{"id":4708,"date":"2025-08-21T09:01:22","date_gmt":"2025-08-21T12:01:22","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/?p=4708"},"modified":"2025-08-21T09:01:22","modified_gmt":"2025-08-21T12:01:22","slug":"4708","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/?p=4708&lang=pt","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #800000;\">Excesso de internet e apreens\u00e3o com crise clim\u00e1tica impactam a sa\u00fade mental de estudantes da USP<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP* \u2013Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Uma pesquisa realizada no campus Butant\u00e3 da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) revelou \u00edndices preocupantes de sa\u00fade mental entre os estudantes, com m\u00e9dias significativamente piores que as registradas em levantamentos internacionais e mesmo nacionais junto a essa popula\u00e7\u00e3o. A pesquisa foi conduzida pelo pesquisador Pedro Ambra, bolsista do Programa Fixa\u00e7\u00e3o de Jovens Doutores da FAPESP.<\/p>\n<p>Um resumo dos seus resultados foi apresentado durante o Simp\u00f3sio Internacional \u201cSa\u00fade Mental de Estudantes Universit\u00e1rios: Escutar, Aconselhar e Cuidar\u201d, realizado no Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP pelo Grupo de Pesquisa nPeriferias em parceria com a Pr\u00f3-Reitoria de Inclus\u00e3o e Pertencimento (PRIP) da universidade. O simp\u00f3sio foi uma das atividades planejadas para difus\u00e3o e populariza\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico produzido pela pesquisa e contou com o apoio do Instituto de Psicologia da USP e da startup EduWellTech, uma plataforma criada em 2024 dedicada \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o e monitoramento da sa\u00fade mental de estudantes universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entre outros resultados, a pesquisa mostrou o impacto de fen\u00f4menos extremos na sa\u00fade mental dos estudantes: 78% se disseram muito preocupados e quase 90% afirmaram acreditar que as emerg\u00eancias clim\u00e1ticas podem acabar com a vida humana na Terra. Boa parte tamb\u00e9m associou o tema ao pior desempenho acad\u00eamico e \u00e0 m\u00e1 qualidade do sono. Outro comportamento detectado foi o uso excessivo da internet: cerca de 70% reconheceram que n\u00e3o conseguem reduzir o tempo on-line, e parte significativa disse acreditar que isso afeta negativamente sua sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>O estudo investigou como diferentes marcadores sociais da diferen\u00e7a \u2013 como ra\u00e7a, g\u00eanero, sexualidade, idade e renda \u2013 se articulam para impactar a experi\u00eancia universit\u00e1ria. \u201cNosso foco foi compreender como esses marcadores atuam no estudante de forma processual, e n\u00e3o como atributos fixos. Por exemplo, ser uma estudante negra ou um estudante negro n\u00e3o define, por si s\u00f3, toda a experi\u00eancia que a pessoa ter\u00e1 na universidade. \u00c9 preciso olhar para o que acontece ao longo do percurso acad\u00eamico\u201d, afirma Ambra. O pesquisador aponta para a import\u00e2ncia do processo de articula\u00e7\u00e3o entre diversos marcadores sociais da diferen\u00e7a na compreens\u00e3o da experi\u00eancia universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O levantamento emp\u00edrico foi realizado por meio de question\u00e1rio on-line, com livre ades\u00e3o. E recebeu 459 respostas \u2013 n\u00famero que, segundo o pesquisador, atinge signific\u00e2ncia estat\u00edstica, ainda que a amostra n\u00e3o seja proporcional por curso. Nesse conjunto, 68,9% definiram-se como \u201cbrancos\u201d, 55,9% como \u201cde baixa renda\u201d e 52,5% como \u201cn\u00e3o heterossexuais\u201d.<\/p>\n<p>O instrumento principal utilizado foi o 5-item Mental Health Inventory (MHI-5), validado para a popula\u00e7\u00e3o brasileira. A escala fornece um \u00edndice que varia de 0 a 100 e mede sintomas de ansiedade, depress\u00e3o e bem-estar. \u201cA m\u00e9dia obtida em levantamentos internacionais gira em torno de 65. Entre os alunos da USP, encontramos 47\u201d, relata Ambra. O \u00edndice tamb\u00e9m \u00e9 inferior \u00e0quele encontrado no estudo-piloto para a aplica\u00e7\u00e3o do instrumento, que teve como p\u00fablico-alvo estudantes universit\u00e1rios de outras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior no Brasil.<\/p>\n<p>Motivos<\/p>\n<p>Por que isso acontece, quando se deveria esperar justamente o contr\u00e1rio, uma vez que a USP \u00e9 a principal universidade do pa\u00eds e aplica v\u00e1rias pol\u00edticas de inclus\u00e3o? \u201cA pesquisa n\u00e3o permite responder de forma consistente a essa pergunta. A ideia original n\u00e3o era comparar, mas considerar nosso objeto de estudo como um universo fechado. Mas uma hip\u00f3tese, pelo menos no que diz respeito aos estudantes negros, \u00e9 que esses jovens possam ter vindo de um ambiente mais homog\u00eaneo, talvez um pouco mais acolhedor, para encontrar, eventualmente, diferen\u00e7as sociais muito grandes\u201d, conjectura Ambra.<\/p>\n<p>Um exemplo de como tal articula\u00e7\u00e3o entre diferen\u00e7as opera, prossegue o pesquisador, \u00e9 o de que estudantes negros que recebem nove sal\u00e1rios m\u00ednimos ou mais obtiveram pontua\u00e7\u00e3o no MHI-5 inferior \u00e0quela de estudantes negros de estratos m\u00e9dios de renda. \u201cNeste caso, a renda mais alta n\u00e3o atua como fator atenuante dos baixos \u00edndices de sa\u00fade mental, mas indica que articula\u00e7\u00f5es entre marcadores podem revelar experi\u00eancias de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o espec\u00edficas. Conforme aponta a literatura, devem-se interseccionar marcadores sociais para al\u00e9m de uma soma de opress\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<p>Outro fator envolvido, este j\u00e1 bastante investigado pela literatura especializada, \u00e9 o que os pesquisadores norte-americanos chamam de \u201cracial battle fatigue\u201d, o cansa\u00e7o da batalha racial. O conceito descreve o estresse psicol\u00f3gico e fisiol\u00f3gico cumulativo experimentado por pessoas negras por causa da exposi\u00e7\u00e3o reiterada a microagress\u00f5es, preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPor ser uma universidade bastante politizada, \u00e9 muito comum que o estudante que ingressa na USP se engaje em coletivos, em demandas sociais, em lutas. Mas, com o tempo, isso vai produzindo um cansa\u00e7o, uma esp\u00e9cie de sofrimento espec\u00edfico. Parece paradoxal, porque a pessoa est\u00e1 lutando por inclus\u00e3o, por liberta\u00e7\u00e3o coletiva, mas, como os obst\u00e1culos sociais s\u00e3o muito grandes, muito pesados, muito dif\u00edceis de mover, o entusiasmo inicial pode, aos poucos, arrefecer, por sobrecarga, frustra\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, e isso dar lugar ao cansa\u00e7o e ao des\u00e2nimo\u201d, argumenta Ambra.<\/p>\n<p>Um ind\u00edcio em rela\u00e7\u00e3o a isso foi que os estudantes negros mais jovens, de 18 e 19 anos, apresentaram pontua\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental 29,3% superiores \u00e0 m\u00e9dia geral. E que a pontua\u00e7\u00e3o caiu muito nas faixas et\u00e1rias mais velhas. O pesquisador ressalva, no entanto, que tudo isso ainda est\u00e1 no terreno das hip\u00f3teses, porque para chegar a explica\u00e7\u00f5es consistentes seria necess\u00e1ria uma pesquisa muito mais ampla e aprofundada \u2013 com amostras proporcionais e an\u00e1lises multivariadas \u2013 que envolva estudantes de v\u00e1rias universidades, combinando question\u00e1rios quantitativos com entrevistas qualitativas e considerando outros marcadores sociais.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos dados obtidos na pesquisa confirmou fen\u00f4menos conhecidos na literatura, como piores \u00edndices de sa\u00fade mental entre estudantes negros e popula\u00e7\u00e3o LGBTQIAPN+. Mas trouxe tamb\u00e9m achados inesperados, como o fato de que, apesar de todas as adversidades, as mulheres negras relataram v\u00ednculos afetivos e acad\u00eamicos com a universidade acima da m\u00e9dia. \u201cAo que parece, a USP deu a elas um lugar de pertencimento\u201d, comenta Ambra.<\/p>\n<p>O pesquisador sublinha que o objetivo do estudo n\u00e3o foi apenas conhecer melhor a sa\u00fade mental dos estudantes uspianos. Mas tamb\u00e9m embasar pol\u00edticas e programas capazes de prevenir agravos em sa\u00fade e contribuir para o sucesso acad\u00eamico dos estudantes. A USP disp\u00f5e de um programa voltado especificamente para a sa\u00fade mental da popula\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, o ECOS, mantido pela Pr\u00f3-Reitoria de Inclus\u00e3o e Pertencimento.<\/p>\n<p>Tend\u00eancia global<\/p>\n<p>O Simp\u00f3sio Internacional \u201cSa\u00fade Mental de Estudantes Universit\u00e1rios: Escutar, Aconselhar e Cuidar\u201d, onde os resultados da pesquisa foram apresentados, contou com a presen\u00e7a de gestores acad\u00eamicos, professores e pesquisadores da USP e de outras institui\u00e7\u00f5es de ensino superior brasileiras, como Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica (ITA). E tamb\u00e9m de convidados do exterior \u2013 dentre eles, o professor Chris Brownson, da Universidade do Texas em Austin.<\/p>\n<p>Brownson \u00e9 psic\u00f3logo e ocupa na universidade o cargo de vice-presidente associado para sa\u00fade e bem-estar. No per\u00edodo 2019-2021, foi membro do comit\u00ea da National Academies of Sciences dedicado a sa\u00fade mental e uso de \u00e1lcool e outras drogas em contextos universit\u00e1rios. Desde 2014, lidera projetos que somam mais de US$\u202f28 milh\u00f5es em investimentos em sa\u00fade mental, bem-estar estudantil e preven\u00e7\u00e3o do uso de \u00e1lcool e drogas.<\/p>\n<p>Em confer\u00eancia durante o evento, ele destacou que o aumento da demanda por servi\u00e7os de sa\u00fade mental estudantil \u00e9 uma tend\u00eancia global, mas que sistemas diferentes oferecem respostas distintas. Nos EUA, onde n\u00e3o h\u00e1 um sistema universal como o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), o acesso \u00e9 mais desigual e depende fortemente de seguros privados.<\/p>\n<p>\u201cO problema central \u00e9 que a demanda por servi\u00e7os de sa\u00fade mental cresce muito mais r\u00e1pido do que o n\u00famero de psic\u00f3logos e psiquiatras dispon\u00edveis para ajudar. Se tiv\u00e9ssemos todos os psic\u00f3logos de que precisamos, qualquer pessoa poderia buscar atendimento a qualquer momento, por qualquer motivo, inclusive para autoconhecimento e realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Infelizmente, a escassez nos obriga a priorizar quem mais precisa\u201d, disse Brownson em sua confer\u00eancia \u201cMental Health and Quality of Academic Life in Universities\u201d.<\/p>\n<p>A visita do especialista ao Brasil para participar de atividades acad\u00eamico-cient\u00edficas na USP foi apoiada pela FAPESP por meio da pesquisa \u201cSa\u00fade mental, marcadores sociais da diferen\u00e7a e sucesso acad\u00eamico: investiga\u00e7\u00e3o dos efeitos da pandemia de COVID-19 sobre estudantes universit\u00e1rios\u201d (23\/01615-0), \u00e0 qual a bolsa de Ambra est\u00e1 vinculada. A pesquisa \u00e9 coordenada pelo professor Alessandro de Oliveira dos Santos, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP.<\/p>\n<p>\u201cDesde 2019, com apoio da FAPESP, temos realizado pesquisas articuladas \u00e0 governan\u00e7a universit\u00e1ria com vistas a produzir conhecimentos para o aprimoramento de pol\u00edticas e programas voltados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do bem-estar dos estudantes. Por meio delas, tem sido poss\u00edvel propor a\u00e7\u00f5es que contribuam para o sucesso acad\u00eamico dos estudantes e o fortalecimento de um ambiente mais saud\u00e1vel nas universidades, na medida em que identificam os fatores que impedem tal sucesso e podem influenciar no pior rendimento acad\u00eamico e no trancamento ou abandono dos cursos. Como, por exemplo, o uso excessivo e compulsivo de dispositivos eletr\u00f4nicos e da internet, as viv\u00eancias de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o no ambiente acad\u00eamico e a ocorr\u00eancia de agravos em sa\u00fade mental, como depress\u00e3o, crises de ansiedade e idea\u00e7\u00f5es suicidas, amplificados pelos tempos de acelera\u00e7\u00e3o e de fen\u00f4menos extremos que estamos vivendo\u201d, conta Santos.<\/p>\n<p>O Simp\u00f3sio Internacional \u201cSa\u00fade Mental de Estudantes Universit\u00e1rios: Escutar, Aconselhar e Cuidar\u201d pode ser assistido na \u00edntegra pelo canal do YouTube do IEA-USP em: www.youtube.com\/watch?v=XR-DJssBdSY. A confer\u00eancia \u201cMental Health and Quality of Academic Life in Universities\u201d est\u00e1 dispon\u00edvel pelo canal do YouTube da Pr\u00f3-Reitoria de Pesquisa e Inova\u00e7\u00e3o da USP (PRPI), em: www.youtube.com\/watch?v=rNqGdfqXFXs&amp;t=149s.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excesso de internet e apreens\u00e3o com crise clim\u00e1tica impactam a sa\u00fade mental de estudantes da USP &nbsp; Ag\u00eancia FAPESP* \u2013Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Uma pesquisa realizada no campus Butant\u00e3 da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) revelou \u00edndices &hellip; <a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/?p=4708&#038;lang=pt\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":378,"featured_media":4709,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-4708","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/378"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4708"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4711,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4708\/revisions\/4711"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4709"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/ppg-pst\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}