{"id":2760,"date":"2016-01-21T10:20:39","date_gmt":"2016-01-21T12:20:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2760"},"modified":"2016-01-06T10:48:41","modified_gmt":"2016-01-06T12:48:41","slug":"proteina-e-associada-depressao-pos-bullying","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2760","title":{"rendered":"Prote\u00edna \u00e9 associada \u00e0 depress\u00e3o p\u00f3s-bullying"},"content":{"rendered":"<p><em>Estudo simulou bullying em camundongos e observou altera\u00e7\u00f5es nas concentra\u00e7\u00f5es da prote\u00edna MAX em algumas \u00e1reas do c\u00e9rebro<\/em><\/p>\n<p><em>Por Giovana Oshir, Ag\u00eancia Universit\u00e1ria de Not\u00edcias (AUN\/USP)<\/em><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Ap\u00f3s uma situa\u00e7\u00e3o de estresse cr\u00f4nico, como no bullying, uma parte dos indiv\u00edduos desenvolve transtornos psiqui\u00e1tricos ou comportamentos alterados relacionados \u00e0 depress\u00e3o, ansiedade e fobia social. O laborat\u00f3rio da professora Silvana Chiavegatto, do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP, busca ferramentas para entender, ao n\u00edvel molecular, por que esses dist\u00farbios acontecem depois de uma exposi\u00e7\u00e3o a esse tipo de viol\u00eancia. Recentemente, o grupo encontrou uma associa\u00e7\u00e3o entre quantidades de uma prote\u00edna chamada MAX e a ocorr\u00eancia desses transtornos utilizando modelo de camundongos.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Depress\u00e3o e ansiedade social<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A professora Silvana Chiavegatto explica que a Psiquiatria tem revelado que muitos dos transtornos observados em adultos t\u00eam origem ainda na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia. Alguns indiv\u00edduos que sofreram esse tipo de estresse quando crian\u00e7as ou adolescentes podem n\u00e3o apresentar altera\u00e7\u00f5es naquele momento. Por\u00e9m, como o c\u00e9rebro est\u00e1 em desenvolvimento, regi\u00f5es do \u00f3rg\u00e3o que foram estimuladas ou inibidas podem ser recrutadas para exercer alguma fun\u00e7\u00e3o apenas numa idade mais avan\u00e7ada, quando o transtorno pode se evidenciar.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No laborat\u00f3rio do ICB, essa situa\u00e7\u00e3o de estresse devido ao bullying, modelo conhecido como &#8220;derrota social&#8221;, \u00e9 simulada em camundongos machos adolescentes. Ap\u00f3s 21 dias do nascimento, esse animal \u00e9 retirado da gaiola onde vive com a m\u00e3e e exposto a um camundongo maior, treinado para se tornar agressivo. Eles s\u00e3o colocados em uma caixa com uma divis\u00f3ria; o adolescente e o agressor ficam ora juntos, ora separados. Quando est\u00e3o juntos, o agressor ataca o adolescente, que, imediatamente, coloca-se em posi\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o. Depois, o camundongo adolescente \u00e9 retirado e colocado do outro lado, onde fica durante 30 minutos. &#8220;Nesse outro lado, ele n\u00e3o tem contato f\u00edsico com o agressor&#8221;, explica Silvana, &#8220;mas existe o contato visual e olfat\u00f3rio&#8221;. \u00c9 um momento de amea\u00e7a. Essa foi uma ideia para tentar mimetizar o que acontecia com o adolescente que sofre uma agress\u00e3o na escola, por exemplo, e ainda deve continuar frequentando aquele ambiente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O experimento foi repetido durante 21 dias. &#8220;O animal teve, durante esse per\u00edodo de desenvolvimento, experi\u00eancias adversas com v\u00e1rios outros agressores&#8221;, complementa a professora. Ao final do confronto, depois de ter passado os 30 minutos do outro lado da divis\u00f3ria sem o agressor, o adolescente voltava para sua gaiola de moradia, junto a mais quatro companheiros.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A partir de testes comportamentais, os pesquisadores observaram que os animais que sofreram ataques dos agressores estavam com caracter\u00edsticas de depress\u00e3o e ansiedade social. Em um dos testes, chamado de nado for\u00e7ado, em que o camundongo \u00e9 colocado para nadar, os animais agredidos ficaram maior tempo im\u00f3veis, o que significa um estado de depress\u00e3o ou desamparo, explica Silvana. Eles tamb\u00e9m apresentaram tra\u00e7os de anedonia, que, em humanos, \u00e9 a perda do prazer em coisas que se tinha satisfa\u00e7\u00e3o em fazer antes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ansiedade, foi constatado que eles desenvolveram comportamentos de esquiva social, a partir de um experimento em que o camundongo \u00e9 colocado em um ambiente onde pode escolher ir para o lado onde h\u00e1 outro animal ou para o que esteja vazio. &#8220;Como os humanos, o camundongo, quando adolescente, gosta muito de contato social. Escolher o lado onde h\u00e1 um companheiro da mesma esp\u00e9cie \u00e9 um comportamento natural&#8221;, afirma a professora. &#8220;Mas os animais que sofreram a derrota social preferiram ir para o lado onde n\u00e3o havia ningu\u00e9m&#8221;, acrescenta. Na cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, isso \u00e9 entendido como uma forma de fobia social.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Por outro lado, esses camundongos n\u00e3o apresentaram ansiedade do tipo generalizada, ou seja, aquela inespec\u00edfica, frequentemente injustific\u00e1vel ou desproporcional. &#8220;Isso foi entendido como consequ\u00eancia do fato de que o camundongo voltava ao seu ambiente social depois da agress\u00e3o&#8221;, explica Silvana. &#8220;Isso mostra que o suporte familiar pode minimizar os efeitos do estresse cr\u00f4nico psicossocial&#8221;, complementa.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>MAX: oncogene associado \u00e0 depress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os comportamentos observados foram correlacionados com o que acontecia na neuroqu\u00edmica do c\u00e9rebro. O alvo dos estudos foi uma prote\u00edna chamada MAX, que se junta ao MYC, mol\u00e9culas muito associadas ao c\u00e2ncer, pois se encontram superexpressas em tumores, mas nunca antes relacionadas a comportamentos ou transtornos psicossociais.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">&#8220;Essas prote\u00ednas s\u00e3o muito importantes durante o neurodesenvolvimento&#8221;, explica Silvana. &#8220;A express\u00e3o delas ocorre no c\u00e9rebro do animal enquanto ele ainda est\u00e1 em \u00fatero e, conforme envelhece, \u00e9 reduzida&#8221;, afirma. As \u00e1reas que t\u00eam mais express\u00e3o de MAX e MYC, segundo a professora, s\u00e3o regi\u00f5es relacionadas aos comportamentos emocionais, como o hipocampo e o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Inspirado nisso, o grupo levantou a hip\u00f3tese do envolvimento dessas prote\u00ednas nas altera\u00e7\u00f5es cerebrais causadas pelo estresse no in\u00edcio da vida. &#8220;\u00c9 prov\u00e1vel que essas mol\u00e9culas possam estar interferindo na plasticidade que ocorre no c\u00e9rebro em desenvolvimento quando sofre alguma inj\u00faria, como no caso do bullying&#8221;, explica.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os resultados dos estudos mostraram que, no camundongo que sofreu o estresse cr\u00f4nico, comparado a um animal controle, a prote\u00edna MAX estava aumentada no hipocampo, n\u00e3o alterada no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal e, de modo n\u00e3o esperado, reduzida em n\u00facleos do estriado dorsal\u00a0\u2013 regi\u00e3o muito importante em transtornos do movimento como Parkinson e recentemente associada a comportamentos emocionais. O hipocampo \u00e9 uma das poucas regi\u00f5es do c\u00e9rebro onde ocorre a forma\u00e7\u00e3o de novos neur\u00f4nios e \u00e9 tamb\u00e9m uma das que sofre mais altera\u00e7\u00e3o em transtornos decorrentes do estresse prolongado como a depress\u00e3o, afirma Silvana. &#8220;\u00c9 uma \u00e1rea que recebe muita informa\u00e7\u00e3o do meio exterior atrav\u00e9s de horm\u00f4nios do estresse&#8221;, complementa. Na depress\u00e3o, o hipocampo sofre uma altera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica, ele \u00e9 atrofiado. Quando o indiv\u00edduo toma antidepressivos, ele teoricamente volta ao seu tamanho normal.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">As mudan\u00e7as na concentra\u00e7\u00e3o de MAX, de acordo com o estudo, n\u00e3o s\u00e3o devido a uma maior express\u00e3o do gene respons\u00e1vel por sua produ\u00e7\u00e3o nem pela redu\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o da prote\u00edna\u2013 o que poderia levar ao seu ac\u00famulo no c\u00e9rebro \u2013, sugerindo altera\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a transcri\u00e7\u00e3o do RNA em prote\u00edna, processo chamado de modifica\u00e7\u00e3o p\u00f3s-transcricional.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A prote\u00edna MAX \u00e9 muito pequena e n\u00e3o faz nada sozinha no organismo, explica a professora. &#8220;Ela s\u00f3 atua quando se liga a um outro fator de transcri\u00e7\u00e3o: o MYC, outro MAX ou alguma outra prote\u00edna&#8221;, afirma. O estudo tamb\u00e9m demonstrou a exist\u00eancia de uma correla\u00e7\u00e3o positiva entre o MAX e MYC no c\u00e9rebro do animal controle, ou seja, quando o MAX est\u00e1 aumentado, por exemplo, o MYC tamb\u00e9m est\u00e1.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Como o MYC \u00e9 um parceiro importante do MAX, o grupo investigou se ele tamb\u00e9m estaria alterado no c\u00e9rebro dos adolescentes que sofreram o bullying, mas os resultados mostraram que ele n\u00e3o estava modificado em nenhuma das \u00e1reas estudadas. &#8220;Existe essa altera\u00e7\u00e3o de MAX que n\u00e3o \u00e9 acompanhada de mudan\u00e7as na quantidade da proteina MYC&#8221;, acrescenta. &#8220;Houve um rompimento da correla\u00e7\u00e3o linear que normalmente acontece no c\u00e9rebro entre essas mol\u00e9culas&#8221;, afirma.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O trabalho associa, pela primeira vez, os fatores de transcri\u00e7\u00e3o MAX e MYC a transtornos psiqui\u00e1tricos. Tamb\u00e9m relata, de maneira in\u00e9dita, uma desregula\u00e7\u00e3o da cadeia MAX-MYC no c\u00e9rebro relacionada a um comportamento, sugerindo uma nova abordagem a ser estudada na neuroplasticidade causada pela depress\u00e3o. &#8220;Ele mostra tamb\u00e9m que, nos animais, assim como nos humanos, esse modelo de estresse cr\u00f4nico e psicossocial leva \u00e0 depress\u00e3o e \u00e0 fobia social sem ansiedade generalizada&#8221;, afirma Silvana, al\u00e9m de demonstrar que o apoio familiar \u00e9 importante para reduzir os efeitos do bullying.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo simulou bullying em camundongos e observou altera\u00e7\u00f5es nas concentra\u00e7\u00f5es da prote\u00edna MAX em algumas \u00e1reas do c\u00e9rebro (AUN\/USP)<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2760","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2760"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2760\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2762,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2760\/revisions\/2762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}