{"id":1110,"date":"2020-09-21T07:10:12","date_gmt":"2020-09-21T10:10:12","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/?p=1110"},"modified":"2020-10-04T11:27:13","modified_gmt":"2020-10-04T14:27:13","slug":"meme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/meme\/","title":{"rendered":"A pandemia n\u00e3o acabou s\u00f3 porque voc\u00ea est\u00e1 de saco cheio"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de ter se popularizado mais recentemente, o termo \u201cmeme\u201d \u00e9 original de 1976. Ele surgiu no livro o \u201cGene Ego\u00edsta\u201d de Richard Dawkins, no qual o autor formula o conceito como um equivalente cultural do gene. A analogia serve para marcar o potencial de dissemina\u00e7\u00e3o contido na informa\u00e7\u00e3o de um meme qualquer. Dessa forma, assim como nos v\u00edrus, a autopropaga\u00e7\u00e3o \u00e9 um \u00edndice daquilo que determina a sobreviv\u00eancia e a efic\u00e1cia de um meme, que pode ser uma imagem, um som, um v\u00eddeo, um gif, ou, mais simplesmente, uma ideia.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o h\u00e1 acontecimento contempor\u00e2neo que n\u00e3o venha acompanhado da cria\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno meme e, com a atual pandemia, n\u00e3o poderia ser diferente. Em mar\u00e7o, quando o mundo se assombrava com a evolu\u00e7\u00e3o s\u00fabita da COVID-19, a rapper americana Cardi B<\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/B9kvv79AAUw\/?utm_source=ig_embed\"> <span style=\"font-weight: 400;\">postou um v\u00eddeo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> manifestando o seu medo de forma bastante exc\u00eantrica. A frase dita em ingl\u00eas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cCoronavirus! Is getting real!\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, rapidamente condensou uma sensa\u00e7\u00e3o da qual muitos se identificaram e, como um bom meme, estendeu-se nos mais<\/span><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6NtIdUMzDPM\"> <span style=\"font-weight: 400;\">diversos formatos midi\u00e1ticos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> replicando de forma chistosa um anseio compartilhado. \u00c9 poss\u00edvel pensar que seria c\u00f4mico se n\u00e3o fosse tr\u00e1gico, o que \u00e9 verdade, mas as risadas talvez vieram para suspender, mesmo que muito brevemente, a inaugura\u00e7\u00e3o de um novo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">status quo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> pand\u00eamico, quase como um momento cat\u00e1rtico em meio ao desespero.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u201cA pandemia n\u00e3o acabou s\u00f3 porque voc\u00ea est\u00e1 de saco cheio\u201d. Nas \u00faltimas semanas, observamos a evolu\u00e7\u00e3o desse outro meme. Dessa vez, no entanto, n\u00e3o foi preciso recorrer a uma ideia inusitada ou \u00e0 excentricidade de uma cantora, o elemento comum estava expl\u00edcito e claro. Uma simples ideia, acompanhada de uma ilustra\u00e7\u00e3o de uma mulher que apontava para a frase escrita com um semblante de indigna\u00e7\u00e3o, foi suficiente para atingir uma grande viraliza\u00e7\u00e3o nas redes. O desenho mostra algo \u00f3bvio, que talvez n\u00e3o precisasse ser dito, mas que se faz necess\u00e1rio na medida em que o desd\u00e9m da realidade pand\u00eamica come\u00e7a a tomar conta de uma parcela relevante da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, diferentemente da efemeridade da mensagem contida em um meme, a situa\u00e7\u00e3o que enfrentamos infelizmente n\u00e3o pode ser tratada como algo breve. Sabemos que a\u00a0 suspens\u00e3o dos cuidados n\u00e3o pode ser a pr\u00f3xima ideia a viralizar, mas, infelizmente, algo nesse sentido parece estar tomando forma. De exce\u00e7\u00e3o em exce\u00e7\u00e3o, as flexibiliza\u00e7\u00f5es se esticam de maneira a beirar a irresponsabilidade, alguns deixam a conveni\u00eancia dar lugar ao negacionismo, optam por um atalho na expectativa de resgatar uma \u00e9poca na qual era permitido um n\u00edvel maior de despreocupa\u00e7\u00e3o, de contato com o outro. As aglomera\u00e7\u00f5es que observamos nos notici\u00e1rios mostram que o #ficaemcasa perdeu sua for\u00e7a enquanto meme.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 evidente que cada um sabe o limite da ang\u00fastia decorrente do isolamento e do ensimesmamento, o meme que d\u00e1 o t\u00edtulo deste texto n\u00e3o \u00e9 verdadeiro somente por causa da indigna\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m por atestar o esgotamento e o cansa\u00e7o que sentimos na express\u00e3o \u201cestar de saco cheio\u201d. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de transbordar o saco talvez possamos procurar maneiras de dividir a carga, apelar para o negacionismo nada mais \u00e9 do que fechar os olhos para o que de fato estamos enfrentando e, de quebra, ainda complica ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. Uma outra op\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o necessariamente \u00e9 a mais f\u00e1cil, mas certamente a mais sensata, \u00e9 criarmos do \u00e2mbito pessoal e coletivo uma adapta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o necessariamente precisa vir nos termos de um novo normal, mas sim como algo mais passageiro e que nos permita apaziguar um pouco as ang\u00fastias sem flertar com o perigo. \u00a0 <\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1111\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"226\" data-id=\"1111\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou.jpg 600w, https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou-300x300.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou-150x150.jpg 150w, https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou-45x45.jpg 45w, https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou-200x200.jpg 200w, https:\/\/sites.usp.br\/papoipusp\/wp-content\/uploads\/sites\/784\/2020\/09\/apandemianaocabou-400x400.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de ter se popularizado mais recentemente, o termo \u201cmeme\u201d \u00e9 original de 1976. Ele surgiu no livro o \u201cGene Ego\u00edsta\u201d de Richard Dawkins, no qual o autor formula o conceito como um equivalente cultural do gene. A analogia serve para marcar o potencial de dissemina\u00e7\u00e3o contido na informa\u00e7\u00e3o de um meme qualquer. Dessa forma, assim como nos v\u00edrus, a autopropaga\u00e7\u00e3o \u00e9 um \u00edndice daquilo que determina a sobreviv\u00eancia e a efic\u00e1cia de um meme, que pode ser uma imagem, um som, um v\u00eddeo, um gif, ou, mais simplesmente, uma ideia.\u00a0\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 acontecimento contempor\u00e2neo que n\u00e3o venha acompanhado da cria\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno meme e, com a atual pandemia, n\u00e3o poderia ser diferente. Em mar\u00e7o, quando o mundo se assombrava com a evolu\u00e7\u00e3o s\u00fabita da COVID-19, a rapper americana Cardi B postou um v\u00eddeo manifestando o seu medo de forma bastante exc\u00eantrica. A frase dita em ingl\u00eas \u201cCoronavirus! 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