{"id":1072,"date":"2020-08-17T08:46:39","date_gmt":"2020-08-17T11:46:39","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/?p=1072"},"modified":"2020-08-17T10:39:23","modified_gmt":"2020-08-17T13:39:23","slug":"o-espelho-na-tela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/o-espelho-na-tela\/","title":{"rendered":"O Espelho Na Tela"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">O meu duplo, antigo conhecido do espelho, invadiu o computador e agora me acompanha estranhamente para al\u00e9m dos limites \u00edntimos que eu antes conhecia. A cada encontro virtual uma op\u00e7\u00e3o nos \u00e9 dada: abrir ou n\u00e3o a c\u00e2mera. Dividir ou n\u00e3o a imagem?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que ser visto \u00e9 essencial, afinal \u00e9 assim que sabemos estar presentes, \u00e9 como est\u00e1vamos acostumados. Self, corpo, imagem, tudo junto e misturado num lugar combinado previamente com os outros. Assim parece f\u00e1cil, se a dist\u00e2ncia imposta j\u00e1 nos tira a fisicalidade dos encontros, por que perder algo a mais? Preservemos pelo menos a imagem, as express\u00f5es! Mesmo no sil\u00eancio, mesmo que ningu\u00e9m diga nada, os rostos consolam, fazem companhia, falam sem abrir a boca, respondem o momento, reagem ao sentir. \u00c9 um afago para outro que fala de frente pra tela, tenha empatia!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quero mesmo que os outros me vejam? Na minha pr\u00f3pria casa? N\u00e3o abro a porta para ningu\u00e9m assim t\u00e3o f\u00e1cil. Se a imagem \u00e9 minha sou eu quem decido o que fazer com ela, \u00e9 minha privacidade, minha intimidade! O que \u00e9 que v\u00e3o pensar de mim? Pior de tudo \u00e9 que me vejo, me observo enquanto estou ali, naquele momento em particular. Meu pr\u00f3prio olhar me assombra, me olha como se soubesse de todos os meus segredos. N\u00e3o posso nem me arrumar, \u00e9 preciso desconsiderar momentaneamente as imperfei\u00e7\u00f5es pra poder estar l\u00e1, naquele encontro. N\u00e3o d\u00e1, isso \u00e9 demais! Melhor desligar, ficar mais confort\u00e1vel. Preciso prestar aten\u00e7\u00e3o, preciso estar mais presente e essas quest\u00f5es todas me atrapalham. \u00c9 melhor ser invis\u00edvel.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Observo aos poucos os novos sentidos de tudo aquilo que diz de mim. Meu reflexo, minha casa, meus companheiros, minha fam\u00edlia. A d\u00favida daquilo que antes era ordin\u00e1rio mostra agora um novo lado da minha percep\u00e7\u00e3o, da minha realidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O reflexo convoca as perguntas: onde \u00e9 que eu estou? O que \u00e9 que eu sou?\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Texto por Andr\u00e9 Ferreira Bezerra<\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e&#8230; n\u00e3o lhes digo nada; o vidro reproduziu ent\u00e3o a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do s\u00edtio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois come\u00e7a a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas n\u00e3o conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este \u00e9 Fulano, aquele \u00e9 Sicrano; aqui est\u00e1 uma cadeira, ali um sof\u00e1. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. N\u00e3o era mais um aut\u00f4mato, era um ente animado. Da\u00ed em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, tr\u00eas horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solid\u00e3o sem os sentir&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trecho do conto \u201co Espelho\u201d de Machado de Assis.<\/span><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu duplo, antigo conhecido do espelho, invadiu o computador e agora me acompanha estranhamente para al\u00e9m dos limites \u00edntimos que eu antes conhecia. A cada encontro virtual uma op\u00e7\u00e3o nos \u00e9 dada: abrir ou n\u00e3o a c\u00e2mera. Dividir ou n\u00e3o a imagem?\u00a0 \u00a0 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que ser visto \u00e9 essencial, afinal \u00e9 assim que sabemos estar presentes, \u00e9 como est\u00e1vamos acostumados. Self, corpo, imagem, tudo junto e misturado num lugar combinado previamente com os outros. Assim parece f\u00e1cil, se a dist\u00e2ncia imposta j\u00e1 nos tira a fisicalidade dos encontros, por que perder algo a mais? Preservemos pelo menos a imagem, as express\u00f5es! 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