{"id":1039,"date":"2016-07-06T13:00:24","date_gmt":"2016-07-06T15:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1039"},"modified":"2025-07-04T17:50:02","modified_gmt":"2025-07-04T19:50:02","slug":"1039-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/1039-2\/","title":{"rendered":"O G\u00eanero na crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>M\u00e9todo desenvolvido em pesquisa identifica a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero em crian\u00e7as autistas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A discuss\u00e3o\u00a0sobre g\u00eanero, t\u00e3o importante para o reconhecimento das diversidades e dos direitos de cidadania,\u00a0ainda \u00e9 um grande tabu para a sociedade.\u00a0Prova disso \u00e9 que a possibilidade de abordagem desta quest\u00e3o nas escolas foi exclu\u00edda do Plano Municipal de Educa\u00e7\u00e3o, aprovado em 2015 pelas c\u00e2maras municipais. Felizmente, muitos estudiosos est\u00e3o tecendo novas pesquisas que ajudar\u00e3o a desmitificar esta e outras quest\u00f5es da sociedade, como a tese \u201cIdentidade de G\u00eanero em crian\u00e7as com Transtorno do Espectro Autista (TEA)\u201d, apresentada \u00e0 banca de doutorado do IPUSP, em 2014.<\/p>\n<div id=\"attachment_3059\" style=\"width: 587px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3059\" class=\"wp-image-3059 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crianca.png\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crianca.png 577w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crianca-300x153.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crianca-400x205.png 400w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><p id=\"caption-attachment-3059\" class=\"wp-caption-text\">Arte Ju Bernardo. Artista pl\u00e1stica<\/p><\/div>\n<p>A iniciativa da pesquisadora Silvana Batista Gaino se pautou no desenvolvimento de um teste que auxilia na identifica\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de identidade de g\u00eanero em crian\u00e7as. O Teste de Apercep\u00e7\u00e3o de G\u00eanero (TAG), foi desenvolvido primeiramente para crian\u00e7as em desenvolvimento normal, para depois ser aplicado em crian\u00e7as com Transtornos do Espectro Autista, grupo cl\u00ednico de grande interesse para a doutoranda. \u201cO que me motivou foi que sempre que se estuda o autismo procura-se focar no que a crian\u00e7a autista n\u00e3o consegue adquirir, ou no que ela n\u00e3o conhece. Eu quis partir de outro pressuposto: tentar encontrar algo que ela adquirisse como as outras crian\u00e7as\u201d, explica a pesquisadora. As bases te\u00f3ricas\u00a0para\u00a0a elabora\u00e7\u00e3o do projeto v\u00eam da Psicologia Evolucionista, a qual, segundo Gaino, auxilia no entendimento de como o ambiente interfere na percep\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O TAG constitui um procedimento l\u00fadico, elaborado como forma de brincadeira. Ali\u00e1s, esta \u00e9, segundo a literatura, um dos mais importantes instrumentos para a aquisi\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, uma vez que as crian\u00e7as entram em contato com a distin\u00e7\u00e3o entre meninos e meninas de forma expressiva e descontra\u00edda. Para a cria\u00e7\u00e3o do procedimento a pesquisadora entrevistou diversas crian\u00e7as do sudeste e do norte do Brasil e lhes pediu que falassem nomes de brinquedos considerados \u201cfemininos, masculinos e neutros\u201d.\u00a0 Os brinquedos e brincadeiras escolhidas foram distribu\u00eddos em cartas, separadas de acordo com os crit\u00e9rios estabelecidos pelos entrevistados e ent\u00e3o aplicadas ao grupo amostral que inclu\u00eda crian\u00e7as com desenvolvimento normal, crian\u00e7as com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e crian\u00e7as com Retardo Mental, todas entre quatro e seis anos de idade.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o do TAG \u00e9 simples e dura aproximadamente 10 minutos. As 51 cartas s\u00e3o organizadas em tr\u00eas blocos, como se fossem tr\u00eas baralhos, de acordo com as indica\u00e7\u00f5es presas no verso delas (CM = Cartas Masculinas; CN\/U = Cartas Neutras\/Unissex e CF = Cartas Femininas). Al\u00e9m dos 51 est\u00edmulos do\u00a0teste, existem tr\u00eas\u00a0 cartas que s\u00e3o utilizadas como exemplo devidamente identificadas no verso. Essas cartas s\u00e3o posicionadas em cima de cada bloco de cartas para facilitar o trabalho do examinador no momento de explica\u00e7\u00e3o da tarefa. Com base nisso, a crian\u00e7a deve escolher quais das brincadeiras mais lhe agradam entre todas.<\/p>\n<div id=\"attachment_3058\" style=\"width: 2631px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3058\" class=\"size-full wp-image-3058\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1.png\" alt=\"\" width=\"2621\" height=\"1156\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1.png 2621w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1-300x132.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1-768x339.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1-1024x452.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/genero-na-crian\u00e7a-1-400x176.png 400w\" sizes=\"(max-width: 2621px) 100vw, 2621px\" \/><p id=\"caption-attachment-3058\" class=\"wp-caption-text\">Ju Bernardo<\/p><\/div>\n<p>O\u00a0resultado alcan\u00e7ado mostrou que todas as crian\u00e7as conseguem identificar\u00a0as brincadeiras por \u201cg\u00eaneros\u201d,\u00a0mesmo que de forma diferente de acordo com cada grupo pesquisado.\u00a0Notou-se ainda que altera\u00e7\u00f5es originadas por fatores<br \/>\ndiversos fazem com que as crian\u00e7as com retardo mental mantenham por mais tempo a fase de rigidez dos estere\u00f3tipos relacionados ao g\u00eanero em fun\u00e7\u00e3o da idade, em detrimento da aquisi\u00e7\u00e3o da flexibilidade que \u00e9 esperada e pode ser encontrada em crian\u00e7as normais. Assim, as crian\u00e7as com TEA parecem manter essa rigidez, relacionada aos estere\u00f3tipos, durante todo o desenvolvimento intelectual.<\/p>\n<p>Para Silvana Gaino, a pesquisa evidenciou a enorme influ\u00eancia do componente social e familiar presente na decis\u00e3o das crian\u00e7as: \u201cficou muito claro, principalmente no caso dos meninos, que as escolhas eram influenciadas fortemente por no\u00e7\u00f5es sociais do que \u00e9 ser menino ou menina\u201d. Al\u00e9m disso, o resultado do teste mostrou que as meninas se sentem mais \u00e0 vontade para fazer escolhas mais neutras e at\u00e9 mesmo de brinquedos ditos \u201cmasculinos\u201d, o que foi uma novidade para os pesquisadores, que esperavam decis\u00f5es ainda muito cristalizadas pelas ideias sociais.\u00a0Quanto mais velhos os meninos, mais eles reafirmavam suas escolhas pelos brinquedos \u201cmasculinos\u201d, enquanto que as meninas, quanto mais velhas, menos queriam os brinquedos femininos. Elas buscavam principalmente os brinquedos neutros, como brincar com animais de estima\u00e7\u00e3o, andar de bicicleta, brincar no balan\u00e7o ou passear.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Se meninos e\u00a0meninas tivessemos mesmos est\u00edmulos,\u00a0 o\u00a0desenvolvimento e as escolhas de\u00a0ambos seriam muito mais pr\u00f3ximos<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cNa segunda rodada, com outras crian\u00e7as, n\u00f3s perguntamos \u2018o que voc\u00ea acha que \u00e9 de menino e o que \u00e9 de menina?\u2019 e percebemos que as meninas ficaram desconfort\u00e1veis para fazer esta escolha\u201d.\u00a0Gaino conta tamb\u00e9m que foi muito interessante observar a distin\u00e7\u00e3o entre o que era prefer\u00edvel e o que elas acreditavam ser esperado socialmente que elas escolhessem. \u201cEstamos em um momento de transi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento infantil. Deu para perceber que o desenvolvimento cognitivo destas crian\u00e7as est\u00e1 muito diferente do desenvolvimento encontrado em crian\u00e7as de outras gera\u00e7\u00f5es.\u00a0Eles possuem outros est\u00edmulos ambientais que modificam a forma como eles interagem com o mundo. E isso acontece tanto com crian\u00e7as em desenvolvimento cl\u00ednico quanto com crian\u00e7as em desenvolvimento normal\u201d, exemplifica a pesquisadora.<\/p>\n<p>Gaino acredita que a discuss\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 muito mais f\u00e1cil de ser feita com crian\u00e7as desta gera\u00e7\u00e3o do que com adultos, que, por possu\u00edrem pap\u00e9is muito bem definidos socialmente, dificilmente conseguem fugir da zona de conforto. Por isso, ela afirma que \u201cse meninos e meninas tivessem os mesmos est\u00edmulos, mesmo com a diferencia\u00e7\u00e3o relativa aos horm\u00f4nios, o desenvolvimento e as escolhas de ambos seriam muito mais pr\u00f3ximos. Hoje as estruturas sociais ainda influenciam fortemente neste quesito, fazendo as crian\u00e7as, por exemplo, se separarem, ao inv\u00e9s de haver troca m\u00fatua de conhecimento, o que faz as diferen\u00e7as ficarem claras e fortalece preconceitos e desigualdades\u201d.<\/p>\n<p>O\u00a0 Teste de Apercep\u00e7\u00e3o de G\u00eanero, proposto por Gaino, est\u00e1 sendo aperfei\u00e7oado e reformulado com desenhos mais gerais para poder ser usado universalmente, em qualquer regi\u00e3o. Com isso, ele certamente poder\u00e1 contribuir com futuras pesquisas sobrea identidade de g\u00eanero em crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Por Fernanda Giacomassi<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel e Maria Isabel da Silva Leme<br \/>\nArte: Ju Bernardo<\/p>\n<p>Clique no t\u00edtulo para folhear as revistas <strong>psico.<\/strong>usp:<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista_psico.usp_n1_2015.pdf\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wp-editing=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista-psico.usp-n.-2-3-2016.pdf\">\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9todo desenvolvido em pesquisa identifica a no\u00e7\u00e3o de g\u00eanero em crian\u00e7as autistas A discuss\u00e3o\u00a0sobre g\u00eanero, t\u00e3o importante para o reconhecimento&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1084,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[372,374,1,375],"tags":[49,224,225,37,168,223,60,17,222,22],"class_list":["post-1039","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossies","category-genero","category-sociedade","category-autismo","tag-autismo","tag-desenhos","tag-estimulos","tag-genero","tag-instituto","tag-metodo","tag-psicanalise","tag-psicologia","tag-teste-de-apercepcao","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1039"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1039\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6734,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1039\/revisions\/6734"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}