{"id":2724,"date":"2015-12-22T07:08:15","date_gmt":"2015-12-22T09:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2724"},"modified":"2016-01-06T07:17:01","modified_gmt":"2016-01-06T09:17:01","slug":"peixe-descrito-por-alfred-wallace-e-descrito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2724","title":{"rendered":"Peixe descrito por Alfred Wallace h\u00e1 160 anos \u00e9 descrito"},"content":{"rendered":"<p><em>Baseados em anota\u00e7\u00f5es e ilustra\u00e7\u00f5es deixadas pelo naturalista brit\u00e2nico, um bi\u00f3logo sueco e outro brasileiro descrevem esp\u00e9cimes que se perderam em naufr\u00e1gio em alto-mar<\/em><\/p>\n<p><em>Por Peter Moon, da Ag\u00eancia Fapesp<\/em><\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o no Alto Rio Negro de Alfred Russell Wallace (1823-1913), o codescobridor ao lado de Charles Darwin do mecanismo da sele\u00e7\u00e3o natural, continua rendendo dividendos cient\u00edficos mesmo hoje, 160 anos depois de sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um bi\u00f3logo sueco e outro brasileiro acabam de descrever um dos peixes coletados por Wallace, baseado nas anota\u00e7\u00f5es e ilustra\u00e7\u00f5es deixadas pelo grande naturalista brit\u00e2nico, pois os esp\u00e9cimes coletados h\u00e1 muito se perderam num naufr\u00e1gio am alto-mar.<\/p>\n<p>A nova esp\u00e9cie chama-se <i>Crenicichla monicae<\/i>. \u00c9 um jacund\u00e1 com pintas escuras de cerca de 30 cm, um peixe da fam\u00edlia dos cicl\u00eddeos, a mesma do tucunar\u00e9. Para descrev\u00ea-lo, os icti\u00f3logos Sven O. Kullander, do Museu Sueco de Hist\u00f3ria Natural, em Estocolmo, e Henrique Varella, do Museu de Zoologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, tiveram que recorrer \u00e0 an\u00e1lise dos tr\u00eas \u00fanicos esp\u00e9cimes conhecidos da esp\u00e9cie, coletados por uma expedi\u00e7\u00e3o sueca em 1923.<\/p>\n<p>Este trabalho de conota\u00e7\u00e3o tanto biol\u00f3gica quanto de hist\u00f3ria da ci\u00eancia foi <a href=\"http:\/\/www.bioone.org\/doi\/abs\/10.1643\/CI-14-169\" target=\"_blank\"><b>publicado<\/b><\/a> no peri\u00f3dico <i>Copeia<\/i>\u00a0 e contou com <b><a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/146181\/analise-de-material-tipo-e-selecao-de-caracteres-informativos-para-a-reconstrucao-filogenetica-morfo\/\" target=\"_blank\">apoio da Fapesp<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Em 31 de agosto de 1850, o jovem naturalista-viajante Alfred Wallace saiu numa canoa em dire\u00e7\u00e3o ao alto rio Negro, na conflu\u00eancia com o rio Uaup\u00e9s, a 900 km de Manaus. A miss\u00e3o de Wallace era reunir uma grande cole\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, especialmente de peixes. Ele tinha a esperan\u00e7a de vend\u00ea-la a algum museu da Europa no dia em que para l\u00e1 retornasse.<\/p>\n<p>Wallace n\u00e3o podia contar com dinheiro de fam\u00edlia, como era o caso de Darwin, que p\u00f4de se dar ao luxo de devotar a vida exclusivamente aos estudos. Wallace precisava dar duro para sobreviver e financiar seu sonho: viajar pelo mundo para conhecer e estudar o mundo natural. Ele permaneceu quase dois anos no alto rio Negro, regi\u00e3o que mesmo hoje \u00e9 isolada, in\u00f3spita e pouco explorada. L\u00e1 contraiu mal\u00e1ria e quase morreu.<\/p>\n<p>Em junho de 1852, voltou a Manaus para, em 12 de julho de 1852, embarcar no brigue <i>Helen<\/i> rumo \u00e0 Inglaterra. Ap\u00f3s 26 dias de travessia, um inc\u00eandio obrigou a tripula\u00e7\u00e3o a abandonar o navio. Wallace s\u00f3 teve tempo de salvar seus di\u00e1rios e os rascunhos dos peixes que coletou no rio Negro. Permaneceram \u00e0 deriva por dez dias, at\u00e9 serem resgatados por um navio vindo de Cuba.<\/p>\n<p>A grande aventura amaz\u00f4nica de Alfred Wallace acabou em trag\u00e9dia. Sua cole\u00e7\u00e3o estava perdida. Menos os seus desenhos, que acabaram depositados no Museu de Hist\u00f3ria Natural, em Londres.<\/p>\n<p>A redescoberta e a descri\u00e7\u00e3o da nova esp\u00e9cie de cicl\u00eddeo envolveu uma saga com diversos personagens que se desenrolou por mais de um s\u00e9culo. A trama come\u00e7ou em 1889, com a publica\u00e7\u00e3o do relato da viagem de Wallace pelo rio Negro. Entre 1923 e 1925, uma expedi\u00e7\u00e3o sueca no Amazonas coletou os tr\u00eas \u00fanicos esp\u00e9cimes conhecidos de <i>Crenicichla monicae<\/i>.<\/p>\n<p>O material permaneceu sem descri\u00e7\u00e3o, depositado por tr\u00eas d\u00e9cadas na cole\u00e7\u00e3o do Museu Sueco de Hist\u00f3ria Natural. Nos anos 1950, parte daquela cole\u00e7\u00e3o foi emprestada a Otto Schindler, o primeiro curador de ictiologia na Cole\u00e7\u00e3o Zool\u00f3gica Estatal de Munique, na Alemanha. Trata-se do mesmo museu onde se encontra a cole\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica reunida por Spix e Martius no Brasil entre 1817 e 1821.<\/p>\n<p>Schindler estava ocupado reconstruindo as cole\u00e7\u00f5es do museu, totalmente destru\u00eddo num bombardeio em 1944, na Segunda Guerra Mundial. Entre os peixes emprestados do museu sueco havia dois exemplares adultos e um filhote de jacund\u00e1 com pintas. De acordo com as suas anota\u00e7\u00f5es, Schindler percebeu que o padr\u00e3o de colora\u00e7\u00e3o daqueles exemplares representava uma nova esp\u00e9cie ainda sem descri\u00e7\u00e3o. E assim ela permaneceu. Com a morte de Schindler em 1959, a localiza\u00e7\u00e3o dos esp\u00e9cimes foi esquecida. Eles ficaram juntando p\u00f3 num arm\u00e1rio do museu de Munique pelos 30 anos seguintes.<\/p>\n<p>Em visita a Munique no in\u00edcio dos anos 1990, o curador de ictiologia do museu sueco, Sven Kullander, reencontrou a cole\u00e7\u00e3o perdida de peixes do rio Negro coletada por seus contempor\u00e2neos nos anos 1920. Assim como Schindler antes dele, Kullander reconheceu naqueles tr\u00eas esp\u00e9cimes uma nova esp\u00e9cie de jacund\u00e1, mas hesitou em descrev\u00ea-la, pois o material encontrava-se muito desbotado, ao ponto de apenas ser poss\u00edvel distinguir pintas escuras, que s\u00e3o o diagn\u00f3stico da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Kullander postergou a descri\u00e7\u00e3o na esperan\u00e7a de achar novos esp\u00e9cimes em melhor estado de conserva\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o achamos nenhum outro exemplar em nenhuma cole\u00e7\u00e3o europeia, americana ou brasileira,\u201d conta Henrique Varella. \u201cAqueles tr\u00eas indiv\u00edduos s\u00e3o os \u00fanicos de que se tem not\u00edcia.\u201d<\/p>\n<p><b>Resgate dos rascunhos<\/b><\/p>\n<p>Neste ponto, adentra na hist\u00f3ria o resgate dos rascunhos de Wallace. Em 2002, a zo\u00f3loga M\u00f4nica de Toledo-Piza Ragazzo, do Instituto de Bioci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo, reuniu os desenhos conservados em Londres e os publicou no livro <i>Peixes do Rio Negro<\/i> (Edusp).<\/p>\n<p>O livro re\u00fane 212 ilustra\u00e7\u00f5es que descrevem 180 esp\u00e9cies. Era a conex\u00e3o que faltava. Na falta de novos exemplares, a descri\u00e7\u00e3o foi feita relacionando aqueles tr\u00eas esp\u00e9cimes ao rascunho deixado por Wallace. \u201cPercebemos que o desenho no 46 tinha as pintas bem caracter\u00edsticas, muito parecidas com aquelas dos esp\u00e9cimes de jacund\u00e1,\u201d diz Varella.<\/p>\n<p>Wallace descreve o exemplar 46 assim: \u201cComprimento: 30 a 38 cm. Uma faixa vermelho t\u00eanue da ponta das nadadeiras ventrais at\u00e9 a (nadadeira) anal. Olho vermelho alaranjado &#8211; narinas \u00fanicas pr\u00f3ximas aos l\u00e1bios &#8211; escamas delicadas, lisas, regulares &#8211; dentes em uma faixa, com aspecto de lima em ambas as maxilas &#8211; l\u00edngua grande livre. Nadadeiras peitoral e ventral claras.\u201d Wallace o coletou em Nossa Senhora da Guia, uma ilha no alto rio Negro \u00e0 jusante da sua conflu\u00eancia com o rio I\u00e7ana.<\/p>\n<p>O nome da nova esp\u00e9cie de jacund\u00e1, <i>Crenicichla monicae<\/i>, \u00e9 uma homenagem \u00e0 Prof.a M\u00f4nica, \u201cpelo seu esfor\u00e7o para recuperar as gravuras de Wallace,\u201d diz Varella. Os cicl\u00eddeos formam uma das maiores fam\u00edlias de peixe de \u00e1gua doce, com cerca de 1.700 esp\u00e9cies em todo o mundo, sendo 550 na Am\u00e9rica do Sul. Os cicl\u00eddeos variam muito de tamanho, indo de uns poucos cent\u00edmetros, como os pequenos car\u00e1s, at\u00e9 um metro, o caso do tucunar\u00e9. Acredita-se que haja pelo menos duas mil esp\u00e9cies de cicl\u00eddeos.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda h\u00e1 desenhos de Wallace que n\u00e3o foram identificados, o que pode ser devido \u00e0 falta de acuro dos mesmo ou porque eles correspondem a esp\u00e9cies novas. Por isso, \u00e9 sempre importante retornar aos estudos mais antigos quando se realiza qualquer an\u00e1lise taxon\u00f4mica. Eles podem guardar informa\u00e7\u00f5es valiosas&#8221;, disse Varella. Quem sabe alguma daquelas ilustra\u00e7\u00f5es possam um dia revelar novas esp\u00e9cies ainda desconhecidas?<\/p>\n<p>E quanto a Wallace? O que lhe sucedeu ap\u00f3s sobreviver ao naufr\u00e1gio em 1852? Desolado com a perda de sua cole\u00e7\u00e3o e completamente quebrado, ele passou por dificuldades at\u00e9 conseguir viajar em 1854 ao arquip\u00e9lago Malaio (a atual Indon\u00e9sia). Ap\u00f3s conhecer a biodiversidade da Amaz\u00f4nia, com seus diversos microbiomas separados pelas barreiras dos imensos rios, Wallace se deparou com uma outra biodiversidade, distribu\u00edda pela geografia de milhares de ilhas. Foi l\u00e1, em 1858, em meio aos del\u00edrios de um acesso da mal\u00e1ria que contra\u00edra no Amazonas, que ele disse ter vislumbrado pela primeira vez os princ\u00edpios do mecanismo da sele\u00e7\u00e3o natural. O resto \u00e9 hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Wallace descreveu rapidamente sua teoria numa carta que endere\u00e7ou a ningu\u00e9m menos do que Charles Darwin, pedindo sua opini\u00e3o. Ao receber a carta, Darwin percebeu alarmado que corria o s\u00e9rio risco de perder a prioridade no an\u00fancio da teoria em cima da qual estava sentado fazia mais de 20 anos. Correu a escrever um trabalho, que foi lido ao lado da carta de Wallace em sess\u00e3o da Sociedade Lineana de Londres, em 1o de julho de 1858.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Darwin publicou <i>A Origem das Esp\u00e9cies <\/i>e conquistou os louros da ci\u00eancia e da hist\u00f3ria. Quanto a Wallace, permaneceu at\u00e9 sua morte uma figura secund\u00e1ria, ofuscado pela gl\u00f3ria de Darwin. O lugar de direito de Wallace como co-descobridor da sele\u00e7\u00e3o natural s\u00f3 foi finalmente garantido nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>O artigo de Varella e Kullander, <i>Wallace\u2019s Pike Cichlid Gets a Name after 160 Years: A New Species of Cichlid Fish (Teleostei: Cichlidae) from the Upper Rio Negro in Br<\/i>azil, publicado em\u00a0<i>Copeia <\/i>(doi: http:\/\/dx.doi.org\/10.1643\/CI-14-169) pode ser lido em<a href=\"http:\/\/www.bioone.org\/doi\/abs\/10.1643\/CI-14-169\" target=\"_blank\"><b>www.bioone.org\/doi\/abs\/10.1643\/CI-14-169<\/b><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Baseados em anota\u00e7\u00f5es e ilustra\u00e7\u00f5es deixadas pelo naturalista brit\u00e2nico, um bi\u00f3logo sueco e outro brasileiro descrevem esp\u00e9cimes que se perderam em naufr\u00e1gio em alto-mar (Ag\u00eancia Fapesp)<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2724"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2724\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2726,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2724\/revisions\/2726"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}