{"id":2048,"date":"2015-09-08T15:47:02","date_gmt":"2015-09-08T18:47:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2048"},"modified":"2015-10-06T16:29:04","modified_gmt":"2015-10-06T19:29:04","slug":"cai-em-60-o-numero-de-variedades-de-feijao-comercializadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2048","title":{"rendered":"Cai em 60% o n\u00famero de variedades de feij\u00e3o comercializadas"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Igor Truz, da Ag\u00eancia Universit\u00e1ria de Not\u00edcias<\/em><\/p>\n<p>S\u00edmbolo da alimenta\u00e7\u00e3o nacional, o feij\u00e3o sofreu uma vertiginosa queda nas variedades consumidas no Brasil nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas. Dados apontam que, de 1973 at\u00e9 2009, os nomes de feij\u00f5es comercializados em territ\u00f3rio nacional ca\u00edram de 395 para 149. Mais do que isso, no mesmo per\u00edodo, a queda registrada na quantidade consumida foi de 49%.<\/p>\n<p>Segundo a historiadora Adriana Salay Leme, uma das principais raz\u00f5es para os n\u00fameros \u00e9 a forma como o feij\u00e3o passou a ser produzido e comercializado, concentrado principalmente em grandes empacotadoras e redes de supermercado. A introdu\u00e7\u00e3o do feij\u00e3o-carioca tamb\u00e9m teria sido determinante para as mudan\u00e7as no padr\u00e3o de consumo.<\/p>\n<p>\u201cEle [feij\u00e3o-carioca] \u00e9 uma variedade muito recente, de meados da d\u00e9cada de 1970. Tanto \u00e9 que nem \u00e9 mencionado nos dados pesquisados em 1973, ponto inicial do estudo\u201d, explica a historiadora. De acordo com ela, o novo gr\u00e3o foi incentivado pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria) e pelo IAC (Instituto Agron\u00f4mico de Campinas) por sua alta produtividade, e acabou ganhando o mercado, tornando-se protagonista na mesa de todo Brasil enquanto muitas variedades regionais deixaram de existir.<\/p>\n<p>O outro ponto de destaque para explicar a queda na quantidade consumida de feij\u00e3o \u00e9 a mudan\u00e7a nos padr\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o tanto nas \u00e1reas metropolitanas como na zona rural brasileira. Os n\u00fameros apontam que, enquanto o consumo de feij\u00e3o cai, a variedade de outros alimentos, como carne, macarr\u00e3o e produtos industrializados, \u00e9 cada vez mais frequente na mesa dos brasileiros.<\/p>\n<p>O tema foi explorado por Adriana em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado Feij\u00e3o, dono das tradi\u00e7\u00f5es: representa\u00e7\u00e3o identir\u00e1ria e consumo efetivo no Brasil (1973-2009) , desenvolvida no departamento de Hist\u00f3ria da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas).<\/p>\n<p>\u201cNa gradua\u00e7\u00e3o trabalhei com o processo de independ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina e comecei a me interessar pelo tema da identidade nacional. Ao mesmo tempo, cursei a mat\u00e9ria Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o, do professor Henrique Carneiro, e achei o tema interessante e pouco explorado no campo da Hist\u00f3ria. Assim, procurei problematizar a quest\u00e3o do debate nacional dentro da alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, explica a historiadora.<\/p>\n<p><strong>Semelhan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da an\u00e1lise de n\u00fameros do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica), da Embrapa e da FAO (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o), Adriana tamb\u00e9m analisou a historiografia e documentos, como cadernos de viagens, para pesquisar como o feij\u00e3o ganhou a propor\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolo nacional.<\/p>\n<p>A historiadora afirma que \u00e9 importante destacar o fato de que, apesar do feij\u00e3o ser consumido na Europa e na Am\u00e9rica antes mesmo da coloniza\u00e7\u00e3o, os tipos de gr\u00e3os presentes nos dois territ\u00f3rios era significativamente diferente. Na Europa, as esp\u00e9cies consumidas eram de origem asi\u00e1tica e africana. Pela semelhan\u00e7a, aqueles gr\u00e3os passaram seu nome para as variedades presentes no Brasil.<\/p>\n<p>Segundo Adriana, as esp\u00e9cies presentes em nosso territ\u00f3rio j\u00e1 eram conhecidas e cultivadas pelos povos ind\u00edgenas. No entanto, o feij\u00e3o n\u00e3o era o principal prato e servia de reserva para os grandes alimentos: milho e mandioca, dependendo da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando os portugueses chegaram, encontraram neste alimento uma semelhan\u00e7a do que havia em sua terra natal, passando a cozinha-los da mesma forma que faziam l\u00e1, com caldo, diferente dos nativos que consumiam mais seco\u201d, explica a pesquisadora. O modo de preparo tornou o consumo de feij\u00e3o mais interessante e ele teve um aumento paulatino com o passar dos anos. No s\u00e9culo 19, ele j\u00e1 era considerado um dos principais alimentos do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo<\/strong><\/p>\n<p>O estudo contextualiza que, no mesmo s\u00e9culo 19, a independ\u00eancia do Brasil trouxe uma unidade pol\u00edtica para a na\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o uma identidade coletiva. Por mais que o Brasil estivesse registrado no papel, os brasileiros ainda se identificavam muito mais com os costumes regionais do que com a ideia de pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para tentar criar a no\u00e7\u00e3o do tamanho do Brasil, ao longo dos s\u00e9culos 19 e 20 algumas ferramentas foram utilizadas, como o relato de viajantes. O crescimento deste g\u00eanero liter\u00e1rio fez crescer tamb\u00e9m o retrato da mesa brasileira dentro das narrativas e, dentro delas, o consumo de feij\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEntendo como ponto central da constru\u00e7\u00e3o desta identidade, de boa parte da \u2018brasilidade\u2019, o per\u00edodo modernista (1922-1945). Aqui, os atores buscavam mostrar como era esse pa\u00eds e tentavam construir uma imagem \u00fanica dele. O feij\u00e3o, que j\u00e1 era retratado como fundamental na alimenta\u00e7\u00e3o, entra como protagonista neste processo, como expoente para falar da na\u00e7\u00e3o no prato\u201d, explica Adriana.<\/p>\n<p>Para a historiadora, apesar das recentes mudan\u00e7as, o feij\u00e3o ainda \u00e9 um s\u00edmbolo nacional.<\/p>\n<p>\u201cA queda n\u00e3o \u00e9 apenas na variedade, mas tamb\u00e9m na quantidade consumida. O feij\u00e3o vem com uma mudan\u00e7a de consumo nos \u00faltimos 40 anos. Por\u00e9m, o discurso sobre o comer do brasileiro ainda n\u00e3o acompanha essas mudan\u00e7as, que s\u00e3o lentas ao longo dos anos, e ele ainda \u00e9 considerado o dono das tradi\u00e7\u00f5es\u201d, conclui.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria original est\u00e1 dispon\u00edvel no <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/aun\/exibir.php?id=7087&amp;edicao=1238\">site da AUN<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diferen\u00e7as no modo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dos gr\u00e3os foram determinantes para a redu\u00e7\u00e3o. Apesar do consumo ter ca\u00eddo quase 50%, alimento ainda \u00e9 s\u00edmbolo nacional. <\/p>\n","protected":false},"author":143,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2048","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/143"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2048"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2048\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2050,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2048\/revisions\/2050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}