{"id":2845,"date":"2016-02-03T08:34:30","date_gmt":"2016-02-03T10:34:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2845"},"modified":"2016-02-03T16:08:28","modified_gmt":"2016-02-03T18:08:28","slug":"sociedade-impoe-invisibilidade-e-violencias-travestis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2845","title":{"rendered":"Sociedade imp\u00f5e invisibilidade e viol\u00eancias \u00e0s travestis"},"content":{"rendered":"<p><em>Pesquisa prop\u00f5e ampliar o conceito de viol\u00eancia de g\u00eanero para abranger experi\u00eancias das travestis<\/em><\/p>\n<p><em>Por H\u00e9rika Dias, da Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias<\/em><\/p>\n<p>\u201cPode perguntar pra qualquer travesti, a primeira agress\u00e3o que ela tem \u00e9 com o pai, porque o pai \u00e9 o primeiro a enfrentar ela. \u00c9 o primeiro homem que diz que ela n\u00e3o pode ser o que ela quer ser\u201d. O desabafo \u00e9 de Roberta, nome fict\u00edcio e uma das oito pessoas autoidentificadas como travestis que tiveram sua hist\u00f3ria de vida ouvida pela psic\u00f3loga Val\u00e9ria Melki Busin para sua tese de doutorado, na qual mostra como as travestis experienciam as viol\u00eancias cotidianas, o que sentem e como enfrentam.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio nome do trabalho <a href=\"http:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/47\/47134\/tde-14072015-092040\/pt-br.php\" target=\"_blank\">Morra para se libertar: estigmatiza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra travestis<\/a>, apresentado ano passado no Instituto de Psicologia (IP) da USP, sinaliza as dificuldades de ser travesti em uma sociedade na qual a diferen\u00e7a gera uma s\u00e9rie de viol\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cO t\u00edtulo \u00e9 uma met\u00e1fora, obviamente, mas est\u00e1 relacionado com os \u2018recados\u2019 que as travestis recebem continuamente ao longo de suas vidas: se elas ostentam a \u2018feminilidade\u2019, elas correm o risco de morrer fisicamente. Se elas deixarem de ser travesti, n\u00e3o v\u00e3o sofrer viol\u00eancia, entretanto, n\u00e3o ser mais travesti \u00e9 um outro tipo de morte para elas\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria realizou sua pesquisa entre 2011 e 2015, a partir de entrevistas com as travestis Roberta, Kharla, Camily, Rebecca, Pryscilla, Sharon, Iara e Cynthia, escolhidas a partir dos seguintes crit\u00e9rios: residentes na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, ser ou n\u00e3o militante, mais de 18 anos, ter passado pela prostitui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tivesse mais atuando, travestis que nunca estiveram na prostitui\u00e7\u00e3o e aquelas que ainda estavam.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, no senso comum, a travesti \u00e9 vista como uma mistura de performance teatral, ligada \u00e0 disfarce. No dicion\u00e1rio, tamb\u00e9m h\u00e1 essa men\u00e7\u00e3o. Na \u00e1rea acad\u00eamica, n\u00e3o tem consenso. \u201cOs trabalhos acad\u00eamicos colocam as travestis ou na fronteira dos dois sexos, como um binarismo (masculino\/feminino) revisitado, ou trabalham que travesti n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica, \u00e9 identidade, mas n\u00e3o h\u00e1 consenso, inclusive entre as oito travestis que colaboraram comigo na pesquisa.\u201d<\/p>\n<p>O que h\u00e1 em comum entre as entrevistadas, segundo Val\u00e9ria, \u00e9 que elas foram oficialmente, por meio de documentos, designadas do sexo masculino. Al\u00e9m disso, reinventaram-se porque cada uma se v\u00ea de uma forma. \u201cPara cada uma delas, ser travesti tem um significado atribu\u00eddo com a viv\u00eancia e a experi\u00eancia, ent\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 pra gente criar um r\u00f3tulo que defina por elas e em nome delas o que \u00e9 ser travesti\u201d, ressalta. \u201cAcredito que elas ajudam a gente a sair da caretice porque fazem, de fato, repensarmos todas nossas certezas ao masculino e ao feminino, talvez, por isso que incomodem tanto.\u201d<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia e escola<\/strong><\/p>\n<p>Esse inc\u00f4modo se traduz em viol\u00eancia. Logo que as travestis come\u00e7am a se montar, ou seja, colocam nelas pr\u00f3prias\u00a0caracter\u00edsticas que s\u00e3o tidas como femininas, iniciam as humilha\u00e7\u00f5es e o processo de estigmatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia vem desde familiares, de amigos, da pol\u00edcia e de pessoas desconhecidas, elas n\u00e3o t\u00eam uma rede de prote\u00e7\u00e3o. Todas as pessoas que sofrem algum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o, de qualquer segmento, possuem algum grupo de pessoas que ajudam e d\u00e3o alguma prote\u00e7\u00e3o, as travestis n\u00e3o t\u00eam isso\u201d, alerta Val\u00e9ria.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, as entrevistadas, em algum momento, tiveram rupturas. A pesquisadora diz que as figuras masculinas da fam\u00edlia s\u00e3o as que defendem com mais afinco as normas de g\u00eaneros. \u201cOs pais, os padrastos e irm\u00e3os eram as pessoas da fam\u00edlia que cometiam as maiores viol\u00eancias f\u00edsicas ou psicol\u00f3gicas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMeu pai falou que eu era homem, que eu n\u00e3o podia fazer aquilo. S\u00f3 que eu n\u00e3o entendia nada\u201d, Sharon contando quando apanhou dos pais, aos sete anos de idade, ap\u00f3s ser vista de calcinha dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, as travestis passavam sistematicamente por exclus\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia f\u00edsica e sexual. \u201cEu lembro que eu cheguei em casa e chorei um monte, mas eu n\u00e3o contava pra minha m\u00e3e. N\u00e3o contava pra ningu\u00e9m isso. Eu ficava pensando: qual \u00e9 o motivo que eles est\u00e3o me batendo?\u201d, depoimento de Camily sobre as constantes agress\u00f5es \u00a0na escola.<\/p>\n<p>\u201cEu gostava de estudar. Adorava ir \u00e0 escola. Mas n\u00e3o dava. Era insuport\u00e1vel. O tempo todo jogavam papelzinho na minha cabe\u00e7a. Eram quase todos. [Xingavam] de \u2018viadinho\u2019\u201d, relata Sharon.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, na maioria das vezes, elas n\u00e3o conseguiam entender o que estava acontecendo e se sentiam culpadas, n\u00e3o se percebiam como pessoas com direitos violados. Al\u00e9m disso, n\u00e3o denunciavam e as raras vezes que faziam a den\u00fancia, tiveram omiss\u00e3o das pessoas que deviam proteg\u00ea-las. \u201cNo local onde devemos aprender cidadania e conviv\u00eancia, que \u00e9 a escola, elas tinham medo de morrer.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio de desconhecidos<\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tinha um porqu\u00ea\u2026 daqueles meninos me baterem naquele momento, eu n\u00e3o tava mexendo com eles, eu n\u00e3o tinha dito nada\u00a0que pudesse ofender eles. N\u00e3o tinha nada que chamasse a aten\u00e7\u00e3o deles para que eles me ofendessem, que eles me agredissem como me agrediu\u201d, a hist\u00f3ria dessa viol\u00eancia sem sentindo foi contada por Roberta que levou um tapa no rosto ao passar por uma passarela perto de sua casa e encontrar tr\u00eas garotos.<\/p>\n<p>Esse tipo de agress\u00e3o de pessoas desconhecidas \u00e9 uma constante nas hist\u00f3rias relatadas pelas travestis, qualquer pessoa na rua se sente \u201cautorizada\u201d em agredir e humilhar gratuitamente.<\/p>\n<p>\u201cPara elas, essa viol\u00eancia vinda de desconhecidos s\u00e3o sentidas como muito cru\u00e9is e muito chocantes porque n\u00e3o tem motivo. Elas podem estar andando no \u00f4nibus, dentro do hospital, andando na rua e elas sofrem a viol\u00eancia do nada e, geralmente, os autores s\u00e3o homens, que andam em grupos\u201d, explica Val\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>Trabalho<\/strong><\/p>\n<p>A pesquisadora afirma que muitas pessoas acreditam que as travestis se \u201ctornam\u201d travestis para se prostituir e ganhar dinheiro. No entanto, Val\u00e9ria lembra que as entrevistadas contaram que a vontade de se mostrar com atributos tidos como femininos ocorreram desde crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cA maioria delas teve que abandonar a escola, a fam\u00edlia, n\u00e3o tiveram apoio afetivo e material, n\u00e3o tiveram oportunidade de qualifica\u00e7\u00e3o. Elas buscaram formas diversas de subsist\u00eancia, mas, ou perdiam empregam a partir do momento no qual se \u2018feminilizavam\u2019, ou se j\u00e1 estavam como travestis, eram exploradas em subempregos e sofriam viol\u00eancia constantemente. Essa situa\u00e7\u00e3o faz com que uma porcentagem enorme, 90% das travestis, segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis, vivam da prostitui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o gostariam de viver dela\u201d.<\/p>\n<p>A tese da psic\u00f3loga Val\u00e9ria traz muitas hist\u00f3rias de viol\u00eancias cometidas contra as travestis, na verdade, s\u00e3o as hist\u00f3rias de vida delas e, por isso, \u00e9 admir\u00e1vel a for\u00e7a de sobreviv\u00eancia sob tanta adversidade. Ao mesmo tempo, \u00e9 chocante perceber como a viol\u00eancia \u00e9 exercida constantemente e por toda a sociedade. Assim, a pesquisadora prop\u00f5e uma amplia\u00e7\u00e3o do conceito de viol\u00eancia de g\u00eanero que comporte a experi\u00eancia das travestis.<\/p>\n<p>\u201cAs defini\u00e7\u00f5es tradicionais que encontramos na literatura acad\u00eamica basicamente se referem \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres ou cometidas entre homens e mulheres, viol\u00eancia dom\u00e9stica ou intrafamiliar e viol\u00eancia de casal ou entre parceiros \u00edntimos\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria lembra que as travestis s\u00e3o agredidas porque se aproximam do feminino e, na maioria das vezes, os tipos de viol\u00eancia cometidos contra elas n\u00e3o est\u00e3o nesses casos da defini\u00e7\u00e3o tradicional de viol\u00eancia de g\u00eanero.<\/p>\n<p>\u201cA minha proposta \u00e9 de que a viol\u00eancia de g\u00eanero seja considerada uma viol\u00eancia simb\u00f3lica que atinja qualquer pessoa que seja desqualificada porque se expressa por meio do que seria visto como pr\u00f3prio somente do mundo feminino ou algu\u00e9m que seja desqualificado por uma designa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero atrelada necessariamente ao corpo, no \u00e2mbito biol\u00f3gico, com o qual n\u00e3o se identifique (travestis, homens e mulheres transexuais)\u201d, prop\u00f5e Val\u00e9ria.<\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es: email <a>valeriamelkibusin@gmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n<p><em>Publica\u00e7\u00e3o original em <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/agen\/?p=226839\" target=\"_blank\">Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa prop\u00f5e ampliar o conceito de viol\u00eancia de g\u00eanero para abranger experi\u00eancias das travestis (Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias)<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2845","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2845"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2845\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2855,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2845\/revisions\/2855"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}