{"id":1038,"date":"2016-07-06T13:30:02","date_gmt":"2016-07-06T15:30:02","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1038"},"modified":"2025-07-04T17:48:27","modified_gmt":"2025-07-04T19:48:27","slug":"os-meus-os-seus-os-nossos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/os-meus-os-seus-os-nossos\/","title":{"rendered":"Os meus, os seus, os nossos"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Com as novas estruturas familiares, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de fornecer as mesmas garantias legais e visibilidade que as fam\u00edlias tradicionais j\u00e1 t\u00eam como direito<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/fam\u00edlia2.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1041 aligncenter\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/fam\u00edlia2.png\" alt=\"\" width=\"731\" height=\"520\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/fam\u00edlia2.png 640w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/fam\u00edlia2-300x213.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/fam\u00edlia2-400x284.png 400w\" sizes=\"(max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 2011, era comum ver colado nos vidros ou nas traseiras de autom\u00f3veis, por todo o pa\u00eds, os adesivos da \u201cfam\u00edlia feliz\u201d. A \u201cfebre\u201d durou um bom tempo, havendo quem adorasse a ideia e quem a achasse \u201cbrega\u201d ou mesmo perigosa, porque os membros da fam\u00edlia ficavam demarcados onde quer que se fosse.\u00a0De qualquer modo, era muito simples montar sua fam\u00edlia: bastava comprar os adesivos em papelarias, bancas de jornal ou ambulantes. E assim a \u201cfam\u00edlia feliz\u201d podia rapidamente ser constitu\u00edda por apenas alguns trocados.<\/p>\n<p>Todavia, para al\u00e9m dos modismos nossos de cada dia, havia incutido no singelo adesivo o desejo de representatividade: \u201cessa \u00e9 a minha fam\u00edlia\u201d. Ela podia ser do jeito que fosse. Casais com filhos e animais de estima\u00e7\u00e3o; grandes fam\u00edlias com tios e av\u00f3s; casais sem filhos; m\u00e3e (ou pai) com filho(s); casais homossexuais; pessoas sozinhas com animais de estima\u00e7\u00e3o; muitas pessoas sem la\u00e7o sangu\u00edneo; entre outras tantas forma\u00e7\u00f5es.\u00a0Cada carro ilustrava uma, que podia ser parecida ou totalmente diferente da fam\u00edlia representada no carro ao lado.<\/p>\n<p>Os primeiros adesivos vendidos vinham com uma estrutura padr\u00e3o: pai, m\u00e3e, alguns filhos e animais variados. Mas, algumas fam\u00edlias \u201cfugiam \u00e0 regra\u201d e, ent\u00e3o, os \u201cmembros\u201d puderam ser comprados individualmente, para que cada um montasse a sua fam\u00edlia completa, sem padroniza\u00e7\u00f5es, sem modelos, porque \u00e9 assim que as coisas s\u00e3o. No adesivo destacado da tira, s\u00e3o infinitas as possibilidades de combina\u00e7\u00f5es e todas atendem pelo mesmo t\u00edtulo: fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Essas fam\u00edlias n\u00e3o-tradicionais foram as que se sentiram especialmente desrespeitadas quando, em setembro do ano passado, a Comiss\u00e3o Especial do Estatuto da Fam\u00edlia, da C\u00e2mara dos Deputados, divulgou o resultado \u2013 bastante pol\u00eamico \u2013 de uma vota\u00e7\u00e3o acerca da defini\u00e7\u00e3o conceitual de \u201cfam\u00edlia\u201d. Segundo o parecer do projeto de lei que cria o Estatuto, do deputado Diego Garcia, a fam\u00edlia brasileira \u00e9 reconhecida como a \u201centidade familiar formada a partir da uni\u00e3o entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de uni\u00e3o est\u00e1vel, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos\u201d. O resultado foi visto como excludente, hip\u00f3crita e claramente preconceituoso, uma vez que suprimia da defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 fam\u00edlia toda e qualquer forma\u00e7\u00e3o que fuja ao tradicional modelo brasileiro (casal heterossexual com filhos).<\/p>\n<p>Como resposta \u00e0 decis\u00e3o da Comiss\u00e3o surgiram manifestos e campanhas com o intuito de representar a multiplicidade que, hoje, est\u00e1 por tr\u00e1s da defini\u00e7\u00e3o votada. O Grande Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa Houaiss, por exemplo, lan\u00e7ou neste ano a campanha #todasasfamilias, em que pessoas comuns podiam encaminhar suas pr\u00f3prias defini\u00e7\u00f5es para o conceito, at\u00e9 ent\u00e3o definido no dicion\u00e1rio como \u201cgrupo de pessoas vivendo sob o mesmo teto (especialmente o pai, a m\u00e3e e os filhos), que t\u00eam ancestralidade comum ou prov\u00eam de um mesmo tronco, ou ligadas entre si pelo casamento e pela filia\u00e7\u00e3o, excepcionalmente pela ado\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_1042\" style=\"width: 436px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VUppDvM3CkU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1042\" class=\"wp-image-1042 size-full\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/videocase.png\" alt=\"\" width=\"426\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/videocase.png 426w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/videocase-300x168.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/videocase-310x174.png 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/videocase-400x224.png 400w\" sizes=\"(max-width: 426px) 100vw, 426px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1042\" class=\"wp-caption-text\">Clique na imagem para abrir o v\u00eddeo<\/p><\/div>\n<p>A campanha, elaborada pelo Houaiss e pela ag\u00eancia NBS, em parceria com a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio e a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Fam\u00edlias Homoafetivas, contou com a participa\u00e7\u00e3o ativa dos internautas que puderam acessar um site especialmente criado para o projeto e responder \u00e0 frase \u201cpara mim, fam\u00edlia \u00e9.\u2026\u201d. Foi poss\u00edvel, tamb\u00e9m, assistir aos v\u00eddeos de outras pessoas que apresentavam suas concep\u00e7\u00f5es. E, com o somat\u00f3rio das sugest\u00f5es o Houaiss decidiu ent\u00e3o criar um significado diferenciado, mais democr\u00e1tico e abrangente, a ser colocado nas pr\u00f3ximas edi\u00e7\u00f5es do dicion\u00e1rio.<\/p>\n<h6><strong>Do institu\u00eddo ao constru\u00eddo<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1043\" style=\"width: 730px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1043\" class=\"wp-image-1043 size-large\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2-725x1024.png\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"1017\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2-725x1024.png 725w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2-212x300.png 212w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2-768x1085.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2-400x565.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-2.png 810w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1043\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Freepik | Layout: Natalia Belizano e Fernanda Giacomassi<\/p><\/div>\n<p>Ainda que campanhas como essa n\u00e3o tenham o poder de alterar as defini\u00e7\u00f5es feitas pela C\u00e2mera dos Deputados, s\u00e3o valiosas porque procuram dar signific\u00e2ncia \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sofridas pela sociedade, n\u00e3o s\u00f3 atualizando um verbete, mas possibilitando o debate atrav\u00e9s do privil\u00e9gio da mobiliza\u00e7\u00e3o popular. A redefini\u00e7\u00e3o do conceito abra\u00e7a aos milh\u00f5es de brasileiros exclu\u00eddos, especialmente os casais homoafetivos, na vota\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o que prop\u00f5e a defesa da fam\u00edlia, mas acaba apenas por supervalorizar uma imagem unilateralmente patriarcalista e retr\u00f3grada, ainda que cada vez menos majorit\u00e1ria.<\/p>\n<h6><strong>Era uma vez a fam\u00edlia\u00a0tradicional brasileira\u2026\u00a0<\/strong><\/h6>\n<p>No chamado \u201cmodelo tradicional\u201d ou \u201cmodelo nuclear\u201d de estrutura familiar h\u00e1, obrigatoriamente, a presen\u00e7a, como casal, de um genitor feminino e um masculino, que originariam filhos, estabelecendo-se assim, a fam\u00edlia. Em tempos remotos esse padr\u00e3o n\u00e3o se quebraria. Nem mesmo a morte ou a separa\u00e7\u00e3o dos c\u00f4njuges \u2013 oriunda da infelicidade, do desgaste ou do fim do amor \u2013 poderia (ou deveria) interferir na estrutura.<\/p>\n<p>Em psican\u00e1lise, essa vis\u00e3o tradicional encontra conson\u00e2ncia em Freud, que permitiu a cria\u00e7\u00e3o de um modelo de identifica\u00e7\u00e3o sexual triangular. Na teoria do psicanalista desenvolveu-se o conceito de fam\u00edlia \u00e0 luz do Complexo de \u00c9dipo, pelo vi\u00e9s da realidade ps\u00edquica. Aqui destaca-se a figura do pai (do sexo masculino), como o alicerce da fam\u00edlia, detentor do poder do tri\u00e2ngulo e dirigente das leis da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Para a Prof. Dra. Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos da Fam\u00edlia (LEFAM), do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, algumas formula\u00e7\u00f5es de Freud est\u00e3o fundamentadas em uma concep\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia datada historicamente. \u201cO modelo de fam\u00edlia nuclear \u00e9 composto por um par heterossexual que forma com os filhos uma unidade domestica independente. Nela, o pai \u00e9 a figura do provedor, o representante da fam\u00edlia perante a sociedade e a mulher \u00e9 aquela mais pr\u00f3xima aos filhos e aos cuidados da casa\u201d, explica.<\/p>\n<p>Ainda segundo Mandelbaum, \u201cesse modelo tradicional burgu\u00eas do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX \u00e9 muitas vezes tomado na psican\u00e1lise de maneira acr\u00edtica\u201d. O que de certa forma, explica como nos dias de hoje parte da sociedade n\u00e3o legitima qualquer estrutura que fuja a esse modelo, ainda que haja uma pluralidade de novos.<\/p>\n<p>No \u00faltimo Censo (2010), do IBGE, pode-se perceber a dimens\u00e3o das mudan\u00e7as sofridas nas estruturas familiares. Os dados apontam, por exemplo, um decr\u00e9scimo de fam\u00edlias constitu\u00eddas por um casal heterossexual com filhos (54,9%) em rela\u00e7\u00e3o ao Censo anterior que registrava de 63,6%.<\/p>\n<p>O aumento (e a facilidade) do div\u00f3rcio e das separa\u00e7\u00f5es fez aumentar a diversidade de arranjos menos tradicionais, com expressivo aumento de crian\u00e7as vivendo em fam\u00edlias monoparentais ou pluriparentais, com os av\u00f3s, por exemplo. Al\u00e9m das fam\u00edlias reconstitu\u00eddas, forma\u00e7\u00f5es que se d\u00e3o ap\u00f3s morte de um dos pais, ou ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o, com forma\u00e7\u00e3o de novos n\u00facleos: pais com filhos de um antigo casamento (ou filhos de apenas um dos c\u00f4njuges) vivendo juntos sob o mesmo teto. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o se havia ainda uma an\u00e1lise mais aprofundada dessas extens\u00f5es familiares que juntas representam os outros 45,1% das fam\u00edlias analisadas no Censo, comprovando que o novo retrato da fam\u00edlia brasileira \u00e9 cada vez menos evidente e mais plural.<\/p>\n<p>O Censo Demogr\u00e1fico 2010 constatou ainda que no Brasil existem mais de 60 mil casais homoafetivos. Nunca antes haviam sido contabilizados os casais de mesmo sexo que residem sob o mesmo teto como c\u00f4njuges. A regi\u00e3o sudeste do pa\u00eds representa mais da metade desse n\u00famero, com registrados 32.202 casais.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de casais homoafetivos ganharam maior estabilidade com a decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal (STF) que em 2011 passou a reconhecer a uni\u00e3o est\u00e1vel para casais do mesmo sexo; e, com a determina\u00e7\u00e3o feita pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), em 2013, de que os cart\u00f3rios do pa\u00eds deveriam realiza a uni\u00e3o civil entre eles. Desde ent\u00e3o o n\u00famero de casamentos s\u00f3 aumentou. Segundo dados mais recentes do IBGE, em 2014 foram registrados 4.854 casamentos entre c\u00f4njuges do mesmo sexo, representando um aumento de 31,2% em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2013, primeiro ano em que essa pesquisa foi feita com casais de mesmo sexo.<\/p>\n<p>Com as rela\u00e7\u00f5es efetivadas ampliou-se o anseio desses casais por uma continuidade, de um \u201ccontar a nossa hist\u00f3ria\u201d pelos filhos, e, a legalidade das rela\u00e7\u00f5es possibilitou o caminho para a constru\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia homoparental, um caminho que se outrora era ut\u00f3pico, hoje \u00e9 poss\u00edvel, mesmo que ainda labir\u00edntico e por vezes burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>De certa forma, essas novas lutas dos casais homossexuais pelo direito do estabelecimento de uma fam\u00edlia, e a possibilidade real \u2013 ap\u00f3s muitas conquistas judiciais \u2013 de um compartilhar da vida com filhos, fizeram aumentar as pesquisas e estudos sobre as novas formas de ser fam\u00edlia. Te\u00f3ricos das ci\u00eancias humanas e biol\u00f3gicas tem se desdobrado na compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem, sobretudo, em uma fam\u00edlia formada por um casal homossexual com filhos. Entre esses estudiosos est\u00e3o pesquisadores e doutores do IPUSP, que apresenta uma rica contribui\u00e7\u00e3o tanto no campo da psicologia social e cl\u00ednica, como na da psican\u00e1lise.<\/p>\n<h6><strong>E afinal, o que \u00e9 a fam\u00edlia?<\/strong><\/h6>\n<p>Em artigo publicado para o Boletim da Psicologia, a pesquisadora Brunella Carla Rodriguez, analisou, em parceria com a Prof. Dra Isabel Cristina Gomes, do Laborat\u00f3rio de Casal e Fam\u00edlia: Cl\u00ednica e Estudos Psicossociais do IPUSP, as novas formas de parentalidade, que se diferenciam da paternalidade e da maternidade, mais associada ao v\u00ednculo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Segundo elas, a parentalidade est\u00e1 para al\u00e9m do modelo de fam\u00edlia tradicional e biol\u00f3gica, \u201cde configura\u00e7\u00e3o heterossexual, monog\u00e2mica, hier\u00e1rquica e nuclear\u201d. H\u00e1, como j\u00e1 se citou, que se considerar, a fim de uma abrang\u00eancia da fam\u00edlia como totalidade, os muitos arranjos monoparentais por op\u00e7\u00e3o (ou n\u00e3o), pluriparentais e homoparentais. Esses \u00faltimos, hoje, s\u00e3o alvo de grande parte dos preconceitos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s novas estruturas, assim como outrora as fam\u00edlias que se dividiam ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram preteridas pela sociedade.<\/p>\n<p>E essa dificuldade em se aceitar o diferente, de tempos em tempos, estaria no fato de que h\u00e1 sempre um modelo tradicional instalado como norma no imagin\u00e1rio coletivo. Se antigamente pensar uma crian\u00e7a criada sem o pai ou a m\u00e3e em casa era absurdo, pois essa crian\u00e7a poderia apresentar defasagens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 completude da vida diante de um casal, hoje, pensar uma crian\u00e7a educada por dois pais ou duas m\u00e3es, \u00e9 ainda inaceit\u00e1vel para grande parte da popula\u00e7\u00e3o, vista como prejudicada pela falta de um dos \u201cpap\u00e9is\u201d desempenhados, ou com a sexualidade influenciada. E isso muito tem a ver com o papel da crian\u00e7a nessa pequena sociedade que \u00e9 a fam\u00edlia.<\/p>\n<div id=\"attachment_1044\" style=\"width: 584px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1044\" class=\"wp-image-1044\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-389x1024.png\" alt=\"\" width=\"574\" height=\"1511\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-389x1024.png 389w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-114x300.png 114w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade-228x600.png 228w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info-homoparentalidade.png 642w\" sizes=\"(max-width: 574px) 100vw, 574px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1044\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Freepik | Layout: Natalia Belizano e Fernanda Giacomassi<\/p><\/div>\n<p>A ideia de inf\u00e2ncia surgiu apenas no s\u00e9culo XVII, j\u00e1 em uma transi\u00e7\u00e3o para a sociedade moderna. Antes vista apenas como um adulto em miniatura, a crian\u00e7a passa a ser vista como um indiv\u00edduo social, com quem os pais passam a exercer la\u00e7os mais fortalecidos, responsabilizando-se por sua educa\u00e7\u00e3o e o direcionamento do futuro.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga, escritora e doutora em psicologia pela FFCLRP-USP, Ana Laura Martinez, podemos pensar essa rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com os pais recorrendo \u00e0s ci\u00eancias sociais. Segundo ela, \u201ca antropologia designa que uma fam\u00edlia \u00e9 um agrupamento espec\u00edfico de pessoas constitu\u00eddo por uma tr\u00edade formada pela m\u00e3e, pelo pai e, no m\u00ednimo, por um (a) filho (a). Ou seja, um homem e uma mulher sem filhos n\u00e3o \u00e9 uma fam\u00edlia, tratando-se, neste caso, simplesmente de um casal\u201d, resume. Dessa forma temos que uma fam\u00edlia n\u00e3o existe sem uma prole, ou invertendo a ordem dos valores e rememorando L\u00e9vi-Strauss, sem uma crian\u00e7a, uma fam\u00edlia n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Todavia, essa crian\u00e7a, nasce despreparada e, diferente do que ocorre no mundo animal, necessita do amparo e cria\u00e7\u00e3o dos genitores para sobreviver. \u201cNa psican\u00e1lise, dizemos que o ser humano \u00e9 um ser desamparado desde suas origens\u201d, nos fala Martinez. E aqueles que forneceram o material gen\u00e9tico criador desse fruto \u2013 a crian\u00e7a \u2013 contraem uma d\u00edvida, que em psican\u00e1lise \u00e9 chamada de d\u00edvida simb\u00f3lica. \u201cA d\u00edvida \u00e9 a de que estas duas pessoas, que concederam seus materiais gen\u00e9ticos diferentes para a gera\u00e7\u00e3o de um terceiro, diferente de ambos, ser\u00e3o respons\u00e1veis pelo longo trabalho de inser\u00e7\u00e3o deste ser no universo simb\u00f3lico\u201d, explica a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Entretanto, nem sempre essa crian\u00e7a prossegue sua jornada ao lado daqueles de quem herdou seu material gen\u00e9tico. Muitas vezes, por in\u00fameros motivos, essa crian\u00e7a \u00e9 criada por outros pais, adotivos, que passam ent\u00e3o a desempenhar a fun\u00e7\u00e3o do casal parental, que entre outras deve \u201cpromover a inser\u00e7\u00e3o da cria humana que ele gerou no universo simb\u00f3lico, sem o qual o homem n\u00e3o se funda enquanto sujeito. Observe o seguinte: antes da crian\u00e7a nascer, o mundo falante j\u00e1 estava estruturado, antes dela. E mais, esse mundo falante, no qual ela ser\u00e1 inserida, tem um impacto sobre ela e sobre quem ela ser\u00e1, sem que ela tenha menor no\u00e7\u00e3o disso. \u201d, elucida Martinez.<\/p>\n<p>A abordagem psicanal\u00edtica, atribuindo import\u00e2ncia \u00e0 fam\u00edlia de origem e \u00e0 capacidade de o ser humano de vincular-se, passa a ganhar destaque. E com as mudan\u00e7as de concep\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e das fun\u00e7\u00f5es do casal parental, surge a ideia de parentalidade. Segundo Rodriguez e Gomes, esse termo \u201cdestina-se \u00e0 no\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos de parentesco e processos biol\u00f3gicos decorrentes destes, sendo fruto da jun\u00e7\u00e3o dos termos paternidade e maternidade\u201d. A diferen\u00e7a \u00e9 que a parentalidade n\u00e3o est\u00e1 relacionada ao modelo tradicional da \u201cfam\u00edlia Doriana\u201d \u2013 biol\u00f3gica e perfeita nos comerciais. O novo conceito \u201cretira a \u00eanfase do v\u00ednculo biol\u00f3gico e dos pap\u00e9is sociais, enfatizando o processo de constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e vincularidade\u201d, explicam.<\/p>\n<p>V\u00ednculo que pode naturalmente ser estabelecido em uma fam\u00edlia homoparental \u2013 situa\u00e7\u00e3o na qual um indiv\u00edduo homossexual (ou casal) assume a responsabilidade por uma crian\u00e7a. Essas fam\u00edlias podem ser constru\u00eddas a partir de um relacionamento heterossexual anterior; pelas tecnologias reprodutivas; ou, pela ado\u00e7\u00e3o. E grande parte do preconceito que sofrem se direciona \u00e0 d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o sexual em uma fam\u00edlia formada por pais de mesmo sexo. Quem vai ser a \u201cm\u00e3e\u201d? Quem vai ser o pai?<\/p>\n<p>\u201cEssa composi\u00e7\u00e3o familiar \u00e9 marcada pela aus\u00eancia de pap\u00e9is fixos entre os membros; inexist\u00eancia de hierarquias e pela circula\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as no grupo; pela presen\u00e7a de m\u00faltiplas formas de composi\u00e7\u00e3o familiar e, consequentemente, de forma\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os afetivos e sociais, o que possibilita distintas refer\u00eancias de autoridade, tanto dentro do grupo como no mundo externo\u201d, consideram Rodriguez e Gomes.<\/p>\n<p>Ideia comprovada pela psic\u00f3loga Ana Laura Martinez, que em seu trabalho pesquisou o psicodinamismo de fam\u00edlias homoparentais femininas, pela vis\u00e3o da psican\u00e1lise, verificando que as divis\u00f5es de fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o estabelecidas caso a caso, de acordo com a personalidade de cada indiv\u00edduo que comp\u00f5e o casal.<\/p>\n<p>Com um dos casais entrevistados ela percebeu que elas naturalmente tinham jeitos diferentes, nada era imposto. \u201cEnquanto um dos membros sentia-se mais capaz de maternar, de aconchegar e acolher (importante frisar que esta capacidade n\u00e3o tinha correla\u00e7\u00e3o direta com o fato dela ser m\u00e3e biol\u00f3gica ou n\u00e3o), a outra, por quest\u00f5es pr\u00f3prias dela, acabava por assumir fun\u00e7\u00f5es dita mais masculinas como trabalhar fora e trazer dinheiro para a casa.\u201d. Ou seja, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es parentais, os papeis \u201cmaterno\u201d e \u201cpaterno\u201d podem ser desempenhados por qualquer um dos membros do casal.<\/p>\n<p>Martinez localizou e convidou alguns casais homoafetivos femininos para participar da pesquisa psicanal\u00edtica realizada com aten\u00e7\u00e3o flutuante. \u201cTrata-se do exerc\u00edcio de nos tornarmos cegos para podermos ver aquilo que, quando estamos repletos de desejo, n\u00e3o enxergamos\u201d, explica a psic\u00f3loga, que com o uso do m\u00e9todo pode analisar as motiva\u00e7\u00f5es e desejos da escolha pela maternidade.<\/p>\n<p>Com base nessa escuta anal\u00edtica foi poss\u00edvel perceber \u201cas idiossincrasias entre o desejo inconsciente e os imperativos da necessidade\u201d, apontando alguns motivos pela vontade de ser m\u00e3e. \u201cA necessidade imperiosa de ser m\u00e3e \u00e9 aquilo que muitas mulheres dizem quando chegam aos trinta e cinco &#8211; \u201cPreciso ser m\u00e3e\u201d- sem se questionarem, verdadeiramente, se querem ser m\u00e3e, sem t\u00eam condi\u00e7\u00f5es internadas, desejo mesmo de serem m\u00e3es. Precisar \u00e9 uma coisa, querer \u00e9 outra. Precisar \u00e9 um imperativo categ\u00f3rico, que n\u00e3o perdoa, n\u00e3o questiona, n\u00e3o tolera a frustra\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o respeita os pr\u00f3prios limites. Querer, desejar \u00e9 de outra ordem. Desejar \u00e9 algo que emana do inconsciente como uma chama vital que nos impele para algo do qual n\u00e3o podemos fugir, sem deixarmos de sentir que, com isso, n\u00e3o estamos sendo n\u00f3s mesmos\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n<p>Esse desejo de ser m\u00e3e, diferente de um \u201cpreciso ser\u201d, sempre foi presente em Lorrany Figueiredo, m\u00e3e dos pequenos Ben\u00edcio, Samuel e Vicente. Casada com Lidiane Faria h\u00e1 6 anos por uni\u00e3o est\u00e1vel e h\u00e1 2 anos por uni\u00e3o civil, Lorrany contou em entrevista \u00e0 psico.usp, que ser m\u00e3e era um sonho particular, mesmo antes de conhecer sua esposa. Isso n\u00e3o pela idade ou outro motivo que n\u00e3o por um desejo do exerc\u00edcio da maternidade. Por isso, quando casadas, come\u00e7aram a planejar a forma\u00e7\u00e3o do que ela chamou de \u201cfam\u00edlia completa\u201d, depois de estabilizadas no trabalho e na vida.<\/p>\n<p>\u201cMinha esposa desejava ser m\u00e3e, mas s\u00f3 eu tinha esse sonho de gerar as crian\u00e7as, por isso tudo aconteceu como as duas esperavam\u201d, conta Lorrany, enquanto se desdobra em cuidados aos trig\u00eameos de apenas 1 m\u00eas de vida. Sonho esse sempre fora apoiado e compartilhado pela fam\u00edlia do casal. \u201cNossa fam\u00edlia foi fundamental desde o in\u00edcio. E, se temos o apoio dela, n\u00e3o precisamos do apoio de mais ningu\u00e9m. Apenas nossa fam\u00edlia \u00e9 o que importa e gra\u00e7as a Deus temos o apoio de todos\u201d, comenta Lorrany.<\/p>\n<p>Retomando \u00e0 pesquisa de Ana Laura Martinez, a pesquisadora conta que ap\u00f3s as entrevistas psicanal\u00edticas foi aplicado \u00e0s entrevistadas o instrumento projetivo Desenho de Fam\u00edlias com Est\u00f3rias, com o objetivo de avaliar a personalidade global dos entrevistados. Pelos desenhos foi poss\u00edvel verificar alguns significados inconscientes ao desejo de ser m\u00e3e, assim como proje\u00e7\u00f5es feitas em cima da fam\u00edlia que se teve: normalmente um desejo \u2013 inconsciente \u2013 de suprir as aus\u00eancias e traumas do que se viveu em fam\u00edlia.<\/p>\n<h6><strong>Por detr\u00e1s da parentalidade, o medo dos novos pais<\/strong><\/h6>\n<p>Sempre existiu o mito, justaposto a uma concep\u00e7\u00e3o machista, de quem cuida da casa e das crian\u00e7as \u00e9 a mulher. A mulher teria um instinto natural \u2013 o famoso instinto materno \u2013 de cuidados. Diante dessa pol\u00eamica dilem\u00e1tica, relacionada ao binarismo de g\u00eanero, a pesquisadora e psic\u00f3loga do IPUSP, Brunella Rodriguez, dedicou-se desde o mestrado a estudar a representa\u00e7\u00e3o parental, exclusivamente em casais masculinos, justamente para tentar investigar os pressupost<a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info_homoparentalidade3.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1048 alignright\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info_homoparentalidade3-331x1024.png\" alt=\"\" width=\"355\" height=\"1098\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info_homoparentalidade3-331x1024.png 331w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info_homoparentalidade3-97x300.png 97w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/info_homoparentalidade3-194x600.png 194w\" sizes=\"(max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/a>os de que o homem n\u00e3o estaria apto \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/p>\n<p>Rodriguez, hoje em pesquisa de doutorado pela USP, observou que existe uma rela\u00e7\u00e3o muito intensa com a fam\u00edlia de origem nas rela\u00e7\u00f5es parentais masculinas. \u201cQuest\u00f5es internalizadas e preconceito afetam e influem a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o parental, al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o conjugal, que se mostra cheia de entraves\u201d, explicou a pesquisadora em entrevista \u00e0 psico.usp.<\/p>\n<p>Essas observa\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas com base na psican\u00e1lise vincular que se diferencia da psican\u00e1lise cl\u00e1ssica freudiana. Se essa \u00faltima \u00e9 intraps\u00edquica, com rela\u00e7\u00f5es profundas do inconsciente; na vincular tudo \u00e9 quest\u00e3o de v\u00ednculo. \u201cH\u00e1 um outro olhar, um foco relacional. N\u00e3o d\u00e1, por exemplo, para pensar em um atendimento cl\u00ednico, sem pensar em como esse indiv\u00edduo se relaciona n\u00e3o s\u00f3 com o analista, mas com o namorado, marido, tio&#8230; Como ele constr\u00f3i esse la\u00e7o, esse v\u00ednculo\u201d, nos conta Rodriguez que v\u00ea na psican\u00e1lise vincular um modo de entender e interpretar alguns medos apresentados pelos casais que entrevistou.<\/p>\n<p>\u201cquando se adota uma crian\u00e7a, se adota a fam\u00edlia biol\u00f3gica, a fam\u00edlia estendida, \u00e9 preciso integrar os legados geracionais \u2013 filiativos e afiliativos\u201d<\/p>\n<p>\u201cNa psican\u00e1lise vincular o que ganha muita for\u00e7a \u00e9 pensar nas influ\u00eancias que a gente sofre inclusive por segredos, traumas, quest\u00f5es que permanecem em grande parte transgeracionalmente, s\u00e3o conte\u00fados t\u00e3o pesados e n\u00e3o intelig\u00edveis, que eles ficam inconscientes\u201d, elabora a psic\u00f3loga. Uma perda, um incesto, um sentimento n\u00e3o elaborado, coisas perdidas no passado ou em outra gera\u00e7\u00e3o podem influenciar as escolhas e os entraves dos casais na ado\u00e7\u00e3o ou durante o exerc\u00edcio da parentalidade.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga desenvolveu em sua pesquisa o termo \u201cparentalidade reparat\u00f3ria\u201d, que seria a tentativa de reparar as faltas que os pais sentiram enquanto filhos, por meio da atualiza\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio parental. \u201cEles querem criar uma repara\u00e7\u00e3o daquilo que n\u00e3o tiveram, se ele \u00e9 parte minha eu quero dar para ele o que eu n\u00e3o tive\u201d, explica.<\/p>\n<p>Rodriguez buscou para sua pesquisa casais de homens em uni\u00e3o est\u00e1vel ou casados que tivessem adotado conjuntamente. Nos participantes da pesquisa, ela encontrou pretendentes para a ado\u00e7\u00e3o que aceitavam perfis excludentes de crian\u00e7as, como, por exemplo, crian\u00e7as com mais de 7 anos. A escolha foi feita para que nenhum dos pais tivesse v\u00ednculo biol\u00f3gico e, ao mesmo tempo, estivessem ambos com direitos igualit\u00e1rios diante dos filhos.<\/p>\n<p>Ainda que no discurso da maioria dos entrevistados esteja presente uma ideia de aceita\u00e7\u00e3o, de \u201cestou bem comigo mesmo e me aceito como sou\u201d, ela notou que o preconceito e a homofobia aparecem do modo inconsciente, via atos falhos.\u00a0 \u201cE a\u00ed eu percebi essa quest\u00e3o de identifica\u00e7\u00e3o com o exclu\u00eddo, o preterido, com o que est\u00e1 \u00e0 margem da sociedade, que \u00e9 o lugar em que eles se encontram ainda hoje\u201d, observou a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Outro ponto importante da pesquisa de Rodriguez foi a constata\u00e7\u00e3o de uma certa tentativa de padroniza\u00e7\u00e3o em casais homossexuais. Os homossexuais que s\u00e3o conhecidos pela luta por direitos nas d\u00e9cadas passadas, especialmente se tratando do desvincular-se das algemas da fam\u00edlia, hoje est\u00e3o cada vez mais se normatizando atrav\u00e9s do direito ao casamento e aos filhos. Mas, isso que em um primeiro momento parece ser uma manuten\u00e7\u00e3o de um certo \u201cstatus quo\u201d, \u00e9, segundo Rodriguez, um desejo de transmiss\u00e3o de valores, ou, mais simplesmente, de pertencimento, de dar netos aos pais e ser ent\u00e3o parte dessa fam\u00edlia que pode t\u00ea-lo renegado por ser homossexual. \u201cAs fam\u00edlias de origem acabam muitas vezes se aproximando dos filhos homossexuais por causa das crian\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Os medos dos pais homossexuais masculinos aparecem com maior clareza em rela\u00e7\u00e3o ao receio diante do futuro das crian\u00e7as. Por isso, notou-se uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em perguntar se essas crian\u00e7as querem ser adotadas por pais homossexuais, j\u00e1 que elas ter\u00e3o de lidar com essa aceita\u00e7\u00e3o socialmente. \u201cH\u00e1 um medo de que eles possam colocar as crian\u00e7as em sofrimento, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 homofobia escolar\u201d, percebeu Rodriguez, para a qual os casais passar a buscar uma integra\u00e7\u00e3o na normatiza\u00e7\u00e3o hetereossexual nos cuidados e na apresenta\u00e7\u00e3o dos papeis sociais.<\/p>\n<p>Um dos casais entrevistados pela pesquisadora encontrou na escola e na presen\u00e7a da empregada a manuten\u00e7\u00e3o do papel feminino para os filhos pois acreditavam que a elas faltariam esse \u201ccuidadinho de m\u00e3e, que pensa em mandar uma mudinha de roupa a mais, essas coisas&#8230;\u201d, comenta Rodriguez que v\u00ea nessa atitude um medo escondido no preconceito sofrido, de n\u00e3o suprir as fun\u00e7\u00f5es parentais.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, mesmo em fam\u00edlias mais tradicionais se observa que muitas vezes a m\u00e3e \u00e9 mais en\u00e9rgica at\u00e9 por conta dessa quest\u00e3o hist\u00f3rica que v\u00ea na m\u00e3e a figura da educadora, da criadora, mas essa caracter\u00edstica n\u00e3o \u00e9 inata, n\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda por g\u00eaneros, podendo ser engendrada. \u201cO quanto um homem n\u00e3o pode dar conta de cuidar de um beb\u00ea sem a presen\u00e7a feminina? Eles precisam entender que essa n\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica biol\u00f3gica\u201d, aponta a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as precisam entender apenas que existem g\u00eaneros diferentes, que as pessoas s\u00e3o diferentes com caracter\u00edsticas diferentes e isso basta porque nenhuma crian\u00e7a participar\u00e1 s\u00f3 de um n\u00facleo familiar, ela perceber\u00e1 o mundo e as pessoas \u00e0 sua volta formando sua identidade e as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas. E isso, segundo Rodriguez vem do contato com o outro, com a fam\u00edlia para al\u00e9m do casal parental. \u201cA fam\u00edlia de substitui\u00e7\u00e3o, que seria aquela formada pelos la\u00e7os de amizade dur\u00e1veis, em grande parte devido \u00e0 disponibilidade e energia que eles t\u00eam para se dedicar a essas crian\u00e7as, criando um v\u00ednculo de confian\u00e7a, uma responsabilidade e acabam que continuam a fazer parte porque quando se adota uma crian\u00e7a, se adota a fam\u00edlia biol\u00f3gica, a fam\u00edlia estendida, \u00e9 preciso integrar os legados geracionais \u2013 filiativos e afiliativos\u201d, considera a pesquisadora do IPUSP.<\/p>\n<h6><strong>Homoparentalidade\u00a0e legalidade:\u00a0a problem\u00e1tica da adoa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n<p>A palavra ado\u00e7\u00e3o vem do latim \u201cadotare\u201d, que significa \u201coptar ou decidir-se por, escolher, preferir\u201d. Quando um casal, tanto homoafetivo como heteronormativo, adota ele opta pelo amor, ainda que n\u00e3o oriundo da biologia.<\/p>\n<p>No Brasil ainda n\u00e3o existem leis espec\u00edficas sobre a ado\u00e7\u00e3o homoparental, todavia, com a aprova\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o est\u00e1vel de casais homossexuais pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, em 2011, abriu-se a prerrogativa de que os ju\u00edzes reconhecessem o desejo dos casais e julgasse favor\u00e1vel o pedido de ado\u00e7\u00e3o, o que vem acontecendo, felizmente, com cada vez mais frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Todavia, o entendimento dos pedidos \u00e9 feito caso a caso e julgado juiz a juiz, ou seja, ainda que o ECA (Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente) estabele\u00e7a que qualquer pessoa, maior de vinte e um anos e dezesseis anos mais velha que o adotando possa adotar, independentemente de seu estado civil, n\u00e3o h\u00e1 uma unanimidade em rela\u00e7\u00e3o aos pedidos de ado\u00e7\u00e3o por casais homossexuais. A ado\u00e7\u00e3o por apenas um dos pais n\u00e3o possibilitava as vantagens do direito da dupla filia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meados de 2007 a ado\u00e7\u00e3o de filhos por casais l\u00e9sbicos j\u00e1 era um tema bastante comum na sociedade norte-americana. Mas, em fevereiro do citado ano um caso envolvendo um casal l\u00e9sbico, ganhou as p\u00e1ginas dos jornais com muita repercuss\u00e3o.\u00a0 O que tornava o caso ins\u00f3lito n\u00e3o era a ado\u00e7\u00e3o em si, mas sim o fato de que uma mulher ter adotado a pr\u00f3pria companheira. O casal foi para o estado do Maine regularizar a ado\u00e7\u00e3o, n\u00e3o por capricho, mas por amparo legal. Isso porque Olive Watson e Patricia Spado dividiam da casa \u00e0 conta banc\u00e1ria, mas n\u00e3o podiam desfrutar dos direitos m\u00ednimos garantidos aos casais heterossexuais, como benef\u00edcios previdenci\u00e1rios e heran\u00e7a.<\/p>\n<p>Casos assim como esse, indiretamente motivaram o pesquisador do IPUSP, Luiz Toledo a trabalhar \u201cA fam\u00edlia no discurso dos membros de fam\u00edlias homoparentais\u201d, sua tese de doutoramento. Ele conta que durante suas pesquisas iniciais lembrou das lutas das paradas gays, da reinvindica\u00e7\u00e3o dos direitos de ado\u00e7\u00e3o, de transmiss\u00e3o de heran\u00e7a, de uni\u00e3o est\u00e1vel e passou a olhar para tudo de uma outra maneira, que n\u00e3o a simples observa\u00e7\u00e3o. \u201cQuer dizer ent\u00e3o que eu posso me casar, ser pai, dividir um plano de sa\u00fade, deixar bens quando morrer, mas esses direitos n\u00e3o valem para as outras pessoas? Me chocou perceber esse absurdo em pleno s\u00e9culo XXI\u201d, contou Toledo em entrevista \u00e0 psico.usp.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, que tamb\u00e9m \u00e9 membro filiado \u00e0 Sociedade Brasileira de Psican\u00e1lise de Ribeir\u00e3o Preto, \u00e9 importante que se trabalhe o tema, que se discuta a homoparentalidade para que se encoraje outros colegas a tamb\u00e9m estudarem, para que assim se reconhe\u00e7a os direitos dessas fam\u00edlias n\u00e3o s\u00f3 como ato de civilidade, mas um exerc\u00edcio de toler\u00e2ncia da diferen\u00e7a. O psic\u00f3logo, que analisou o discurso, v\u00ea no termo \u201chomoparentalidade\u201d apenas um nome provis\u00f3rio, que nos Estados Unidos \u00e9 substitu\u00eddo por \u201cgays families\u201d, sem preju\u00edzo pejorativo. \u201cEnquanto durar a luta pelos direitos, ser\u00e1 \u00fatil usar um nome que identifique especificamente as fam\u00edlias\u201d, falou-nos Toledo, para o qual essa terminologia \u2013 que ainda assusta as pessoas como muitas outras \u2013 se tornar\u00e1 em breve menos relevante quando houver avan\u00e7os jur\u00eddicos e sociais, o que est\u00e1 acontecendo. \u201cFalar em homoparentalidade hoje pode ser \u00fatil como um aglutinador provis\u00f3rio uma \u2018invers\u00e3o estrat\u00e9gica\u2019, mas n\u00e3o como um diagn\u00f3stico ou algo do tipo\u201d, completa.<\/p>\n<p>Maur\u00edcio Ribeiro de Almeida, pesquisador do IPUSP, tamb\u00e9m trabalhou a forma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia por casal homoafetivo, especialmente nas quest\u00f5es subjetivas que tangem a ado\u00e7\u00e3o. Com experi\u00eancia como psic\u00f3logo judici\u00e1rio, e, com isso, com ampla experi\u00eancia em quest\u00f5es da legalidade, Almeida optou por estudar a problem\u00e1tica da ado\u00e7\u00e3o, tendo desenvolvido trabalhos important\u00edssimos dentro dessa tem\u00e1tica, como a colabora\u00e7\u00e3o de um cap\u00edtulo sobre a ado\u00e7\u00e3o homossexual na cartilha \u201cAdo\u00e7\u00e3o: um Direito de Todos e Todas\u201d, organizada pelo Conselho Federal de Psicologia.<\/p>\n<p>Em sua tese de doutoramento pelo IPUSP, Almeida estudou a quest\u00e3o do v\u00ednculo na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva da fam\u00edlia, analisando especificidades a fim de compreender de que modo essa nova configura\u00e7\u00e3o estabelecida pela ado\u00e7\u00e3o \u201cengendra novos paradigmas de fam\u00edlia e retoma processos e valores j\u00e1 incorporados nos modelos tradicionais de fam\u00edlia\u201d, explica o pesquisador em seu trabalho, que assim como o de Rodriguez verificou que a hist\u00f3ria de perdas e processos emocionais do passado ou n\u00e3o resolvidos na inf\u00e2ncia podem influenciar o sofrimento ps\u00edquico na fase adulta, assim como desencadear problemas emocionais no desenvolvimento da parentalidade.<\/p>\n<p>Almeida corrobora com o pensamento de Toledo no sentido de que acredita dever haver uma maior discuss\u00e3o da tem\u00e1tica, que n\u00e3o s\u00f3 sofre com a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como com ideias que se propagam no ide\u00e1rio social. \u201cRomper a barreira do silencia visando \u00e0 discuss\u00e3o mais qualificada dos aspectos sociais, ps\u00edquicos e legais, envolvidos nessa demanda, pode ser uma primeira tarefa\u201d, na opini\u00e3o do pesquisador. As incipientes discuss\u00f5es, normalmente pautadas no preconceito, no senso comum e no fervor religioso, continuam apenas a perpetuar opini\u00f5es populares como a de que \u201ca forma\u00e7\u00e3o moral e ps\u00edquica da crian\u00e7a ser\u00e1 prejudicada caso ela seja criada por pessoas do mesmo sexo\u201d, completa Almeida.<\/p>\n<p>Todavia, muitos casais ainda acreditam que o \u201coptar ou decidir-se por\u201d, do latim, vale mais do que os preconceitos arraigados na sociedade. Quando se opta pelo amor, pelo cuidado do outro, d\u00e1-se passos para uma sociedade mais humana e igualit\u00e1ria, principalmente porque se entende que os \u201cpreteridos\u201d s\u00e3o dignos de amor, de aten\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pensamento de Carlos Alberto J\u00fanior e Ivson Rodrigues casados h\u00e1 11 anos e pais de Carlos Eduardo, Ivson Jos\u00e9 e Jo\u00e3o Lucas, todos frutos das chamadas ado\u00e7\u00f5es tardias, termo que incomoda muito Carlos Alberto. \u201cN\u00e3o considero adequado hoje, depois de tanto ler, estudar e ouvir depoimentos de ado\u00e7\u00f5es bem-sucedidas, caracterizar tarde a capacidade afetiva de crian\u00e7as mais velhas amar, at\u00e9 porque elas s\u00e3o desejosas para terem uma fam\u00edlia e n\u00e3o sendo piegas, o amor \u00e9 a ferramenta poderosa para esta constru\u00e7\u00e3o afetiva se concretizar\u201d, explicou em entrevista \u00e0 revista psico.usp.<\/p>\n<p>O processo para a primeira ado\u00e7\u00e3o se iniciou em 2012 quando Carlos Alberto foi surpreendido positivamente pelo esposo com a documenta\u00e7\u00e3o para a ado\u00e7\u00e3o. Depois disso realizaram o CNA (Cadastro Nacional de Ado\u00e7\u00e3o), adequando as caracter\u00edsticas das crian\u00e7as que desejavam adotar. Por sorte e felicidade do casal, ficaram a fila por apenas 23 dias.<\/p>\n<p>Fam\u00edlia \u00e9 a uni\u00e3o de pessoas por la\u00e7os afetivos que vivem muitas vezes no mesmo espa\u00e7o e que se amam e respeitam.\u00a0Carlos Alberto afirma ainda que, embora tenha ci\u00eancia da exist\u00eancia de grande preconceito e saiba que eles e os filhos podem ainda ser v\u00edtimas da intoler\u00e2ncia do pr\u00f3ximo, durante o processo de ado\u00e7\u00e3o ele e o esposo foram muito bem tratados o que os fez conhecer um lado da justi\u00e7a que n\u00e3o conheciam, um lado em que for\u00e7as s\u00e3o unidas em prol da fam\u00edlia e do bem-estar das crian\u00e7as. Mas, ele sabe que nem todos os processos s\u00e3o assim, assim como a sociedade, de uma maneira geral.<\/p>\n<p>Para Carlos Alberto, n\u00e3o existem preju\u00edzos na cria\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as por casais homossexuais. Ele acredita que o acompanhamento psicopedag\u00f3gico \u00e9 importante na educa\u00e7\u00e3o dos filhos, at\u00e9 para maior compreens\u00e3o da pr\u00f3pria origem, do processo e do reconhecimento dos dois pais como fam\u00edlia, mas, acredita que as bases essenciais s\u00e3o encontradas dentro de casa, como fam\u00edlia. \u201cFam\u00edlia \u00e9 a uni\u00e3o de pessoas por la\u00e7os afetivos que vivem muitas vezes no mesmo espa\u00e7o e que se amam e respeitam, cujo papel \u00e9 de apoiar em todos os momentos, mostrando a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade humana\u201d, opina o pai Carlos Alberto que traduz de forma emocionada a import\u00e2ncia dos filhos na vida do casal. \u201cMeus filhos s\u00e3o a personifica\u00e7\u00e3o da potencializa\u00e7\u00e3o do amor, antes achava que o amor era uma conta de somar e multiplicar, com eles sentimos um amor nunca imaginado antes, a vida s\u00f3 tem sentido com eles\u201d.<\/p>\n<h6><strong>Preparando humanos para\u00a0o mundo<\/strong><\/h6>\n<p>Bela Magalh\u00e3es estava desenvolvendo seu projeto final de gradua\u00e7\u00e3o em Design Gr\u00e1fico, em 2012, mesma \u00e9poca em que a uni\u00e3o homoafetiva estava em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso. Militante da causa LGBT desde o come\u00e7o da faculdade ela viu no projeto uma possibilidade de fazer algo pelos filhos da causa.\u00a0 \u201cPensando nas novas fam\u00edlias LGBT que seriam formadas decidi fazer um livro para que seus filhos se sentissem representados na literatura e tivessem uma maneira de contar a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia para seus colegas. \u201d, contou Bela em entrevista \u00e0 revista psico.usp.<\/p>\n<p>O projeto de gradua\u00e7\u00e3o, escrito em 2012, foi publicado em livro em 2015, com financiamento conseguido atrav\u00e9s do Catarse. O Tenho Dois Papais, \u00e9 \u201cum livro infantil para estimular pequeninos e grand\u00f5es a pensarem sobre fam\u00edlia e diversidade. Afinal de contas, o que importa \u00e9 o amor! \u201d, avisa a chamada no site do livro que tem recebido um feedback animado de pessoas que, segundo Bela, contam que seus filhos est\u00e3o lidando melhor quando questionados sobre fam\u00edlia porque ganharam identifica\u00e7\u00e3o e representatividade.<\/p>\n<p>\u201cFam\u00edlia \u00e9 uma formula simples onde somamos pessoas + amor. Fam\u00edlia \u00e9 onde a gente prepara humanos para o mundo\u201d\u00a0Para a escritora e designer gr\u00e1fico as pessoas precisam destruir esses preconceitos que inserem no discurso, por exemplo, no que diz respeito \u00e0 ideia de dissemina\u00e7\u00e3o da homossexualidade por meio da parentalidade, o que para ela \u00e9 facilmente rebatido j\u00e1 que \u201ca maioria dos homossexuais foram criados por pais heterossexuais\u201d, compara.<\/p>\n<p>Para ela, e toda equipe do Tenho Dois Papais, uma crian\u00e7a precisa de coisas b\u00e1sicas como \u201camor, carinho e aten\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cN\u00f3s do Tenho Dois Papais brincamos que fam\u00edlia \u00e9 uma formula simples onde somamos pessoas + amor. Desde os primeiros est\u00edmulos at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os afetivos mais fortes, fam\u00edlia \u00e9 onde a gente prepara humanos para o mundo\u201d. Al\u00e9m disso, a designer pondera que a crian\u00e7a precisa saber desde cedo sobre sua origem, j\u00e1 que esse conhecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria \u00e9 um compartilhamento do amor, uma das fun\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia. \u201cSe voc\u00ea explicar para a crian\u00e7a desde cedo todas as peculiaridades e diferen\u00e7as entre as fam\u00edlias ela crescer\u00e1 segura de que n\u00e3o falta nada na sua\u201d, opina Bela.<\/p>\n<p>Para Ana Laura Martinez, psic\u00f3loga e doutora pela FFCLRP-USP, conhecer sua hist\u00f3ria \u00e9 fundamental para a crian\u00e7a. \u201cEm algum momento eles (os pais) v\u00e3o ter que explicar \u00e0 crian\u00e7a que dois p\u00eanis ou duas vaginas n\u00e3o geram uma crian\u00e7a. Que ela veio ao mundo de outro jeito: ou pela doa\u00e7\u00e3o de um esperma an\u00f4nimo, situa\u00e7\u00e3o que pode causar o inc\u00f4modo desta crian\u00e7a vir a querer conhecer o seu pai biol\u00f3gico; ou por uma rela\u00e7\u00e3o heterossexual anterior (neste caso, a crian\u00e7a tem um pai biol\u00f3gico real com quem jogar seu jogo imagin\u00e1rio); ou por ado\u00e7\u00e3o (neste caso tamb\u00e9m h\u00e1 pais que se deitaram para que ela viesse ao mundo)\u201d, explica a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Isso porque as fun\u00e7\u00f5es parentais se vinculam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ao nosso mito de origem, ou seja, de onde viemos e como e quem nos deu exist\u00eancia. Essa \u00e9 uma problem\u00e1tica humana t\u00e3o premente que anima, desde as nossas origens, os mitos de cria\u00e7\u00e3o do mundo. Assim, a crian\u00e7a, tal como um pequeno investigador cientista, busca construir o seu pr\u00f3prio mito individual para responder \u00e0s quest\u00f5es que a intrigam desde sempre: \u201cComo \u00e9 que eu vim ao mundo, mam\u00e3e? Quem \u00e9 meu pai? Para que serve um pai? \u201d. \u00c9 disso que se trata a problem\u00e1tica da sexualidade humana\u201d, elucida Martinez.<\/p>\n<p>Bela Magalh\u00e3es acredita, assim como o psic\u00f3logo e pesquisador Luiz Toledo, que a causa LGBT precisa de luta, uma luta que favore\u00e7a sobretudo a fam\u00edlia homoparental, relegada \u00e0 obscuridade do preconceito, que muitas vezes advem da ignor\u00e2ncia. Ela reconhece que essa luta por direitos \u00e9 exaustiva, mas n\u00e3o pode ser abandonada. \u201cA cada nova reportagem sobre empoderamento feminino, a cada fam\u00edlia homossexual feliz que acompanho faz valer a pena todo esfor\u00e7o e stress. N\u00f3s n\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o se n\u00e3o lutarmos para existirmos, para sermos felizes\u201d, elucida a escritora.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/Captura_de_Tela_2016-07-03_\u00e0s_00.19.57.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1050\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/Captura_de_Tela_2016-07-03_\u00e0s_00.19.57.png\" alt=\"\" width=\"693\" height=\"918\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/Captura_de_Tela_2016-07-03_\u00e0s_00.19.57.png 624w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/Captura_de_Tela_2016-07-03_\u00e0s_00.19.57-227x300.png 227w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/Captura_de_Tela_2016-07-03_\u00e0s_00.19.57-400x529.png 400w\" sizes=\"(max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por Aryanna Oliveira<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Iwata<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme<\/p>\n<p>Clique no t\u00edtulo para folhear as revistas <strong>psico.<\/strong>usp:<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista_psico.usp_n1_2015.pdf\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wp-editing=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista-psico.usp-n.-2-3-2016.pdf\">\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com as novas estruturas familiares, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de fornecer as mesmas garantias legais e visibilidade&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1055,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[374,1],"tags":[191,186,168,17,22],"class_list":["post-1038","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero","category-sociedade","tag-familia","tag-homossexualidade","tag-instituto","tag-psicologia","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1038"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6732,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1038\/revisions\/6732"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1038"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1038"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1038"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}