{"id":2537,"date":"2015-12-08T11:20:42","date_gmt":"2015-12-08T13:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2537"},"modified":"2016-02-29T16:03:19","modified_gmt":"2016-02-29T19:03:19","slug":"geociencias-permitem-preservacao-patrimonio-historico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2537","title":{"rendered":"Patrim\u00f4nio hist\u00f3rico nas m\u00e3os das Geoci\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><em>Monumento a Ramos de Azevedo, Teatro Municipal e at\u00e9 Catedral da S\u00e9 tem seu estado de conserva\u00e7\u00e3o avaliado atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas n\u00e3o destrutivas das geoci\u00eancias \u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Por Bruno Vaiano<\/em><\/p>\n<p>Muita pedra por a\u00ed j\u00e1 se tornou c\u00e9lebre ap\u00f3s uma pitada de inspira\u00e7\u00e3o, arte e arquitetura. \u201cPeda\u00e7os de montanha\u201d que antes repousavam discretos sob a superf\u00edcie em que caminhamos cruzam a barreira de interesse dos ge\u00f3logos e s\u00e3o eternizados nas paredes de pr\u00e9dios e nos corpos de esculturas. Os cientistas da terra, por\u00e9m, precisam ficar \u201cde olho\u201d na conserva\u00e7\u00e3o dessas rochas.<\/p>\n<p>O revestimento p\u00e9treo\u00a0de pr\u00e9dios como o Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo e a Catedral da S\u00e9, ambos no cora\u00e7\u00e3o da capital paulista, n\u00e3o t\u00eam uma vida das mais f\u00e1ceis. Urina, picha\u00e7\u00f5es, polui\u00e7\u00e3o e o imprevis\u00edvel clima da terra da garoa s\u00e3o apenas um resumo dos desafios di\u00e1rios dessas pedras, que tamb\u00e9m sofrem com suas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas.<\/p>\n<p>Alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do N\u00facleo de Apoio \u00e0 Pesquisa em Patrim\u00f4nio Geol\u00f3gico e Geoturismo (GeoHereditas) da USP, orientados pela professora Eliane Aparecida Del Lama, se dedicam a avaliar a situa\u00e7\u00e3o das rochas\u00a0das esculturas e edif\u00edcios mais famosos de S\u00e3o Paulo atrav\u00e9s de m\u00e9todos n\u00e3o-destrutivos. Ou seja: vale tudo, menos tirar peda\u00e7o.<\/p>\n<p>Elaine aborda o assunto tanto na gradua\u00e7\u00e3o quanto na p\u00f3s. \u201cOs alunos gostam. Nos primeiros anos era algo novo, mas depois o interesse foi surgindo e aumentando, tanto para o patrim\u00f4nio constru\u00eddo como para o natural\u201d, conta Eliane sobre a procura pelo tema. \u201cHoje temos uma linha de pesquisa na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o no Programa Mineralogia e Petrologia, e ela tem atra\u00eddo muitos alunos\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora do Instituto de Geoci\u00eancias (IGc) explica que as rochas em si, velhas conhecidas dos ge\u00f3logos, n\u00e3o s\u00e3o um grande desafio. O problema \u00e9 a quantidade: \u201cO que muda muito \u00e9 a amostragem. Ge\u00f3logo costuma coletar muita amostra para fazer as an\u00e1lises qu\u00edmicas, no caso do patrim\u00f4nio a coleta \u00e9 a menor poss\u00edvel. E quando h\u00e1 materiais mais delicados, o cuidado \u00e9 maior\u201d.<\/p>\n<p><strong>Monumento \u00e0 Ramos de Azevedo<\/strong><\/p>\n<p>Danielle Grossi, uma de suas orientandas, n\u00e3o precisou ir longe para encontrar seu objeto de an\u00e1lise. O monumento a Ramos de Azevedo, localizado em uma rotat\u00f3ria pr\u00f3xima \u00e0 Escola Polit\u00e9cnica (EP), foi alvo de seu mestrado. \u201cEle foi transportado para dois locais diferentes. Alguns trabalhos mostram a grande degrada\u00e7\u00e3o que sofre um monumento, principalmente um deste tamanho, quando transportado\u201d, conta Danielle. A obra de Galileo Emendabili, terminada em 1934, ficava na Av. Tiradentes at\u00e9 ser levada, por causa das obras da Linha 1 \u2013 Azul do Metr\u00f4, para a Cidade Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o gerou muitos problemas. O monumento est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o, mas sofre com a sujeira e est\u00e1 um pouco amarelado,\u00a0o que pode ser causado pela degrada\u00e7\u00e3o da biotita, um dos minerais que entram em sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Catedral da S\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Diego Machado, outro orientando de Eliane, verificou as rochas da Catedral da S\u00e9, templo de apenas 61 anos de idade que j\u00e1 encarou uma restaura\u00e7\u00e3o na passagem para o s\u00e9culo XXI. Para resolver o problema de analisar o material sem extrair amostras, ele confia na colabora\u00e7\u00e3o de outros campos do conhecimento. \u201cOs testes, com contribui\u00e7\u00f5es da f\u00edsica, da geof\u00edsica, da qu\u00edmica e da biologia, s\u00e3o t\u00e3o confi\u00e1veis quanto os outros mais invasivos\u201d, comenta.<\/p>\n<p>No arsenal de Diego h\u00e1 equipamentos e t\u00e1ticas com nomes compridos, mas explica\u00e7\u00f5es simples, como o <em>espectrofot\u00f4metro<\/em>. A m\u00e1quina \u2018enxerga\u2019 cores com precis\u00e3o e par\u00e2metro, compensando a subjetividade do olho humano. Atrav\u00e9s da compara\u00e7\u00e3o das cores de uma de rocha intacta com as de uma rocha exposta ao clima e \u00e0s ruas, \u00e9 poss\u00edvel verificar \u201cse o material sofreu alguma limpeza excessiva, se est\u00e1 muito sujo, engordurado ou manchado por fatores externos, e se os pr\u00f3prios minerais est\u00e3o se alterando por fatores internos\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>Outros s\u00e3o velhos conhecidos nossos, como o <em>ultrassom. <\/em>\u00c9 poss\u00edvel revelar a situa\u00e7\u00e3o no interior da rocha atrav\u00e9s do tempo que ondas ultrass\u00f4nicas, inaud\u00edveis para um ser humano, levam para retornar ao aparelho que as emitiu. \u201cA onda ser\u00e1 mais r\u00e1pida quanto mais coeso for o material, e mais lenta quanto mais fragilizado ele estiver\u201d, descreve Diego.<\/p>\n<p>Sua an\u00e1lise verificou que a Catedral, ap\u00f3s o restauro ocorrido entre 1999 e 2002, est\u00e1 bem, mesmo apesar de sua constante exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 chuva \u00e1cida, tinta, fuma\u00e7a e outras surpresas paulistanas. O problema \u00e9 conserv\u00e1-la dessa forma: \u201cainda n\u00e3o h\u00e1 uma curadoria que fa\u00e7a uma manuten\u00e7\u00e3o preventiva, de forma a sempre intervir progressivamente para evitar grandes restauros\u201d, explica o pesquisador. \u201c\u00c9 o caso, por exemplo, das recentes picha\u00e7\u00f5es feministas, tiradas de forma impr\u00f3pria\u201d. No in\u00edcio de novembro, em manifesta\u00e7\u00e3o de rua contra o projeto de lei 5069, de autoria do presidente da c\u00e2mera, Eduardo Cunha, as paredes e portas da Catedral foram cobertas com picha\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao aborto e a outras pautas feministas. A remo\u00e7\u00e3o ocorreu sem m\u00e9todo cient\u00edfico, pondo em risco a fachada do edif\u00edcio hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O problema, para os pesquisadores, \u00e9 generalizado: \u201cmesmo se a prefeitura limpa um monumento, no dia seguinte est\u00e1 pichado\u201d, afirma Eliane. \u201cO que poderia melhorar a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o patrimonial. S\u00f3 se preserva o que se conhece\u201d.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o constante evita que o desgaste acumulado justifique uma obra de restauro, muito mais cara e invasiva. Mas ainda n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas nem consci\u00eancia para lidar com o \u00a0assunto. \u201cInfelizmente o Brasil investe pouco em preven\u00e7\u00e3o e seus bens tombados acabam por sucumbir a a\u00e7\u00e3o do tempo\u201d, afirma Diego. A preserva\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas da geologia \u00e9 um fen\u00f4meno recente no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cEstes estudos j\u00e1 s\u00e3o realizados na Europa e Estados Unidos h\u00e1 algum tempo\u201d, conta Danielle. \u201cComo temos um n\u00famero consider\u00e1vel de patrim\u00f4nios em pedra, est\u00e3o sendo feitas interven\u00e7\u00f5es, muitas vezes sem estudos\u201d. Ela, atualmente, pesquisa o Teatro Municipal em seu doutorado. E o GeoHereditas continua sua luta contra a degrada\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Monumento a Ramos de Azevedo, Teatro Municipal e at\u00e9 Catedral da S\u00e9 tem seu estado de conserva\u00e7\u00e3o avaliado atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas n\u00e3o destrutivas das geoci\u00eancias\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":143,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6,858],"tags":[414,812,809,524,457,517,453,807,806,805,813,71,413,814,30,811,810,815,808],"class_list":["post-2537","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","category-reportagens","tag-apoio","tag-azevedo","tag-catedral","tag-ciencias","tag-conservacao","tag-da","tag-de","tag-espectofotometro","tag-geo","tag-hereditas","tag-monumentos","tag-nap","tag-nucleo","tag-patrimonio","tag-pesquisa","tag-ramos","tag-se","tag-terra","tag-ultrassom"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2537","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/143"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2537"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2537\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2586,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2537\/revisions\/2586"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}