{"id":2285,"date":"2018-08-23T16:23:38","date_gmt":"2018-08-23T18:23:38","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=2285"},"modified":"2018-09-12T16:37:08","modified_gmt":"2018-09-12T18:37:08","slug":"intervencoes-de-protecao-em-abusos-sexuais-veiculados-ao-incesto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/intervencoes-de-protecao-em-abusos-sexuais-veiculados-ao-incesto\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o em abusos sexuais veiculados ao incesto"},"content":{"rendered":"<p>Por Wender Starlles, Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias: AUN, 23\/8\/2018<\/p>\n<div id=\"attachment_2286\" style=\"width: 688px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2286\" class=\"size-full wp-image-2286\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/thinkstockphotos-531610793-e1478173483864.jpg\" alt=\"\" width=\"678\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/thinkstockphotos-531610793-e1478173483864.jpg 678w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/thinkstockphotos-531610793-e1478173483864-300x169.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/thinkstockphotos-531610793-e1478173483864-310x174.jpg 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/thinkstockphotos-531610793-e1478173483864-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 678px) 100vw, 678px\" \/><p id=\"caption-attachment-2286\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Laura Benvenuti\/Thinkstock.<\/p><\/div>\n<p>A mitologia grega traz no seu \u00e2mago a hist\u00f3ria de \u00c9dipo Rei, personagem destinado a se casar com sua pr\u00f3pria m\u00e3e, com quem teve dois filhos e duas filhas, e a matar seu pai, o rei que governava a cidade. Essa trag\u00e9dia escrita por S\u00f3focles aborda um tema importante que perpassa as \u00e9pocas e adquire novas modula\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o deixa de existir: o incesto. Na contemporaneidade, a maioria das ocorr\u00eancias envolvendo essa pr\u00e1tica est\u00e1 acrescida pelo ato do abuso sexual, geralmente cometido contra pessoas menores de idade, que n\u00e3o possuem autonomia para decidir participar daquela a\u00e7\u00e3o. S\u00e3o epis\u00f3dios carregados por agress\u00f5es f\u00edsicas, amea\u00e7as ou at\u00e9 mesmo a coa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tendo como base depoimentos de profissionais atuantes na \u00e1rea de atendimentos \u00e0s v\u00edtimas, e as discuss\u00f5es envoltas no assunto, Rose Miyahara elaborou a tese de doutorado\u00a0<i>Abuso sexual de crian\u00e7as e adolescentes: um estudo psicanal\u00edtico sobre o trabalho de escuta aos sujeitos envolvidos na trama incestuosa<\/i>\u00a0defendida em 2018 ao Instituto de Psicologia (IP) da USP. \u201cEm 1994 a gente fundou o Centro de Refer\u00eancia \u00e0s V\u00edtimas de Viol\u00eancia (CNRVV) do Instituto Sedes Sapientiae. Estudei esse tema desde o come\u00e7o. Tanto meu mestrado, quanto doutorado procuraram dar subs\u00eddio aos profissionais atuantes nessas situa\u00e7\u00f5es\u201d, contou a pesquisadora sobre a origem do interesse pela tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>No estudo, Miyahara optou por n\u00e3o utilizar como sujeitos da pesquisa os pacientes, j\u00e1 que, isso implicaria possivelmente em uma exposi\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria e anti\u00e9tica dos casos. Assim, foram manuseados materiais \u2014\u00a0relatos trazidos para a supervis\u00e3o\u00a0\u2014, colhidos diretamente com profissionais que atendem v\u00edtimas de viola\u00e7\u00e3o sexual. Logo em seguida, dois casos foram selecionados para fazer um aprofundamento de an\u00e1lise. O primeiro de uma menina e outro de um agressor. Ao ser perguntada sobre qual seria a maior contribui\u00e7\u00e3o da sua tese Rose respondeu: \u201cDar subs\u00eddios conceituais e te\u00f3ricos de uma pr\u00e1tica \u00a0consistente na hora de intervir junto a essa crian\u00e7a, adolescente, essa m\u00e3e, pai, av\u00f4, enfim. Todos esses sujeitos que comp\u00f5e a cena incestuosa.\u201d<\/p>\n<h6>Por que voc\u00ea me abra\u00e7a desse jeito?<\/h6>\n<div id=\"attachment_2287\" style=\"width: 743px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2287\" class=\"wp-image-2287 size-full\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/abuso.jpg\" alt=\"\" width=\"733\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/abuso.jpg 733w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/abuso-215x300.jpg 215w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/abuso-400x559.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 733px) 100vw, 733px\" \/><p id=\"caption-attachment-2287\" class=\"wp-caption-text\">Alan, 13 anos, v\u00edtima de abuso. Participou da Campanha de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia sexual. Imagem: CEDECA.<\/p><\/div>\n<p>Assim como Alan, milhares de jovens sofrem diariamente com abusos e se culpam por isso. Dados do Disque 100, servi\u00e7o voltado \u00e0s den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos (contra pessoa idosa, priva\u00e7\u00e3o de liberdade, aten\u00e7\u00e3o aos moradores de rua), com foco especial na crian\u00e7a e no adolescente, registrou, somente no primeiro trimestre de 2015, cerca de 4480 casos de viol\u00eancia sexual envolvendo principalmente meninas entre 4 e 7 anos. Al\u00e9m disso, foi diagnosticado que, em 58% dos casos, o abuso aconteceu dentro do pr\u00f3prio domic\u00edlio, com indicativa de culpabilidade atribu\u00edda ao pai ou av. Os n\u00fameros evidenciam incid\u00eancia alarmante, e confirmam a velha m\u00e1xima de o perigo estar em casa.<\/p>\n<p>De fato o fen\u00f4meno sempre existiu, durante muito tempo, at\u00e9 por quest\u00f5es culturais acabou sendo abafado. Entretanto, com o passar das gera\u00e7\u00f5es in\u00fameros casos ganharam repercuss\u00e3o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 inser\u00e7\u00e3o do tema nas rodas de conversa. Para a pesquisadora isso se deve a um motivo principal. \u201dPor conta do movimento internacional de combate \u00e0s circunst\u00e2ncias de abusos, viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes ouvimos falar mais nesse assunto\u201d. Al\u00e9m disso, existe a carta de Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos da Crian\u00e7a, aprovada pela Assembleia das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 20 de novembro de 1959 \u2014 o documento prega a prote\u00e7\u00e3o contra qualquer forma de crueldade, neglig\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o. Rose ainda comenta a import\u00e2ncia dos pa\u00edses frente ao debate. \u201cQuando um pa\u00eds \u00e9 signat\u00e1rio dessa carta, ele passa a ter compromisso de possuir pol\u00edticas p\u00fablicas de enfrentamento a essa situa\u00e7\u00e3o, na medida em que isso acontece, ganha visibilidade e vai saindo debaixo do tapete\u201d. Indo na vertente o Brasil, que tamb\u00e9m faz parte do acordo, possui o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA \u2014 Lei 8.069, julho 1990), respons\u00e1vel por assegurar direitos a prote\u00e7\u00e3o integral \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/p>\n<h6>A trama do incesto<\/h6>\n<p>O abuso sexual que acontece na fam\u00edlia \u2014 cometido por parentes pr\u00f3ximos \u2014, \u00e9 aprisionado no pacto de sil\u00eancio, sendo o mais dif\u00edcil de ser diagnosticado e tratado. H\u00e1 raz\u00f5es que atestam a ocorr\u00eancia. \u201dPor vergonha, por receio dos desdobramentos sociais disso, muitas vezes esse autor da agress\u00e3o sexual \u00e9 o provedor financeiro da casa. \u00c0 medida que ele possa ser preso, isso impacta, inclusive, o padr\u00e3o social econ\u00f4mico de sustento da pr\u00f3pria fam\u00edlia\u201d, explicou Rose.<\/p>\n<p>A tese fez o apontamento de tr\u00eas focos como indica\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis, em termos de interven\u00e7\u00f5es consistentes para serem realizadas nas ocorr\u00eancias. O primeiro est\u00e1 relacionado ao tempo para se fazer a avalia\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica de cada caso. \u201cAntes de encaminhar para qualquer tipo de interven\u00e7\u00e3o, ou dizer se a crian\u00e7a est\u00e1 apta ou n\u00e3o a prestar testemunho, seja no setting de terapia ou jur\u00eddico\u201d. Isso permite que a media\u00e7\u00e3o seja mais protetiva, e n\u00e3o exponha ningu\u00e9m a falar sobre aquilo que n\u00e3o queira no momento \u2014 um erro bem comum. \u00a0\u201cQuando a crian\u00e7a chega aos servi\u00e7os de atendimento, ela tem que falar, contar os detalhes, apontar quem \u00e9 o agressor. Isso pode fazer mal, trazer preju\u00edzo ao voltar a cena, relembrar ou falar sobre aquilo. Temos que esperar o tempo dela\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do autor da agress\u00e3o, apareceu na casu\u00edstica dos atendimentos realizados uma diferencia\u00e7\u00e3o importante. \u201cA grande maioria dos homens autores de agress\u00e3o sexual, n\u00e3o s\u00e3o perversos estruturalmente, ou seja, ped\u00f3filos, pessoas que t\u00eam transtorno de prefer\u00eancia sexual, e s\u00f3 se satisfazem no relacionamento com uma crian\u00e7a ou adolescente\u201d, comenta sobre o segundo apontamento. \u201cPais e av\u00f3s incestuosos s\u00e3o neur\u00f3ticos, e acabam sendo capturados pelo est\u00edmulo social perverso\u201d.<\/p>\n<p>Como conclus\u00e3o da pesquisa ela ressalta que devemos prestar mais aten\u00e7\u00e3o na maneira como o la\u00e7o social tamb\u00e9m acaba estimulando o funcionamento cruel dos comportamentos humanos. \u201cN\u00e3o d\u00e1 pra dizer que o abusador \u00e9 um doente e tem que ser preso ou alijado do conv\u00edvio social, quando na nossa pr\u00f3pria cultura existem elementos de funcionamento perversos t\u00e3o parecidos com os quais ele usa pra justificar o abuso da sua prole\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Wender Starlles, Ag\u00eancia USP de Not\u00edcias: AUN, 23\/8\/2018 A mitologia grega traz no seu \u00e2mago a hist\u00f3ria de \u00c9dipo&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":2287,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[397,398,170],"class_list":["post-2285","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-abuso-sexual","tag-incesto","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2285"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2285\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2288,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2285\/revisions\/2288"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2287"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}