{"id":2133,"date":"2018-08-07T16:56:51","date_gmt":"2018-08-07T18:56:51","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=2133"},"modified":"2018-08-27T16:47:56","modified_gmt":"2018-08-27T18:47:56","slug":"suicidios-o-que-ainda-precisa-ser-dito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/suicidios-o-que-ainda-precisa-ser-dito\/","title":{"rendered":"Suic\u00eddios: o que ainda precisa ser dito"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Maria J. Kov\u00e1cs \u00e9 professora do Depto. de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Por\u00a0<span class=\"vcard author author_name\"><a title=\"Posts de Reda\u00e7\u00e3o\" href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/author\/redacao\/\" rel=\"author\">Reda\u00e7\u00e3o<\/a><\/span>\u00a0&#8211; Jornal da USP, 6\/8\/2018<\/p>\n<div id=\"attachment_2134\" style=\"width: 430px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2134\" class=\"size-full wp-image-2134\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1.png\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1.png 420w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-150x150.png 150w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-300x300.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-160x160.png 160w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-320x320.png 320w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-45x45.png 45w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-200x200.png 200w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/08\/20180806_julia_kovacs-1-400x400.png 400w\" sizes=\"(max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><p id=\"caption-attachment-2134\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Francisco Emolo \/ USP Imagens<\/p><\/div>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">S<\/span>uic\u00eddio \u00e9 tema tabu, mesmo sendo um evento presente na hist\u00f3ria da humanidade desde a Antiguidade. O ato suicida pode ser visto como liberdade, dom\u00ednio, autonomia e controle. Mas ainda \u00e9 frequentemente julgado e condenado, visto como fraqueza ou covardia.<\/p>\n<p>Toda e qualquer resposta simplista sobre suic\u00eddios tem grande possibilidade de erro. Nos \u00faltimos anos, observamos mudan\u00e7a na mentalidade de que o suic\u00eddio precisa ser ocultado. N\u00e3o falar sobre suic\u00eddio n\u00e3o diminuiu seus \u00edndices, pelo contr\u00e1rio, eles t\u00eam aumentado. A perspectiva atual \u00e9 falar sobre o tema, trazendo n\u00fameros e porcentagens, quais s\u00e3o as pessoas em risco, diferen\u00e7as de g\u00eanero e, no extremo, chega-se a falar do n\u00famero de tentativas de suic\u00eddio em minutos, dias, meses ou anos.<\/p>\n<p>Os dados epidemiol\u00f3gicos servem como alerta e fomentam programas de interven\u00e7\u00e3o. Os \u00edndices de suic\u00eddio nos convocam a prestar aten\u00e7\u00e3o nas pessoas ao nosso redor. Junto com programas de preven\u00e7\u00e3o temos que desenvolver, em nosso meio, tamb\u00e9m programas de posven\u00e7\u00e3o (termo ainda pouco conhecido no Brasil), que t\u00eam como objetivo principal cuidar do sofrimento de pessoas com idea\u00e7\u00e3o e tentativa de suic\u00eddio e familiares enlutados, oferecendo acolhimento e psicoterapia.<\/p>\n<p>Levando-se em conta o que foi apresentado acima, vamos trazer outras quest\u00f5es para reflex\u00e3o, agora considerando as pessoas j\u00e1 atingidas pelo fen\u00f4meno do suic\u00eddio, por idea\u00e7\u00e3o ou atos suicidas e pelos familiares que perderam pessoas queridas por esse evento. Essas pessoas necessitam de escuta, apoio, acolhimento e cuidados a longo prazo, n\u00e3o querem saber de n\u00fameros, estat\u00edsticas ou porcentagens. Precisam falar de seu sofrimento existencial.<\/p>\n<blockquote><p>Toda e qualquer resposta simplista sobre suic\u00eddios tem grande possibilidade de erro. Nos \u00faltimos anos, observamos mudan\u00e7a na mentalidade de que o suic\u00eddio precisa ser ocultado. N\u00e3o falar sobre suic\u00eddio n\u00e3o diminuiu seus \u00edndices, pelo contr\u00e1rio, eles t\u00eam aumentado.<\/p><\/blockquote>\n<p>Estat\u00edsticas apontam tend\u00eancias, dados epidemiol\u00f3gicos, estat\u00edsticas, fundamentando programas de sa\u00fade mental. Pessoas afetadas pelo suic\u00eddio precisam de particulariza\u00e7\u00e3o, singularidade, respeito pela sua hist\u00f3ria que tem um in\u00edcio e que ainda n\u00e3o foi finalizada. Pessoas com idea\u00e7\u00e3o, tentativa de suic\u00eddio e familiares enlutados demandam atendimento de qualidade com profissionais capacitados, psic\u00f3logos, psiquiatras, psicoterapeutas, que possam acolher o sofrimento humano, cujo objetivo principal n\u00e3o deve ser evitar o suic\u00eddio a todo custo. Exemplificando, a aten\u00e7\u00e3o s\u00f3 voltada para impedir o suic\u00eddio pode restringir o sujeito, restringindo sua autonomia e liberdade.<\/p>\n<p>Em casos extremos, pessoas podem ser amarradas no leito para que n\u00e3o realizem qualquer a\u00e7\u00e3o que possa colocar sua vida em risco. Essas a\u00e7\u00f5es podem resultar na diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de suic\u00eddios, mas o que podemos falar sobre a dor, falta de op\u00e7\u00e3o ou sofrimento dessa pessoa? Como profissionais de sa\u00fade mental nunca incentivaremos o suic\u00eddio, mas ser\u00e1 que o impedir a todo custo n\u00e3o aumenta o sofrimento e a dor?<\/p>\n<p>Temos poucas op\u00e7\u00f5es de cuidados cont\u00ednuos em hospitais, Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial e nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento. \u00c9 fundamental que o \u201cSetembro Amarelo\u201d, al\u00e9m de programas de preven\u00e7\u00e3o proponham tamb\u00e9m a contrata\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o de profissionais especializados para atender em continuidade pessoas em sofrimento existencial, que buscam a morte para aplacar a profunda dor ps\u00edquica que est\u00e3o vivendo. Alertamos que o atendimento psicoter\u00e1pico e psiqui\u00e1trico deve ser realizado por profissionais competentes e especializados e n\u00e3o por estagi\u00e1rios ou volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso diferenciar acolhimento em crise realizado pelo Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida, que \u00e9 muito importante, por ser, em muitos casos, o primeiro passo para o atendimento de pessoas com idea\u00e7\u00e3o ou tentativa de suic\u00eddio de um atendimento especializado como, por exemplo, o atendimento psicoter\u00e1pico e medicamentoso. Em muitos casos \u00e9 necess\u00e1rio o atendimento psicol\u00f3gico e psiqui\u00e1trico especializado para lidar com a dif\u00edcil tarefa de compreender emo\u00e7\u00f5es intensas, a ambival\u00eancia entre o desejo de viver e morrer, ampliar a vis\u00e3o estreita que considera a morte como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para o sofrimento. Sentir-se aceito, compreendido e n\u00e3o julgado, ter o sofrimento respeitado podem ser caminhos importantes para pessoas encontrarem sentido para continuar vivendo.<\/p>\n<blockquote><p>Temos poucas op\u00e7\u00f5es de cuidados cont\u00ednuos em hospitais, Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial e nas Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade. Entre as ONGS, cabe destacar o Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida, que realiza de maneira exemplar o trabalho de atendimento em crise e o acolhimento.<\/p><\/blockquote>\n<p>Gostaria de tecer reflex\u00f5es sobre os familiares enlutados pelo suic\u00eddio de uma pessoa pr\u00f3xima. No \u201cSetembro Amarelo\u201d, a \u00eanfase recai sobre n\u00fameros, preven\u00e7\u00e3o de suic\u00eddios e os sinais de alerta que precisam ser observados, podendo aumentar o sofrimento de um familiar que com todo empenho n\u00e3o conseguiu evitar o suic\u00eddio. As cartilhas apontam que sinais devem ser observados, acirrando a culpa daqueles que sentem que foram descuidados, por n\u00e3o perceb\u00ea-los a tempo. \u00c9 preciso enfatizar que os sinais t\u00e3o claros nas cartilhas, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o claros na realidade. Esses familiares sofrem muito no Setembro Amarelo porque a \u00eanfase recai principalmente sobre a preven\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sobre o cuidado ao sofrimento, que est\u00e3o vivendo. \u00c9 evidente que os programas de preven\u00e7\u00e3o devem continuar, mas \u00e9 fundamental agregar nas campanhas a preven\u00e7\u00e3o do sofrimento daqueles atingidos pelo suic\u00eddio, em pol\u00edticas de posven\u00e7\u00e3o. Devemos desenvolver campanhas de cuidados tamb\u00e9m, e ajudar no dif\u00edcil processo de luto de quem perdeu pessoas pelo suic\u00eddio, que s\u00e3o vistos, em alguns casos, como aqueles que provocaram o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Ao final desse texto, chamamos aten\u00e7\u00e3o para os cuidados oferecidos nos pronto-atendimentos e enfermarias de hospitais para pessoas que tentaram p\u00f4r fim \u00e0 vida. Eles s\u00e3o tratados de forma pouco atenciosa, descuidada ou at\u00e9 com viol\u00eancia, porque alguns profissionais sentem seu trabalho desvalorizado porque foram formados para salvar vidas. Al\u00e9m de serem tratados dessa forma, pessoas que tentaram suic\u00eddio s\u00f3 recebem cuidados cl\u00ednicos, recebendo alta, sem preocupa\u00e7\u00e3o com seu sofrimento ps\u00edquico e dor emocional. Essa abordagem incompleta e violenta pode, ao contr\u00e1rio de cuidar, estimular pessoas desesperadas a tentar suic\u00eddio de formas ainda mais letais. Al\u00e9m da preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, precisamos tamb\u00e9m falar daqueles que buscam consumar o ato suicida, de forma impulsiva ou planejada e que n\u00e3o morreram: e dos familiares que os acompanham, tamb\u00e9m desesperados, sem saber o que fazer. Observamos poucas refer\u00eancias sobre a quest\u00e3o dos cuidados nos documentos da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), nas pol\u00edticas p\u00fablicas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e nas cartilhas apresentadas. Esperamos um Setembro Amarelo que tamb\u00e9m enfoque os cuidados a pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sofrimento e dor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria J. Kov\u00e1cs \u00e9 professora do Depto. de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":2134,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[237,367,47,244,284,22],"class_list":["post-2133","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-jornal-da-usp","tag-jovem","tag-falar-de-morte","tag-suicidio","tag-universidade","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2133"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2222,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2133\/revisions\/2222"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}