filantropos e juristas\u201d somando esfor\u00e7o para \u201cinstaurar a ordem civilizat\u00f3ria brasileira\u201d (MARQUES, 1994, p. 18). Esta ordem, relacionada aos princ\u00edpios da higiene, se investe do \u201cpoder de gerir tamb\u00e9m a esfera do privado\u201d (MARQUES, 1994, p. 26).<\/p>\n<p>\u200bComo escreveu Pandini, \u201cos m\u00e9dicos higienistas disseminaram a preponder\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o na regenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, no aperfei\u00e7oamento do esp\u00edrito e na conforma\u00e7\u00e3o do corpo infantil, elementos esses indispens\u00e1veis \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o civilizada.\u201d (2006, p. 20).<\/p>\n<p>\u200bA preocupa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos com as quest\u00f5es sanit\u00e1rias e higi\u00eanicas era cada vez mais expl\u00edcita. Os discursos dos m\u00e9dicos indicavam como perigosos, as aglomera\u00e7\u00f5es, os temidos germes das mol\u00e9stias, os odores que poderiam ser formas de cont\u00e1gio, al\u00e9m dos h\u00e1bitos anti-higi\u00eanicos. Sendo que, em alguns casos, esses m\u00e9dicos tamb\u00e9m prescreviam o isolamento dos doentes e a necessidade das autoridades determinarem regras de higiene \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Elementos que justificavam a realiza\u00e7\u00e3o de melhorias na cidade e educa\u00e7\u00e3o higi\u00eanica da popula\u00e7\u00e3o (BENVENUTTI, 2004, p. 81). Como escreveram Lima e Hochman.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, a higiene, entre outros discursos de base cient\u00edfica, teve forte presen\u00e7a nas interpreta\u00e7\u00f5es sobre os dilemas e as alternativas colocadas para a constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. A id\u00e9ia de males n\u00e3o apresenta, dessa forma, apenas uma analogia com o discurso m\u00e9dico, mas trata-se de uma alus\u00e3o \u00e0s doen\u00e7as como obst\u00e1culo ao progresso ou \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o (2000, p. 315).<\/p>\n<p>Corroborando com esse discurso, Rocha (2005, p. 74) destaca que os problemas de sa\u00fade eram entendidos como resultado da falta de educa\u00e7\u00e3o, neste sentido, as principais inova\u00e7\u00f5es da reforma sanit\u00e1ria de 1925 foram a cria\u00e7\u00e3o dos centros de sa\u00fade e do curso de educadores sanit\u00e1rios, que auxiliariam na supera\u00e7\u00e3o dos problemas causados pelo crescimento urbano por meio da difus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria. Na institucionaliza\u00e7\u00e3o da reforma sanit\u00e1ria de 1925 as preocupa\u00e7\u00f5es relacionavam-se \u00e0 higiene, puericultura, educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e assist\u00eancia \u00e0 inf\u00e2ncia (ROCHA, 2005, p. 87)<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria desenvolvidas desde a mais tenra idade, no lar e na escola, apresentam-se como possibilidades de intervir sobre a inf\u00e2ncia, corrigindo seus defeitos, auxiliando na conserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e protegendo-a das mol\u00e9stias infecciosas. (p. 91)<\/p>\n<p>No cumprimento desse desideratum, a educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria figura como a \u201cmelhor arma de combate\u201d de que poderia lan\u00e7ar m\u00e3o a escola, com vistas a garantir a ampla difus\u00e3o dos conhecimentos e a inculca\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos saud\u00e1veis, assegurando a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia sanit\u00e1ria, \u201cbase da estabilidade e seguran\u00e7a da na\u00e7\u00e3o\u201d. (ROCHA, 2005, p. 92).<\/p>\n<p>Desta forma, a concep\u00e7\u00e3o \u201ccampanhista\u201d estabelecida no Brasil neste per\u00edodo, enfatiza a sa\u00fade como um processo pedag\u00f3gico, sendo que a educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria passou as ser \u201co elemento-chave para a forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia sanit\u00e1ria da popula\u00e7\u00e3o\u201d, no qual o novo modelo de sa\u00fade do campo m\u00e9dico direcionava-se, al\u00e9m da promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, tamb\u00e9m para a preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as, difundindo a educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria como imperativa. (FARIA, 2006, p. 185).<\/p>\n<p>\u200b<\/p>\n<p>Palavras-chave: Sa\u00fade; Educa\u00e7\u00e3o; Educa\u00e7\u00e3o Sanit\u00e1ria; Higienismo.<\/p>\n<p>\u200b<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>\u200bBENVENUTTI, A.F. As reclama\u00e7\u00f5es do povo na belle \u00e9poque: a cidade em discuss\u00e3o na imprensa curitibana (1909-1916). Curitiba, 2004. Departamento de Hist\u00f3ria, Universidade Federal do Paran\u00e1. Mestrado (Disserta\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria).<\/p>\n<p>\u200bCARVALHO, M.M.C. de Molde nacional e f\u00f4rma c\u00edvica: higiene, moral e trabalho no projeto da associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o (1924-1931). Bragan\u00e7a Paulista: EDUSF, 1998.<\/p>\n<p>\u200bFARIA, L. Educadoras Sanit\u00e1rias e Enfermeiras de Sa\u00fade P\u00fablica: identidades profissionais em constru\u00e7\u00e3o. Cadernos Pagu (27), julho-dezembro, 2006. p. 173-212.<\/p>\n<p>\u200bGONDRA, J. G. \u201cModificar com brandura e prevenir com cautela\u201d. Racionalidade m\u00e9dica e higieniza\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia. In: FREITAS, M.C.; KULHMANN JR, M. (org). Os intelectuais na Hist\u00f3ria da Inf\u00e2ncia. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2002.<\/p>\n<p>\u200bLIMA, N.T. e HOCHMAN, G. Pouca sa\u00fade, muita sa\u00fava, os males do Brasil s\u00e3o&#8230; Discurso m\u00e9dico-sanit\u00e1rio e interpreta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Ci\u00eanc. sa\u00fade coletiva [online]. Vol. 5, n\u00ba. 2, p. 313-332, 2000.<\/p>\n<p>\u200bMARQUES, V.R.B. A medicaliza\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a: m\u00e9dicos, educadores e discurso eug\u00eanico. Campinas: UNICAMP, 1994.<\/p>\n<p>MOTA, A. Quem \u00e9 bom j\u00e1 nasce feito: sanitarismo e eugenia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&amp;A, 2003.<\/p>\n<p>\u200bPANDINI, S. A Escola de Aprendizes Art\u00edfices do Paran\u00e1: \u201cViveiro de homens aptos e \u00fateis\u201d (1910-1928). Curitiba, 2006. Setor de Educa\u00e7\u00e3o, Universidade Federal do Paran\u00e1. Mestrado (Disserta\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>\u200bROCHA, H.H.P. A educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria como profiss\u00e3o feminina. Cad. Pagu [online]. 2005, n.24, pp.69-104. ISSN 1809-4449. Dispon\u00edvel em: http:\/\/dx.doi.org\/10.1590\/S0104-83332005000100005. Acesso em 09\/09\/2017.<\/p>\n<p>\u200bTELAROLLI JR., R. Imigra\u00e7\u00e3o e epidemias no estado de S\u00e3o Paulo. Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade \u2013 Manguinhos. Vol. III, n\u00ba. 2, p.265-283 jul.-out. 1996.<\/p>\n[1] A defini\u00e7\u00e3o de higiene se entrela\u00e7a com preocupa\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7as ou limpeza. Segundo Marques (1994, p.27), \u201ca higiene no Brasil, (&#8230;) inseria-se no governo pol\u00edtico dos indiv\u00edduos como um novo agente coercitivo, na medida em que incorporava a cidade e a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 esfera do saber m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n[2] Conjunto dos m\u00e9todos que visam melhorar o patrim\u00f4nio gen\u00e9tico de grupos humanos; teoria que preconiza a sua aplica\u00e7\u00e3o (AVANZINI, 2011, p. 13). De acordo com Goldim (2003) a palavra eugenia \u201cfoi criado por Francis Galton (1822-1911), que o definiu como: O estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gera\u00e7\u00f5es seja f\u00edsica ou mentalmente\u201d. No Brasil a eugenia \u201cseguia a corrente francesa neolamarckista, que defendia a heran\u00e7a das caracter\u00edsticas adquiridas\u201d o que acaba se relacionando \u201ccom o projeto sanitarista de regenera\u00e7\u00e3o do povo e constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o (&#8230;)\u201d (FREIRE, 2009, p. 163).<\/p>\n[3] Segundo Mota (2003, p. 44), a eugenia pode ocorrer \u201cpor a\u00e7\u00e3o negativa ou restritiva e por a\u00e7\u00e3o positiva ou construtiva\u201d. A eugenia restritiva tem como medidas \u201ca regulamenta\u00e7\u00e3o do casamento, a segrega\u00e7\u00e3o e a esteriliza\u00e7\u00e3o\u201d, pois desta forma se impediria o nascimento de indiv\u00edduos considerados \u201canormais e deficientes\u201d. Por sua vez, a eugenia construtiva se baseava na \u201ceduca\u00e7\u00e3o higi\u00eanica e na propaganda dos princ\u00edpios de eugenia e da hereditariedade\u201d.<\/p>\n<p>\u200b<\/p>\n<p>\u200bAutoria: Claudin\u00e9ia Maria Vischi Avanzini<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sanitarismo O crescimento urbano associado a imigra\u00e7\u00e3o e aumento de oficinas e f\u00e1bricas, desde os primeiros anos do regime republicano no Brasil significou riqueza e implementa\u00e7\u00e3o das chamadas \u201cmelhorias urbanas\u201d; contudo, segundo Telarolli Junior (1996, p. 270), o grande n\u00famero de pessoas entrando no pa\u00eds de forma acelerada cooperou para agravar problemas sanit\u00e1rios e epid\u00eamicos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":22153,"featured_media":0,"parent":936,"menu_order":21,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"class_list":["post-960","page","type-page","status-publish","hentry","post"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22153"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=960"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":962,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/960\/revisions\/962"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/niephe\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}