{"id":1045,"date":"2016-07-06T12:30:16","date_gmt":"2016-07-06T14:30:16","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1045"},"modified":"2025-07-04T18:08:09","modified_gmt":"2025-07-04T20:08:09","slug":"1045-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/1045-2\/","title":{"rendered":"O (n\u00e3o) olhar da educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #3366ff;\"><strong>Pesquisadora analisa como as esferas que cuidam do desenvolvimento da crian\u00e7a lidam com o tabu diante de projetos de lei que impedem o ensino do g\u00eanero na escola<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1051 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6-e1751658685405.jpg\" alt=\"\" width=\"895\" height=\"803\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6-e1751658685405.jpg 895w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6-e1751658685405-300x269.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6-e1751658685405-768x689.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7as6-e1751658685405-400x359.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 895px) 100vw, 895px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Desde o nascimento a crian\u00e7a \u00e9 bombardeada com diversas demonstra\u00e7\u00f5es culturais de g\u00eanero: seja o quarto azul ou rosa ou os brinquedos \u201cde menina\u201d ou \u201cde menino\u201d, essas manifesta\u00e7\u00f5es, que refor\u00e7am a dicotomia feminino\/masculino, v\u00eam para impor um g\u00eanero ao sujeito em forma\u00e7\u00e3o. Anos depois, j\u00e1 na escola, outras imposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas. \u00c9 muito comum observar casos de preconceito e despreparo profissional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero. Nas pr\u00e1ticas de sala de aula, nos livros did\u00e1ticos, nos procedimentos de avalia\u00e7\u00e3o e em tantas outras situa\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel verificar uma clara demarca\u00e7\u00e3o de lugares sociais de \u201cmeninas\u201d e\/ou de \u201cmeninos\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do g\u00eanero, sua discuss\u00e3o e uma abordagem em defesa da diversidade encontra o preconceito sempre foi pol\u00eamica, tanto no Plano Nacional da Educa\u00e7\u00e3o, o chamado PNE, como nos Planos Estaduais e Municipais. Mas, desde junho de 2014, o debate ganhou nova for\u00e7a, quando se estabeleceu um prazo de um ano para que estados e munic\u00edpios aprovassem documentos de seu plano de educa\u00e7\u00e3o para os pr\u00f3ximos dez anos. Nesses documentos prev\u00ea-se a proibi\u00e7\u00e3o de quaisquer assuntos relacionados a g\u00eanero e sexualidade nas salas de aula. Com o prazo de um ano esgotado, a pol\u00eamica retomou com for\u00e7a total.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff00ff;\"><strong>O complexo de \u00c9dipo \u00e9 o momento em que as crian\u00e7as v\u00e3o se deparar com a<br \/>\nmasculinidade, com a feminilidade e com os pap\u00e9is de fam\u00edlia<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Procurando entender esse ambiente de forma\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a como indiv\u00edduo e a import\u00e2ncia do tratamento dos assuntos de g\u00eanero no plano educacional, a pesquisadora Danielly Passos de Oliveira est\u00e1 desenvolvendo um projeto de p\u00f3s-doutorado trabalhando a quest\u00e3o do g\u00eanero no que concerne \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, seja em casa ou na escola, procurando entender a percep\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a sobre fam\u00edlia e g\u00eanero. Ainda que a pesquisa esteja em desenvolvimento, j\u00e1 foi poss\u00edvel verificar importantes dados para ampliar e aprofundar a discuss\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_6737\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/Danielly-Passos-de-Oliveira.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6737\" class=\"wp-image-6737 size-medium\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/Danielly-Passos-de-Oliveira-300x280.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/Danielly-Passos-de-Oliveira-300x280.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/Danielly-Passos-de-Oliveira-400x374.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/Danielly-Passos-de-Oliveira.jpg 670w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6737\" class=\"wp-caption-text\">A p\u00f3s-dutoranda Danielly Passos de Oliveira explica seu projeto \u201c(Re)inven\u00e7\u00f5es do masculino e do feminino: percep\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as sobre fam\u00edlias e g\u00eanero\u201d<\/p><\/div>\n<h6><strong>\u00c9dipo e as crian\u00e7as<\/strong><\/h6>\n<p>O projeto de Danielly prev\u00ea uma an\u00e1lise acerca das novas constitui\u00e7\u00f5es familiares e o modo como as crian\u00e7as percebem e aprendem as quest\u00f5es de g\u00eanero, como definem o que popularmente chamamos de papel de cada\u00a0indiv\u00edduo. Saindo da fam\u00edlia nuclear, tida como tradicional, a pesquisadora busca compreender como os indiv\u00edduos em forma\u00e7\u00e3o enxergam os pap\u00e9is de \u201cmasculino\u201d e \u201cfeminino\u201d, e como analisam a \u201cfam\u00edlia\u201d sob novos contextos. Isso tudo por meio do m\u00e9todo de interven\u00e7\u00e3o, onde crian\u00e7as de 7 a 8 anos, em uma cria\u00e7\u00e3o conjunta, produzem arte e, consequentemente, uma hist\u00f3ria com suas ideias sobre os pap\u00e9is \u2013 sem que pesquisadora, portanto, se colocasse na dif\u00edcil posi\u00e7\u00e3o de uma entrevista,\u00a0por exemplo.<\/p>\n<p>A escolha n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. Segundo Oliveira, as crian\u00e7as nessa faixa et\u00e1ria \u201cainda est\u00e3o presas em um contexto familiar de forma\u00e7\u00e3o, distantes da influ\u00eancia dos amigos e da internet. Por\u00e9m, como j\u00e1 alfabetizadas, j\u00e1 t\u00eam capacidade de falar e simbolizar\u201d. Ainda de acordo com a pesquisadora, a escolha tamb\u00e9m \u00e9 importante psicanaliticamente, porque as crian\u00e7as nessa idade j\u00e1 \u201catravessaram o \u00c9dipo\u201d. \u201cSe a gente pensar do ponto de vista psicanal\u00edtico, o complexo de \u00c9dipo \u00e9 o momento em que as crian\u00e7as v\u00e3o se deparar com a masculinidade, com a feminilidade e com os<br \/>\npap\u00e9is de fam\u00edlia\u201d, completa.<\/p>\n<h6><strong>A segunda casa<\/strong><\/h6>\n<p>Depois do ambiente familiar, a escola se configura como o mais importante espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, uma vez que \u00e9 o lugar em que elas passar\u00e3o uma grande e fundamental parte da vida. Os pequenos veem na escola uma continuidade do lar, estabelecendo la\u00e7os com os colegas e professores, e criando bases para sua constitui\u00e7\u00e3o social. Por isso se faz necess\u00e1rio prestar aten\u00e7\u00e3o no discurso escolar, visto que l\u00e1 se pode tanto reproduzir os muitos e distintos preconceitos da sociedade quanto tornar-se um espa\u00e7o de\u00a0conhecimento e reflex\u00e3o sobre os assuntos.<\/p>\n<p>Em se tratando do g\u00eanero, \u00e9 comum observar profissionais da educa\u00e7\u00e3o promovendo um ambiente que refor\u00e7a essas desigualdades. Ligada \u00e0 problem\u00e1tica do fracasso, a sala de aula costuma direcionar os meninos a uma postura mais agressiva. Eles est\u00e3o ali para criar grupos de domin\u00e2ncia, estabelecendo liga\u00e7\u00f5es de poder. J\u00e1 \u00e0s meninas fica reservado um segundo patamar, mais \u00e0 parte, um mundo \u201cde meninas\u201d, mais fr\u00e1gil e delicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff00ff;\"><strong>\u00c9 muito importante ser verdadeiro, at\u00e9 porque as crian\u00e7as s\u00e3o muito sens\u00edveis \u00e0 mentira<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Esse tratamento d\u00edspar pode gerar uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos, como aquele que postula que meninos s\u00e3o mais capacitados que meninas nas ci\u00eancias exatas, por exemplo. Procurando desmitificar o preconceito, pesquisadores de Tel Aviv, em Israel, acompanharam meninos e meninas da terceira s\u00e9rie at\u00e9 o final da escolaridade. Cada aluno fazia duas avalia\u00e7\u00f5es id\u00eanticas sobre uma s\u00e9rie de mat\u00e9rias: uma que seria corrigida com o nome exposto e outra seria uma prova an\u00f4nima. As respostas eram iguais, mas as corre\u00e7\u00f5es diferentes. O grupo de professores que recebeu as provas nomeadas e, portanto, sabia quem era menino ou menina, deu notas maiores para os meninos. O grupo que recebeu as provas an\u00f4nimas, por\u00e9m, deu notas maiores para as meninas, porque analisou simplesmente o desempenho. Essa diverg\u00eancia entre os g\u00eaneros se deu nas provas de matem\u00e1tica e ci\u00eancias; em outras mat\u00e9rias as corre\u00e7\u00f5es, felizmente, foram parecidas.<\/p>\n<div id=\"attachment_1081\" style=\"width: 985px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2.jpg\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1081\" class=\"wp-image-1081 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2.jpg\" alt=\"\" width=\"975\" height=\"238\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2.jpg 975w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2-300x73.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2-768x187.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/crian\u00e7a2-400x98.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 975px) 100vw, 975px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1081\" class=\"wp-caption-text\">Ju Bernardo<\/p><\/div>\n<p>A pesquisa evidencia um problema grave de preconceito internalizado entre os professores. Ainda que tenha sido feito em outro pa\u00eds, no Brasil tamb\u00e9m se nota uma superestima\u00e7\u00e3o das capacidades dos garotos e subestima\u00e7\u00e3o das habilidades femininas. N\u00e3o por acaso, \u00e9 comum notar um maior desinteresse das meninas nas \u00e1reas de ci\u00eancias e exatas no final da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo de Neil deGrasse Tyson,\u00a0\u201cA mulher e o negro na Ci\u00eancia\u201d, o famoso astrof\u00edsico d\u00e1 um depoimento acerca de uma pergunta feita numa coletiva de\u00a0imprensa: ser\u00e1 que h\u00e1 alguma caracter\u00edstica gen\u00e9tica que faz com que as\u00a0mulheres sejam menos capacitadas em ci\u00eancias, e \u00e9 por isso que elas est\u00e3o em menor quantidade nesse meio?\u00a0O cientista, que \u00e9 negro e encontrou muitos\u00a0obst\u00e1culos no \u00e2mbito profissional, finaliza sua fala dizendo que \u201cantes de\u00a0come\u00e7armos a falar sobre diferen\u00e7as\u00a0gen\u00e9ticas, n\u00f3s temos que chegar a um sistema onde existam oportunidades iguais, ent\u00e3o poderemos ter essa conversa\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_1058\" style=\"width: 477px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0Sw-zV9o6fA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1058\" class=\"size-full wp-image-1058\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/video_Neil-degrasse.jpg\" alt=\"\" width=\"467\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/video_Neil-degrasse.jpg 467w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/video_Neil-degrasse-300x168.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/video_Neil-degrasse-310x174.jpg 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/video_Neil-degrasse-400x224.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 467px) 100vw, 467px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1058\" class=\"wp-caption-text\">Para assistira ao v\u00eddeo clique na imagem acima<\/p><\/div>\n<p>A escola tem o papel essencial de proporcionar chances iguais para meninas e meninos, e muitas vezes n\u00e3o o faz. E n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as garotas as v\u00edtimas de uma generaliza\u00e7\u00e3o simplista. \u00c9 muito comum o fracasso escolar dos meninos ser ligado a certos referenciais de masculinidade, como agressividade e atitude f\u00edsica. Quando as individualidades s\u00e3o encobertas por estere\u00f3tipos, a crian\u00e7a pode se sentir desamparada e sem vontade de frequentar aquele ambiente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor, muitas vezes a maior refer\u00eancia escolar da crian\u00e7a, precisa estar muito bem preparado para conviver com as diferen\u00e7as e trabalh\u00e1-las em sala de aula. Sendo formado em uma sociedade em constante mudan\u00e7a e adapta\u00e7\u00e3o de \u201cpap\u00e9is\u201d cada vez menos fixos e determinados, talvez falte em sua forma\u00e7\u00e3o profissional um estudo mais aprofundado dessa problem\u00e1tica. Porque, infelizmente, o que se v\u00ea com frequ\u00eancia s\u00e3o profissionais que n\u00e3o t\u00eam as quest\u00f5es de g\u00eanero trabalhadas sequer consigo mesmos, tendo muitas vezes, ali\u00e1s, problemas pessoais mal resolvidos, que atrapalham o desenvolvimento do assunto com os alunos. Embora exista, no discurso, um aparente entendimento, o despreparo dos professores a respeito da problem\u00e1tica da sexualidade acarreta grandes dificuldades quando as quest\u00f5es ligadas \u00e0 sexualidade dos alunos aparecem no cotidiano escolar.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>E quando os pequenos questionam o g\u00eanero?<\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lara Naloto tem cinco anos e perguntou para a m\u00e3e o que era \u201cser gay\u201d.\u00a0Depois da explica\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e, Mayra\u00a0Santos Naloto, percebeu que ela, brincando com suas bonecas, criou um\u00a0casal gay. Essa postura n\u00e3o \u00e9 corriqueira na sociedade, mas \u00e9 poss\u00edvel perceber que hoje algumas crian\u00e7as, vivenciando toda a pol\u00eamica do g\u00eanero e considerando que n\u00e3o s\u00e3o meros reposit\u00f3rios de informa\u00e7\u00e3o, percebem e refletem o que acontece no mundo que as circunda. Antigamente, quando a dicotomia homem-mulher era inquestion\u00e1vel e a fam\u00edlia se constitu\u00eda essencialmente em pai, m\u00e3e e filhos, era simples passar para os pequenos esses conceitos conservadores, mas hoje muitos pais j\u00e1\u00a0conversam com os filhos sobre a diversidade e a rela\u00e7\u00e3o homoafetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente o assunto se tornou mais complexo, as limita\u00e7\u00f5es do feminino\/masculino s\u00e3o contestadas, o g\u00eanero j\u00e1 n\u00e3o corresponde essencialmente e apenas ao sexo biol\u00f3gico e a fam\u00edlia tomou diversos novos contornos. Com isso, muitos pais ficam confusos e apreensivos na hora de tratar desses temas com seus filhos, e a falta de informa\u00e7\u00e3o pode ser extremamente prejudicial. \u201cEstamos numa \u00e9poca carente de conceitos est\u00e1veis, eles est\u00e3o se desestabilizando\u201d, explica Oliveira. E muitos desses conceitos, ainda em consolida\u00e7\u00e3o, s\u00e3o muito novos, portanto n\u00e3o existiam &#8211; ou pelo menos n\u00e3o eram t\u00e3o disseminados &#8211; na \u00e9poca de juventude dos pais.\u00a0\u201cDiante de coisas que os pr\u00f3prios pais n\u00e3o simbolizaram, como eles v\u00e3o passar para a crian\u00e7a?\u201d, questiona a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para completar a bagun\u00e7a, as crian\u00e7as de hoje em dia s\u00e3o bombardeadas com informa\u00e7\u00e3o dos mais diversos meios: televis\u00e3o, sites, redes sociais, os pr\u00f3prios colegas de escola, professores e fam\u00edlia. Por isso \u00e9 poss\u00edvel pensar numa diversidade de discursos com os quais elas t\u00eam contato.\u00a0Segundo hip\u00f3tese da pesquisadora, \u201cessas crian\u00e7as v\u00e3o espelhar essa contradi\u00e7\u00e3o porque h\u00e1 um conv\u00edvio entre o tradicional e o novo. Embora a gente fale numa \u00e9poca de grandes mudan\u00e7as, ainda existem valores muito conservadores que permanecem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e de Lara, que coordena projetos de medicina preventina, \u00e9 adepta do amplo di\u00e1logo com a filha. \u201cEu tento mostrar para ela que n\u00e3o existe somente um padr\u00e3o de \u2018homem\u2019 ou \u2018mulher\u2019, n\u00e3o existe apenas uma defini\u00e7\u00e3o do que cada um pode ou deve fazer.\u00a0Do mesmo modo, explico que n\u00e3o existe um modelo padr\u00e3o de fam\u00edlia, j\u00e1 que nem sempre ela \u00e9 constitu\u00edda como a nossa, com a ideia de \u2018papai\u2019 e \u2018mam\u00e3e\u2019. Explico que existem outras formas e modos de se relacionar e de se constituir como fam\u00edlia, o que importa \u00e9 o amor e o elo que existe entre os pares\u201d. Para Mayra, a escola seria fundamental nesse processo; apesar disso, ela n\u00e3o percebe esse envolvimento na escola da filha, por isso faz sua parte na promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo sobre a diversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa atitude coincide com a opini\u00e3o da Profa. Dra. Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos da Fam\u00edlia do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da USP. Em entrevista \u00e0\u00a0psico.usp, ela falou sobre a import\u00e2ncia de se estar atento \u00e0s necessidades de di\u00e1logo e compreens\u00e3o das crian\u00e7as, n\u00e3o necessariamente falando sobre tudo, mas, pelo menos, sobre aquilo que satisfizer a curiosidade e a necessidade de compreens\u00e3o do outro. \u201cN\u00e3o existe \u2018o jeito\u2019 de falar, cada situa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o, cada crian\u00e7a \u00e9 uma crian\u00e7a. \u00c9 muito importante estar atento e escutar o que a crian\u00e7a quer e precisa saber, e de alguma maneira poder conversar com ela levando em considera\u00e7\u00e3o essas demandas e curiosidades e sendo sens\u00edvel \u00e0quilo que ela pode e tem elementos para entender. \u00c9 muito importante ser verdadeiro, at\u00e9 porque as crian\u00e7as s\u00e3o muito sens\u00edveis \u00e0 mentira\u201d, defende Belinda.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><strong>A esfera p\u00fablica<\/strong><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recentemente, teve destaque outra pol\u00eamica envolvendo o assunto \u201cg\u00eanero\u201d, dessa vez no tocante ao poder\u00a0p\u00fablico. Muitos planos estaduais e municipais da educa\u00e7\u00e3o foram obrigados a eliminar o termo \u201cg\u00eanero\u201d e tudo o que se refere a ele. Al\u00e9m de S\u00e3o Paulo,\u00a0cidades como Bauru, Uberl\u00e2ndia, Curitiba e Campinas tamb\u00e9m sofreram os custos dessa pol\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O receio de quem apoia a exclus\u00e3o \u00e9 que a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d eduque as crian\u00e7as para serem assexuadas e escolherem sua identidade de g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual apenas quando maiores. O que eles esqueceram \u00e9 que esses dois aspectos n\u00e3o s\u00e3o escolhas, mas, sim, parte da ess\u00eancia do indiv\u00edduo, da forma\u00e7\u00e3o de sua identidade pessoal. \u201cO sexo de cada um tem muito a ver, dentre outras determina\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do desenvolvimento ps\u00edquico da crian\u00e7a, com as atribui\u00e7\u00f5es que a fam\u00edlia d\u00e1 \u00e0quela crian\u00e7a que nasce, desde o pr\u00f3prio nome, que j\u00e1 \u00e9 um marcador de g\u00eanero. Al\u00e9m das roupas, do tipo de atividade que a fam\u00edlia prop\u00f5e quando \u00e9 um menino ou quando \u00e9 uma menina\u201d, explica Mandelbaum. Ela ainda lembra que, em alguns pa\u00edses, fam\u00edlias j\u00e1 utilizam pronomes neutros para coibir uma obriga\u00e7\u00e3o dos pais. \u201cMuitas pessoas acreditam que os pais deveriam deixar isso (o direcionamento sexual) como uma op\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, ent\u00e3o tem at\u00e9 essa quest\u00e3o que pode soar curiosa como n\u00e3o se optar por chamar crian\u00e7as de \u2018ele\u2019 ou \u2018ela\u2019, inventar um pronome como o \u201c<em>it<\/em>\u201d, do ingl\u00eas, que \u00e9 um pronome neutro, porque essa predefini\u00e7\u00e3o promoveria a identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com uma certa identidade sexual e n\u00e3o outra\u201d, complementa. Isso j\u00e1 acontece na Su\u00e9cia. Na l\u00edngua escandinava, al\u00e9m do pronome de g\u00eanero masculino\u00a0<em>han<\/em>\u00a0e do feminino\u00a0<em>hon<\/em>, ser\u00e1 adicionado o pronome\u00a0<em>hen<\/em>, para pessoas que n\u00e3o revelaram ou n\u00e3o assumiram um g\u00eanero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, esses recentes projetos de lei sobre g\u00eanero desconsideram a import\u00e2ncia de se trabalhar um assunto que, mesmo n\u00e3o devendo ser, \u00e9 tratado como tabu, excluindo a discuss\u00e3o da sala de aula de muitos estados e munic\u00edpios. Al\u00e9m de j\u00e1 parecer absurdo \u00e0 primeira vista, n\u00e3o discutir g\u00eanero vai contra diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil, como a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas,\u00a0a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, a Conven\u00e7\u00e3o Interamericana sobre a Concess\u00e3o dos Direitos Civis \u00e0s Mulheres, entre outros. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o que atinge \u2013 um preocupante e alarmante \u2013 n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os planos municipais e estaduais foram aprovados em junho de 2015 e t\u00eam validade de 10 anos. Eles n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a de lei e atuam apenas como uma orienta\u00e7\u00e3o, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 san\u00e7\u00f5es ao administrador que deixar de cumpri-los. Mesmo assim, ele mostra a neglig\u00eancia e o atraso da esfera p\u00fablica brasileira num assunto de extrema import\u00e2ncia e que est\u00e1 em discuss\u00e3o no mundo todo. Enquanto n\u00e3o se fala disso nas escolas n\u00e3o s\u00f3 as crian\u00e7as, mas a sociedade em geral sai perdendo, porque, segundo a Profa. Dra. Belinda, deixa-se de avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o a discuss\u00f5es necess\u00e1rias sobre a tem\u00e1tica de g\u00eanero. \u201cDe fato \u00e9 bastante positivo que a sociedade se abra para a diversidade, porque diversidade \u00e9 a palavra do momento. \u00c9 fundamental para diminuir o preconceito e a viol\u00eancia, j\u00e1 que \u00e9 esse preconceito, que vem da falta de orienta\u00e7\u00e3o, o grande causador da viol\u00eancia, seja ela f\u00edsica ou verbal\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Por Aryanna Oliveira e Sofia Mendes<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Iwata<\/p>\n<p>Clique no t\u00edtulo para folhear as revistas <strong>psico.<\/strong>usp:<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista_psico.usp_n1_2015.pdf\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\" data-wp-editing=\"1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/revista-psico.usp-n.-2-3-2016.pdf\">\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Pesquisadora analisa como as esferas que cuidam do desenvolvimento da crian\u00e7a lidam com o tabu diante de projetos de&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1051,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[374,1],"tags":[108,119,191,37,168,226,60,17,144,22],"class_list":["post-1045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genero","category-sociedade","tag-educacao","tag-escola","tag-familia","tag-genero","tag-instituto","tag-mandelbaum","tag-psicanalise","tag-psicologia","tag-social","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1045"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6738,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1045\/revisions\/6738"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1051"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}