{"id":190,"date":"2016-07-06T16:59:01","date_gmt":"2016-07-06T18:59:01","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=190"},"modified":"2018-08-06T14:42:05","modified_gmt":"2018-08-06T16:42:05","slug":"pesquisadores-ipusp-abordam-questao-tratamento-terapeutico-de-professores-que-sofrem-com-pressoes-comuns-carreira-de-docente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/pesquisadores-ipusp-abordam-questao-tratamento-terapeutico-de-professores-que-sofrem-com-pressoes-comuns-carreira-de-docente\/","title":{"rendered":"Sofrimento do Docente"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Os profissionais do imposs\u00edvel: Pesquisadores do IPUSP abordam a quest\u00e3o do tratamento terap\u00eautico de professores que sofrem com as press\u00f5es comuns \u00e0 carreira de docente<\/strong><\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/educa1.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-191 alignleft\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/educa1.png\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"357\" \/><\/a>\u00c9 no espa\u00e7o escolar que a rela\u00e7\u00e3o entre professor e aluno acontece \u2013 rela\u00e7\u00e3o esta que \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para a forma\u00e7\u00e3o dos dois indiv\u00edduos em quest\u00e3o. As rela\u00e7\u00f5es sociais estabelecidas na escola, tanto entre crian\u00e7a e professor quanto entre a crian\u00e7a e seus pares, t\u00eam importante impacto para o desenvolvimento futuro da crian\u00e7a, incluindo a forma\u00e7\u00e3o de sua personalidade e car\u00e1ter. Para o aluno, o per\u00edodo na escola ocupa maior parte de seu tempo e \u00e9 ali que ele inicia seu contato com o outro \u2013 conhece indiv\u00edduos novos, valores diferentes dos seus e experimenta a descoberta de si pr\u00f3prio. Por outro lado, o professor realiza sua carreira profissional no ambiente escolar, aplicando seu conhecimento did\u00e1tico e adentrando espa\u00e7os onde cada indiv\u00edduo possui sua particularidade, singularidade e dificuldade.<\/p>\n<p>Diante dessa complexa situa\u00e7\u00e3o, o professor pode deparar-se ainda com demandas de pais de alunos, desvaloriza\u00e7\u00e3o da sociedade, precariedade na conviv\u00eancia com a administra\u00e7\u00e3o e a estrutura escolar, al\u00e9m da press\u00e3o para o cumprimento de programas e planos de curso. Neste ponto, surge a ang\u00fastia de lidar com todas essas variantes, mal-estar por n\u00e3o dar conta de expectativas, sofrimento, adoecimento, um \u201cestado depressivo\u201d.<\/p>\n<p>Tratando desses aspectos que comp\u00f5em o dia a dia de professores e alunos de diferentes idades e ciclos, os pesquisadores do IPUSP Mariana Maia Munhoz, Marcelo Ricardo Pereira e Luciete Valota Fernandes, em seus trabalhos acad\u00eamicos, trazem \u00e0 tona abordagens que n\u00e3o s\u00f3 apresentam, mas, tamb\u00e9m, discutem e apontam caminhos para um ponto em comum: o professor precisa falar e ser escutado em um processo terap\u00eautico. Com essa possibilidade, talvez se possa enfrentar os sintomas e super\u00e1-los.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Cair antes da queda<\/strong><\/h6>\n<p>O padecimento dos docentes na contemporaneidade foi tema para o pesquisador e professor Marcelo Ricardo Pereira, que realizou seu estudo de p\u00f3s-doutorado junto aos Sindicatos de Professores e \u00e0s Secretarias da Educa\u00e7\u00e3o e da Sa\u00fade do Estado de Minas Gerais e do Munic\u00edpio de Belo Horizonte. Sua pesquisa se define como interventiva, pois, al\u00e9m da coleta de dados, houve interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, que buscou liberar os sintomas manifestados pelos professores analisados. Durante dois anos de estudo, somando sete col\u00e9gios analisados e mais de 50 professores envolvidos durante o processo, Marcelo obteve dados que compuseram a amostra de escolas e institui\u00e7\u00f5es da cidade a se trabalhar.<\/p>\n<p>O padecimento dos docentes na contemporaneidade foi tema para o pesquisador e professor Marcelo Ricardo Pereira, que realizou seu estudo de p\u00f3s-doutorado junto aos Sindicatos de Professores e \u00e0s Secretarias da Educa\u00e7\u00e3o e da Sa\u00fade do Estado de Minas Gerais e do Munic\u00edpio de Belo Horizonte. Sua pesquisa se define como interventiva, pois, al\u00e9m da coleta de dados, houve interven\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, que buscou liberar os sintomas manifestados pelos professores analisados. Durante dois anos de estudo, somando sete col\u00e9gios analisados e mais de 50 professores envolvidos durante o processo, Marcelo obteve dados que compuseram a amostra de escolas e institui\u00e7\u00f5es da cidade a se trabalhar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/professores-o-stress-e-o-burnout.png\" alt=\"professores o stress e o burnout\" \/><\/p>\n<p>O mal-estar docente, cujos registros datam desde o s\u00e9culo XIX, est\u00e1 acometendo cada vez mais professores, que se dizem desrespeitados e desautorizados. Essa queixa un\u00edssona proferida pelos docentes \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de determinadas conjunturas, tais como o decl\u00ednio do discurso do mestre e as prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho, al\u00e9m do crescente fen\u00f4meno de esgotamento e hipermedicaliza\u00e7\u00e3o, entre outros motivos.<\/p>\n<p>\u00c9 no professor que o aluno depositar\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o de autoridade e de possuidor do saber ideal, contudo \u2013 ou por isso mesmo \u2013, em sala de aula, o professor ser\u00e1 checado, interrogado e desafiado. Por esta raz\u00e3o, \u201co professor ter\u00e1 de afrontar o outro e n\u00e3o poder\u00e1 cumprir tal miss\u00e3o sem que seu Eu n\u00e3o seja t\u00e3o fortemente avaliado pelo Supereu: suas faltas, suas fraquezas, sua personalidade\u201d, como afirma Pereira. Al\u00e9m desse julgamento, o docente raramente conseguir\u00e1 transmitir o conhecimento da forma como planejara, portanto, essa transmiss\u00e3o ser\u00e1 sempre incompleta.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #333399;\"><strong>O professor tende a viver <\/strong><strong>o\u00a0fracasso como algo <\/strong><strong>muito pr\u00f3prio<\/strong><\/span><\/h4>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/maca4a.png\" alt=\"maca4a\" width=\"121\" height=\"1217\" \/>No decorrer dessa rela\u00e7\u00e3o, o professor se sente paralisado ao ter de lidar com os desvios, as diferentes formas de aprendizagem, a experi\u00eancia da agressividade e da sexualidade de seus alunos. \u00c9 como se pensasse: diante disso, me sinto impotente. \u201cTodas as exig\u00eancias imposs\u00edveis, as demandas, os confrontos, os julgamentos, podem lev\u00e1-lo ao sentimento de fracasso, \u00e0 culpa, \u00e0 impot\u00eancia\u201d.<br \/>\nEssa cren\u00e7a acaba sendo a respons\u00e1vel pela cont\u00ednua amea\u00e7a, por ele sentida, de que a transmiss\u00e3o do saber, com base nos ideais pedag\u00f3gicos que a forma\u00e7\u00e3o e a sociedade ocidental lhe imprimem, n\u00e3o ser\u00e1 efetivada. \u201cO professor tende a viver o fracasso como algo muito pr\u00f3prio\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>O fracasso no cotidiano do processo educacional tem especial repercuss\u00e3o numa sociedade cada vez mais hedonista, que privilegia o gozo e o sucesso imediato. Professores tendem a sentir-se frustrados quando resultados, tidos como ideais, n\u00e3o s\u00e3o alcan\u00e7ados. No entanto, essa configura\u00e7\u00e3o de vi\u00e9s imediatista no contexto escolar n\u00e3o garantiu um mundo de frui\u00e7\u00e3o e de bem-estar; \u201cao contr\u00e1rio, nos levou ao puro estado de desilus\u00e3o, de vazio, de despossess\u00e3o de si. A ang\u00fastia generalizada que se vive hoje surge exatamente em decorr\u00eancia do prazer n\u00e3o regulado\u201d, relata o pesquisador.<\/p>\n<p>Na pesquisa realizada por Pereira, experi\u00eancias de 50 professores de adolescentes foram registradas. Esses profissionais denunciaram o abuso de psicof\u00e1rmacos e os males comuns \u00e0 doc\u00eancia: depress\u00e3o, ansiedade, estresse, transtorno bipolar, p\u00e2nico, Transtorno Obsessivo Compulsivo, problemas alimentares e uso de \u00e1lcool, resultando em afastamentos ou desvios de fun\u00e7\u00e3o. \u201cVivemos em uma sociedade sobremedicalizada devido ao avan\u00e7o das pesquisas e da ind\u00fastria de psicof\u00e1rmacos, \u00e0 facilidade de acesso a eles, ao imperativo de satisfa\u00e7\u00e3o de uma sociedade cada vez mais hedonista, imediatista e intolerante \u00e0 dor\u201d, explica. Com isso, multiplicam-se os medicamentos e multiplicam-se as novas psicopatologias.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da pesquisa, Pereira notou que o estado depressivo e outros fen\u00f4menos patol\u00f3gicos protagonizam o quadro sintom\u00e1tico de grande parte dos docentes analisados na pesquisa. \u201cN\u00e3o se pode dizer, por\u00e9m, que todos os docentes que se disseram depressivos realmente sejam. A for\u00e7a de generaliza\u00e7\u00e3o desse diagn\u00f3stico parece imperar entre eles\u201d, explica o pesquisador. Al\u00e9m disso, ele destacou que grande parte dos problemas enfrentados pelos docentes n\u00e3o dizem respeito aos alunos. Estes at\u00e9 podem contribuir para a manifesta\u00e7\u00e3o de algum padecimento, mas n\u00e3o s\u00e3o os principais respons\u00e1veis. Nesse sentido, o que se revelou foi muito mais uma express\u00e3o de \u201ccovardia moral\u201d e \u201cfuga para a doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, o professor cai antes da queda, ou seja, ele se inibe e se coloca em posi\u00e7\u00e3o de recuo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria pot\u00eancia de mestre e transformador perante os desafios di\u00e1rios da profiss\u00e3o, como o aparente desinteresse e a afronta dos alunos, e as fragilidades da organiza\u00e7\u00e3o escolar. \u201cMas por que cedem ou por que fazem recuar sua pr\u00f3pria pot\u00eancia e evitam o enfrentamento? Porque sabem de antem\u00e3o que n\u00e3o a t\u00eam. Sabem de antem\u00e3o, como qualquer mortal, que n\u00e3o s\u00e3o capazes de responder \u00e0s demandas do outro e preferem se evadir\u201d, comenta o pesquisador. \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel transformar um aluno que o docente j\u00e1 julga n\u00e3o ter nem condi\u00e7\u00e3o nem ilus\u00e3o de transform\u00e1-lo? O professor que n\u00e3o acredita no aluno n\u00e3o o leva a parte alguma\u201d, diz.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese levantada para explicar o estado depressivo do professor relaciona-se \u00e0 necessidade de perfei\u00e7\u00e3o das demandas que lhes s\u00e3o feitas em conjunto com uma escolha que ele mesmo fasto porque, ao assumir este estado, ele renuncia a sua pr\u00f3pria pot\u00eancia de docente e \u00e0 capacidade de mudan\u00e7a em seus alunos ao reconhecer que n\u00e3o \u00e9 capaz de responder \u00e0s demandas que lhes s\u00e3o destinadas. Essa inibi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o de trabalho leva o docente a viver uma diminui\u00e7\u00e3o de prazer no ambiente em quest\u00e3o, tornando-se menos capaz de realiz\u00e1-lo, o que lhe causa esgotamento, estresse e irritabilidade.<\/p>\n<p>O ref\u00fagio no mal-estar encontrado pelo docente lhe traz benef\u00edcios no que tange \u00e0 possibilidade de esconder suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e responsabilizar o meio no qual est\u00e1 inserido. \u201cN\u00e3o \u00e9 que [o meio] n\u00e3o seja, mas o professor se defende de perceberem que ele tamb\u00e9m contribui para que o meio em que est\u00e1 n\u00e3o funcione bem\u201d, comenta Pereira. Dessa maneira, o docente assume um car\u00e1ter duplo de problema e solu\u00e7\u00e3o: na medida em que fica incapacitado para aproveitar a vida e preso \u00e0 condi\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, ele cria uma identidade de depressivo, beneficiando-se tanto da comisera\u00e7\u00e3o dos outros como de ganhos por ser poupado no trabalho, o que pode gerar, inclusive, o afastamento laboral.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #333399;\"><strong>Medicam-se, agora, tristezas <\/strong><strong>e comportamentos, sem dar a <\/strong><strong>m\u00ednima chance ao sujeito de poder <\/strong><strong>ter o tempo suficiente para <\/strong><strong>elabor\u00e1-los por meio de seus <\/strong><strong>pr\u00f3prios recursos simb\u00f3licos, <\/strong><strong>e, assim, poder sair <\/strong><strong>deles mais fortalecido<\/strong><\/span><\/h4>\n<p>A medicaliza\u00e7\u00e3o e a busca por psicof\u00e1rmacos s\u00e3o m\u00e9todos dos quais os docentes se utilizam para refugiar-se deste conflito. Entretanto, tais escolhas podem acentuar a covardia moral, em vez de ajudar o sujeito a enfrentar a dificuldade. \u201cMedicam-se, agora, tristezas e comportamentos, sem dar a m\u00ednima chance ao sujeito de poder ter o tempo suficiente para elabor\u00e1-los por meio de seus pr\u00f3prios recursos simb\u00f3licos e, assim, poder sair deles mais fortalecido\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>Para a solu\u00e7\u00e3o desse problema, Pereira pensou na cria\u00e7\u00e3o de \u201cespa\u00e7os de fala individuais e coletivos\u201d, que seriam possibilidades nas quais docentes tenham a chance de falar acerca do mal-estar que experienciam e, assim, liberar seu sintoma, \u201cdesidentificar-se\u201d com ele, ou elabor\u00e1-lo. Conforme cita o pesquisador, \u201cdificilmente conseguiremos avan\u00e7ar sem que algo espec\u00edfico da pr\u00e1tica do professor seja recolocado no epicentro do debate: repensar suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, sua remunera\u00e7\u00e3o, suas rela\u00e7\u00f5es com o saber e com a forma\u00e7\u00e3o\u201d. Para tanto, \u00e9 preciso \u201cauxiliar o professor a recuperar sua coragem moral para atuar em situa\u00e7\u00f5es de incerteza e descontinuidades\u201d, afirma. Devemos pensar a salubridade dos docentes como uma das ferramentas necess\u00e1rias para a frutifica\u00e7\u00e3o de um ambiente educacional pr\u00f3spero e enriquecedor.<\/p>\n<h6><strong>Professor psicanaliticamente orientado<\/strong><\/h6>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/sofrimento-docente.png\" alt=\"sofrimento docente\" \/>Enquanto desempenhou a fun\u00e7\u00e3o de estagi\u00e1ria e auxiliar de professores, Mariana Maia Munhoz percebia o ambiente escolar como um espa\u00e7o diferente, muito estressante. Al\u00e9m das dificuldades dos docentes em sala de aula, a pesquisadora considerou a situa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as inseridas em espa\u00e7os t\u00e3o exaustivos, algumas originadas de situa\u00e7\u00e3o familiar dif\u00edcil, com autoestima baixa, que, ao adentrar o ambiente escolar, enfrentam dificuldades com os colegas de sala, n\u00e3o conseguindo captar a aten\u00e7\u00e3o do professor, porque este est\u00e1 muito ocupado com o cumprimento dos conte\u00fados, o cronograma da alfabetiza\u00e7\u00e3o, incapacitado, portanto, de observar o lado emocional do desenvolvimento do aluno. \u201cQuis estudar essa rela\u00e7\u00e3o e chamar a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do professor, n\u00e3o s\u00f3 para o desenvolvimento pedag\u00f3gico da crian\u00e7a, mas para o desenvolvimento social e emocional\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Em seu estudo, Munhoz analisou o exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o de duas professoras do primeiro ano do Ensino Fundamental da rede p\u00fablica em sala de aula. A escolha por esse per\u00edodo escolar deu-se por ser um momento de transi\u00e7\u00e3o, uma nova fase para os alunos, ao passo que, para o professor, \u00e9 a etapa de assumir uma tarefa pedag\u00f3gica bem espec\u00edfica: o in\u00edcio da alfabetiza\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 o per\u00edodo em que o esquema da escola muda muito para a crian\u00e7a: a grade escolar, as exig\u00eancias\u2026 Pode ser um momento mais ansi\u00f3geno para a crian\u00e7a, com maiores desafios, que denota a import\u00e2ncia do professor ser acolhedor, suportivo\u201d, explica Munhoz.<\/p>\n<p>A pesquisadora verificou que a institui\u00e7\u00e3o escolar e o relacionamento entre professor e aluno fazem emergir atitudes infantis, como foi o caso de uma das professoras, onde \u201cexistia uma necessidade grande de ser admirada e amada. Para ela, a indisciplina dos alunos trazia uma sensa\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o para com ela. Suas reclama\u00e7\u00f5es eram de coisas muito pessoais, e n\u00e3o profissionais. Dessa forma, ela se defendia de forma explosiva, com muita raiva\u201d, relata.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #333399;\"><strong>A institui\u00e7\u00e3o escolar <\/strong><strong>e o relacionamento <\/strong><strong>entre professor e <\/strong><strong>aluno fazem emergir <\/strong><strong>atitudes infantis<\/strong><\/span><\/h4>\n<p>A outra docente, por sua vez, durante uma das conversas, fez as seguintes observa\u00e7\u00f5es: \u201cEu sinto que, assim como a institui\u00e7\u00e3o faz e como minha m\u00e3e fazia comigo, eu fa\u00e7o com os alunos\u201d. Munhoz explica que esse relato demonstra como a transfer\u00eancia est\u00e1 presente nesse ambiente. \u201cA m\u00e3e dela era extremamente r\u00edgida, ent\u00e3o ela tem mem\u00f3rias de uma m\u00e3e pouqu\u00edssimo afetuosa, exigente, inclusive com as quest\u00f5es dos estudos\u201d, comenta.<\/p>\n<p>A professora tamb\u00e9m demonstrou sentir inseguran\u00e7a e vontade de ser espont\u00e2nea e afetuosa com seus alunos. Segundo a pesquisadora, o descontentamento, a frieza e a rigidez da professora eram fortalecidos pela escola, que, por seu turno, era exigente e, semanalmente, cobrava resultados dos professores. Isso ressaltava ainda mais essas caracter\u00edsticas da docente.<\/p>\n<p>Alguns dos principais impasses que existem na rela\u00e7\u00e3o professor-aluno s\u00e3o o n\u00famero de alunos em sala, o excesso de tarefas e exig\u00eancias dadas pela institui\u00e7\u00e3o, e a falta de tempo para seguir o cronograma das aulas. Al\u00e9m disso, as diferen\u00e7as entre os alunos, principalmente na alfabetiza\u00e7\u00e3o, era uma quest\u00e3o que dificultava o trabalho das professoras. \u201cO que me pareceu mais problem\u00e1tico foi a rela\u00e7\u00e3o delas com os alunos. Era um relacionamento estressante e infeliz. Essa era uma queixa das duas, e elas estavam muito infelizes em rela\u00e7\u00e3o a isso, causava uma queixa, um conflito\u201d, comenta a pesquisadora.<\/p>\n<p>O desafio da alfabetiza\u00e7\u00e3o, as demandas institucionais exigidas do professor e a exig\u00eancia para consigo mesmo s\u00e3o bastante estressantes para os professores do primeiro ano do Ensino Fundamental. As dificuldades enfrentadas nesse ambiente podem desencadear problemas f\u00edsicos e emocionais, como, por exemplo, um burnout (alto \u00edndice de estresse profissional que desgasta emocionalmente e danifica aspectos f\u00edsicos e emocionais) ou algo pr\u00f3ximo a isso.<\/p>\n<p>A pesquisadora afirma que essas dificuldades em sala de aula ocorrem porque o professor \u00e9 formado para atuar na parte pedag\u00f3gica, deixando de lado partes da forma\u00e7\u00e3o e, como a reviv\u00eancia dos aspectos infantis, a quest\u00e3o dos impulsos da crian\u00e7a e o modo como a indisciplina de um aluno afeta a do outro.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/Untitled-1.jpg\" alt=\"Untitled 1\" width=\"150\" height=\"182\" \/>Para exercer a fun\u00e7\u00e3o para a qual foi incumbido, o professor teria, ent\u00e3o, que dispor de muitas ferramentas, desde a sua forma\u00e7\u00e3o. A respeito disso, era comum que as professoras analisadas durante a pesquisa dissessem coisas como \u201ceu n\u00e3o fui preparada para essas quest\u00f5es de indisciplina e problemas do aluno, eu fui preparada para alfabetizar!\u201d, conta Munhoz.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o docente deve assumir o papel de professor psicanaliticamente orientado, ou seja, estar atento aos m\u00faltiplos aspectos do aluno em sala de aula. Muito al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, o professor psicanaliticamente orientado teria um olhar mais atento para o mundo subjetivo presente no processo educativo, tanto para a sua subjetividade quanto para a de seu aluno, bem como para os aspectos inconscientes presentes e influentes na rela\u00e7\u00e3o entre ambos. Contudo, n\u00e3o seria o caso do professor fazer an\u00e1lise ou assumir o psicanalista em sala de aula. Munhoz explica que seria \u201ca psican\u00e1lise saindo do consult\u00f3rio e amparando os professores, com trabalhos em grupo em que possam compartilhar essas dificuldades, ou algum psic\u00f3logo na escola que esteja \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do docente\u201d.<\/p>\n<h6><strong>Instrumento de resist\u00eancia<\/strong><\/h6>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/MACA2.png\" alt=\"MACA2\" \/>Conhecendo esse panorama de mal-estar docente em perspectivas atuais e contempor\u00e2neas, a pesquisadora Luciete Valota Fernandes prop\u00f4s, em sua tese, a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o grupal em que professores pudessem participar. Acreditando que a exist\u00eancia de um espa\u00e7o de reflex\u00e3o acerca do trabalho pedag\u00f3gico exercido pelos professores funcionaria como forma de resist\u00eancia ao sofrimento e adoecimento do professor e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, Fernandes atuou em um grupo para fundamentar sua pesquisa-interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com base nisso, foi verificado que o processo grupal \u00e9 capaz de criar oportunidades para reflex\u00e3o coletiva sobre os elementos positivos e negativos acerca da profiss\u00e3o e produz avan\u00e7os nas consci\u00eancias pedag\u00f3gicas. \u201cN\u00f3s consideramos que esse sofrimento e adoecimento t\u00eam rela\u00e7\u00f5es com as determina\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas mais amplas da sociedade capitalista\u201d, relata.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/MACA3.png\" alt=\"MACA3\" \/>Essa viv\u00eancia foi capaz de gerar uma identidade coesa, entendida como momento importante para o desenvolvimento de uma identidade menos institucionalizada e mais emancipada, al\u00e9m de abrir espa\u00e7o para a discuss\u00e3o e reflex\u00e3o dos elementos gerais e singulares da fragmenta\u00e7\u00e3o e da aliena\u00e7\u00e3o do trabalho pedag\u00f3gico.<\/p>\n<p>As discuss\u00f5es grupais que ocorreram durante as reuni\u00f5es consideraram como objetiva\u00e7\u00f5es positivas do trabalho as atividades de ensino potencialmente geradoras de sentido pessoal. No que diz respeito aos elementos negativos, encontram-se o poder mediato e imediato da administra\u00e7\u00e3o escolar, desvaloriza\u00e7\u00e3o financeira e social dos professores, al\u00e9m das pol\u00edticas educacionais autorit\u00e1rias. Ou seja, por meio das media\u00e7\u00f5es grupais, os docentes puderam expressar tanto o sofrimento ps\u00edquico que carregavam consigo, como discutir a atividade educativa com companheiros de profiss\u00e3o. \u201cO grupo satisfaz necessidades humanas fundamentais para esses professores. Permite a transforma\u00e7\u00e3o e o aprofundamento dos la\u00e7os afetivos e sociais, produzindo maior humaniza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es concretas, o que \u00e9 um elemento fundamental de resist\u00eancia ao sofrimento e \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o\u201d, comenta Fernandes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/MACA.png\" alt=\"MACA\" \/>Essa reuni\u00e3o e compartilhamento de impress\u00f5es e significados, muitas vezes, possibilita a descoberta, por parte dos docentes, de algo que parecia ser exclusivo e individual de cada um deles, mas que, em verdade, atinge tantos outros. \u201cNa aus\u00eancia do grupo, os professores n\u00e3o teriam a oportunidade de contatar e de discutir os aspectos caracter\u00edsticos da particularidade social que medeiam suas consci\u00eancias e atividades vitais, pois n\u00e3o existem outros espa\u00e7os cotidianos nos quais eles possam repensar autenticamente, de forma democr\u00e1tica, horizontal e coletiva, os seus trabalhos\u201d, relata a pesquisadora.<\/p>\n<p>Fernandes conclui afirmando que o espa\u00e7o grupal proporcionou ganhos significativos aos professores participantes, mesmo em pouco tempo de trabalho, por propiciar a express\u00e3o das necessidades do professor no ambiente escolar.<\/p>\n<p>Por Vit\u00f3ria Batistoti<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o por Islaine Maciel e An\u00e1tale Garcia<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" 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