{"id":2886,"date":"2016-02-16T08:53:52","date_gmt":"2016-02-16T10:53:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.prp.usp.br\/?p=2886"},"modified":"2016-02-16T09:56:51","modified_gmt":"2016-02-16T11:56:51","slug":"ensino-de-literaturas-africanas-precisa-de-melhorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/2886","title":{"rendered":"Ensino de literaturas africanas precisa de melhorias"},"content":{"rendered":"<p><em>Estudo avaliou a presen\u00e7a das literaturas africanas e afro-brasileira na rede municipal e estadual de ensino<\/em><\/p>\n<p><em>Por Val\u00e9ria Dias, da Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias<\/em><\/p>\n<p>A Lei Federal 10639\/03 determina que os conte\u00fados sobre hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira devem ser abordados em todos os n\u00edveis de ensino das redes privada e p\u00fablica de todo o Pa\u00eds. Contudo, a abordagem em sala de aula ainda depende mais da iniciativa pessoal do professor, incluindo a busca por material did\u00e1tico. H\u00e1 tamb\u00e9m outros problemas que v\u00e3o desde o preconceito de professores, pais e alunos, passando pelo desconhecimento da Lei e a defici\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o docente, at\u00e9 falhas no poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u201cApesar de a Lei ter sido promulgada em 2003, ainda hoje encontramos universidades que n\u00e3o trabalham esse conte\u00fado na forma\u00e7\u00e3o docente\u201d, aponta o professor de L\u00edngua Portuguesa e Literatura, Andr\u00e9 de Godoy Bueno, autor da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<em> Literaturas africanas e afro-brasileira no ensino fundamental II<\/em>. A pesquisa foi apresentada em agosto de 2015 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP, sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora Vima Lia de Rossi Martin.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, h\u00e1 tamb\u00e9m uma falha no poder p\u00fablico, desde o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) at\u00e9 as secretarias estadual e municipal de educa\u00e7\u00e3o. \u201cEra necess\u00e1rio oferecer forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua para esses professores, pois os formados antes de 2003 provavelmente n\u00e3o viram isso durante a faculdade. Se ele n\u00e3o se interessar em fazer cursos, n\u00e3o ter\u00e1 esse conte\u00fado e n\u00e3o vai trabalhar isso com os alunos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Bueno aplicou um question\u00e1rio com 15 perguntas a 30 professores, sendo 15 do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, das diretorias regionais de S\u00e3o Miguel Paulista, Butant\u00e3, Guaianazes e Pirituba; e 15 de escolas estaduais das cidades de Guarulhos, Mau\u00e1, Indaiatuba e Mar\u00edlia. As perguntas abordavam desde o conhecimento da Lei at\u00e9 a forma de aplica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado. Ele tamb\u00e9m reuniu, para uma roda de conversa, 3 desses professores, sendo 2 da rede estadual e 1 da municipal. A pesquisa seguiu um m\u00e9todo qualitativo de an\u00e1lise, que oferece um quadro de observa\u00e7\u00e3o de determinado fen\u00f4meno por meio de uma amostra, sem que haja a mensura\u00e7\u00e3o totalizante, em fun\u00e7\u00e3o de as redes educacionais pesquisadas terem enormes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Conte\u00fado importante, mas nem sempre aplicado<\/strong><br \/>\nSegundo Bueno, praticamente todos consideraram a Lei importante, mas a aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica em sala de aula somente \u00e9 feita por 2\/3 dos entrevistados, assim: 10 professores n\u00e3o abordavam conte\u00fado sobre o tema. Apesar disso, a grande maioria afirmou conhecimento da Lei.<\/p>\n<p>Ao comparar as redes de ensino, o pesquisador constatou que, dos 15 professores da rede municipal, 11 trabalham com o conte\u00fado de literaturas africanas e afro-brasileiras em sala de aula. J\u00e1 na rede estadual, s\u00e3o 9 os professores que trabalham o tema.<\/p>\n<p>Bueno acredita que isso acontece porque a Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo realiza um trabalho cont\u00ednuo de forma\u00e7\u00e3o com os seus professores e esse conte\u00fado \u00e9 abordado. \u201cNa roda de conversa, os professores da rede estadual disseram que n\u00e3o h\u00e1 essa forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e nem sempre aborda esse tema no dia a dia\u201d, diz. \u201cNesse aspecto, o professor do munic\u00edpio est\u00e1 mais amparado que o do estado no que se refere a cursos de forma\u00e7\u00e3o\u201d, aponta.<\/p>\n<p><strong>Preconceitos<\/strong><br \/>\nNa roda de conversa, foram relatados alguns casos de preconceito. Um dos professores contou que uma colega de profiss\u00e3o de uma escola municipal resolveu trabalhar o significado da palavra \u201cmacumba\u201d (que pode ser um instrumento musical ou uma \u00e1rvore). \u201cMas alguns pais reclamaram, pois acreditaram tratar-se de uma abordagem religiosa. E a dire\u00e7\u00e3o da escola pediu para a professora n\u00e3o realizar o trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Em outro relato, uma professora do estado conta que utilizou, no ensino m\u00e9dio, um document\u00e1rio a respeito de rituais religiosos africanos para falar sobre cultura. \u201cDois alunos se levantaram e se recusaram a assistir, pois disseram que aquilo n\u00e3o fazia parte da religi\u00e3o deles, que eram contra e se retiraram da sala\u201d, conta Bueno.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, muitos professores tamb\u00e9m t\u00eam preconceito e acham que a literatura africana vai falar de aspectos religiosos. \u201cOferecer uma boa forma\u00e7\u00e3o pode quebrar isso, mas precisava ser algo cont\u00ednuo e contundente, e desde a universidade.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de previsto em Lei e de o conte\u00fado ser obrigat\u00f3rio, o planejamento e a aplica\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados acaba sendo muito particular por parte de cada professor. \u201cEle precisa trabalhar literatura com os alunos, mas geralmente fica livre na escolha do texto liter\u00e1rio\u201d, explica. \u201cMuitos abordam a literatura africana e afro-brasileira porque s\u00e3o negros, outros porque se interessam pelo tema, mas h\u00e1 os que n\u00e3o o fazem ou por n\u00e3o se interessarem ou por n\u00e3o terem forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.\u201d<\/p>\n<p>E como abordar a hist\u00f3ria e a cultura de um continente com mais de 50 pa\u00edses independentes, com hist\u00f3rias, culturas e, consequentemente, literaturas t\u00e3o variadas e distintas? O pesquisador sugere que a abordagem poderia ser a respeito dessas diferen\u00e7as. Ou sobre a coloniza\u00e7\u00e3o, que aproxima o Brasil de tantos pa\u00edses africanos que passaram pelo mesmo processo. Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 trabalhar com autores de pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa, como o mo\u00e7ambicano Mia Couto, o portugu\u00eas radicado em Angola, Jos\u00e9 Luandino Vieira e tantos outros. Entre os autores afro-brasileiros, h\u00e1 cl\u00e1ssicos como Lima Barreto, do mesmo modo que h\u00e1 escritores contempor\u00e2neos, como \u00e9 o caso de Cuti, pseud\u00f4nimo do escritor Luiz Silva, al\u00e9m de in\u00fameros outros nomes que poderiam ser estudados durante a escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mais informa\u00e7\u00f5es: email: <a>andregodoy@usp.br<\/a>, com o professor Andr\u00e9 de Godoy Bueno<\/strong><\/p>\n<p><em>Publica\u00e7\u00e3o original em <a href=\"http:\/\/www.usp.br\/agen\/?p=227165\" target=\"_blank\">Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo avaliou a presen\u00e7a das literaturas africanas e afro-brasileira na rede municipal e estadual de ensino (Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias)<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-2886","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2886"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2886\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2887,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2886\/revisions\/2887"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/prp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}