{"id":5603,"date":"2021-09-09T23:10:49","date_gmt":"2021-09-10T02:10:49","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/prolam\/?p=5603"},"modified":"2021-09-10T10:25:13","modified_gmt":"2021-09-10T13:25:13","slug":"abya-yala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prolam\/abya-yala\/","title":{"rendered":"ABYA YALA"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>ABYA YALA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Por Carlos Walter Porto-Gon\u00e7alves<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abya Yala na l\u00edngua do povo Kuna significa \u201cTerra madura\u201d, \u201cTerra Viva\u201d ou \u201cTerra em<br \/>\nflorescimento\u201d e \u00e9 sin\u00f4nimo de Am\u00e9rica. O povo Kuna \u00e9 origin\u00e1rio da Serra Nevada no<br \/>\nnorte da Col\u00f4mbia tendo habitado a regi\u00e3o do Golfo de Urab\u00e1 e das montanhas de<br \/>\nDarien e vive atualmente na costa caribenha do Panam\u00e1 na Comarca de Kuna Yala<br \/>\n(San Blas).<\/p>\n<p>Abya Yala vem sendo usado como uma autodesigna\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios do<br \/>\ncontinente como contraponto a Am\u00e9rica express\u00e3o que, embora usada pela primeira<br \/>\nvez em 1507 pelo cosm\u00f3logo Martin Wakdseem\u00fcller, s\u00f3 se consagra a partir de finais<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII e in\u00edcios do s\u00e9culo XIX por meio das elites crioulas para se afirmarem<br \/>\nem contraponto aos conquistadores europeus no bojo do processo de independ\u00eancia.<br \/>\nMuito embora os diferentes povos origin\u00e1rios que habitam o continente atribu\u00edssem<br \/>\nnomes pr\u00f3prios \u00e0s regi\u00f5es que ocupavam \u2013 Tawantinsuyu, Anauhuac, Pindorama \u2013 a<br \/>\nexpress\u00e3o Abya Yala vem sendo cada vez mais usada pelos povos origin\u00e1rios do<br \/>\ncontinente objetivando construir um sentimento de unidade e pertencimento.<\/p>\n<p>Embora alguns intelectuais, como o soci\u00f3logo catal\u00e3o-boliviano Xavier Alb\u00f3, j\u00e1<br \/>\nhouvessem utilizado a express\u00e3o Abya Yala como contraponto \u00e0 designa\u00e7\u00e3o<br \/>\nconsagrada de Am\u00e9rica, a primeira vez que a express\u00e3o foi explicitamente usada com<br \/>\nesse sentido pol\u00edtico foi na II Cumbre Continental de los Pueblos y Nacionalidades<br \/>\nInd\u00edgenas de Abya Yala realizada em Quito, em 2004. Note-se que na I<br \/>\nCumbre, realizada no M\u00e9xico no ano 2000, a express\u00e3o Abya Yala ainda n\u00e3o fora<br \/>\ninvocada como se pode ler na Declaracion de Teotihuacan quando se apresentam<br \/>\ncomo \u201clos Pueblos Ind\u00edgenas de Am\u00e9rica reafirmamos nuestros principios de<br \/>\nespiritualidad comunitaria y el inalienable derecho a la Autodeterminaci\u00f3n como<br \/>\nPueblos Originarios de este continente\u201d.<\/p>\n<p>A partir de 2007, no entanto, na III Cumbre Continental de los Pueblos y<br \/>\nNacionalidades Ind\u00edgenas de Abya Yala realizada em Iximche, Guatemala, n\u00e3o s\u00f3 se<br \/>\nautoconvocam como Abya Yala como ainda resolvem constituir uma Coordena\u00e7\u00e3o<br \/>\nContinental das Nacionalidades e Povos Ind\u00edgenas de Abya Yala,como espa\u00e7o permanente de enlace e interc\u00e2mbio, onde possam convergir<br \/>\nexperi\u00eancias e propostas, para que juntos enfrentemos as pol\u00edticas de globaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nneoliberal e lutemos pela libera\u00e7\u00e3o definitiva de nossos povos irm\u00e3os, da m\u00e3e terra, do<br \/>\nterrit\u00f3rio, da \u00e1gua e de todo patrim\u00f4nio natural para viver bem\u201d.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, nos diferentes encontros do movimento dos povos origin\u00e1rios o nome Am\u00e9rica vem sendo substitu\u00eddo por Abya Yala indicando assim n\u00e3o s\u00f3 outro nome, mas tamb\u00e9m apresen\u00e7a de outro sujeito enunciador de discurso at\u00e9 aqui calado e subalternizado em termos pol\u00edticos: os povos origin\u00e1rios. A ideia de um nome pr\u00f3prio que abarcasse todo o continente se imp\u00f4s a esses diferentes povos e nacionalidades no momento em que come\u00e7aram a superar o longo processo de isolamento pol\u00edtico a que se viram submetidos depois da invas\u00e3o de seus territ\u00f3rios em 1492 com a chegada dos europeus.<\/p>\n<p>Junto com Abya Yala h\u00e1 todo um novo l\u00e9xico pol\u00edtico que tamb\u00e9m vem sendo<br \/>\nconstru\u00eddo onde a pr\u00f3pria express\u00e3o povos origin\u00e1rios ganha sentido. Essa express\u00e3o<br \/>\nafirmativa foi a que esses povos em luta encontraram para se auto-designarem e<br \/>\nsuperarem a generaliza\u00e7\u00e3o euroc\u00eantrica de povos ind\u00edgenas. Afinal, antes da chegada<br \/>\ndos invasores europeus havia no continente uma popula\u00e7\u00e3o estimada entre 57 e 90<br \/>\nmilh\u00f5es de habitantes que se distinguiam como maia, kuna, chibcha, mixteca,<br \/>\nzapoteca, ashuar, huaraoni, guarani, tupinikin, kaiap\u00f3, aymara, ashaninka, kaxinawa,<br \/>\ntikuna, terena, qu\u00e9chua, karaj\u00e1s, krenak, araucanos\/mapuche, yanomami, xavante<br \/>\nentre tantos e tantas nacionalidades e povos origin\u00e1rios desse continente.<\/p>\n<p>A tomada dessa cidade pelos turcos, em 1453, engendrou a busca de caminhos<br \/>\nalternativos, sobretudo por parte dos grandes negociantes genoveses e que<br \/>\nencontraram apoio pol\u00edtico entre as monarquias ib\u00e9ricas e na Igreja Cat\u00f3lica Romana.<br \/>\nDesde ent\u00e3o, circuitos mercantis relativamente independentes no mundo passam a ser<br \/>\nintegrado, inclusive constituindo o circuito Atl\u00e2ntico com a incorpora\u00e7\u00e3o do<br \/>\nTawantinsuyu (regi\u00e3o do atual Peru, Equador e Bol\u00edvia, principalmente), do Anahuac<br \/>\n(regi\u00e3o do atual M\u00e9xico e Guatemala, principalmente), das terras guarani (envolvendo<br \/>\nparte da Argentina, do Paraguai, sul do Brasil e Bol\u00edvia, principalmente) e Pindorama<br \/>\n(nome com que os tupi designavam o Brasil). O car\u00e1ter perif\u00e9rico e marginal da<br \/>\nEuropa era tal que a express\u00e3o orientar-se (ir para o Oriente) indicava a relev\u00e2ncia do<br \/>\nOriente \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 com a incorpora\u00e7\u00e3o dos povos de Abya Yala e o seu subjugo pol\u00edtico,<br \/>\njuntamente com o tr\u00e1fico e a escravid\u00e3o dos negros africanos trazidos para este<br \/>\ncontinente, que se ensejar\u00e1 a centralidade da Europa. Enfim, o surgimento do sistema<br \/>\nmundo moderno se d\u00e1 junto com a constru\u00e7\u00e3o da colonialidade. \u00c9 de um sistema<br \/>\nmundo moderno-colonial que se trata, portanto. E \u00e9 esse car\u00e1ter contradit\u00f3rio inscrito<br \/>\nno sistema mundo moderno, que procura olvidar o seu car\u00e1ter tamb\u00e9m colonial, que<br \/>\nos povos origin\u00e1rios de Abya Yala v\u00eam procurando explicitar na luta \u201cpela libera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndefinitiva de nossos povos irm\u00e3os, da m\u00e3e terra, do territ\u00f3rio, da \u00e1gua e de todo<br \/>\npatrim\u00f4nio natural para viver bem\u201d. <span style=\"font-weight: 300;\">Deste modo, a descoloniza\u00e7\u00e3o do pensamento se <\/span><span style=\"font-weight: 300;\">coloca como central para os povos origin\u00e1rios de Abya Yala. Como bem assinalou Luis<\/span>Macas, da CONAIE \u2013 Coordinadora de las Nacionalidades Ind\u00edgenas del Ecuador \u2013<br \/>\n\u201cnuestra lucha es epist\u00e9mica y pol\u00edtica\u201d onde o poder de designar o que \u00e9 o mundo<br \/>\ncumpre um papel fundamental. V\u00e1rios intelectuais ligados \u00e0s lutas dos povos de Abya<br \/>\nYala t\u00eam assinalado o car\u00e1ter etnoc\u00eantrico inscrito nas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es, inclusive<br \/>\nno Estado Territorial, cujo eixo estruturante est\u00e1 na propriedade privada e que<br \/>\nencontra no Direito Romano seu fundamento.<\/p>\n<p>Apesar de sua origem regional europ\u00e9ia, os fundamentos do Estado Territorial,<br \/>\ninclusive a ideia de espa\u00e7os mutuamente excludentes, como a propriedade privada,<br \/>\ntem sido imposto ao resto do mundo como se fossem universais, ignorando as<br \/>\ndiferentes formas de apropria\u00e7\u00e3o dos recursos naturais que predominavam na maior<br \/>\nparte do mundo, quase sempre comunit\u00e1rias e n\u00e3o mutuamente excludentes. Na<br \/>\nAm\u00e9rica Latina, o fim do colonialismo n\u00e3o significou o fim da colonialidade, como<br \/>\nafirmou o soci\u00f3logo peruano An\u00edbal Quijano, explicitando o car\u00e1ter colonial das<br \/>\ninstitui\u00e7\u00f5es que sobreviveram ap\u00f3s a independ\u00eancia e que ilumina a declara\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Evo Morales Ayma quando de sua posse na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica da Bol\u00edvia,<br \/>\nem 2006, quando afirmara que \u201c\u00e9 preciso descolonizar o estado\u201d.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o se pense que se trata de uma afirma\u00e7\u00e3o abstrata, registre-se que os<br \/>\nconcursos para servidores p\u00fablicos naquele pa\u00eds eram feitos exclusivamente em<br \/>\nl\u00edngua espanhola, quando aproximadamente 62% da popula\u00e7\u00e3o pensam<br \/>\nem quechua, aymara e guarani l\u00ednguas que falam predominantemente no seu<br \/>\ncotidiano. Em pa\u00edses como a Guatemala, Bol\u00edvia, Peru, M\u00e9xico, Equador e Paraguai,<br \/>\nassim como em certas regi\u00f5es do Chile (no sul, onde vivem aproximadamente um<br \/>\nmilh\u00e3o de Araucanos\/Mapuches), da Argentina (Chaco norte\u00f1o) e<br \/>\nda Amaz\u00f4nia (brasileira, colombiana e venezuelana) o car\u00e1ter colonial do Estado se<br \/>\nfaz presente com todo seu peso.<\/p>\n<p>O \u201ccolonialismo interno\u201d, express\u00e3o consagrada por Pablo Gonzalez Casanova, se<br \/>\nmostra atual, enquanto hist\u00f3ria de longa dura\u00e7\u00e3o atualizada. N\u00e3o raro essas regi\u00f5es<br \/>\ns\u00e3o objeto de programas de desenvolvimento, quase sempre de (des)envolvimento, de<br \/>\nmoderniza\u00e7\u00e3o, quase sempre de coloniza\u00e7\u00e3o (ali\u00e1s, essas express\u00f5es, quase sempre,<br \/>\ns\u00e3o sin\u00f4nimas). A escolha do nome Abya Yala dos kuna recupera a luta por afirma\u00e7\u00e3o dos seus territ\u00f3rios de que os Kuna foram pioneiros com sua revolu\u00e7\u00e3o de 1925, consagrada em 1930 no direito de autonomia da Comarca de Kuna Yala com seus 320 mil e 600 hectares de terras mais as \u00e1guas vizinhas do arquip\u00e9lago de San Blas.<\/p>\n<p>A luta pelo territ\u00f3rio configura-se como uma das mais relevantes no novo ciclo de lutas do movimento dos povos origin\u00e1rios que se delineia a partir dos anos oitenta do s\u00e9culo<br \/>\npassado e que ganha sua maior express\u00e3o nos anos noventa e in\u00edcios do novo s\u00e9culo,<br \/>\nrevelando mudan\u00e7as profundas tanto do ponto de vista epist\u00eamico como pol\u00edtico.<br \/>\nNesse novo ciclo de lutas, ocorre um deslocamento da luta pela terra enquanto um<br \/>\nmeio de produ\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstico de um movimento que se construiu em torno da<br \/>\nidentidade camponesa, para uma luta em torno do territ\u00f3rio. As grandes Marchas pela<br \/>\nDignidade e pelo Territ\u00f3rio de 1990 que foram mobilizadas na Bol\u00edvia e no Equador<br \/>\ncom estruturas organizacionais independentes s\u00e3o marcos desse novo momento.<br \/>\n\u201cN\u00e3o queremos terra, queremos territ\u00f3rio\u201d, eis a s\u00edntese expressa num cartaz<br \/>\nboliviano.<\/p>\n<p>Assim, mais do que uma classe social, o que se v\u00ea em constru\u00e7\u00e3o \u00e9 uma comunidade<br \/>\netnopol\u00edtica, enfim, \u00e9 o indigenato (Darcy Ribeiro) se constituindo como sujeito pol\u00edtico.<br \/>\nConsidere-se que foi fundamental para essa emerg\u00eancia a tensa luta dos misquitos no<br \/>\ninterior da Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista na Nicar\u00e1gua (1979-1989) pela afirma\u00e7\u00e3o de seu<br \/>\ndireito \u00e0 diferen\u00e7a e \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios que, apesar de todo o desgaste<br \/>\nque trouxe \u00e0quela experi\u00eancia revolucion\u00e1ria, em grande parte pela colonialidade<br \/>\npresente entre as correntes pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas que a lideraram, nos legou uma das<br \/>\nmais avan\u00e7adas legisla\u00e7\u00f5es sobre os direitos de autonomia dos povos origin\u00e1rios,<br \/>\nconforme nos informa H\u00e9ctor Diaz-Polanco.<\/p>\n<p>O levantamento zapatista de 1\u00ba de janeiro de 1994 daria grande visibilidade a esse<br \/>\nmovimento que, ainda que de modo desigual, se espraia por todo o continente ao<br \/>\nmostrar, pela primeira vez na hist\u00f3ria, que os povos origin\u00e1rios come\u00e7am a dar<br \/>\nrespostas mais que locais\/regionais a suas demandas. O protagonismo desse<br \/>\nmovimento tem sido importante na luta pela reapropria\u00e7\u00e3o dos seus recursos naturais<br \/>\ncomo se pode ver em 2000, em Cochabamba, na Guerra del \u00c1gua e, em 2005, na<br \/>\nGuerra do G\u00e1s, ambas na Bol\u00edvia, mas tamb\u00e9m entre os araucanos\/mapuche,<br \/>\nno Chile, na luta pela reapropria\u00e7\u00e3o do rio Bio Bio amea\u00e7ado pela constru\u00e7\u00e3o de<br \/>\nhidrel\u00e9tricas, ou ainda na luta contra a explora\u00e7\u00e3o petroleira no Parque Nacional de<br \/>\nYasuny, na Amaz\u00f4nia equatoriana, ou na fronteira colombio-venezuelana tamb\u00e9m na<br \/>\nluta contra a explora\u00e7\u00e3o petroleira, entre tantos outros exemplos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/prolam\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2021\/09\/abya.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-5604\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/prolam\/wp-content\/uploads\/sites\/35\/2021\/09\/abya-300x214.jpg\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"240\" \/><\/a><br \/>\n<em>Menina cayap\u00f3 brincando com uma boneca durante uma cerim\u00f4nia em Bel\u00e9m do Par\u00e1 <\/em><br \/>\n<em>(Leila Jinkings)<\/em><\/p>\n<p>Esse movimento tem sido fundamental ainda na luta pela preserva\u00e7\u00e3o da diversidade<br \/>\nbiol\u00f3gica, em grande parte associada \u00e0 diversidade cultural e lingu\u00edstica. A dimens\u00e3o<br \/>\nterritorial desse movimento se mostra tamb\u00e9m no seu protagonismo diante das novas<br \/>\nestrat\u00e9gias supranacionais de territorializa\u00e7\u00e3o do capital, como no caso do NAFTA,<br \/>\nda ALCA e dos TLCs. O movimento zapatista explicitou melhor que qualquer outro<br \/>\nesse sentido, ao fazer emergir o M\u00e9xico Profundo, poder-se-ia dizer a Am\u00e9rica<br \/>\nProfunda, exatamente no dia em que se assinava o NAFTA.<br \/>\nO protagonismo do movimento dos povos origin\u00e1rios tamb\u00e9m foi importante na luta<br \/>\ncontra a Alca e aos Tratados de Livre Com\u00e9rcio que se seguiu \u00e0 derrota da Alca.<br \/>\nComo se v\u00ea, a luta pelo territ\u00f3rio assume um car\u00e1ter central e numa perspectiva<br \/>\nte\u00f3rico-pol\u00edtica inovadora na medida em que a dimens\u00e3o subjetiva, cultural, se v\u00ea<br \/>\naliada \u00e0 dimens\u00e3o material \u2013 \u00e1gua, biodiversidade, terra.<\/p>\n<p>Territ\u00f3rio \u00e9, assim, natureza + cultura, como insistem o antrop\u00f3logo colombiano Arturo<br \/>\nEscobar e o epistem\u00f3logo mexicano Enrique Leff, e a luta pelo territ\u00f3rio se mostra com<br \/>\ntodas as suas implica\u00e7\u00f5es epist\u00eamicas e pol\u00edticas. Quando observamos as regi\u00f5es de<br \/>\nnosso continente que abrigam a maior riqueza em biodiversidade e em \u00e1gua podemos<br \/>\nver o qu\u00e3o estrat\u00e9gicos esses povos s\u00e3o e tendem cada vez mais a ser diante das<br \/>\nnovas fronteiras de expans\u00e3o do capital (Diaz-Polanco, Cece\u00f1a e Ornelas).<\/p>\n<p>Abya Yala se coloca assim como um atrator (Prigogine) em torno do que outro sistema<br \/>\npode se configurar. \u00c9 isso que os povos origin\u00e1rios est\u00e3o propondo com esse outro<br \/>\nl\u00e9xico pol\u00edtico. N\u00e3o olvidemos que dar nome pr\u00f3prio \u00e9 se apropriar. \u00c9 tornar pr\u00f3prio um<br \/>\nespa\u00e7o pelos nomes que se atribui aos rios, \u00e0s montanhas, aos bosques, aos lagos,<br \/>\naos animais, \u00e0s plantas e por esse meio um grupo social se constitui como tal<br \/>\nconstituindo seus mundos de vida, seus mundos de significa\u00e7\u00e3o e tornando um<br \/>\nespa\u00e7o seu espa\u00e7o \u2013 um territ\u00f3rio. A linguagem territorializa e, assim,<br \/>\nentre Am\u00e9rica e Abya Yala se revela uma tens\u00e3o de territorialidades.<\/p>\n<p>Bibliografia<br \/>\nALB\u00d3, Xavier; BARRIOS, Ra\u00fal: Cultura y pol\u00edtica, vol. 1: \u201cViolencias encubiertas en<br \/>\nBolivia\u201d, Aruwyiri, La Paz, CIPCA, 1993.<br \/>\nCECE\u00d1A, Ana Esther: \u201cLos desaf\u00edos del mundo en que caben todos los mundos y la<br \/>\nsubversi\u00f3n del saber hist\u00f3rico de la lucha\u201d, Revista Chiapas, n\u00fam. 16, M\u00e9xico, D.F.,<br \/>\nIIE-UNAM-Clacso, 2004.<br \/>\nESCOBAR, Arturo: La invenci\u00f3n del tercer mundo: construcci\u00f3n y deconstrucci\u00f3n del<br \/>\ndesarrollo, Bogot\u00e1, Norma, 1996.<br \/>\nD\u00c1VALOS, Pablo: Yuyarinakuy: \u201cdigamos lo que somos, antes que otros nos den<br \/>\ndiciendo lo que no somos\u201d, Quito, Ediciones Icci-Abya Yala, 2001.<br \/>\nD\u00cdAZ-POLANCO, H\u00e9ctor: El canon Snorri: diversidad cultural y tolerancia, M\u00e9xico,<br \/>\nUniversidad de la Ciudad de M\u00e9xico, 2004.<br \/>\nGONZ\u00c1LEZ CASANOVA, Pablo: \u201cColonialismo Interno (una redefinici\u00f3n)\u201d, en<br \/>\nBORON, A., AMADEO, J. y GONZ\u00c1LEZ, S. (comps.), La teor\u00eda marxista hoy:<br \/>\nproblemas y perspectivas, Buenos Aires, Clacso, 2006.<br \/>\nLEFF, Enrique: Racionalidad ambiental: la reapropiaci\u00f3n social de la naturaleza,<br \/>\nM\u00e9xico, D.F., Siglo XXI, 2004.<br \/>\nMACAS, Luis: \u201cReflexiones sobre el sujeto comunitario, la democracia y el<br \/>\nEstado\u201d, Entrevista realizada por Daniel Mato, en MACAS, L. y D\u00c1VALOS,<br \/>\nP., Entrevistas a Intelectuales Ind\u00edgenas, n\u00fam. 3, Caracas, Programa Globalizaci\u00f3n,<br \/>\nCultura y Transformaciones Sociales, CIPOST, FaCES, Universidad Central de<br \/>\nVenezuela. Disponible en: http:\/\/www.globalcult.org.ve\/entrevistas.html.<br \/>\nPORTO-GON\u00c7ALVES, Carlos Walter: \u201cLatifundios gen\u00e9ticos y existencia<br \/>\nind\u00edgena\u201d, Revista Chiapas, n\u00fam. 14, M\u00e9xico, D.F., IIE-UNAM, 2002.<br \/>\nQUIJANO, An\u00edbal: \u201cColonialidad del poder, eurocentrismo y Am\u00e9rica Latina\u201d, en<br \/>\nLANDER, Edgardo (comp.), La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias<br \/>\nsociales, Buenos Aires, Clacso, 2000.<br \/>\nRIVERA CUSICANQUI, Silvia: Oprimidos pero no vencidos: luchas del campesinado<br \/>\naymara y qhechwa de Bolivia, 1980-1990, La Paz, CSUTCB, s\/d.<br \/>\nVENTOCILLA, Jorge., HERRERA, Heraclio; N\u00da\u00d1EZ, Valerio: El esp\u00edritu de la<br \/>\ntierra: plantas y animales en la vida del pueblo Kuna, Quito, Abya Yala, 1999<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABYA YALA Por Carlos Walter Porto-Gon\u00e7alves &nbsp; Abya Yala na l\u00edngua do povo Kuna significa \u201cTerra madura\u201d, \u201cTerra Viva\u201d ou \u201cTerra em florescimento\u201d e \u00e9 sin\u00f4nimo de Am\u00e9rica. 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