{"id":1080,"date":"2020-08-24T10:05:35","date_gmt":"2020-08-24T13:05:35","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/?p=1080"},"modified":"2020-08-30T12:00:41","modified_gmt":"2020-08-30T15:00:41","slug":"janela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/janela\/","title":{"rendered":"Janela"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existia aquela hist\u00f3ria de dois vizinhos de apartamento que, sem nunca antes terem trocado palavra, subitamente se d\u00e3o conta do quanto sabem da vida um do outro s\u00f3 por acompanharem, diariamente, o que o outro despeja no lat\u00e3o de lixo comum do andar. De uma retomada do h\u00e1bito de fumar at\u00e9 uma redecora\u00e7\u00e3o geral da casa, nada escapa a olhos inicialmente desatentos quando se tornam sens\u00edveis a certas const\u00e2ncias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Penso nisso quando vejo, pela incontavelmente repetida vez, uma mulher de vermelho na janela em frente \u00e0 minha. Me corrijo: hoje ela est\u00e1 de vermelho, ontem era branco e em algum dia antes foi azul: alguns detalhes nos faltam mesmo \u00e0 mem\u00f3ria. Mas sei que ela tem o insistente h\u00e1bito de acordar por volta das sete da manh\u00e3 todos os dias e, ent\u00e3o, parar um pouco em frente \u00e0 janela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez ela pense o exato mesmo de mim, afinal, se eu a vejo \u00e9 porque ela tamb\u00e9m me v\u00ea insistentemente acordada diariamente \u00e0s sete da manh\u00e3 olhando pela janela do apartamento. No mais, n\u00e3o vejo muito do quarto dela e n\u00e3o sei o quanto ela v\u00ea do meu. Talvez d\u00ea para ver quando \u00e9 dia de faxina ou quando mudo um m\u00f3vel de lugar. Talvez d\u00ea pra ver os dias em que fico mais em frente ao computador ou os dias em que vago por outros c\u00f4modos da casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fato \u00e9 que diariamente trocamos quase olhares enquanto me pego pensando sobre como essa paisagem que vejo pela janela parece estar ficando impressa na minha retina conforme passam os dias. Antes, as janelas eram m\u00f3veis: eram as janelas dos carros, \u00f4nibus e trens atrav\u00e9s das quais eu podia ver o mundo em movimento, vagar pela cidade e reparar na paisagem distante passando devagar e na pr\u00f3xima passando veloz. Mas a independer da velocidade, nada nunca era t\u00e3o estanque a ponto de perigar se fotografar na minha retina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Certo, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">quase<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> nada, e quem j\u00e1 teve de andar na marginal em hor\u00e1rio de pico vai entender do que estou falando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas agora, no quarto, abro uma \u00fanica janela pela manh\u00e3 e espero diariamente a oportunidade noturna para fech\u00e1-la. Carrego comigo constantemente um celular e penso que, estivesse vivendo eu algumas centenas de anos atr\u00e1s e um viajante no tempo especialmente distra\u00eddo me mostrasse uma tecnologia dessas, n\u00e3o pensaria outra coisa al\u00e9m de que aquilo parecia uma janela interdimensional trazendo perto quem est\u00e1 longe, que isso \u00e9 muito fascinante e o futuro, incrivelmente promissor. Ou apenas abro mais algumas dezenas de janelas de trabalho no computador e me sinto profundamente, indubitavelmente e irreversivelmente sem paci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ou reparo, a cada chamada de v\u00eddeo, nas v\u00e1rias janelinhas que se abrem, cada uma com uma pessoa, cada uma em um microcosmo diferente. E ecoa na minha cabe\u00e7a a incans\u00e1vel frase: naquela conversa tinham duas pessoas me olhando. E uma delas era eu mesma.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<article class=\"post-1051 post type-post status-publish format-standard hentry category-pilulasliterarias\">\n<div class=\"entry clearfix\">\n<h6 style=\"text-align: right;\">Texto por Mariana R. Stefani<\/h6>\n<\/div>\n<\/article>\n<nav class=\"post-nav-wrap clearfix\" role=\"navigation\"><\/nav>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existia aquela hist\u00f3ria de dois vizinhos de apartamento que, sem nunca antes terem trocado palavra, subitamente se d\u00e3o conta do quanto sabem da vida um do outro s\u00f3 por acompanharem, diariamente, o que o outro despeja no lat\u00e3o de lixo comum do andar. De uma retomada do h\u00e1bito de fumar at\u00e9 uma redecora\u00e7\u00e3o geral da casa, nada escapa a olhos inicialmente desatentos quando se tornam sens\u00edveis a certas const\u00e2ncias. Penso nisso quando vejo, pela incontavelmente repetida vez, uma mulher de vermelho na janela em frente \u00e0 minha. Me corrijo: hoje ela est\u00e1 de vermelho, ontem era branco e em algum dia antes foi azul: alguns detalhes nos faltam mesmo \u00e0 mem\u00f3ria. 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