{"id":2819,"date":"2016-01-29T13:43:15","date_gmt":"2016-01-29T15:43:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2819"},"modified":"2016-01-29T13:45:09","modified_gmt":"2016-01-29T15:45:09","slug":"zika-o-virus-que-pegou-o-pais-de-surpresa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2819","title":{"rendered":"Zika: o v\u00edrus que pegou o pa\u00eds de surpresa"},"content":{"rendered":"<p><em>Desde que o Zika ganhou import\u00e2ncia mundial em novembro com os casos de microcefalia, pesquisadores da USP estudam em um esfor\u00e7o coordenado de pesquisadores, poder p\u00fablico e popula\u00e7\u00e3o para conter o v\u00edrus<\/em><\/p>\n<p><em>Por\u00a0Ricardo Zorzetto, Pesquisa FAPESP<\/em><\/p>\n<p>Vestida como uma cirurgi\u00e3, a pesquisadora Stella Melo trabalhava em total sil\u00eancio em um laborat\u00f3rio de biosseguran\u00e7a da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) na tarde da sexta-feira 11 de dezembro.<\/p>\n<p>No interior de uma cabine na qual s\u00f3 circula ar filtrado, ela semeava c\u00e9lulas de rim de macaco em garrafas pl\u00e1sticas contendo um l\u00edquido rosado nutritivo. Embora usasse m\u00e1scara, evitava falar para n\u00e3o correr o risco de contaminar o material. Dias mais tarde aquelas c\u00e9lulas serviriam para reproduzir o v\u00edrus Zika, um agente infeccioso que por d\u00e9cadas foi considerado inofensivo e agora assusta o Brasil e o mundo porque, suspeita-se, est\u00e1 associado ao nascimento de beb\u00eas com o c\u00e9rebro menor que o normal, um problema sem cura conhecido como microcefalia cong\u00eanita.<\/p>\n<p>Na quinta-feira seguinte, dia 17, a virologista Danielle Leal de Oliveira usou parte das c\u00e9lulas preparadas por Stella para iniciar a cultura de Zika e anunciou em um <em>e-mail<\/em>: \u201cInoculei os v\u00edrus hoje. Estamos de dedos cruzados para ver se eles crescem\u201d. Danielle e Stella integram a equipe do virologista Edison Durigon no Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP e trabalhavam duro para replicar as amostras de Zika recebidas do Instituto Evandro Chagas, no Par\u00e1. O objetivo era multiplicar o v\u00edrus e compartilhar com grupos do Brasil e do exterior que planejavam estud\u00e1-lo. Interessados n\u00e3o faltavam.<\/p>\n<p>Desde que o Zika ganhou import\u00e2ncia mundial em novembro com os casos de microcefalia, o virologista Paolo Zanotto, colega de Durigon e seu vizinho de sala na USP, n\u00e3o pensa em outra coisa a n\u00e3o ser conter o v\u00edrus. Especialista em evolu\u00e7\u00e3o dos flaviv\u00edrus, o grupo a que pertence o Zika, Zanotto sabe que \u00e9 grande o risco de o v\u00edrus se espalhar pelo pa\u00eds \u2013 em especial pelo estado de S\u00e3o Paulo, onde se encontra disseminada a popula\u00e7\u00e3o urbana de seu transmissor, o mosquito <em>Aedes aegypti<\/em>. Ele sabe tamb\u00e9m que s\u00f3 h\u00e1 chance de conter o Zika com um esfor\u00e7o coordenado de pesquisadores, poder p\u00fablico e popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, ainda em novembro, Zanotto iniciou a mobiliza\u00e7\u00e3o de virologistas, epidemiologistas, m\u00e9dicos e entomologistas de S\u00e3o Paulo e do exterior para estudar tudo o que for poss\u00edvel sobre o Zika. No final de dezembro, 32 grupos paulistas (quase 300 pesquisadores) j\u00e1 haviam aceitado integrar essa rede de investiga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus \u2013 que recebeu o nome informal de Rede Zika \u2013 e v\u00e1rios aguardavam amostras de v\u00edrus do laborat\u00f3rio de Durigon para iniciar as pesquisas.<\/p>\n<p>Essa pronta rea\u00e7\u00e3o foi poss\u00edvel porque, no passado, a FAPESP apoiou a cria\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rios de virologia em todo o estado de S\u00e3o Paulo que mantiveram forte intera\u00e7\u00e3o entre si. Muitos deles det\u00eam projetos tem\u00e1ticos ou aux\u00edlios regulares financiados pela Funda\u00e7\u00e3o e, para reativar o trabalho coletivo do grupo, a FAPESP concedeu pequenos aditivos aos projetos j\u00e1 existentes. Esses aditivos somar\u00e3o cerca de R$ 550 mil e permitir\u00e3o complementar o trabalho que j\u00e1 est\u00e1 sendo realizado.<\/p>\n<p>Jean Pierre Peron \u00e9 neuroimunologista e, entre outras coisas, estuda em seu laborat\u00f3rio na USP inflama\u00e7\u00f5es no c\u00e9rebro provocadas pelo sistema de defesa do pr\u00f3prio corpo. Ele \u00e9 um dos que aderiram \u00e0 Rede Zika e est\u00e1 com sua equipe preparada para come\u00e7ar ao menos dois experimentos. Em um deles, Peron planeja injetar o v\u00edrus diretamente no c\u00e9rebro de camundongos, com dois objetivos. O primeiro \u00e9 deix\u00e1-lo se multiplicar e gerar mais amostras para suas pesquisas e a de outros grupos. O segundo, e mais importante, \u00e9 verificar se o pr\u00f3prio v\u00edrus lesa o c\u00e9rebro ou se os danos decorrem de um ataque exacerbado do sistema de defesa contra o Zika.<\/p>\n<p>Imagens do c\u00e9rebro de beb\u00eas que nasceram com microcefalia e s\u00e3o filhos de m\u00e3es possivelmente infectadas por Zika na gravidez em geral mostram pequenos c\u00edrculos brancos bem pr\u00f3ximos uns dos outros, como as contas de um colar. Segundo neurologistas, s\u00e3o sinais de calcifica\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de cicatriz que se forma em \u00e1reas lesadas do c\u00e9rebro e ocorrem tamb\u00e9m em beb\u00eas cujas m\u00e3es tiveram infec\u00e7\u00e3o por citomegalov\u00edrus ou toxoplasmose na gesta\u00e7\u00e3o. No caso do Zika, n\u00e3o se sabe se essas calcifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o provocadas pelo v\u00edrus ou s\u00e3o uma les\u00e3o secund\u00e1ria, resultado de um superataque das c\u00e9lulas de defesa ao invasor.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se sabe ainda como o v\u00edrus chega ao c\u00e9rebro, como foi observado em um beb\u00ea do Cear\u00e1 que nasceu com microcefalia e morreu minutos ap\u00f3s o parto. Foi a partir de amostras de v\u00e1rios tecidos dessa crian\u00e7a que o virologista Pedro Vasconcelos e sua equipe conseguiram isolar no Evandro Chagas, centro nacional de refer\u00eancia em virologia, as amostras de Zika enviadas para S\u00e3o Paulo. A suspeita principal \u00e9 de que o v\u00edrus \u2013 assim como outros dos quase 60 da fam\u00edlia Flaviviridae, a mesma do v\u00edrus da dengue e da febre amarela \u2013 se desenvolva melhor em c\u00e9lulas do sistema nervoso.<\/p>\n<p>Um segundo experimento planejado por Peron pode ajudar a confirmar a prefer\u00eancia do Zika por c\u00e9lulas do tecido cerebral e a tra\u00e7ar o caminho percorrido pelo v\u00edrus at\u00e9 o sistema nervoso central. Ele e sua equipe est\u00e3o prontos para inocular o v\u00edrus em camundongos f\u00eameas prenhes e acompanhar o que ocorre com os fetos. \u201cIsso vai permitir verificar se o v\u00edrus chega at\u00e9 o c\u00e9rebro dos fetos e se causa les\u00e3o, morte ou microcefalia\u201d, disse Peron em uma visita ao laborat\u00f3rio de Durigon na tarde em que Stella preparava as c\u00e9lulas para multiplicar o Zika.<\/p>\n<p>O trabalho de Peron com os roedores deve ser complementado pelos experimentos da bi\u00f3loga Patr\u00edcia Beltr\u00e3o Braga com c\u00e9lulas humanas. \u201cA primeira coisa que precisamos saber \u00e9 se, de fato, o v\u00edrus infecta c\u00e9lulas humanas do sistema nervoso e qual tipo de morte celular ele provoca\u201d, diz Patr\u00edcia. Com base nas informa\u00e7\u00f5es que circulam entre os pesquisadores e na extrapola\u00e7\u00e3o do que se conhece sobre outros flaviv\u00edrus, o Zika deve invadir as c\u00e9lulas do tecido cerebral, mas ainda n\u00e3o se sabe quais nem como. Essa informa\u00e7\u00e3o pode no futuro orientar os m\u00e9dicos sobre qual terapia adotar para tentar conter o v\u00edrus ou os danos que ele pode causar \u2013 por ora, no entanto, ainda n\u00e3o h\u00e1 medicamento seguro para combater o Zika.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia deve analisar os efeitos do v\u00edrus sobre c\u00e9lulas humanas usando uma tecnologia inovadora. Ela vai usar c\u00e9lulas-tronco adultas extra\u00eddas do dente de leite de crian\u00e7as e reprogram\u00e1-las quimicamente para se transformarem em c\u00e9lulas mais vers\u00e1teis, capazes de originar diferentes tecidos. Cultivadas em uma matriz tridimensional, essas c\u00e9lulas, ao receberem os est\u00edmulos qu\u00edmicos certos, originam os diferentes tipos de c\u00e9lulas do sistema nervoso central e se organizam em camadas, como se fossem c\u00e9rebros microsc\u00f3picos \u2013 alguns t\u00eam o tamanho da cabe\u00e7a de um alfinete.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia planeja infectar os minic\u00e9rebros com o Zika e acompanhar as altera\u00e7\u00f5es que surgirem. \u201cMinha ideia \u00e9 avaliar se o v\u00edrus prejudica o crescimento das c\u00e9lulas, a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas e a forma\u00e7\u00e3o de sinapses, que s\u00e3o as conex\u00f5es entre os neur\u00f4nios\u201d, diz. \u201cAcredito que os minic\u00e9rebros devem permitir termos uma resposta r\u00e1pida para algumas quest\u00f5es\u201d, conta a pesquisadora, que participou da primeira reuni\u00e3o da Rede Zika no in\u00edcio de dezembro. At\u00e9 aquele momento o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade havia registrado a presen\u00e7a do v\u00edrus em 18 estados, principalmente no Nordeste, onde foram identificados os primeiros casos. E o v\u00edrus podia avan\u00e7ar mais.<\/p>\n<p>Uma das dificuldades de planejar a\u00e7\u00f5es eficientes para conter o v\u00edrus \u00e9 que ainda n\u00e3o se conhece seu padr\u00e3o de circula\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o brasileira \u2013 nem em outras popula\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m sabe com precis\u00e3o quantas pessoas j\u00e1 foram infectadas no pa\u00eds nem quantos casos novos surgem por m\u00eas. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 dados sobre a taxa de infec\u00e7\u00e3o dos mosquitos e a sua efici\u00eancia em transmitir o v\u00edrus pela picada. \u201cCom essas informa\u00e7\u00f5es, poder\u00edamos calcular a capacidade de a infec\u00e7\u00e3o se espalhar\u201d, conta o epidemiologista Eduardo Massad, da Faculdade de Medicina da USP, que aderiu \u00e0 rede.<\/p>\n<p>Um modo de come\u00e7ar a conhecer essas vari\u00e1veis \u00e9 registrar os casos de infec\u00e7\u00e3o em tempo real, para ver como evoluem no tempo e no espa\u00e7o. Uma das ferramentas necess\u00e1rias para isso seria um teste de laborat\u00f3rio confi\u00e1vel para identificar infec\u00e7\u00f5es antigas por Zika e saber por onde o v\u00edrus j\u00e1 passou e quando. A forma atual de fazer esse rastreamento \u00e9 por meio de exames sorol\u00f3gicos, que detectam anticorpos contra o v\u00edrus no sangue. Esse tipo de teste permite saber se uma infec\u00e7\u00e3o \u00e9 antiga ou recente, mas n\u00e3o funciona bem no caso do Zika. \u00c9 que os anticorpos contra ele s\u00e3o semelhantes aos gerados contra os v\u00edrus da dengue, que ocorre em quase todo o pa\u00eds.<\/p>\n<div>Leia a reportagem completa em:\u00a0<b><a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/01\/12\/zika-o-virus-que-pegou-o-pais-de-surpresa\" target=\"_blank\">http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2016\/01\/12\/zika-o-virus-que-pegou-o-pais-de-surpresa<\/a><\/b><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que o Zika ganhou import\u00e2ncia mundial em novembro com os casos de microcefalia, pesquisadores da USP estudam em um esfor\u00e7o coordenado de pesquisadores, poder p\u00fablico e popula\u00e7\u00e3o para conter o v\u00edrus (Ag\u00eancia Fapesp)<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2819","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2819"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2819\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2820,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2819\/revisions\/2820"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}