{"id":1074,"date":"2014-10-24T10:12:45","date_gmt":"2014-10-24T12:12:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=1074"},"modified":"2014-12-11T10:25:37","modified_gmt":"2014-12-11T12:25:37","slug":"lulas-em-foco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/1074","title":{"rendered":"Lulas em foco"},"content":{"rendered":"<p>As lulas s\u00e3o moluscos cefal\u00f3podes de particular import\u00e2ncia ecol\u00f3gica em diversos ambientes marinhos ao redor do mundo, sendo tamb\u00e9m considerados recursos pesqueiros de alto valor nutricional\u00a0e interesse para a alimenta\u00e7\u00e3o humana. Estudar diferentes aspectos relacionados \u00e0 din\u00e2mica populacional das lulas e \u00e0 dimens\u00e3o humana associada a sua extra\u00e7\u00e3o pela pesca s\u00e3o alguns dos objetivos do projeto \u201cA Lula (Cephalopoda: Loliginidae) como recurso da pesca no litoral norte do Estado de S\u00e3o Paulo: din\u00e2mica populacional, oceanografia pesqueira e a dimens\u00e3o humana associada\u201d, coordenado pela pesquisadora Maria de los Angeles (Mary) Gasalla, do Instituto Oceanogr\u00e1fico da USP.<\/p>\n<p>As primeiras pesquisas de Gasalla no final da d\u00e9cada de 90 tinham como foco as lulas que desembarcavam em Santos e S\u00e3o Sebasti\u00e3o como recurso pesqueiro, \u201cv\u00edamos os tamanhos dos exemplares advindos da pesca, mas faltavam muitos elementos para compreender a din\u00e2mica populacional dessas peculiares criaturas\u201d, explica a pesquisadora. O primeiro passo para uma melhor compreens\u00e3o foi reunir diferentes pesquisadores que trabalhavam com o mesmo grupo no sul do Brasil e padronizar o m\u00e9todo de coleta de dados. Com os dados coletados em diferentes portos no Brasil, os pesquisadores puderam lan\u00e7ar novas hip\u00f3teses sobre a din\u00e2mica dessas popula\u00e7\u00f5es, e contribuir com o ent\u00e3o programa Revizee (<a href=\"http:\/\/www.mma.gov.br\/biodiversidade\/biodiversidade-aquatica\/zona-costeira-e-marinha\/programa-revizee\" target=\"_blank\">Programa de Avalia\u00e7\u00e3o do Potencial Sustent\u00e1vel de Recursos Vivos na Zona Econ\u00f4mica Exclusiva<\/a>).<\/p>\n<p>\u201cCom esse esfor\u00e7o n\u00f3s conseguimos fazer uma primeira revis\u00e3o dessas esp\u00e9cies e verificamos que o grupo tinha uma complexidade muito particular nas suas estrat\u00e9gias de ciclo de vida. Quanto mais estud\u00e1vamos, as perguntas sobre a din\u00e2mica populacional das lulas s\u00f3 aumentavam e se tornavam mais instigantes: onde e quando a esp\u00e9cie desova, quando recruta, por que se agrega em \u00e1reas espec\u00edficas, que correntes mar\u00edtimas as trazem para o litoral, aonde vivem os indiv\u00edduos pequenos, o que busca na costa de S\u00e3o Paulo. E precis\u00e1vamos de outros dados al\u00e9m daqueles da pesca comercial\u201d, relembra a professora.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/lulas3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"lulas3\" src=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/189x141xlulas3-300x224.jpg.pagespeed.ic.CWABtbf9I2.webp\" width=\"189\" height=\"141\" \/><\/a>Um dos caminhos escolhidos foi a busca de amostras de lula nas cole\u00e7\u00f5es de pl\u00e2ncton mantidas no pr\u00f3prio Instituto Oceanogr\u00e1fico. O acervo do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1413-77392003000100001\" target=\"_blank\">Prof. Yasunobu Matsuura<\/a>\u00a0(<em>in memoriam<\/em>), de ovos e larvas, n\u00e3o havia ainda sido investigado em rela\u00e7\u00e3o a outros grupos que n\u00e3o os peixes, uma possibilidade vislumbrada por Gasalla. A verifica\u00e7\u00e3o das amostras hist\u00f3ricas confirmou a exist\u00eancia de larvas de lulas e a possibilidade do uso de redes de pl\u00e2ncton como m\u00e9todo de coleta para esses est\u00e1gios iniciais do ciclo de vida.<\/p>\n<p>A partir dessas perspectivas, foi apresentado um projeto com uma metodologia mais ampla que dialogasse com as pesquisas realizadas em outros locais com tradi\u00e7\u00e3o em cefal\u00f3podes, como a Espanha e a \u00c1frica do Sul. O projeto se focou em uma \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o t\u00edpica de lulas no litoral norte de S\u00e3o Paulo \u2013 a Ilha de S\u00e3o Sebasti\u00e3o \u2013 e na tradi\u00e7\u00e3o da pesca artesanal pelas popula\u00e7\u00f5es locais. Foi assim apresentado ao edital Biota-Biodiversidade Marinha: um projeto de car\u00e1ter ecossist\u00eamico, com perspectivas de cobrir as quest\u00f5es desconhecidas pelos pesquisadores do sul e sudeste do Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/lulas6.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" alt=\"lulas6\" src=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/150x125xlulas6-150x125.jpg.pagespeed.ic.NT6t1u0Ojp.webp\" width=\"150\" height=\"125\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cEu notei que uma abordagem mais multidisciplinar seria um dos desafios mais interessante para a inova\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o do Programa Biota\u201d, explica Gasalla, \u201cn\u00e3o me refiro a quest\u00e3o dos temas interdisciplinares\u00a0<em>per se<\/em>, mas realmente na quest\u00e3o de integrar diversas \u00e1reas e m\u00e9todos de pesquisa no olhar sobre um determinado grupo biol\u00f3gico em particular. Ou seja, al\u00e9m da abordagem ecossist\u00eamica que vinhamos desenvolvendo para a pesca, achei que meu grupo de pesquisa poderia dar sua contribui\u00e7\u00e3o nessa tentativa de integrar diversos estudos distintos (modelagem biof\u00edsica, biologia populacional, comportamento, comunidades pesqueiras) sobre uma dada esp\u00e9cie da biodiversidade marinha\u201d. O grupo coordenado por Gasalla focou os estudos em uma esp\u00e9cie de lula costeira (<strong><em>Doryteuthis plei<\/em><\/strong>) que habita as \u00e1guas da nossa costa. Esp\u00e9cie que havia se mostrado complexa (tanto em termos biol\u00f3gicos como ecol\u00f3gicos e populacionais) nos estudos anteriores. Al\u00e9m disso, o projeto se prop\u00f4s a investigar a dimens\u00e3o humana da pesca da lula a partir de entrevistas com pescadores locais e informa\u00e7\u00f5es fornecidas pela cooperativa de pesca sobre volumes e pre\u00e7os comercializados. \u201c\u00c9 uma proposta multidisciplinar inovadora, pois em raros locais do mundo se estudam conjuntamente todos os est\u00e1gios do ciclo de vida e comportamento das lulas aliados a modelos de dispers\u00e3o larval at\u00e9 aspectos das comunidades tradicionais e comportamento dos pescadores\u201d, afirma Gasalla.<\/p>\n<p>O projeto atingiu diversos resultados in\u00e9ditos: localizou e filmou pela primeira vez desovas f\u00edsicas da esp\u00e9cie em \u00e1reas rasas da costa de S\u00e3o Sebasti\u00e3o e Ubatuba (que permitiram acompanhar o desenvolvimento embrion\u00e1rio dos ovos e paralarvas das lulas) e coletou amostras de paralarvas ao redor da Ilhabela, assim como de indiv\u00edduos adultos e jovens, confirmando a presen\u00e7a de todos os est\u00e1gios do ciclo de vida da lula na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/lulas5.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" alt=\"lulas5\" src=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/150x150xlulas5-150x150.jpg.pagespeed.ic.ISrwAPIbUH.webp\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>A partir da manuten\u00e7\u00e3o de exemplares vivos em tanques de laborat\u00f3rio foi poss\u00edvel verificar aspectos comportamentais relacionados \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o, dan\u00e7a nupcial e desova. As taxas de crescimento da esp\u00e9cie foram estimadas a partir da contagem de an\u00e9is de crescimento encontrados nos estat\u00f3litos (estruturas compostas de carbonato de c\u00e1lcio, na forma de cristais de aragonita que, nessa esp\u00e9cie, marcam ciclos di\u00e1rios de crescimento por meio da deposi\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias). Os padr\u00f5es reprodutivos foram estudados e as \u00e1reas mais prop\u00edcias pra reprodu\u00e7\u00e3o em torno de Ilhabela foram mapeadas, observando-se uma maior intensidade reprodutiva no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 modelagem quantitativa, primeiro um modelo hidrodin\u00e2mico regional (<a href=\"http:\/\/www.ccpo.odu.edu\/POMWEB\/\" target=\"_blank\">Princeton Ocean Model<\/a>) foi re-escalonado para a \u00e1rea de estudo e rodado, inicialmente, para um per\u00edodo de 5 anos. Esses dados foram acoplados a um modelo de base individual, o que permitiu a estimativa de padr\u00f5es de dispers\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o larval, um dado de grande relev\u00e2ncia para previs\u00f5es de sobreviv\u00eancia larval e produ\u00e7\u00e3o pesqueira anual.<\/p>\n<p>O estudo da pesca e do comportamento dos pescadores tamb\u00e9m revelou que ocorrem varia\u00e7\u00f5es ano a ano e que, al\u00e9m do cooperativismo, comunidades tradicionais desempenham um papel importante.<br \/>\n\u201cA partir desse projeto o leque de quest\u00f5es que a gente abordou sobre esse grupo se ampliou consideravelmente\u201d, ressalta Gasalla, \u201cent\u00e3o encontramos muitas possibilidades de novas parcerias que se abrem como, por exemplo, nas \u00e1reas de etologia, biologia celular e molecular, gen\u00e9tica e evolu\u00e7\u00e3o, modelagem quantitativa para ecologia populacional ou biof\u00edsica e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/lulas2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" alt=\"lulas2\" src=\"http:\/\/www.biota.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/150x150xlulas2-150x150.jpg.pagespeed.ic.pbZDtVWDIj.webp\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<p>A possibilidade de ter um projeto dentro do Programa Biota representa, segundo Gasalla, \u201cuma potencialidade de maior alcance, interc\u00e2mbio, trocas, divulga\u00e7\u00e3o e at\u00e9 amplia\u00e7\u00e3o do contexto da pesquisa individual. \u201cAcredito que o diferencial \u00e9 o tentar responder quest\u00f5es cient\u00edficas mais amplas sobre a biodiversidade, que tenham interesse imediato para a sociedade. Por outro lado, o trabalho vinculado a um grande Programa pode receber certa \u00eanfase e se consolidar como refer\u00eancia para determinado grupo biol\u00f3gico ou como proposta metodol\u00f3gica que pode ser replicada para outros grupos, outros biomas, outras oportunidades cient\u00edficas\u201d, conclui Gasalla.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Reportagem:\u00a0\u00c9rica Speglich, do Boletim Biota Highlights\/FAPESP<\/em><\/p>\n<p><em>fotos:\u00a0Mary Gasalla e Felippe Postuma \u2013 LabPesq\/IOUSP<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto foca na din\u00e2mica populacional e dimens\u00f5es humanas associadas \u00e0 pesca de lulas na costa norte do estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-1074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1074"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1076,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1074\/revisions\/1076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}