{"id":1872,"date":"2017-05-09T14:07:46","date_gmt":"2017-05-09T16:07:46","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=1872"},"modified":"2023-02-24T12:13:00","modified_gmt":"2023-02-24T14:13:00","slug":"suicidios-tantos-porques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/suicidios-tantos-porques\/","title":{"rendered":"Suic\u00eddios \u2013 tantos porqu\u00eas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3630610578226144\">Maria Julia Kovacs<\/a> \u00e9 professora associada do Instituto de Psicologia da USP e coordena o Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0<span class=\"vcard author author_name\"><a title=\"Posts de Reda\u00e7\u00e3o\" href=\"http:\/\/jornal.usp.br\/author\/redacao\/\" rel=\"author\">Reda\u00e7\u00e3o<\/a>, Jornal da USP, 09\/05\/2017<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1873\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/baleia-azul-jogo-0317-1400x707.jpg\" alt=\"\" width=\"1006\" height=\"472\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/baleia-azul-jogo-0317-1400x707.jpg 640w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/baleia-azul-jogo-0317-1400x707-300x141.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/baleia-azul-jogo-0317-1400x707-520x245.jpg 520w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/baleia-azul-jogo-0317-1400x707-400x188.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 1006px) 100vw, 1006px\" \/><\/p>\n<p align=\"\u201dLeft\u201d\"><span class=\"wpsdc-drop-cap\">A<\/span>morte ainda \u00e9 tema tabu na atualidade e o suic\u00eddio \u00e9 o \u00e1pice no espectro das interdi\u00e7\u00f5es. Sempre foi dif\u00edcil abrir espa\u00e7o para falar sobre o tema, mas hoje dois eventos abriram a discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o que normalmente \u00e9 calada, pois o principal aspecto sempre aventado \u00e9 que falar sobre suic\u00eddio pode induzi-lo, pelo cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses, o assunto viralizou no Facebook, redes sociais e recentemente tamb\u00e9m em not\u00edcias de jornal e TV. Essa onda atual come\u00e7ou com o game Baleia Azul e a s\u00e9rie da Netflix \u2013\u00a0<em>13 raz\u00f5es por qu\u00ea<\/em>\u00a0(<em>Thirteen<\/em><em>reasons why<\/em>). Observamos que do silencio partimos para o escancaramento do tema, com v\u00e1rias inser\u00e7\u00f5es cotidianas, e ainda pouca elabora\u00e7\u00e3o reflexiva.<\/p>\n<div id=\"attachment_1874\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1874\" class=\"wp-image-1874 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-300x300.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-150x150.png 150w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-160x160.png 160w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-320x320.png 320w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-45x45.png 45w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-200x200.png 200w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs-400x400.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/03\/20170509_02_Maria-Julia-Kovacs.png 420w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1874\" class=\"wp-caption-text\">Maria Julia Kovacs \u2013 Foto: via YouTube \/ LLC<\/p><\/div>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 morte inesperada, repentina e violenta que atinge de forma impactante 6-8 pessoas, que imediatamente se tornam enlutados de risco, pelo alto grau de culpa que suscita, sendo denominados de sobreviventes por essa raz\u00e3o. Observa-se intensa busca de explica\u00e7\u00f5es, que nunca parecem satisfazer a necessidade de compreender o que n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie\u00a0<em>13 raz\u00f5es por qu\u00ea\u00a0<\/em>se baseia na necessidade de explicar a morte por suic\u00eddio de Hannah Baker, uma jovem de 17 anos que deixa treze fitas destinadas aos seus amigos pr\u00f3ximos, apresentando o que n\u00e3o conseguiu que fosse ouvido, enquanto estava viva. Essas fitas t\u00eam o car\u00e1ter de uma carta acusadora, praticamente enlouquecendo seus ouvintes, que ficam muito abalados com o que ouvem. Esse \u00e9 o ponto contradit\u00f3rio da s\u00e9rie, porque implica que pessoas \u00e0 volta de Hannah s\u00e3o respons\u00e1veis pelo suic\u00eddio. \u00c9 preciso ressaltar que o suic\u00eddio \u00e9 responsabilidade de quem o consumou.<\/p>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 responsabilidade, ou seja, \u00e9 a possibilidade de responder a uma dada situa\u00e7\u00e3o. Na s\u00e9rie s\u00e3o apresentadas situa\u00e7\u00f5es de<em>\u00a0bullying<\/em>, estupro e outras situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. A protagonista menciona em v\u00e1rias cenas que se sentia isolada e invis\u00edvel. Os sentimentos e percep\u00e7\u00f5es apresentados s\u00e3o parte de sua experi\u00eancia, portanto leg\u00edtimos, o que est\u00e1 em discuss\u00e3o \u00e9 que essas percep\u00e7\u00f5es sejam apontadas como causa do suic\u00eddio. O\u00a0<em>bullying<\/em>, a viol\u00eancia, o isolamento, a n\u00e3o considera\u00e7\u00e3o de seus anseios podem ser fatores que precipitaram o ato suicida, mas a atribui\u00e7\u00e3o de causalidade nos leva a uma avalia\u00e7\u00e3o simplista e por isso incorreta. O suic\u00eddio \u00e9 um caminho de a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, mas n\u00e3o o \u00fanico. In\u00fameras outras respostas poderiam ser dadas como observamos nos colegas e amigos de Hannah, que tamb\u00e9m tiveram seus conflitos e sofrimento e responderam com conversas, briga, aceita\u00e7\u00e3o, afastamento, atos agressivos, entre outras tantas possibilidades. O suic\u00eddio envolve uma longa hist\u00f3ria que tem seu in\u00edcio nas primeiras idea\u00e7\u00f5es, pensamento recorrente, planejamento e tentativa, finalizada com o ato suicida. A s\u00e9rie insinua que amigos pr\u00f3ximos e os pais s\u00e3o respons\u00e1veis pelo suic\u00eddio. Essa atribui\u00e7\u00e3o causa, al\u00e9m da dor da perda, o \u00f4nus da culpa, o que \u00e9 muito penoso para os enlutados.<\/p>\n<blockquote><p>Nos \u00faltimos meses, o assunto viralizou no Facebook, redes sociais e recentemente tamb\u00e9m em not\u00edcias de jornal e TV. Essa onda atual come\u00e7ou com o game Baleia Azul e a s\u00e9rie da Netflix \u2013\u00a0<em>13 raz\u00f5es por qu\u00ea<\/em>\u00a0(<em>Thirteen reasons why<\/em>). Observamos que do silencio partimos para o escancaramento do tema, com v\u00e1rias inser\u00e7\u00f5es cotidianas, e ainda pouca elabora\u00e7\u00e3o reflexiva.<\/p><\/blockquote>\n<p>A import\u00e2ncia da s\u00e9rie \u00e9 abrir o di\u00e1logo, discuss\u00e3o e reflex\u00e3o, permitindo que se aprofundem quest\u00f5es relativas ao suic\u00eddio. Nunca se falou tanto sobre esse tema numa \u00e9poca em que o n\u00famero de suic\u00eddios entre jovens cresce exponencialmente. Portanto, \u00e9 interessante discutir a s\u00e9rie em casa no meio familiar, na escola, nas universidades.<\/p>\n<p>Baleia azul \u00e9 um game que se iniciou como not\u00edcia falsa na R\u00fassia e se espalhou em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, chegando agora ao Brasil. Como jogo, tem suas regras e seus curadores (nome estranho para quem dirige esse jogo), que t\u00eam como objetivo propor desafios que devem ser cumpridos pelos jogadores jovens, com o risco de, se desistirem ou deixarem de cumprir uma etapa, serem amea\u00e7ados de retalia\u00e7\u00e3o. S\u00e3o 50 passos culminando com o ato suicida. H\u00e1 referencia de jovens que morreram em fun\u00e7\u00e3o do jogo, inclusive no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>Tanto a miniss\u00e9rie quanto o jogo aumentaram de forma significativa as consultas ao Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) para poderem falar e serem ouvidos.<\/p><\/blockquote>\n<p>O que motiva o jogo pode ser curiosidade, mas tamb\u00e9m a busca de respostas para uma vida sem sentido ou como um desafio com mais adrenalina. Ao descobrir a inten\u00e7\u00e3o do jogo \u00e9 poss\u00edvel sair dele, mas o que fazer quando o medo de sair do jogo supera o instinto de prote\u00e7\u00e3o da vida? Em meio a um grande n\u00famero de jovens isolados, deprimidos, vulner\u00e1veis, esse jogo cai como bomba. Perguntas s\u00e3o inevit\u00e1veis, por que o jogo foi criado? O que querem os seus curadores? Por que h\u00e1 pessoas que t\u00eam interesse em levar pessoas ao suic\u00eddio? Por que um jovem n\u00e3o abandona o jogo ao se sentir t\u00e3o amea\u00e7ado? Por que precisa ir at\u00e9 o fim? Para que se possam buscar compreens\u00f5es, esse jogo precisa ser informado, socializado e discutido em v\u00e1rios f\u00f3runs.<\/p>\n<p>Tanto a miniss\u00e9rie quanto o jogo aumentaram de forma significativa as consultas ao Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida (CVV) para poderem falar e serem ouvidos. Estimularam tamb\u00e9m a necessidade de que pais e professores conversem mais com seus filhos e alunos, e observem comportamentos: mudan\u00e7as de comportamentos habituais, isolamento, queda do rendimento escolar e depress\u00e3o. Como rea\u00e7\u00e3o ao game Baleia Azul, surgiu o Baleia Rosa com passos que envolvem busca de situa\u00e7\u00f5es de valoriza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Suic\u00eddios nos trazem mais quest\u00f5es do que respostas. Mais do que calar \u00e9 preciso refletir e discutir o tema com os jovens, e eles poder\u00e3o nos orientar nessa dif\u00edcil tarefa em casa e na escola. Observamos que algumas institui\u00e7\u00f5es educacionais j\u00e1 promoveram reuni\u00f5es com jovens para discutir a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Acreditamos que a melhor forma de compreender e prevenir suic\u00eddios \u00e9 abrir espa\u00e7o para conversas e reflex\u00e3o e n\u00e3o simplesmente interditar o tema. H\u00e1 uma falsa compreens\u00e3o de que falar sobre suic\u00eddio pode incentivar o suic\u00eddio. Pelo contr\u00e1rio, ignorar ou n\u00e3o falar sobre os sinais de risco referidos acima leva ao risco de que o suic\u00eddio seja a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel. \u00c9 fundamental nesses casos encaminhar os jovens para atendimento psiqui\u00e1trico e psicol\u00f3gico e para ONGs como o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em:<a href=\"http:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/suicidios-tantos-porques\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0http:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/suicidios-tantos-porques\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Julia Kovacs \u00e9 professora associada do Instituto de Psicologia da USP e coordena o Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":1876,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[9],"tags":[267,47,18,244],"class_list":["post-1872","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude","tag-jovens","tag-falar-de-morte","tag-redes-sociais","tag-suicidio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1872"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5031,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1872\/revisions\/5031"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1876"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}