{"id":1420,"date":"2017-09-29T09:50:25","date_gmt":"2017-09-29T11:50:25","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1420"},"modified":"2023-02-24T11:47:09","modified_gmt":"2023-02-24T13:47:09","slug":"podcast-cultura-primata-entrevista-com-o-prof-eduardo-ottoni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/podcast-cultura-primata-entrevista-com-o-prof-eduardo-ottoni\/","title":{"rendered":"Podcast: Cultura primata"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O professor do IPUSP Eduardo Ottoni, professor do Instituto de Psicologia da USP, fala sobre\u00a0a\u00a0transmiss\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais entre macacos-prego da esp\u00e9cie\u00a0Sapajus libidinosus, do Piau\u00ed.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Revista <em>Pesquisa Fapesp<\/em>, 29\/9\/2017<em><br \/>\n<\/em>Apresenta\u00e7\u00e3o: Fabr\u00edcio Marques |\u00a0Participa\u00e7\u00e3o: Maria Guimar\u00e3es |\u00a0Produ\u00e7\u00e3o e roteiro: Sarah Caravieri |\u00a0Grava\u00e7\u00e3o e montagem: Dagoberto Alves (R\u00e1dio USP)<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1420-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/entrevista-eduardo-ottoni.mp3?_=1\" \/><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/entrevista-eduardo-ottoni.mp3\">http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/entrevista-eduardo-ottoni.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1422\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1422\" class=\"wp-image-1422 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/ottoni-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/ottoni-300x209.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/ottoni-768x534.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/ottoni-400x278.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/02\/ottoni.jpg 1011w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1422\" class=\"wp-caption-text\">Prof. Dr. Eduardo Ottoni &#8211; Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da USP<\/p><\/div>\n<p>Com uma pedra erguida acima da cabe\u00e7a, o jovem Porthos bate vigorosamente no ch\u00e3o arenoso de modo a abrir um buraco. Seu objetivo: uma aranha, que logo consegue desentocar e rola entre as m\u00e3os para tontear a presa que em seguida come. Ele \u00e9 um macaco-prego da esp\u00e9cie\u00a0<em>Sapajus libidinosus<\/em>, habitante do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piau\u00ed, e objeto de estudo de pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (IP-USP). O bi\u00f3logo Tiago Fal\u00f3tico tem caracterizado o uso de ferramentas por esses animais (<a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2012\/06\/14\/ramificacoes-ancestrais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>ver\u00a0<\/em>Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba 196<\/em><\/a>) e mostrou, em artigo publicado em julho na revista\u00a0<em>Scientific Reports<\/em>, que a a\u00e7\u00e3o do jovem macho envolve conhecimento, aprendizado e transmiss\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais \u2013 ou tradi\u00e7\u00f5es, como alguns preferem chamar quando os sujeitos n\u00e3o s\u00e3o humanos \u2013 dentro de grupos sociais. A pesquisa est\u00e1 no bojo de um corpo te\u00f3rico que busca entrela\u00e7ar biologia, ci\u00eancias sociais e humanas e rec\u00e9m-desembocou na forma\u00e7\u00e3o da Sociedade de Evolu\u00e7\u00e3o Cultural. Sua reuni\u00e3o inaugural acaba de acontecer na Alemanha, entre 13 e 15 de setembro.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, o uso de pedras como ferramentas para cavar s\u00f3 foi documentado nessa popula\u00e7\u00e3o. Especialmente quando se trata de desentocar aranhas, \u00e9 preciso experi\u00eancia. O estudo, resultado de observa\u00e7\u00f5es feitas durante o doutorado de Fal\u00f3tico, encerrado em 2011 sob orienta\u00e7\u00e3o do bi\u00f3logo <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2595259137031006\">Eduardo Ottoni<\/a>, mostra que quase 60% dos adultos e jovens (como Porthos) t\u00eam sucesso na tarefa. Macacos juvenis (o correspondente a crian\u00e7as), por outro lado, s\u00f3 conseguem em pouco mais de 30% dos casos. Isso acontece porque \u00e9 preciso reconhecer o revestimento de seda que fecha a toca do aracn\u00eddeo, sinal de que o habitante est\u00e1 l\u00e1 dentro. \u201cOs juvenis \u00e0s vezes cavam uma toca que acabou de ser aberta por outro macaco\u201d, conta Fal\u00f3tico. Estruturas subterr\u00e2neas, parecidas com batatas, da planta conhecida como farinha-seca (<em>Thiloa glaucocarpa<\/em>), tamb\u00e9m s\u00e3o desenterradas com mais efici\u00eancia pelos adultos. J\u00e1 as ra\u00edzes de louro (<em>Ocotea<\/em>), outro alimento desses primatas, apesar de envolverem o uso de pedras maiores, n\u00e3o parecem apresentar um desafio especial para os aprendizes. Macacos dos dois sexos se mostraram igualmente capazes de cavar com pedras, com uma taxa de sucesso equivalente, embora eles pare\u00e7am ter mais interesse pela atividade: entre as 1.702 situa\u00e7\u00f5es observadas, 77% envolviam machos e apenas 23%, f\u00eameas.<\/p>\n<p><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/macacos-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-246406\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/macacos-1-300x146.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"146\" \/><\/a>\u201cEsper\u00e1vamos encontrar uma correla\u00e7\u00e3o entre o uso de ferramentas e a escassez de alimentos, mas n\u00e3o foi o que vimos\u201d, conta Fal\u00f3tico. Se os macacos da serra da Capivara encontram algo comest\u00edvel que exija o uso de ferramentas, recorrem a elas. Seu modo de vida, em que passam metade do tempo no ch\u00e3o rodeados de pedras e gravetos, parece ser prop\u00edcio ao desenvolvimento das habilidades. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Embora n\u00e3o haja diferen\u00e7a entre os sexos nos h\u00e1bitos alimentares, as f\u00eameas nunca usam gravetos \u2013 que seus companheiros masculinos utilizam para desentocar lagartos de frestas e retirar insetos de troncos, por exemplo. H\u00e1 diferen\u00e7a apenas, aparentemente, no interesse. \u201cQuando um macho v\u00ea outro usar uma vareta, ele observa atento; j\u00e1 uma f\u00eamea, mesmo que esteja ao lado daquele usando a ferramenta, n\u00e3o se interessa e olha para o outro lado!\u201d<\/p>\n<p>Os macacos da mesma esp\u00e9cie que habitam a fazenda Boa Vista, em Gilbu\u00e9s, cerca de 300 quil\u00f4metros (km) para sudoeste, t\u00eam tradi\u00e7\u00f5es distintas no uso de ferramentas. Ali, uma \u00e1rea com mais influ\u00eancia de Cerrado do que Caatinga, as pedras s\u00e3o menos abundantes, mas necess\u00e1rias (e usadas) para quebrar cocos. Gravetos est\u00e3o por toda parte, mas n\u00e3o t\u00eam uso. Essa diferen\u00e7a cultural entre grupos de macacos foi explorada em um experimento feito pelo psic\u00f3logo Raphael Moura Cardoso durante o doutorado, orientado por Eduardo Ottoni, e relatado em artigo de 2016 na\u00a0<em>Biology Letters<\/em>. Eles puseram \u2013 tanto na fazenda Boa Vista como na serra da Capivara \u2013 caixas de acr\u00edlico recheadas de melado de cana. O \u00fanico jeito de retirar a guloseima era por meio de uma fenda no alto com largura suficiente apenas para varetas. \u201cNa serra da Capivara, um macho logo acertou uma pedrada na caixa\u201d, lembra Ottoni, que, previdente, tinha planejado o aparato \u201c\u00e0 prova de macaco-prego\u201d. \u201cQuando nada aconteceu, ele largou a pedra, co\u00e7ou a cabe\u00e7a e pegou um graveto.\u201d Ele brinca que nem precisou editar o v\u00eddeo para mostrar em um congresso \u2013 foi uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e imediata. Ao longo de cinco dias de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 caixa, 10 dos 14 machos usaram o graveto logo na primeira sess\u00e3o, e apenas os tr\u00eas mais jovens n\u00e3o foram bem-sucedidos. Os demais conseguiram um sucesso de 90% na empreitada. As f\u00eameas n\u00e3o tentaram, assim como os macacos da fazenda Boa Vista. L\u00e1, os pesquisadores at\u00e9 tentaram ajudar: depois de seis horas expostos \u00e0 tarefa, os macacos deparavam com um graveto j\u00e1 fincado na fenda. Mesmo tirando e lambendo o melado da ponta, nenhum deles voltou a inserir a ferramenta na caixa ao longo de 13 dias de experimento. Uma surpresa foi que os macacos da Boa Vista, ex\u00edmios quebradores de coco, n\u00e3o tentaram partir a caixa. \u201cEu esperava isso deles, n\u00e3o dos outros\u201d, diz Ottoni.<\/p>\n<h6><strong><a title=\"\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/macacos-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-246407\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/macacos-2-300x155.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"155\" \/><\/a>Aprendizado social<\/strong><\/h6>\n<p>Os resultados, surpreendentes, podem refor\u00e7ar a import\u00e2ncia da transmiss\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es entre os macacos. A capa da edi\u00e7\u00e3o de 25 de julho deste ano da revista\u00a0<em>PNAS\u00a0<\/em>traz justamente a foto de um macaco-prego da fazenda Boa Vista comendo uma castanha que conseguiu quebrar com a ajuda de uma grande pedra redonda, observado de perto por um jovem. A imagem anuncia a colet\u00e2nea especial sobre como a cultura se conecta \u00e0 biologia, da qual faz parte um artigo do grupo liderado pelas primat\u00f3logas Patr\u00edcia Izar, do IP-USP, Dorothy Fragaszy, da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos, e Elisabetta Visalberghi, do Instituto de Ci\u00eancias e Tecnologias Cognitivas, na It\u00e1lia, sobre os macacos da fazenda Boa Vista, que estudam sistematicamente desde 2006. Nas observa\u00e7\u00f5es recolhidas ao longo desse tempo, chama a aten\u00e7\u00e3o a toler\u00e2ncia dos adultos em rela\u00e7\u00e3o aos jovens aprendizes que olham de perto e at\u00e9 comem peda\u00e7os dos cocos partidos. \u201cOs adultos competem pelos recursos e os imaturos podem ficar perto\u201d, conta Patr\u00edcia. As an\u00e1lises publicadas no artigo recente mostram muito mais do que proximidade: os quebradores de coco influenciam a atividade dos outros, sobretudo os jovens, que tamb\u00e9m come\u00e7am a manipular pedras e cocos. Isso dura alguns minutos. \u201cA tradi\u00e7\u00e3o canaliza a atividade para o mesmo tipo de a\u00e7\u00e3o importante para essa tradi\u00e7\u00e3o\u201d, define.<\/p>\n<p>Patr\u00edcia ressalta que os macacos nascem nesse contexto. \u201cMuitas vezes vemos filhotes nas costas das m\u00e3es enquanto elas quebram\u201d, conta. Com esse aprendizado cont\u00ednuo, acabam se tornando especialistas na tarefa. Mas n\u00e3o basta observar, e da\u00ed a import\u00e2ncia de os filhotes serem atra\u00eddos pela a\u00e7\u00e3o dos adultos \u2013 principalmente os mais eficazes. \u201cO sucesso passa pela percep\u00e7\u00e3o da tarefa e das propriedades da ferramenta\u201d, detalha, descrevendo um complexo corpo-ferramenta em que \u00e9 constantemente necess\u00e1rio ajustar for\u00e7a, gestos e postura. Quando quebram tucum, um coquinho menos resistente, os macacos ajustam a for\u00e7a das pancadas depois de ouvirem o som da superf\u00edcie rachando, o grupo mostrou em artigo do ano passado na\u00a0<em>Animal Behaviour<\/em>. Para cocos mais dif\u00edceis, eles escolhem pedras que podem chegar a ser mais pesadas do que o pr\u00f3prio corpo. E a sele\u00e7\u00e3o da pedra \u00e9 criteriosa, conforme mostrou um experimento em que Patr\u00edcia e seu grupo forneceram pedras artificiais com diferentes tamanhos, pesos e densidades. As pedras grandes logo atra\u00edam a aten\u00e7\u00e3o dos macacos, mas se fossem pouco densas \u2013 mais leves do que aparentavam \u2013 eram abandonadas. \u201cEles t\u00eam a percep\u00e7\u00e3o de que o peso \u00e9 importante na quebra\u201d, diz Patr\u00edcia.<\/p>\n<div id=\"attachment_246403\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<div class=\"wp-caption size-medium wp-image-246403\">\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone size-medium wp-image-246403\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/052_macacos03_259-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Toler\u00e2ncia: macho adulto da fazenda Boa Vista come castanha partida observado de perto por jovem \u00a9 LUCA ANTONIO MARINO<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Essas sociedades primatas alteram o ambiente. Macacos escolhem pedras ou troncos achatados como base para quebrar coco, e para l\u00e1 carregam as raras pedras grandes e duras que encontram no ambiente. Essa conforma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante n\u00e3o s\u00f3 por criar oficinas de quebra, mas por canalizar a possibilidade de aprendizado, j\u00e1 que todos sabem onde a atividade acontece e pode ser observada. \u201cN\u00e3o faz sentido pensar em matura\u00e7\u00e3o motora independente do contexto social, alimentar\u201d, afirma a bi\u00f3loga Briseida Resende, tamb\u00e9m do IP-USP e coautora do artigo da\u00a0<em>PNAS<\/em>. O desenvolvimento individual depende das experi\u00eancias de cada um, de suas capacidades f\u00edsicas e do acervo acumulado pelo grupo, no qual uma inova\u00e7\u00e3o criada pode se disseminar, perpetuar-se e fazer parte da cultura mantida por gera\u00e7\u00f5es. Resende defende que indiv\u00edduo e sociedade s\u00e3o indissoci\u00e1veis, embora historicamente tenham sido vistos como entidades distintas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Teoria revista<\/strong><\/h6>\n<p>Reunir a evolu\u00e7\u00e3o cultural e a biol\u00f3gica \u00e9 justamente o foco da s\u00edntese estendida, agora sedimentada com a funda\u00e7\u00e3o, em 2016, da Sociedade de Evolu\u00e7\u00e3o Cultural \u2013 o primeiro presidente \u00e9 o zo\u00f3logo Peter Richerson, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Davis, cujo grupo privilegia a estat\u00edstica. Essa vis\u00e3o conjunta amplia o olhar evolutivo, j\u00e1 que a transmiss\u00e3o de ideias ou inova\u00e7\u00f5es n\u00e3o se d\u00e1 apenas de pais para filhos e pode trazer vantagens seletivas favorecendo as capacidades cognitivas e sociais relevantes. Considera tamb\u00e9m que a cultura pode influenciar aspectos f\u00edsicos, como a conforma\u00e7\u00e3o e o tamanho do c\u00e9rebro, ou o desenvolvimento de habilidades que por sua vez sedimentam o comportamento. Os genes e a cultura, duas vias de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, relacionam-se, portanto, por uma via de m\u00e3o dupla.<\/p>\n<div id=\"attachment_246404\" class=\"wp-caption alignright\">\n<div class=\"wp-caption size-medium wp-image-246404\">\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone size-medium wp-image-246404\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/052_macacos04_259-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Jovens aprendizes tentam tirar proveito de escava\u00e7\u00e3o feita por f\u00eamea \u00a9 TIAGO FAL\u00d3TICO \/ USP<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>A oportunidade de ver comportamentos surgirem e se espalhar \u00e9 rara, e por isso abordagens experimentais que provocam inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o um acr\u00e9scimo importante aos comportamentos diversos dos macacos-prego do Piau\u00ed. Ferramentas estat\u00edsticas recentes podem ajudar a aprofundar essa compreens\u00e3o, como a An\u00e1lise de Difus\u00e3o Baseada em Redes (<em>Network-Based Diffusion Analysis<\/em>) que o grupo de Ottoni come\u00e7a a usar. \u201cO programa monta uma rede social aleat\u00f3ria e compara \u00e0 real\u201d, explica o pesquisador, que torna as an\u00e1lises mais robustas inserindo caracter\u00edsticas medidas nos sujeitos em causa. Em agosto de 2016 ele apresentou, no congresso da Sociedade Primatol\u00f3gica Internacional, em Chicago, resultados do experimento feito pela bi\u00f3loga Camila Coelho durante doutorado orientado por ele com um per\u00edodo passado na Universidade de Durham, no Reino Unido, para aprender o m\u00e9todo. Os resultados indicam que, no caso dos macacos-prego, o aprendizado social prev\u00ea a difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o na esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>At\u00e9 meio s\u00e9culo atr\u00e1s, o uso de ferramentas era considerado privil\u00e9gio humano. Ao observar chimpanz\u00e9s na Tanz\u00e2nia, a inglesa Jane Goodall derrubou essa exclusividade e, de certa maneira, causou a redefini\u00e7\u00e3o das fronteiras entre gente e bicho. Muito se descobriu de l\u00e1 para c\u00e1, mas falar em cultura animal ainda esbarra em certo desconforto. Talvez n\u00e3o por muito mais tempo.<\/p>\n<div id=\"attachment_246402\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<div class=\"wp-caption size-medium wp-image-246402\">\n<div style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone size-medium wp-image-246402\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/052_macacos02_259-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O uso de pedras para escavar s\u00f3 foi descrito na serra da Capivara \u00a9 TIAGO FAL\u00d3TICO \/ USP<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<h6><strong>Sob o comando de horm\u00f4nios<\/strong><\/h6>\n<p>O cuidado com os filhotes est\u00e1 ligado ao horm\u00f4nio oxitocina em mam\u00edferos. O grupo liderado por Maria C\u00e1tira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, descreveu h\u00e1 poucos anos as varia\u00e7\u00f5es na mol\u00e9cula de oxitocina em esp\u00e9cies de macacos nas quais h\u00e1 bons pais (<a href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2015\/02\/18\/um-segredo-da-paternidade\/?cat=ciencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>ver\u00a0<\/em>Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba\u00a0<\/em>228<\/a>). Ensaios farmacol\u00f3gicos feitos no laborat\u00f3rio do bioqu\u00edmico Claudio Costa-Neto, da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto da USP, agora desvendaram o caminho da oxitocina dentro das c\u00e9lulas e verificaram que os receptores das formas alteradas ficam mais expostos nas membranas das c\u00e9lulas, de maneira que o sistema n\u00e3o se dessensibiliza. \u201c\u00c9 como se o macaco recebesse constantemente a instru\u00e7\u00e3o \u2018tenho que cuidar dos filhotes\u2019\u201d, explica C\u00e1tira. Faz diferen\u00e7a para a sobreviv\u00eancia de saguis, que frequentemente t\u00eam filhotes g\u00eameos, por exemplo.<\/p>\n<p>O resultado est\u00e1 em artigo publicado em agosto na\u00a0<em>PNAS<\/em>, que tamb\u00e9m descreve o resultado da aplica\u00e7\u00e3o dessas oxitocinas em ratos por meio de borrifadas nasais, experimento realizado em colabora\u00e7\u00e3o com o fisiologista Aldo Lucion, da UFRGS. As f\u00eameas lactantes, j\u00e1 inundadas de oxitocina, alteraram pouco o comportamento. Mas os machos tratados com o horm\u00f4nio alteraram radicalmente o h\u00e1bito de ignorar os filhotes e correram para cheir\u00e1-los, uma rea\u00e7\u00e3o que foi tr\u00eas vezes mais r\u00e1pida com a oxitocina de sagui.<\/p>\n<p>Os ceb\u00eddeos, fam\u00edlia que inclui os macacos-prego, tamb\u00e9m t\u00eam um tipo de oxitocina que aumenta a propens\u00e3o \u00e0 paternidade ativa. Os grupos de C\u00e1tira e de Ottoni recentemente iniciaram uma colabora\u00e7\u00e3o para investigar as caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas em machos mais e menos cuidadores. \u201cJ\u00e1 conseguimos extrair material gen\u00e9tico de amostras de fezes e estamos selecionando genes candidatos a serem rastreados\u201d, conta ela, fascinada com a toler\u00e2ncia dos machos e as habilidades cognitivas dos primatas do Piau\u00ed. \u201cA capacidade de inovar, por um lado, e a de sentar e observar, por outro, s\u00e3o necess\u00e1rias para o desenvolvimento e a transmiss\u00e3o de tra\u00e7os culturais adaptativos e certamente h\u00e1 um cen\u00e1rio gen\u00e9tico por tr\u00e1s disso.\u201d<\/p>\n<h6><strong>Projetos<\/strong><\/h6>\n<p><strong>1.<\/strong>\u00a0Uso de ferramentas por macacos-prego (<em>Sapajus libidinosus<\/em>) selvagens: Ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradi\u00e7\u00f5es comportamentais (<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/85865\/uso-de-ferramentas-por-macacos-prego-sapajus-libidinosus-selvagens-ecologia-aprendizagem-socialm\/?q=14\/04818-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 14\/04818-0<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Projeto Tem\u00e1tico;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Eduardo Benedicto Ottoni (USP);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 609.276,69.<br \/>\n<strong>2.<\/strong>\u00a0Variabilidade de comportamento social de macacos-prego (g\u00eanero Cebus): An\u00e1lise comparativa entre popula\u00e7\u00f5es para investiga\u00e7\u00e3o de correlatos fisiol\u00f3gicos (<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/26342\/variabilidade-de-comportamento-social-de-macacos-prego-genero-cebus-analise-comparativa-entre-pop\/?q=08\/55684-3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 08\/55684-3<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular;\u00a0<strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Patr\u00edcia Izar (USP);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 186.187,33.<br \/>\n<strong>3.<\/strong>\u00a0Desenvolvimento de novos ligantes\/drogas com a\u00e7\u00e3o agon\u00edstica seletiva (biased agonism) para receptores dos sistemas renina-angiotensina e calicre\u00ednas-cininas: Novas propriedades e novas aplica\u00e7\u00f5es biotecnol\u00f3gicas (<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/82061\/desenvolvimento-de-novos-ligantesdrogas-com-acao-agonistica-seletiva-biased-agonism-para-recept\/?q=12\/20148-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 12\/20148-0<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>Projeto Tem\u00e1tico;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Claudio Miguel da Costa Neto (USP);\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 3.169.674,21.<\/p>\n<p><em>Artigos cient\u00edficos<\/em><br \/>\nFAL\u00d3TICO, T.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-017-06541-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Digging up food: excavation stone tool use by wild capuchin monkeys<\/a>.\u00a0<strong>Scientific Reports<\/strong>. v. 7, n. 1, 6278. 24 jul. 2017.<br \/>\nCARDOSO, R. M. e OTTONI, E. B.\u00a0<a href=\"http:\/\/rsbl.royalsocietypublishing.org\/content\/12\/11\/20160604\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The effects of tradition on problem solving by two wild populations of bearded capuchin monkeys in a probing task<\/a>.<strong>\u00a0<\/strong><strong>Biology Letters<\/strong>. v. 12, n. 11, 20160604. nov. 2016.<br \/>\nFRAGASZY, D. M.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/114\/30\/7798.abstract\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Synchronized practice helps bearded capuchin monkeys learn to extend attention while learning a tradition<\/a>.\u00a0<strong>PNAS<\/strong>. v. 114, n. 30, p. 7798-805. 25 jul. 2017.<br \/>\nMANGALAM, M., Izar,\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0003347216000142\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Task-specific temporal organization of percussive movements in wild bearded capuchin monkeys<\/a>.\u00a0<strong>Animal Behaviour<\/strong>. v. 114, p. 129\u2013137. abr. 2016.<br \/>\nPARREIRAS-E-SILVA, L. T.\u00a0<em>et al<\/em>.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pnas.org\/content\/114\/34\/9044.short\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Functional new world monkey oxytocin forms elicit na altered signaling profile and promotes parental care in rats<\/a>.\u00a0<strong>PNAS.\u00a0<\/strong>v. 114, n. 34, p. 9044-49. 22 ago. 2017.<br \/>\nVISALBERGHI, E.\u00a0<em>et al.\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0960982208016242\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Selection of effective stone tools by wild bearded capuchin monkeys (<em>Cebus libidinosus<\/em>)<\/a>.\u00a0<strong>Current Biology<\/strong>, v. 19, n. 3, p. 213-17. 10 fev. 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor do IPUSP Eduardo Ottoni, professor do Instituto de Psicologia da USP, fala sobre\u00a0a\u00a0transmiss\u00e3o de pr\u00e1ticas culturais entre macacos-prego&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1426,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[8],"tags":[131,268,98,269,168,276,17,144,22],"class_list":["post-1420","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bio","tag-comportamento-animal","tag-etologia","tag-piscologia-experimental","tag-ferramentas","tag-instituto","tag-primatas","tag-psicologia","tag-social","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1420"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1420\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5018,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1420\/revisions\/5018"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1426"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}