Questionário e resultados

Diversos aspectos cognitivos, sociais e políticos precisam ser considerados para avaliar o conjunto de esforços despendidos em projetos de metodologia científica na graduação. Assim, consideramos essencial priorizar as experiências e as necessidades das estudantes, para que seja possível incluí-las nas práticas investigativas e de ensino. No intuito de problematizar o impacto do trabalho científico na graduação em Letras e compreender as demandas acerca da leitura e produção de textos acadêmicos e da participação em projetos, realizamos uma coleta de dados por meio de um questionário. 

O questionário foi respondido por 349 estudantes de 15 habilitações e do ciclo básico do curso de Letras da USP, sendo entre elas 293 estudantes veteranas e 56 calouras. A maioria das respondentes frequentou escolas públicas (57,5%) e o curso de Letras é a primeira formação (69,4%). O maior contingente de respostas (51,9%) advém do Departamento de Letras Modernas (DLM) que inclui as habilitações em alemão, espanhol, francês, inglês e italiano.

Idade 17 – 20: 27.2%          21 – 22: 20.3%
23 – 25: 19.5%          26 – 28: 10.6%     29 ou mais: 22.4%
Formação
Escola pública: 57,5%    Escola particular: 42,5%
Habilitação  Ciclo Básico: 14%     DLM: 51,9%           
DLCV: 11,1%            DLO: 13,1%           DL: 6%
Semestre  

10º: 62%         8º: 23.5%          Outros: 14.5%

Interesse em Letras
Literatura: 72%        Tradução 74%       
Ensino: LA 50.5%
Experiência em Pesquisa  Não: 77%               Sim: 23% 
Interesse em pesquisa
Veteranas:  Sim: 81.9%    Não: 8.9%      Talvez: 9.2%
Calouras:    Sim: 53.4%    Não: 3.6%      Talvez: 41.1%
Interesse na pós-graduação Sim: 85%              Não sei: 15%
Já escreveu projeto ou artigo Não: 85%              Sim: 15%
Possui Lattes Não: 77%              Sim: 23%

 

  • A maioria das respondentes estudou em escola pública (57,5%), tendo entre 17 e 25 anos (67%) e com foco de interesse em tradução (74%) e literatura (72%). 
  • 96% demonstram interesse em relação à pesquisa, não obstante, menos da metade das veteranas (36%) alcançou este objetivo. 
  • Tal dado poderia indicar uma queda da motivação ao longo da graduação, porém 81,9% relatam ter continuado interessadas em realizar pesquisa na pós-graduação. 
  • Os fatores mencionados como motivos para a não participação em pesquisa: falta de conhecimento sobre metodologia e estrutura de projetos (59,4%); sensação de despreparo (56,7%); falta de ideias sobre temas (54%); falta de informação sobre as possibilidades de pesquisa (49,7%); falta de tempo (45,5%).
  • 50,85% indicou que docentes explicam de maneira superficial como os trabalhos científicos devem ser realizados, sendo que 14% relatou que precisa se informar sozinhas. 
  • Cerca de 40% considerou a experiência com a escrita de textos acadêmicos como positiva quando tiveram apoio docente e instrução sobre as metodologias de pesquisas. 
  • Das veteranas, 63,82% não possuíam experiência em pesquisa, sendo que 34% delas estavam no 3º semestre, 26% no 5º semestre e 35% do 7º até acima do 10º semestre. 
  • As experiências com pesquisa relatadas foram: 52% IC; 19% apresentação em congressos; 13% dissertação de mestrado e publicação de artigo.
  • Das alunas que tiveram experiência em pesquisa, 85,8% delas gostariam de cursar alguma pós-graduação em Letras.
  • Para estas alunas, a participação em pesquisa foi essencial para a motivação pessoal e acadêmica, as experiências positivas foram acompanhadas de relatos sobre fatores do ambiente, pelo recebimento de bolsas e de apoio das docentes.
  • 54,5% a não participação impactou negativamente a motivação durante o curso.

Os resultados indicam a existência de um interesse em pesquisa, em participar de grupos de investigação, e como o conhecimento científico tem um papel relevante para a motivação e sentimento de pertencimento no curso. Este interesse é, no entanto, muitas vezes acompanhado de dúvidas e inseguranças, que poderiam ser tematizadas nas disciplinas do curso, assim como pela criação de  disciplinas especializadas. Questões externas à faculdade também impactam a vida acadêmica das estudantes e consequentemente o desenvolvimento de pesquisas, como a ausência de incentivo financeiro por meio de bolsas e a falta de tempo. 

Nos relatos, as alunas indicaram sentir falta de um maior incentivo à pesquisa em Letras desde o início até o final da graduação, como eventos, disciplinas e meios diretos de contato com os grupos de pesquisa presentes na Faculdade, fato este que, por vezes, dificultaria o acesso ao universo de produção das pesquisas. 

O questionário demonstrou a urgência de um planejamento institucional que dê uma maior atenção aos meios de divulgação sobre formas, possibilidades e metodologias de pesquisa, abrindo espaços para debates sobre conhecimentos práticos e teóricos em pesquisa. Finalmente, criamos o projeto PIPL para tentar solucionar algumas das questões apresentadas e oferecer um espaço de trocas e novas experiências. 

AQUINO, M.; PRIMO, D. ; FUKUSHIMA, L. ; RODRIGUES, A. . A metodologia de pesquisa em Letras: uma discussão a partir da perspectiva e experiência de estudantes da Universidade de São Paulo, no prelo.
AQUINO, M.; GALLI, L. . Motivação, participação e pesquisa em Letras: o papel da acolhida acadêmica na perspectivas de estudantes. no prelo.