{"id":1164,"date":"2017-09-29T14:46:40","date_gmt":"2017-09-29T16:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1164"},"modified":"2023-02-24T11:45:22","modified_gmt":"2023-02-24T13:45:22","slug":"pesquisa-identifica-estrategias-de-resistencia-patologizacao-da-vida-aun","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/pesquisa-identifica-estrategias-de-resistencia-patologizacao-da-vida-aun\/","title":{"rendered":"Pesquisa identifica estrat\u00e9gias de resist\u00eancia \u00e0 patologiza\u00e7\u00e3o da vida"},"content":{"rendered":"<p class=\"mh-subheading\"><em><strong>Ancorada na fenomenologia, pesquisadora do Instituto de Psicologia estuda sentidos da resist\u00eancia \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o a partir de coletivos de sa\u00fade franceses<\/strong><\/em><\/p>\n<p class=\"mh-subheading\">Por\u00a0<span class=\"entry-meta-author author vcard\"><a class=\"fn\" href=\"http:\/\/paineira.usp.br\/aun\/index.php\/author\/wagner-nascimento\/\">Wagner Nascimento<\/a>,\u00a0<\/span>AUN: Ag\u00eancia Universit\u00e1ria de Not\u00edcias, 29\/9\/2017<\/p>\n<div id=\"attachment_1165\" style=\"width: 688px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1165\" class=\"size-full wp-image-1165\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381.jpg\" alt=\"\" width=\"678\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381.jpg 678w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381-300x169.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381-310x174.jpg 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/medicaliza\u00e7\u00e3o-678x381-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 678px) 100vw, 678px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1165\" class=\"wp-caption-text\">Prescri\u00e7\u00e3o excessiva de rem\u00e9dios \u00e9 apenas uma das facetas da medicaliza\u00e7\u00e3o. Fonte: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O uso de medicamentos como via de resolu\u00e7\u00e3o dos problemas \u00e9 a caracter\u00edstica mais aludida da medicaliza\u00e7\u00e3o. Trata-se, entretanto, de um fen\u00f4meno que abarca um sistema amplo de controle calcado no saber m\u00e9dico, como constatou a pesquisadora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3685104509495148\">Andreia Mutarelli<\/a> em tese de doutorado, no Instituto de Psicologia da USP. \u201cA medicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma express\u00e3o do modo de o homem olhar o mundo que busca antecipar os resultados e assegurar um padr\u00e3o de comportamento da sociedade\u201d, explica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ampliar o entendimento a respeito da constitui\u00e7\u00e3o atual da medicaliza\u00e7\u00e3o e seus alicerces, Andreia tamb\u00e9m investigou as formas de estrat\u00e9gias e sentidos de resist\u00eancia nas experi\u00eancias francesas.<\/p>\n<h6><strong>Medicaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h6>\n<p>Entre as ramifica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis do conceito de medicaliza\u00e7\u00e3o, a perspectiva encontrada pela pesquisadora est\u00e1 associada \u00e0 submiss\u00e3o da complexidade dos fen\u00f4menos humanos \u00e0 medicina, de modo a n\u00e3o levar em conta a pluralidade de causas. \u201cEm vez de ocorrer uma an\u00e1lise da quest\u00e3o como algo que pode ser determinado culturalmente, politicamente, geograficamente, recorre-se unicamente \u00e0 linguagem m\u00e9dica que patologiza.\u201d<\/p>\n<p>Isso pode se dar desde a medica\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a considerada agitada em sala de aula at\u00e9 a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na \u00e1rea da sa\u00fade. E, nesse ponto, a diferencia\u00e7\u00e3o entre medica\u00e7\u00e3o e medicaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. \u201cQuando a gente olhou para todos os outros saberes poss\u00edveis que podem dizer daquela situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o se trata de medicaliza\u00e7\u00e3o, ainda que se tenha, no fim, optado pelo tratamento com rem\u00e9dios.\u201d<\/p>\n<h5><strong>Fen\u00f4meno e fenomenologia<\/strong><\/h5>\n<p>A doutora em psicologia dedicou, ent\u00e3o, um olhar fenomenol\u00f3gico sobre a resist\u00eancia \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o, baseado, sobretudo, nas ideias de Heidegger (1889-1976). O m\u00e9todo filos\u00f3fico opera, por si, como meio de oposi\u00e7\u00e3o ao processo de redu\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es humanas \u00e0s ci\u00eancias naturais ao trabalhar com concep\u00e7\u00f5es de mundo diferentes das que embasam a medicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o pensador alem\u00e3o, o homem tanto apreende o sentido das coisas quanto \u00e9 determinado pelo que est\u00e1 posto. Desse modo, o homem existe apenas enquanto\u00a0<em>ser-no-mundo<\/em>\u00a0e a compreens\u00e3o da realidade \u00e9 dada como um desdobramento das possibilidades em determinado contexto. A fenomenologia supera, assim, a ideia do conhecimento absoluto, uno, e passa a ter como norte o ponto de onde se parte para conhecer algo.<\/p>\n<p>A medicaliza\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, alinha-se ao modo t\u00e9cnico, observado por Heidegger, de se debru\u00e7ar sobre o mundo. Est\u00e1 inserida, portanto, num formato que visa \u00e0 preven\u00e7\u00e3o, controle de riscos, efici\u00eancia e produtividade.<\/p>\n<h6><strong>Resist\u00eancia<\/strong><\/h6>\n<p>Na Fran\u00e7a, a pesquisadora teve contato com profissionais da sa\u00fade envolvidos com coletivos de resist\u00eancia \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o (<em>L\u2019appel des appel, Stop-DSM e Pas de zero de Conduite<\/em>). S\u00e3o grupos que se organizaram, a princ\u00edpio, contra pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas e, depois, seguiram na luta. No caso do\u00a0<em>Pas de zero de Conduite<\/em>, o movimento pretendia opor-se a um projeto de lei que buscava detectar transtornos de conduta em crian\u00e7as de at\u00e9 tr\u00eas anos de idade a partir de comportamentos considerados desviantes, com a finalidade de prevenir a delinqu\u00eancia juvenil. A proposta foi barrada ap\u00f3s a coleta de mais de 200 mil assinaturas.<\/p>\n<p>Segundo Andreia Mutarelli, a metodologia empregada consistiu na realiza\u00e7\u00e3o de entrevistas e an\u00e1lise documental das publica\u00e7\u00f5es desses grupos. A psic\u00f3loga chegou a quatro pilares da medicaliza\u00e7\u00e3o cujo compromisso \u00e9tico \u00e9 alheio ao bem estar dos pacientes. Uma delas \u00e9 a cristaliza\u00e7\u00e3o das pessoas dentro dos diagn\u00f3sticos, contra a qual se resiste com a ado\u00e7\u00e3o de um pensamento que coloque o homem como sujeito indeterminado e aberto ao mundo. \u201cSe h\u00e1 essa percep\u00e7\u00e3o, quando estamos atendendo, pesquisando, vivendo e se relacionando, \u00e9 uma maneira de resistir, porque a medicaliza\u00e7\u00e3o se apoia num saber positivista, da ci\u00eancia natural, de verdade un\u00edvoca.\u201d Dentro dos coletivos, foi observada a reuni\u00e3o de equipe multidisciplinar entre as estrat\u00e9gias de resist\u00eancia a este fundamento da medicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro aspecto \u00e9 o uso de metodologia \u00fanica, valendo-se da pretens\u00e3o de objetividade. A resist\u00eancia centra-se, ent\u00e3o, na garantia da pluralidade dos m\u00e9todos. O terceiro pilar da medicaliza\u00e7\u00e3o consiste na \u201cbiologiza\u00e7\u00e3o\u201d das problem\u00e1ticas humanas, como se todas tivessem raiz no organismo. \u201cNeste caso, a cria\u00e7\u00e3o de redes, como os coletivos, que pensam o ser humano atrav\u00e9s de diversos prismas, sem individualizar a quest\u00e3o, \u00e9 importante.\u201d, comenta Andreia.<\/p>\n<p>Por fim, a excessiva prescri\u00e7\u00e3o de medicamentos pautada por interesses financeiros configura o fundamento mais relacionado \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o. Aqui, os cuidados multifocais e multidisciplinares podem fazer frente, uma vez que, sob os cuidados de outros profissionais que n\u00e3o apenas os m\u00e9dicos, a hiperprescri\u00e7\u00e3o torna-se mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Conforme a pesquisadora, as quatro bases da medicaliza\u00e7\u00e3o estudadas confluem para dois pontos mais abrangentes: a manuten\u00e7\u00e3o da \u00e9tica profissional e o fortalecimento do espa\u00e7o pol\u00edtico como os principais sentidos da resist\u00eancia. No primeiro caso, a pesquisadora relata que tanto a pluralidade do campo acad\u00eamico quanto a postura receptiva \u00e0s imprevisibilidades do futuro fazem parte de uma conduta \u00e9tica. \u201cQuando o profissional entra com a teoria pronta e n\u00e3o \u00e9 afetado pelo paciente, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 \u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p>O segundo sentido, considerado \u201co mais amplo apontado por todas as estrat\u00e9gias de resist\u00eancia identificadas\u201d, \u00e9 o fortalecimento do espa\u00e7o pol\u00edtico. A pol\u00edtica rege o modo de vida plural e tem como premissa a circula\u00e7\u00e3o da palavra nos lugares de conviv\u00eancia, onde se realiza o di\u00e1logo com pontos de vista distintos.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em:\u00a0<a href=\"http:\/\/paineira.usp.br\/aun\/index.php\/2017\/09\/28\/pesquisa-identifica-estrategias-de-resistencia-a-patologizacao-da-vida\/\">http:\/\/paineira.usp.br\/aun\/index.php\/2017\/09\/28\/pesquisa-identifica-estrategias-de-resistencia-a-patologizacao-da-vida\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ancorada na fenomenologia, pesquisadora do Instituto de Psicologia estuda sentidos da resist\u00eancia \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o a partir de coletivos de sa\u00fade&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1166,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[243,178,168,242,17,241,175,22],"class_list":["post-1164","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude","tag-aun","tag-fenomenologia","tag-instituto","tag-medicalizacao","tag-psicologia","tag-remedio","tag-saude","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1164"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5017,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1164\/revisions\/5017"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1166"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}