A Rede ProspecMar, que hoje é composta por grupos de pesquisa estabelecidos em 14 instituições públicas de ensino espalhadas por quase todo o Brasil, tem sua origem em 2002, quando a coordenadora, professora Letícia Veras Costa Lotufo, iniciou sua carreira docente na Universidade Federal do Ceará (UFC) à frente do Laboratório de Ecotoxicologia Marinha no Instituto de Ciências do Mar (Ecotox – Labomar). Sua linha de pesquisa focava em buscar produtos naturais marinhos com atividade anticâncer a partir de ascídias e esponjas presentes no litoral cearense.

No ano de 2009, enquanto Lotufo realizava pós-doutorado na Universidade de San Diego, na California (EUA), o foco principal de sua pesquisa mudou dos macroorganismos para os microrganismos – as bactérias marinhas. Uma das principais motivações para essa mudança foi a sustentabilidade na pesquisa, já que para isolar pequenas quantidades de substâncias a partir das ascídias e esponjas é necessário retirar uma grande quantidade desses organismos de seu habitat, enquanto para pesquisar bactérias, coleta-se pouco material pois é possível cultivá-las em laboratório, através de fermentação, até a obtenção das quantidades necessárias.

O MicroMarin, banco de bactérias de origem marinha que hoje conta com quase 2000 cepas armazenadas e catalogadas, e é considerado um tesouro de grande valor científico, é fruto dessa decisão.

A pesquisadora conta que foram dois principais financiamentos que possibilitaram o estabelecimento de uma infraestrutura adequada para os estudos desenvolvidos em seu grupo: um projeto de ecotoxicologia aprovado em 2003 pela Petrobrás e um projeto de bioprospecção aprovado em 2009 pelo CNPq em um edital específico para biotecnologia marinha. “Esse apoio [do CNPq] foi um divisor de águas para o nosso laboratório”, afirma Lotufo. Foi a partir desse momento que o grupo se fortaleceu, atuando em duas frentes de pesquisa, e passou a estabelecer parcerias com pesquisadores de outras instituições, como as Universidades de São Paulo e Federal Fluminense. Em 2015, a pesquisadora passou a ser docente da USP, levando sua linha de pesquisa para a nova instituição.De 2010 em diante, foram diversas as conexões construídas no âmbito de diferentes projetos: Rede Nacional em Pesquisas em Biodiversidade Marinha (SISBIOTA-Mar – 2010), Programa Ecológico de Longa Duração nas Ilhas Oceânicas (PELD-ILOC – 2012), Prospecção Sustentável em Ilhas Oceânicas: Biodiversidade, Química, Ecologia e Biotecnologia (ProArquipelago – 2013), Abordagem Integrada na Prospecção de Produtos Naturais Marinhos (Temático FAPESP – 2017), Sistema Holobiontes como Fontes de Substâncias Bioativas (ProArquipelago – 2019) e Prospecção de Recursos Naturais e Serviços Ecossistêmicos a partir da Biodiversidade Marinha (ProspecMar – 2022). Assim, hoje a rede é formada por 28 pesquisadores e dezenas de alunos, com seus grupos de pesquisa espalhados pelas regiões Norte, Nordeste Sudeste e Sul do Brasil, além de contar com colaborações internacionais nos Estados Unidos, África do Sul e Portugal afinal, como afirma a coordenadora, “não se faz ciência e não se transborda a ciência, se não juntar muita gente diferente”.