{"id":229,"date":"2016-07-06T18:00:22","date_gmt":"2016-07-06T20:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=229"},"modified":"2018-10-19T16:12:26","modified_gmt":"2018-10-19T18:12:26","slug":"troco-pessoas-troco-os-pronomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/troco-pessoas-troco-os-pronomes\/","title":{"rendered":"Diversidade de g\u00eanero: Troco as pessoas, troco os pronomes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Pesquisadores do IPUSP analisam as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade, em conformidade com a crescente necessidade de uma\u00a0<\/strong><strong>discuss\u00e3o mais ampla sobre a tem\u00e1tica<\/strong><\/em><\/p>\n<h4><span style=\"color: #008000;\">G\u00caNERO<\/span><\/h4>\n<div id=\"attachment_230\" style=\"width: 236px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-230\" class=\"wp-image-230 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero-226x300.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero-226x300.jpg 226w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero-768x1021.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero-770x1024.jpg 770w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero-400x532.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/genero.jpg 1927w\" sizes=\"(max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-230\" class=\"wp-caption-text\">Ju Bernardo<\/p><\/div>\n<p>Nunca se falou tanto sobre g\u00eanero: entre amigos; na publicidade; na milit\u00e2ncia pol\u00edtica (ou nos discursos homof\u00f3bicos de pol\u00edticos); nas revistas e jornais; em novelas, s\u00e9ries de televis\u00e3o, e desenhos infantis; no ambiente escolar \u2013 especialmente nas universidades. E, na conflu\u00eancia desse cen\u00e1rio, provavelmente nunca se produziu tanto sobre g\u00eanero. Isso n\u00e3o quer dizer que o assunto come\u00e7ou a ser estudado recentemente, pelo contr\u00e1rio, hoje sabemos que\u00a0pesquisas s\u00e3o feitas h\u00e1 d\u00e9cadas, acompanhando uma luta permanente na esfera social.<\/p>\n<p>Mas, nunca como agora se possibilitou a compreens\u00e3o de toda a multiplicidade que a tem\u00e1tica que envolve os LGBTs*. Falar sobre g\u00eanero, identidade e sexualidade n\u00e3o se resume a falar sobre homossexualismo (sim, com esse ismo de doen\u00e7a, que precisa ser contestado) e AIDS. Discutir a quest\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 muito mais do que rebater o eterno discurso repetitivo sobre promiscuidade, escolha e \u201cdesejo de aparecer\u201d, \u00e9 antes um meio de compreender de que forma os indiv\u00edduos se constituem e se constroem, seja na \u00f3tica da biologia, da psican\u00e1lise ou das ci\u00eancias sociais. Seguindo essa perspectiva, pesquisadores, professores e alunos do IPUSP ampliam o debate com trabalhos desenvolvidos sobre a sexualidade e a quest\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/p>\n<p>Bem-vindos \u00e0 discuss\u00e3o!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong><span style=\"color: #008000;\">Troco as pessoas,\u00a0troco os pronomes&#8230;<\/span><\/strong><\/h6>\n<div style=\"width: 713px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/VARAL.png\" alt=\"VARAL\" width=\"703\" height=\"370\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Ju Bernardo<\/p><\/div>\n<p>At\u00e9 2004, Laerte Coutinho era conhecido sobretudo por ser um dos mais populares cartunistas brasileiros. Atrav\u00e9s da ironia fina das tiras de Chiclete com Banana e Piratas do Tiet\u00ea, entre outras, popularizou-se pela cr\u00edtica com que \u201cdenuncia\u201d as mazelas pol\u00edticas e sociais. E foi baseado em um de seus personagens, Hugo, que abriu uma importante discuss\u00e3o sobre sexualidade e identidade de g\u00eanero, porque, ao mostrar o personagem como uma travesti, o cartunista estava para al\u00e9m do \u201cengra\u00e7ado\u201d da charge, despindo-se a si mesmo, revelando sua trangeneridade.<\/p>\n<p>Entretanto, esse processo n\u00e3o se deu da noite para o dia. Segundo Laerte, em v\u00eddeo gravado para o projeto Trip Transforma\u00e7\u00f5es (criado em 2007 para identificar e reconhecer pessoas que promovem o avan\u00e7o do coletivo com seu trabalho), foram necess\u00e1rios trinta anos, tr\u00eas casamentos e uma perda irrepar\u00e1vel (a morte de um dos filhos em um acidente de carro) para que ele se permitisse um radical processo de mudan\u00e7a que culminou na descoberta \u2013 e revela\u00e7\u00e3o \u2013 de sua identidade de g\u00eanero.<\/p>\n<div style=\"width: 716px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/laerte2.png\" alt=\"laerte2\" width=\"706\" height=\"198\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Fotos: Andr\u00e9 Giorgi (Reprodu\u00e7\u00e3o Portal IG)<\/p><\/div>\n<p>A cartunista (que prefere ser chamada pelos pronomes femininos, embora n\u00e3o repreenda quem ainda a chame por \u201cele\u201d) confessa ter renegado e suprimido tanto quanto p\u00f4de o que ela entendia como sua homossexualidade (que depois foi mais bem entendida como bissexualidade) e, posteriormente, sua transgeneridade. Para ela, \u201ca transgeneridade \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00faltimo tabu, ainda maior do que o de orienta\u00e7\u00e3o sexual, porque envolve pessoas que gostam de se expressar dentro do contexto homossexual feminino, mas que n\u00e3o s\u00e3o homossexuais, o que pira a cabe\u00e7a de todo mundo\u201d, explicou.<\/p>\n<div style=\"width: 817px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/MUSICA.L_U.jpg\" alt=\"MUSICA.L U\" width=\"807\" height=\"735\" \/><p class=\"wp-caption-text\">M\u00fasica &#8220;meninos e meninas&#8221;, Legi\u00e3o Urbana. Letra de Renato Russo. Manuscrito\u00a0de Carina M\u00fcller Sasse<\/p><\/div>\n<p>Essa confus\u00e3o que se d\u00e1 na \u201ccabe\u00e7a de todo mundo\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201ccondi\u00e7\u00e3o\u201d de Laerte resulta de um constante equ\u00edvoco que se estabelece entre a suposta no\u00e7\u00e3o de sexo biol\u00f3gico (ou seja, a ideia de coer\u00eancia obrigat\u00f3ria entre o genital, a composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, as caracter\u00edsticas f\u00edsicas e o comportamento), a identidade de g\u00eanero e a orienta\u00e7\u00e3o sexual. Os mais radicais \u2013 e aqui entram principalmente os discursos religiosos \u2013 defendem que devemos seguir orientados pelo dito sexo biol\u00f3gico, ou seja, se nasci com vagina serei mulher, desejarei e me relacionarei com homens, e se nasci com p\u00eanis sou homem e me envolverei apenas com o sexo oposto. Mas, essa condi\u00e7\u00e3o pode ferir a orienta\u00e7\u00e3o sexual dos indiv\u00edduos, que \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o para onde aponta o interesse\/desejo sexual\/emocional de cada um. Afinal, deveria ser natural poder gostar de homens, mulheres, de ambos ou de nenhum.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma discuss\u00e3o ainda mais complexa no que se refere \u00e0 identidade de g\u00eanero, terminologia que ganhou destaque ap\u00f3s a teoria queer, popularizada com Judith Butler. Segundo a fil\u00f3sofa p\u00f3s-estruturalista norte-americana, cada um de n\u00f3s pode identificar-se com um g\u00eanero que n\u00e3o necessariamente o de nascimento, porque a chamada \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d \u00e9 fruto de uma constru\u00e7\u00e3o social, que se d\u00e1 pelo constructo, pelas rela\u00e7\u00f5es socioculturais de cada indiv\u00edduo. Dessa forma, o \u201ceu\u201d ao qual foi atribu\u00eddo o g\u00eanero masculino ao nascimento pode, na verdade, se identificar com o feminino, e o \u201ceu\u201d ao qual foi atribu\u00eddo o g\u00eanero feminino pode identificar-se com o masculino, assim como a identifica\u00e7\u00e3o pode ser com os dois g\u00eaneros ou mesmo com nenhum.<\/p>\n<p>Esses novos estudos explicam um sentimento conhecido por muitos transg\u00eaneros, que n\u00e3o necessariamente realizam procedimento para redesigna\u00e7\u00e3o sexual, mas se veem diferentes da atribui\u00e7\u00e3o que lhes foi feita ao nascer. \u201cEu me olho no espelho e me vejo assim, n\u00e3o como mulher, nem como homem, mas como uma pessoa transg\u00eanera, eu me expresso desse jeito, eu adoro isso, eu me encontrei neste tipo de representa\u00e7\u00e3o\u201d, relatou Laerte no v\u00eddeo. Segundo a cartunista, n\u00e3o h\u00e1 nela um desejo de se vestir como mulher para ser, de fato, uma, mas a vestimenta \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de uma forma, de uma ideia que conversa com a sua busca pessoal, com o seu desejo de expressar sua identidade de g\u00eanero. \u201cNingu\u00e9m est\u00e1 aqui brincando, eu n\u00e3o estou aqui fantasiada, n\u00e3o se trata de carnaval, \u00e9 a vida mesmo\u201d, completou.<\/p>\n<p>Assim como Laerte, a hoje ex-atleta ol\u00edmpica Caitlyn Jenner, antes Bruce, padrasto da socialite Kim Kardashian, tamb\u00e9m passou por processo de reenditifica\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Em seu caso, todavia, houve interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica para redesigna\u00e7\u00e3o sexual, al\u00e9m de cirurgias no nariz, queixo, pesco\u00e7o, testa e maxilar. Durante o processo de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, pequenas mostras de suas mudan\u00e7as f\u00edsicas j\u00e1 podiam ser percebidas, mas foi somente na capa da edi\u00e7\u00e3o de junho de 2015 da revista americana Vanify Fair que Jenner revelou ao mundo sua nova identidade: \u201cMe chamem de Caitlyn\u201d.<\/p>\n<p>Em depoimento \u00e0 revista, ela declarou: \u201cse eu estivesse deitada em meu leito de morte e tivesse guardado esse segredo comigo e nunca tivesse feito nada para mudar o que sentia, estaria pensando: \u2018Voc\u00ea estragou sua vida. Voc\u00ea nunca lidou consigo mesma\u2019. Eu n\u00e3o quero que isso aconte\u00e7a\u201d, mostrando o qu\u00e3o segura estava na revela\u00e7\u00e3o de seu novo eu. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o, ela escreveu em sua conta no Twitter: \u201cEstou t\u00e3o feliz depois de uma longa batalha para poder viver o meu verdadeiro eu\u201d, sendo bem acolhida pelos f\u00e3s, que enviaram mensagens de apoio. Apoio este que tamb\u00e9m veio da fam\u00edlia, inclusive de Kris Jenner, sua ex-esposa \u2013 ainda que ela, num primeiro momento, tenha ficado chocada.<\/p>\n<p>Se o \u201csair do arm\u00e1rio\u201d parece glamoroso quando o assunto s\u00e3o celebridades, na vida de pessoas comuns, que n\u00e3o figuram dentro da chamada cis-heteronormatividade, o revelar-se \u00e9 muito mais complexo. Nesse processo est\u00e3o envolvidos conflitos (internos e externos), um longo processo de descoberta e aceita\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de muito preconceito e intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Seja atrav\u00e9s da identidade de g\u00eanero ou da orienta\u00e7\u00e3o sexual, o descobrir-se \u201cfora do padr\u00e3o\u201d, sendo transg\u00eanero \u2013 como Laerte Coutinho, Caitlyn Jenner ou Jo Camilo \u2013, sendo gay \u2013 como o deputado federal Jean Willys ou o cantor Ricky Martin \u2013, ou, ainda, estando dentro de qualquer outra \u201cnomenclatura\u201d que n\u00e3o a de cis-heterossexual, \u00e9 complicado! Por\u00e9m, se faz extremamente necess\u00e1ria a tentativa de compreender toda essa multiplicidade pr\u00f3pria do ser humano.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica que envolve o g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 recente, como tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 o intento de muitos pesquisadores do IPUSP. A dedica\u00e7\u00e3o dessas pessoas se volta para o estudo profundo da sexualidade e do g\u00eanero, pelo vi\u00e9s da psican\u00e1lise, do construcionismo, do marxismo, da teoria queer etc., ou seja, pelas novas vertentes de estudo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/glossario\/\" rel=\"attachment wp-att-1353\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1353 size-large\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa-1024x710.png\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa-1024x710.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa-300x208.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa-768x533.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa-400x277.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/gloss\u00e1rio-g\u00eanero-capa.png 1417w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong><span style=\"color: #008000;\">Quero me encontrar, mas n\u00e3o sei onde estou<\/span><\/strong><\/h6>\n<p>Constantemente, estamos expostos a discursos e a pr\u00e1ticas sociais. Via de regra, ambos acabam sendo aprendidos e internalizados, e esse processo \u00e9 natural a todo ser humano. \u00c9 desse modo que aprendemos, por exemplo, as normas exigidas para o conv\u00edvio social ou as situa\u00e7\u00f5es que devemos temer para preservar a nossa seguran\u00e7a e, consequentemente, sobrevivermos. E, infelizmente, \u00e9 assim, tamb\u00e9m, que muitos julgamentos infundados s\u00e3o incorporados \u00e0s nossas pr\u00e1ticas cotidianas, em forma de preconceitos.<br \/>\nHoje, \u00e9 not\u00f3ria a discrimina\u00e7\u00e3o que sofrem todos aqueles que se identificam (ou s\u00e3o identificados) como parte do grupo LGBT. A ignor\u00e2ncia, o desprezo e, muitas vezes, a repulsa por essa comunidade se pauta no discurso hegem\u00f4nico que, cotidianamente, martela que o binarismo de g\u00eanero e a cis-heteronormatividade devem ser os referenciais a partir dos quais se julgaria o que seria sexualmente patol\u00f3gico no ser humano &#8211; o que significa dizer que tudo aquilo que foge \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de \u201chomem \u00e9 aquele que tem p\u00eanis e \u00e9 atra\u00eddo por mulheres\u201d e \u201cmulher \u00e9 aquela que tem vagina e \u00e9 atra\u00edda por homens\u201d n\u00e3o \u00e9 bem recebido ou mesmo aceito pelo senso comum.<br \/>\nTodavia, como afirma o psic\u00f3logo e pesquisador do IPUSP, Rafael Kalaf Cossi, em sua disserta\u00e7\u00e3o, \u201cas identidades sexuais apresentam uma dimens\u00e3o real, portanto, s\u00e3o ilimitadas e imprevis\u00edveis\u201d. Cossi tem se dedicado desde o mestrado ao trabalho em Psicologia Cl\u00ednica, mostrando a import\u00e2ncia da psican\u00e1lise nas quest\u00f5es de sexualidade e identidade, j\u00e1 que a teoria passa a contemplar novas possibilidades corporais e de g\u00eanero como leg\u00edtimas, problematizando a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 anormalidade dos sujeitos n\u00e3o-heterossexuais e n\u00e3o-cisg\u00eanero.<\/p>\n<p>Assim, o psic\u00f3logo recupera as ideias de Robert Stoller, pioneiro na pesquisa sobre g\u00eanero em psican\u00e1lise, que considerava que \u201ca identidade de g\u00eanero se expressa no indiv\u00edduo a partir da convic\u00e7\u00e3o que ele tem quanto ao pertencimento a este ou aquele sexo. Tal convic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inata, mas adquirida, e precocemente: por volta dos dois ou tr\u00eas anos, o sentido de ser homem ou mulher j\u00e1 est\u00e1 estabelecido\u201d. Nesse sentido, se livrar da cis-heteronormatividade patologizante \u00e9 um objetivo que a psican\u00e1lise se prop\u00f5e a contemplar, o que implica a legitima\u00e7\u00e3o das novas possibilidades sexuais e de g\u00eanero, que, por consequ\u00eancia, deixam de ser rotuladas como anormais.<\/p>\n<p>Ainda assim, n\u00e3o s\u00e3o poucos os argumentos biol\u00f3gicos usados como um artif\u00edcio da intoler\u00e2ncia contra aqueles que n\u00e3o se enquadram nos padr\u00f5es de sexualidade e de g\u00eanero esperados. O debate n\u00e3o pode se estruturar em torno desse racioc\u00ednio, porque o \u00f3rg\u00e3o genital de um indiv\u00edduo n\u00e3o necessariamente condiz com a sua identidade de g\u00eanero \u2013 como ocorre nos casos de Laerte e Caitlyn. A prop\u00f3sito, o debate gerado pela concep\u00e7\u00e3o de que o indiv\u00edduo escolhe a sua sexualidade tamb\u00e9m \u00e9 pouco produtivo, porque sugere que uma pessoa \u00e9 capaz de definir para quem aponta o seu desejo, seja ele afetivo ou sexual. A chamada orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o implica numa escolha, j\u00e1 que a constitui\u00e7\u00e3o de nossa psique \u00e9 extremamente complexa ao mesmo passo que est\u00e1vel. Assim, a orienta\u00e7\u00e3o sexual vale para todas as sexualidades humanas, desde l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, assexuados, pansexuais, at\u00e9 os heterossexuais. Em virtude disso, o determinismo biol\u00f3gico e o termo \u201cescolha\u201d n\u00e3o atendem adequadamente \u00e0 verdadeira complexidade do assunto.<\/p>\n<div id=\"attachment_243\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-243\" class=\"wp-image-243 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-300x293.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-300x293.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-768x750.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-1024x999.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-45x45.png 45w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo-400x390.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jo-camilo.png 1331w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-243\" class=\"wp-caption-text\">Jo Camilo partivipa de reivindica\u00e7\u00e3o dos alunos do IPUSP: alto do banheiro. Foto: Islaine Maciel<\/p><\/div>\n<p>Em Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud explica que a bissexualidade ps\u00edquica \u00e9 uma \u201ccondi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria que justificaria a orienta\u00e7\u00e3o sexual homossexual\u201d. Por esta raz\u00e3o, o ser humano comporta um amplo espectro de possibilidades sexuais e \u00e9 expressamente refletido na comunidade LGBT.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para Cossi, ainda que se compreenda a an\u00e1lise freudiana, \u00e9 necess\u00e1rio evidenciar, no que se refere \u00e0 transexualidade, que diferentemente de um psic\u00f3tico \u2013 que, numa convic\u00e7\u00e3o delirante, encarna A mulher ou O homem \u2013, o sujeito transexual \u201cassume verdadeiramente uma identidade, mas n\u00e3o necessariamente por acreditar que ela exista substancialmente, pois ele tende a reconhecer o car\u00e1ter ilus\u00f3rio duma suposta identidade sexual totalizada e definitiva\u201d.<\/p>\n<p>A transexualidade, segundo o pesquisador, \u00e9 tomada como um fen\u00f4meno estritamente moderno. Sua entrada no campo da medicina se d\u00e1 em 1953, pelo vi\u00e9s da patologia \u2013 logo, ela \u00e9 primeiramente denominada como transexualismo, com o famigerado sufixo de doen\u00e7a. Ali\u00e1s, no que concerne aos LGBTs, a insist\u00eancia na utiliza\u00e7\u00e3o dessa termina\u00e7\u00e3o acaba se transformando em um posicionamento pol\u00edtico que desrespeita essa comunidade.<\/p>\n<h6>Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente<\/h6>\n<p>Nas concep\u00e7\u00f5es de Jo Camilo, mestranda do IPUSP, todo o universo transg\u00eanero era muito aversivo, porque ela carregava consigo muitas das ideias sociais que s\u00e3o atribu\u00eddas a essa identidade de g\u00eanero. Para a aluna, que nunca se identificou como homem gay e teve rela\u00e7\u00f5es quase que exclusivamente com mulheres, sua compreens\u00e3o da transgeneridade, ou transexualidade, mudou quando teve acesso a informa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s de v\u00eddeos produzidos e divulgados pelas pr\u00f3prias pessoas trans. \u201cCada vez menos me sentia como homem nessas rela\u00e7\u00f5es. Sentia-me como uma mulher ficando com outras mulheres\u201d, nos relatou Jo, em depoimento \u00e0 psico.usp.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a estudante encontrou entre as pessoas trans o apoio e discernimento que precisava para compreender sua identidade. \u201cTer contato com esse material desconstruiu quase que instantaneamente diversos conceitos muito problem\u00e1ticos que eu tinha e, em quest\u00e3o de menos de um dia, me vi completamente imersa em buscas sobre como poderia me apropriar dessa identidade que j\u00e1 estava sendo constru\u00edda em mim\u201d, explica.<\/p>\n<p>N\u00e3o que tudo tenha sido f\u00e1cil ap\u00f3s o aprimoramento da compreens\u00e3o de si mesma, afinal, segundo Jo, o per\u00edodo em que passou a se mostrar publicamente como pessoa trans foi marcado por muito medo, um medo n\u00e3o s\u00f3 da viol\u00eancia f\u00edsica ou psicol\u00f3gica nas ruas, mas um medo das mudan\u00e7as que a acompanhariam dali, inclusive nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Assim, quando n\u00e3o s\u00e3o socialmente pressionadas por uma falta de humaniza\u00e7\u00e3o, essas pessoas s\u00e3o expostas a uma padroniza\u00e7\u00e3o exacerbada. Nem todos os transg\u00eaneros recorrem a m\u00e9todos cir\u00fargicas, como a redesigna\u00e7\u00e3o sexual, por exemplo. Mas a aus\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es hormonocir\u00fargicas n\u00e3o significa que essas pessoas deixam de ser trans. De maneira semelhante, os intersexuais, que s\u00e3o uma categoria ampla que inclui diversos tipos de pessoas, nem sempre precisam de tratamento m\u00e9dico, e o desejo de realiz\u00e1-lo ou n\u00e3o deveria depender primordialmente da vontade da pessoa que passar\u00e1 pelos procedimentos, e n\u00e3o do desejo incessante por categoriza\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria que a sociedade imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Sobre essas transforma\u00e7\u00f5es vividas pelos indiv\u00edduos, Jo Camilo reitera que \u201c\u00e9 errada a ideia de que as pessoas trans se caracterizam pelas mudan\u00e7as corporais\u201d. Na realidade, essas pessoas n\u00e3o necessariamente tomam horm\u00f4nios ou fazem interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-cir\u00fargicas para afirmarem socialmente sua identidade.<\/p>\n<p>Os conceitos de dist\u00farbios permanecem erroneamente distinguindo pessoas que querem receber determinados tratamentos m\u00e9dicos. Esse \u00e9 o caso tanto dos sujeitos trans quanto dos sujeitos intersexuais. De acordo com Cossi, no caso das pessoas transexuais, ainda que n\u00e3o exista uma dita \u201cidentidade transexual verdadeira\u201d, \u00e9 importante que se realize um longo e rigoroso percurso terap\u00eautico, para que nenhuma d\u00favida reste antes de se realizar a redesigna\u00e7\u00e3o genital, at\u00e9 porque, como se trata de um procedimento irrevers\u00edvel, o arrependimento nesses casos pode gerar atentados contra a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>J\u00e1 a necessidade estabelecida no caso dos intersexuais que optarem por realizar os tratamentos \u00e9 que se saiba antes qual o sexo desta pessoa e com que g\u00eanero ela se identifica. Entretanto, a intersexualidade n\u00e3o deve de jeito nenhum ser considerada um dist\u00farbio, porque, em verdade, ela \u00e9 apenas uma varia\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Portanto, se faz importante problematizar o ponto de vista de quem considera que existem tipos \u201cnormais\u201d de corpos, porque essa vis\u00e3o imputa uma desordem a todos que n\u00e3o pertencem \u00e0 categoria bin\u00e1ria. Por outro lado, existem os movimentos sociais, que costumam propagar, em geral, a aceita\u00e7\u00e3o e o respeito \u00e0s sexualidades e identidades. A exemplo disso, no \u00e2mbito lexical, o movimento intersexo considerara que o termo \u201chermafrodita\u201d \u00e9 ofensivo, porque \u00e9 um termo antiquado e estereotipado. As pessoas transg\u00eaneras tamb\u00e9m requerem, dentre outras coisas, que a concord\u00e2ncia gramatical com a identidade de g\u00eanero da pessoa seja respeitada. Isso demonstra que o posicionamento de movimentos pol\u00edticos e a maneira como eles escolhem ser chamados deve ser levado em considera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOferecer direitos como a op\u00e7\u00e3o de um \u201cterceiro sexo\u201d em documentos oficiais deveria estar dispon\u00edvel, para que ningu\u00e9m tenha que se \u201cfor\u00e7ar\u201d a ser homem ou mulher. A educa\u00e7\u00e3o sexual desde a inf\u00e2ncia tamb\u00e9m \u00e9 importante. A escola deveria exercer essa fun\u00e7\u00e3o, considerando sempre, obviamente, os n\u00edveis de maturidade apropriados \u00e0s faixas et\u00e1rias.<br \/>\nNo entanto, o ensino b\u00e1sico e mesmo o ensino superior ainda n\u00e3o conseguem cumprir com essa responsabilidade. Vera Paiva, profa. dra. do IPUSP, em artigo publicado em 2008, diz que \u201craramente [\u2026] formamos psic\u00f3logos para lidar com a vida sexual em contextos que n\u00e3o sejam cl\u00ednicos\u201d. A professora afirma que reduzir as coisas a textos e discursos seria um erro, visto que a vida social consiste em atua\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es. \u201cDo sexo biol\u00f3gico (XY ou XX) n\u00e3o se deriva a ess\u00eancia natural do feminino, do masculino ou a hetero-normatividade\u201d, explica Paiva.<\/p>\n<h6><strong><span style=\"color: #008000;\">Tenho quase certeza que eu n\u00e3o sou daqui<\/span><\/strong><\/h6>\n<div style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/allan.png\" alt=\"allan\" width=\"380\" height=\"570\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Allan em performance no projeto &#8220;Mona: EP Entre Espelhos&#8221;. Produ\u00e7\u00e3o: Andressa Crossetti<\/p><\/div>\n<p>Para a tamb\u00e9m estudante de psicologia do IPUSP, Allan Marcolino, que se identifica enquanto pessoa trans n\u00e3o-bin\u00e1ria, feminina e mulher, n\u00e3o \u00e9 simples se \u201crotular\u201d como transexual. \u201cEu transito entre essas categorias, mas se tenho que trazer algo no discurso eu sempre trago a quest\u00e3o queer, que eu tenho muito forte, porque n\u00e3o acredito mais que sou um uma mulher que nasceu no corpo errado\u201d, nos explica a futura psic\u00f3loga.<\/p>\n<p>Por raz\u00f5es como essa, e com a finalidade de evidenciar que s\u00e3o dos constructos sociais que as concep\u00e7\u00f5es de identidade de g\u00eanero e de orienta\u00e7\u00e3o sexual derivam, ganha evid\u00eancia a teoria queer, que tem como uma de suas principais te\u00f3ricas Judith Butler. Segundo a fil\u00f3sofa, o termo \u201cqueer\u201d afirma a diferen\u00e7a que n\u00e3o pode ser reduzida a uma identidade unificada, fazendo ainda uma conex\u00e3o er\u00f3tica e pol\u00edtica. Se amparando na psican\u00e1lise, na sociologia, na filosofia e na antropologia, a tentativa de Butler \u00e9 romper as normas que constrangem o ser humano em categoria bin\u00e1rias, sexo e g\u00eanero, homem e mulher.<\/p>\n<p>Segundo o psic\u00f3logo e pesquisador do IPUSP Lucas Bulamah, em entrevista \u00e0 psico.usp, o queer passou a ressignificar um termo pejorativo para empoderar um conjunto de pessoas, antes referenciados como \u201cbixa\u201d, \u201cviado\u201d etc. Hoje, a palavra \u00e9 utilizada para designar aqueles que n\u00e3o seguem o binarismo de g\u00eanero, ou seja, refere-se \u00e0s muitas identidades que fogem \u00e0 cisnormatividade.<\/p>\n<p>Queers s\u00e3o indiv\u00edduos que podem se ver e se identificar de v\u00e1rias formas, podendo assumir, por exemplo, a identidade de g\u00eanero masculina e feminina ao mesmo tempo.\u00a0A coloca\u00e7\u00e3o de Bulamah \u00e9 consonante ao pensamento de Judith Butler, para quem o g\u00eanero \u00e9, antes de tudo, um ato performativo que n\u00e3o corresponde a modelos universais. Esse ato \u00e9 mut\u00e1vel e existente apenas mediante a atua\u00e7\u00e3o performativa dos indiv\u00edduos. Para a autora, a quest\u00e3o de g\u00eanero diz respeito a uma categoria pol\u00edtica, e n\u00e3o a determina\u00e7\u00f5es naturais; a identifica\u00e7\u00e3o de g\u00eanero est\u00e1 diretamente ligada ao contexto hist\u00f3rico e \u00e0s estruturas de poder, n\u00e3o existindo, portanto, uma identidade de g\u00eanero pr\u00e9-estabelecida.<\/p>\n<p>Neste panorama, temos algo que \u00e9 essencialmente dado por elementos culturais \u2013 como a suposta coer\u00eancia entre sexo, g\u00eanero, desejos e pr\u00e1ticas sexuais \u2013, sendo considerado como caracter\u00edstica inata dos indiv\u00edduos. Por imposi\u00e7\u00e3o social e cultural, criou-se um ambiente prop\u00edcio para que comportamentos fora da cis-heteronormatividade fossem colocados no campo da patologia. Tal problema \u00e9 designado por Judith Butler como \u201cg\u00eanero inintelig\u00edvel\u201d, aquele que est\u00e1 fora da cis-heterossexualidade compuls\u00f3ria e que socialmente acaba por ser invis\u00edvel ou classificado como patol\u00f3gico. As proposi\u00e7\u00f5es dos estudos de g\u00eanero de Butler pretendem problematizar essa racionalidade que costuma expulsar da ordem da inteligibilidade as experi\u00eancias que n\u00e3o se enquadram nas matrizes da heterossexualidade e cisnormatividade compuls\u00f3rias vigentes.<\/p>\n<p>Em certo momento, a patologiza\u00e7\u00e3o dos comportamentos exteriores \u00e0 cis-heteronormatividade esteve presente tamb\u00e9m na psican\u00e1lise, dado que a oposi\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria dos g\u00eaneros serviu para estabelecer o que seria normal e o que seria patol\u00f3gico. Exatamente por isso, uma das cr\u00edticas levantadas pela teoria queer atinge a psican\u00e1lise. Para Judith Butler, essa teoria reproduziria a organiza\u00e7\u00e3o social vigente em seu extenso uso da l\u00f3gica bin\u00e1ria de corpos e g\u00eaneros na explica\u00e7\u00e3o dos processos internos dos indiv\u00edduos. Para a autora, a psican\u00e1lise, sobretudo quando privilegia o campo simb\u00f3lico, apropria-se do pensamento bin\u00e1rio. Contudo, quando ela d\u00e1 relev\u00e2ncia ao real (de cada indiv\u00edduo), com suas possibilidades ilimitadas e imprevis\u00edveis, contempla mais fielmente as possibilidades da sexualidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/diversidade-nas-telonas.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-1347 size-full\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/diversidade-nas-telonas.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"788\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/diversidade-nas-telonas.png 640w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/diversidade-nas-telonas-244x300.png 244w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/diversidade-nas-telonas-400x493.png 400w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m da psican\u00e1lise, quando nos preocupamos com g\u00eanero, \u00e1reas como a psicologia social oferecem contribui\u00e7\u00f5es relevantes para a quest\u00e3o. Linhas de estudos como o Construcionismo \u2013 que considera que todo conhecimento \u00e9 constru\u00eddo a partir das rela\u00e7\u00f5es sociais e que se preocupa preferencialmente com as inter-rela\u00e7\u00f5es para al\u00e9m das individualidades \u2013 contribuem para o entendimento de que as identidades de g\u00eanero s\u00e3o o resultado de uma s\u00e9rie de contextos em que os indiv\u00edduos est\u00e3o inseridos, como o espa\u00e7o, o tempo, a sociedade, a hist\u00f3ria etc. Se, para o entendimento construcionista, n\u00e3o h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o neutra do mundo, n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m uma defini\u00e7\u00e3o objetiva, inata, natural, despida de contexto, para as identidades de g\u00eanero individuais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/construcionismo.png\" alt=\"Construcionismo\" width=\"640\" height=\"479\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Arte: Dinho Martins |\u00a0Conte\u00fado: Sofia Mendes<\/p><\/div>\n<p>De acordo com a professora do IPUSP Belinda Mandelbaum, o di\u00e1logo da psican\u00e1lise com a teoria de g\u00eanero acontece com mais dificuldade devido \u00e0 maneira como foi estruturado o conhecimento psicanal\u00edtico. Conforme conta, a psican\u00e1lise \u201ctende a fazer afirma\u00e7\u00f5es pretendidas como universais sobre a vida ps\u00edquica, que valeriam para todas as mulheres e homens, independentemente do contexto social, de ra\u00e7a ou de cor. Nesse sentido, a psican\u00e1lise tendeu a compactuar com vis\u00f5es muitas vezes estanques de homens, mulheres e fam\u00edlias, sem fazer a cr\u00edtica de que essas vis\u00f5es eram datadas\u201d. Consequentemente, as leituras dos indiv\u00edduos promovidas pela psican\u00e1lise frequentemente tiveram suas estruturas pensadas dentro de l\u00f3gicas de oposi\u00e7\u00e3o e complementaridade. Mas, mesmo dentro dessa estrutura psicanal\u00edtica de pensamento, encontram-se tamb\u00e9m formas de entendimento para a diversidade de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Dessa maneira, Pedro Ambra, pesquisador do IPUSP, desenvolveu um trabalho que corrobora a percep\u00e7\u00e3o de que o g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 algo pr\u00e9-estabelecido e est\u00e1vel, mas, sim, uma esp\u00e9cie de ato performativo, como descrito por Butler. A pesquisa, intitulada \u201cA no\u00e7\u00e3o de homem em Lacan: uma leitura das f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o a partir da hist\u00f3ria da masculinidade no Ocidente\u201d, ao contr\u00e1rio de um consider\u00e1vel n\u00famero de estudos em psican\u00e1lise a respeito da quest\u00e3o de g\u00eanero, tem o objetivo de entender o que \u00e9 a masculinidade. O masculino, como categoria dominante do ponto de vista social, tem seu estudo muitas vezes encoberto pela compreens\u00edvel necessidade pol\u00edtica e afirmativa dos estudos da feminilidade. Entretanto, a masculinidade, como mostrada no desenvolvimento da pesquisa, remete a um\u00a0quadro esclarecedor das conting\u00eancias a que est\u00e1 submetido o entendimento de g\u00eanero, nas culturas e ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tomando como refer\u00eancia a no\u00e7\u00e3o de homem de Lacan, o pesquisador estabelece a evolu\u00e7\u00e3o do entendimento de conceitos sobre o masculino e sobre o que seria um homem ao longo do tempo. Nesse quadro, o argumento corrente da dita \u201ccrise da masculinidade\u201d \u2013 segundo a qual estar\u00edamos atravessando um momento em que os homens est\u00e3o perdendo o senso de como ser verdadeiramente homens \u2013 n\u00e3o se sustenta, pois nunca ter\u00edamos tido, de fato, um modelo de masculinidade plenamente constitu\u00eddo e consolidado. A trajet\u00f3ria argumentativa do trabalho, tamb\u00e9m publicado em livro hom\u00f4nimo, desconstr\u00f3i o \u201cmito viril\u201d.<\/p>\n<p>A escolha da hist\u00f3ria como instrumento de desconstru\u00e7\u00e3o dos conceitos comumente atribu\u00eddos \u00e0 masculinidade vem da capacidade que esta ci\u00eancia tem de confrontar as tend\u00eancias de universaliza\u00e7\u00e3o presentes em outras ci\u00eancias pr\u00f3ximas, como a antropologia e, tamb\u00e9m, em muitos sentidos, a psican\u00e1lise. Assim, o machismo poderia ser entendido como fruto da busca do homem por sua for\u00e7a, j\u00e1 que \u201cessa busca por uma virilidade perdida sublinha o fato dessa virilidade nunca ter existido. Ainda assim, n\u00e3o deixam de existir efeitos: a viol\u00eancia, o machismo etc. persistem. S\u00f3 que eles devem ser lidos \u00e0 luz dessa busca ou dessa fantasia, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00e3o viol\u00eancias arbitr\u00e1rias\u201d, explica o pesquisador.<\/p>\n<p>Semelhante a Ambra, Cossi, em sua pesquisa, tamb\u00e9m destaca a psican\u00e1lise de Lacan. Para ele, a teoria do psicanalista franc\u00eas \u00e9 um importante contributo para o desenvolvimento da teoria queer, do mesmo modo que esta \u00e9 fundamental para a compreens\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica de sexualidade \u2013 sobretudo do conceito de gozo. Para o pesquisador, seria preciso distinguir a sexualidade, a n\u00edvel discursivo, do \u00e2mbito de suas pr\u00e1ticas de gozo e do plano das fantasias que organizam nossos desejos. Desse modo, fica evidente que o binarismo de g\u00eanero n\u00e3o incide de maneira igualit\u00e1ria no significante, no gozo e no desejo, dado que a rela\u00e7\u00e3o entre estes tr\u00eas n\u00edveis \u2013 chamada por Lacan de sexua\u00e7\u00e3o \u2013 torna-se contingente e n\u00e3o necess\u00e1ria. Todo esse processo ocorre porque uma das raz\u00f5es mais fortes para manter e propagar o binarismo, inclusive em sua dimens\u00e3o ideol\u00f3gica e de poder, \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o de que existe uma rela\u00e7\u00e3o de unifica\u00e7\u00e3o, hierarquia e proporcionalidade entre seus pares ou categorias. Assim, torna-se compreens\u00edvel que n\u00e3o h\u00e1 a ideia de homem ou de mulher por excel\u00eancia, com a constitui\u00e7\u00e3o de sua ess\u00eancia dada pela natureza, mas que, em verdade, h\u00e1 entre os g\u00eaneros disparidade e n\u00e3o identidade, porque ambos n\u00e3o s\u00e3o proporcionais.\u00a0A partir desse racioc\u00ednio \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma curiosa afinidade entre Butler e a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>De todo modo, pensando na pesquisa de Ambra, percebemos que, ao longo da hist\u00f3ria, as ideias a respeito da masculinidade mudaram substancialmente. Um bom exemplo do trajeto hist\u00f3rico percorrido pela concep\u00e7\u00e3o de homem nos mostra que foi s\u00f3 na modernidade que as ideias de virilidade e civiliza\u00e7\u00e3o deixaram de caminhar juntas. Ser viril n\u00e3o significa mais saber viver em sociedade com base numa maestria de si; pelo contr\u00e1rio, a civiliza\u00e7\u00e3o passa a ser considerada um perigo de enfraquecimento dos corpos e das maneiras. H\u00e1, assim, uma invers\u00e3o do entendimento. Esse tipo de abordagem d\u00e1 elementos que ajudam a construir a legitimidade do entendimento do g\u00eanero como algo m\u00faltiplo e mut\u00e1vel, al\u00e9m de propor concep\u00e7\u00f5es dotadas de uma maior liberdade, como as veiculadas pela teoria queer e pelo movimento LGBT. Em suma, a partir da compreens\u00e3o da dissocia\u00e7\u00e3o entre o org\u00e3o genital, a orienta\u00e7\u00e3o sexual e a identidade de g\u00eanero podemos entender melhor o que s\u00e3o as constru\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Analisando por essa perspectiva, n\u00e3o haveria nenhuma esp\u00e9cie de amarra, de maneira que alguns autores inclusive sugerem que se algu\u00e9m, hoje, se v\u00ea como uma mulher que tem desejo por homens, nada a impediria de que, amanh\u00e3, num outro momento, ela se visse de outra forma. A compreens\u00e3o do g\u00eanero e da sexualidade como produtos do social permitiriam um tr\u00e2nsito livre. Na vis\u00e3o de Ambra, \u201cas pessoas imaginam que gostam do pr\u00f3prio g\u00eanero, mas isso seria um imperativo\u201d. Para ele, o Estado e a sociedade precisam rever suas rela\u00e7\u00f5es com o g\u00eanero a fim de limitar uma eterna categoriza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria da sociedade. \u201cPara que servem as categorias afinal? A pergunta esbarra em uma quest\u00e3o foucaultiana cl\u00e1ssica, uma cr\u00edtica \u00e0 psican\u00e1lise, que enxergaria no sexo a verdade \u00faltima de tudo, como se fosse algo\u00a0muito mais importante do que o resto. Assim, a quest\u00e3o do g\u00eanero causa rea\u00e7\u00f5es extremadas, pois se parte de uma ideia de que \u2013 diferentemente de uma pl\u00e1stica, por exemplo \u2013 uma cirurgia de trangenitaliza\u00e7\u00e3o tocaria em algo muito radical do ser humano e deveria, portanto, ser proibida, porque o sexo teria um estatuto diferente\u201d, explica Ambra.<\/p>\n<p>Essas pondera\u00e7\u00f5es n\u00e3o querem dizer que o homem, como fruto da linguagem, do constructo, vai mudar aleatoriamente e o tempo todo. Segundo Ambra, em raz\u00e3o justamente de uma interpreta\u00e7\u00e3o equivocada das ideias de Butler, a soci\u00f3loga tem sofrido cr\u00edticas por correntes da biologia, por teorias e movimentos sociais essencialistas e at\u00e9 mesmo por \u00e1reas da psican\u00e1lise. \u201cEnt\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 dizendo que o g\u00eanero \u00e9 um ato de escolha, voc\u00ea escolhe como vai performar? N\u00e3o \u00e9 bem assim. Temos que considerar o inconsciente envolvido, por um lado, e os exerc\u00edcios de poder das normas sociais, por outro. Butler vai dizer que todo esse efeito de sujeito, efeito de g\u00eanero que \u00e9 criado a posteriori, n\u00e3o necessariamente \u00e9 controlado pela pessoa, \u00e9 muito mais um resultado dessas imbrica\u00e7\u00f5es de fala, imbrica\u00e7\u00f5es de atos performativos, imbrica\u00e7\u00f5es que tomam um peso, produzem um concreto, mas sempre permeados por discursos normalizadores\u201d, finaliza o pesquisador.<\/p>\n<p>Vai ver que \u00e9\u00a0assim mesmo e vai ser assim pra sempre<br \/>\nQuando tinha dez anos, Emerson da Cruz In\u00e1cio sonhava em ser bailarino, mas, j\u00e1 naquela idade, percebeu que o ser humano \u00e9 convidado a seguir determinados padr\u00f5es. Em uma \u00e9poca que ele chama de \u201cgera\u00e7\u00e3o dos grandes traumas\u201d, seu desejo teve como resposta que o bal\u00e9 n\u00e3o era coisa de rapazes. \u201cE ent\u00e3o eu questionava, \u2018mas por que ele dan\u00e7a na televis\u00e3o?\u2019, ao que ouvia \u2018ah, ele pode, ele \u00e9 artista\u2019\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_247\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-247\" class=\"wp-image-247 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson-300x270.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"270\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson-300x270.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson-768x692.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson-1024x923.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson-400x361.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/emerson.png 1287w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-247\" class=\"wp-caption-text\">Professor Emerson In\u00e1cio, FFLCH em entrevista \u00e0 psico.usp<\/p><\/div>\n<p>Hoje, aos 43 anos, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP percebe que o traum\u00e1tico descobrimento da sexualidade que tivera n\u00e3o \u00e9 o mesmo vivido por muitos jovens nos tempos de hoje. \u00c9 claro que ainda existem padr\u00f5es e regras insistentemente impostos, mas existe tamb\u00e9m uma maior naturalidade no tratamento da sexualidade e das identidades de g\u00eanero, al\u00e9m de que hoje \u00e9 poss\u00edvel conceber que homens sejam bailarinos e mulheres sejam jogadoras de futebol. No entanto, em um passado n\u00e3o muito distante, as coisas eram bem diferentes.<\/p>\n<p>\u201cEu fui criado dentro de todos os estere\u00f3tipos de \u2018homem\u2019. Era um menino cat\u00f3lico e \u2018bonzinho\u2019, que tinha que ter uma namorada\u201d, diz Emerson, que passou a viver furtivamente suas experi\u00eancias homossexuais, levando os namorados para casa como \u201camigos\u201d.<\/p>\n<p>Para a gera\u00e7\u00e3o dos \u201cgrandes traumas\u201d, a sexualidade raramente era revelada, ela se impunha em doses homeop\u00e1ticas, como fazia o professor, ou, ainda, nunca se desvelava, numa supress\u00e3o da pr\u00f3pria identidade. \u201cDe fato, eu nunca \u2018sa\u00ed do arm\u00e1rio\u2019, porque eu tinha muita dificuldade em verbalizar \u2018mam\u00e3e, eu sou gay\u2019. Ent\u00e3o, o que comecei a fazer? Levava os meus namorados para casa. Tudo foi se desenrolando bem, n\u00e3o gerou nenhum choque, porque no segundo ou terceiro namorado as pessoas j\u00e1 presumiam\u201d, declara o professor.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 90 foi emblem\u00e1tica nos estudos sobre a homossexualidade. Com a morte pela AIDS\/HIV de celebridades assumidamente gays, como Cazuza e Freddie Mercury, come\u00e7ou-se a questionar como uma \u201cop\u00e7\u00e3o sexual\u201d poderia ser sin\u00f4nimo de mortalidade. Os homossexuais, ent\u00e3o, passaram a ser diretamente relacionados \u00e0 doen\u00e7a, inclusive na medicina. Foi nesse per\u00edodo que se iniciaram os estudos realizados pela psic\u00f3loga e professora do IPUSP Vera Paiva, que desde 1991 tem se dedicado \u00e0 pesquisa psicossocial das sexualidades, dos g\u00eaneros e da desigualdade, assim como tem proposto pr\u00e1ticas inovadoras na preven\u00e7\u00e3o e no cuidado da sa\u00fade.<br \/>\nTestemunha de muitas hist\u00f3rias de portadores do v\u00edrus \u2013 homossexuais ou n\u00e3o \u2013, Paiva relata em seu artigo que costumavam associar a epidemia de HIV aos chamados \u201cprom\u00edscuos\u201d, que eram os \u201chomossexuais, usu\u00e1rios de drogas, trabalhadores do sexo, africanos e haitianos \u2013 com a contribui\u00e7\u00e3o direta de profissionais e pesquisadores que usavam sua autoridade tecno-cient\u00edfica para construir esse sentido da AIDS, inclusive na m\u00eddia\u201d, explica a professora.<\/p>\n<p>Com um evidente preconceito arraigado \u00e0 sociedade, Paiva notou que era priorit\u00e1rio confrontar o estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a doen\u00e7a n\u00e3o fazia distin\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o sexual e se disseminava em momentos de informa\u00e7\u00e3o limitada e cuidados insuficientes. \u201cQuando pegamos Aids n\u00e3o estamos pegando Aids, estamos fazendo outra coisa\u2026\u201d, disse um dos entrevistados por Paiva. Estudar a sexualidade, portanto, foi um passo decisivo para uma conscientiza\u00e7\u00e3o mais ampla sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero, desde sempre cingidas com preconceito, intoler\u00e2ncia e ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Para Emerson, esse preconceito pode e deve ser rebatido diariamente, seja pela divulga\u00e7\u00e3o de novos trabalhos e por projetos como os de Vera Paiva, seja dando aulas na universidade. \u201cDepois de adulto, a minha ideia sempre foi de trocar as placas, ou melhor, tirar as placas\u201d, diz ele. Dessa maneira, para o professor, independente do modo como a pessoa se apresenta para o mundo \u2013 \u201cvestido de rapaz\u201d ou \u201cvestida de mo\u00e7a\u201d, no espa\u00e7o da sala de aula esse algu\u00e9m opta por ser quem quiser, porque isso n\u00e3o liquefaz sua capacidade acad\u00eamica. \u201cA roupa n\u00e3o faz ningu\u00e9m, ent\u00e3o me dispo dos padr\u00f5es e fa\u00e7o quest\u00e3o de \u2018dar pinta\u2019, at\u00e9 porque no espa\u00e7o da sala de aula essa atitude \u00e9 um ato pol\u00edtico\u201d, finaliza o professor.<\/p>\n<h6><span style=\"color: #008000;\">E eu gosto de meninos e meninas<\/span><\/h6>\n<div id=\"attachment_248\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-248\" class=\"wp-image-248 size-medium\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano-300x281.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano-300x281.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano-768x719.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano-400x375.png 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/jorgefofano.png 816w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-248\" class=\"wp-caption-text\">Jorge Fofano Junior. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Facebook<\/p><\/div>\n<p>Para Jorge Fofano J\u00fanior, graduando do Instituto de Qu\u00edmica da USP, os primeiros \u201csinais\u201d de sua identidade bissexual foram percebidos na inf\u00e2ncia. \u201cLembro-me de ter a primeira experi\u00eancia de atra\u00e7\u00e3o por meninos aos 8 anos de idade, por um dos amigos de inf\u00e2ncia, mas sempre me senti atra\u00eddo por meninas tamb\u00e9m\u201d, contou em entrevista \u00e0 revista psico.usp. Entretanto, esse ponto de \u201cdescoberta\u201d n\u00e3o foi o bastante para que ele prontamente aceitasse sua sexualidade sem relut\u00e2ncia. \u201cAo crescer, fui percebendo mais sinais, mas sempre os reprimia. Nunca cogitei sequer pensar como seria contar sobre minha orienta\u00e7\u00e3o sexual para meus os pais, para a minha fam\u00edlia e at\u00e9 para os meus amigos\u201d, completa. Contudo, ao ingressar na universidade, Jorge percebeu que era poss\u00edvel \u201cse abrir\u201d para as pessoas mais pr\u00f3ximas e se permitir uma efetiva experi\u00eancia \u2013 embora, segundo conta, essa decis\u00e3o tenha resultado na desilus\u00e3o amorosa mais intensa que ele vivenciou. Ainda assim, Jorge assevera: \u201csinto-me muito mais \u2018encontrado\u2019 desde ent\u00e3o e n\u00e3o mais reluto em me entender como bi\u201d.<\/p>\n<p>A dificuldade no aceitar-se bissexual come\u00e7a na pr\u00f3pria compreens\u00e3o do que \u00e9 a bissexualidade. O \u201cB\u201d dos LGBTs talvez seja a orienta\u00e7\u00e3o sexual menos problematizada e a que mais sofre invisibiliza\u00e7\u00e3o e preconceito, mesmo dentro da pr\u00f3pria comunidade em que est\u00e1 inserida. Essa falta de discuss\u00e3o d\u00e1 a entender que a comunidade bissexual \u00e9 fraca ou desorganizada, quando, na verdade, ela resiste a uma tentativa de apagamento social, que, muitas vezes, atinge inclusive a percep\u00e7\u00e3o da sexualidade do pr\u00f3prio indiv\u00edduo. Segundo o Instituto Bisexual Resource Center \u2013 grupo de pesquisas norte-americano, formado em 1985 \u2013, alguns fatores ampliam o cerceamento da bissexualidade como orienta\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, rotular pessoas bis como gays ou l\u00e9sbicas, porque est\u00e3o em um relacionamento com homens ou mulheres, respectivamente; chamar a uni\u00e3o de um bi de \u201ccasamento gay\u201d ou de \u201cuni\u00e3o gay\/l\u00e9sbica\u201d; e ser chamado de \u201caliados\u201d por aqueles que est\u00e3o inseridos no LGBT.<\/p>\n<p>Desde os anos 2000, o movimento bissexual vem lutando por maior representatividade, atrav\u00e9s de estudos cient\u00edficos e movimentos sociais, como o Coletivo Brasileiro de Bissexuais (CBB) ou o ActiBistas, um coletivo pela visibilidade bissexual. Esses passos, embora importantes, s\u00e3o tardios se comparados \u00e0 representatividade de outros movimentos. Homossexuais, a exemplo, firmaram-se como movimento desde a d\u00e9cada de 70; desde meados de 90, transg\u00eaneros conseguiram dar in\u00edcio a um movimento mais org\u00e2nico. Isso nos mostra que \u201cfalta discuss\u00e3o dentro e fora da comunidade e falta ainda descontruir este binarismo do hetero e do homo, que tanto nos prejudica e d\u00e1 margem para essa argumenta\u00e7\u00e3o de que estamos \u2018passando por uma fase\u2019\u201d, afirma Jorge.<\/p>\n<p>O senso comum aponta os bissexuais como indiv\u00edduos que est\u00e3o passando por \u201cuma fase\u201d; como curiosos, indecisos, que ainda n\u00e3o decidiram sua orienta\u00e7\u00e3o sexual; ou como sujeitos muito mais propensos \u00e0 promiscuidade, dado que \u201cgostam de\u00a0todo mundo\u201d. Jorge v\u00ea como lament\u00e1vel esses apontamentos, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 libertinagem atrelada a eles. \u201cSer prom\u00edscuo, seja l\u00e1 o que isso for de fato (o que \u00e9 ser prom\u00edscuo, na realidade?), \u00e9 uma caracter\u00edstica individual, de car\u00e1ter, nada vinculada com sua orienta\u00e7\u00e3o ou identidade de g\u00eanero\u201d. Para ele, h\u00e1 ainda um julgamento de que se o indiv\u00edduo bissexual assumir uma \u201cprefer\u00eancia\u201d, seria correto identific\u00e1-lo como gay ou l\u00e9sbica. \u201cA sexualidade \u00e9 um assunto muito complicado e acho imposs\u00edvel que um dia cheguemos a algum consenso sobre ser certo ou n\u00e3o ter uma predile\u00e7\u00e3o. Eu, por exemplo, n\u00e3o tenho, mas tenho amigos bis que dizem preferir um g\u00eanero a outro, e eu n\u00e3o vejo nada de errado nisso, continuam sendo bis do mesmo jeito\u201d.<\/p>\n<p>No j\u00e1 citado discurso freudiano, todos ser\u00edamos naturalmente bissexuais e a heterossexualidade entraria em cena com um car\u00e1ter culturalmente compuls\u00f3rio, a partir de uma s\u00e9rie de resolu\u00e7\u00f5es sociais. Psicanaliticamente, a bissexualidade seria inata a todos os indiv\u00edduos e, somente ap\u00f3s a passagem pelo \u00c9dipo, com a constitui\u00e7\u00e3o das consequentes fantasias inconscientes, poderia ser feita uma \u201cescolha\u201d ou \u201celei\u00e7\u00e3o\u201d (inconsciente) do objeto de desejo. As cenas ed\u00edpicas seriam, portanto, definidoras da homossexualidade ou da heterossexualidade.<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise de estudos de Freud, surgiram defensores de terapias reparat\u00f3rias da orienta\u00e7\u00e3o sexual. Segundo eles, atrav\u00e9s de an\u00e1lise, seria poss\u00edvel reconstruir essas cenas inconscientes em um jogo transferencial, apontando o desejo para outra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o graduando do IQ-USP, essas vis\u00f5es de uma heterossexualidade compuls\u00f3ria como forma de desvalidar a orienta\u00e7\u00e3o bissexual s\u00e3o motivadoras da crescente bifobia nos dias de hoje, al\u00e9m de respons\u00e1veis pela estagna\u00e7\u00e3o da visibilidade do grupo. \u201cA desinforma\u00e7\u00e3o \u00e9 bem ampla, no geral, mas isso tem tamb\u00e9m a ver com o fato de muitos bissexuais n\u00e3o se assumirem por sofrerem repress\u00e3o. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma l\u00f3gica viciosa na bifobia, cuja supera\u00e7\u00e3o s\u00f3 se far\u00e1 a partir da \u00e1rdua e cont\u00ednua luta dos bissexuais para mostrar que n\u00f3s existimos e temos identidade. Acho que esse \u00e9 o caminho para frear os estere\u00f3tipos e a desinforma\u00e7\u00e3o que \u00e9 propagada dentro ou fora da comunidade LGBT\u201d, finaliza Jorge.<\/p>\n<h6><strong><span style=\"color: #008000;\">Longe dessa confus\u00e3o e dessa gente que n\u00e3o se respeita<\/span><\/strong><\/h6>\n<div>Apesar do movimento pol\u00edtico dos LGBTs ter ganhado espa\u00e7o nos \u00faltimos tempos, ainda existe uma esp\u00e9cie de segrega\u00e7\u00e3o entre alguns grupos, o que n\u00e3o se restringe aos bissexuais \u2013 embora sejam, muitas vezes, vistos como um ap\u00eandice da comunidade. Segundo a aluna Allan Marcolino, \u201ctem havido uma rixa entre o movimento trans mulheres e o feminismo radical. Essas s\u00e3o quest\u00f5es que me atravessam muito, me preocupam e me enchem de culpa\u201d. Essa preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 desmotivada e se d\u00e1 em virtude de uma suposta estereotipiza\u00e7\u00e3o feminina. A aluna conta que, ao debater com uma feminista radical, se culpabiliza por conta de vestir roupas femininas, se arrumar passando maquiagem, pintando as unhas, se depilando, e, com essas pr\u00e1ticas, exigir reconhecimento como mulher. \u201cEu acho cruel culpabilizar a pessoa trans, porque os signos que temos para elaborarmos os dados da cultura s\u00e3o bin\u00e1rios: a mulher e o homem. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fugir disso\u201d, afirma a estudante.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>A orienta\u00e7\u00e3o sexual e a identidade de g\u00eanero s\u00e3o particularidades de cada sujeito. Ser homem e gostar de mulher e ser mulher e gostar de homem n\u00e3o \u00e9 (ou ao menos n\u00e3o deveria ser) uma obriga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o todos que se identificam com a hetero-normatividade, a cisnormatividade e o binarismo de g\u00eanero. O respeito \u00e0queles que n\u00e3o seguem os padr\u00f5es impostos \u00e9 o m\u00ednimo esperado de uma sociedade dita civilizada. Contudo, n\u00e3o s\u00e3o raras as vezes em que o senso comum classifica os homossexuais, por exemplo, como doentes ou pervertidos sexuais. Velada ou explicitamente, essa discrimina\u00e7\u00e3o contra LGBTs \u00e9 comum, mas a dor experimentada por quem \u00e9 julgado n\u00e3o deixa de ser amarga. Constrangimento, humilha\u00e7\u00e3o, depress\u00e3o e, em \u00faltimo caso, suic\u00eddio s\u00e3o sofrimentos cotidianamente vividos pela popula\u00e7\u00e3o LGBT. E este panorama parece estar longe de ser alterado.<\/div>\n<div>\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer os g\u00eaneros desaparecerem, fingir que eles n\u00e3o existem ou ignorar as individualidades humanas. Mesmo assim, s\u00e3o v\u00e1rias as tentativas de se criar um territ\u00f3rio do n\u00e3o-dito em torno dessas quest\u00f5es, que s\u00e3o tidas como tabu. Nesse \u00edmpeto, surgem, inclusive na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, iniciativas contra o chamado \u201censino de \u2018ideologia de g\u00eanero\u2019 nas escolas\u201d, ou mesmo o Projeto de Lei aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado de Alagoas, que institui no sistema estadual de ensino o \u201cPrograma Escola Livre\u201d, uma tentativa de proibir o que \u00e9 chamado de \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica em sala de aula\u201d. No \u00e2mbito social, o conservadorismo tamb\u00e9m trava um embate contra os avan\u00e7os. Para ilustrar a quest\u00e3o, h\u00e1, por exemplo, o esfor\u00e7o para reanalisar a Resolu\u00e7\u00e3o CFP 01\/99, que orienta os psic\u00f3logos a n\u00e3o exercerem qualquer a\u00e7\u00e3o que favore\u00e7a a patologiza\u00e7\u00e3o de comportamentos ou pr\u00e1ticas homoer\u00f3ticas. O fato de pessoas LGBTs n\u00e3o irem ao psic\u00f3logo para \u201ctratar\u201d a sua orienta\u00e7\u00e3o sexual ou a sua identidade de g\u00eanero, como se isso fosse um problema a ser resolvido, parece ser um inc\u00f4modo para alguns.<\/div>\n<div>\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>A citada perspectiva lan\u00e7ada sobre a sexualidade e g\u00eanero alheios traduz o desconforto de certos setores da sociedade, o que acaba por implicar diretamente na vida dos LGBTs. Por isso eles sentem que as chances de discrimina\u00e7\u00e3o e agress\u00e3o aumentam conforme a exposi\u00e7\u00e3o da sua orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero torna-se mais clara. Essas viol\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBT assumem car\u00e1ter f\u00edsico, moral ou psicol\u00f3gico, e s\u00e3o cont\u00ednuas em toda a sua trajet\u00f3ria de vida.<\/div>\n<div>\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>A intoler\u00e2ncia e o preconceito aos quais os LGBTs est\u00e3o expostos abre precedentes para depoimentos como as postagens do pol\u00edtico Marco Feliciano em sua conta no Twitter, em mar\u00e7o de 2011. Para ele, \u201ca podrid\u00e3o dos sentimentos dos homoafetivos levam ao \u00f3dio, ao crime e \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o\u201d. Essa imputa\u00e7\u00e3o de culpa sobre as v\u00edtimas representa nada menos que a dif\u00edcil realidade diariamente enfrentada por essas pessoas.<\/div>\n<div>\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Em 2013, por exemplo, Vitor Pereira, \u00e0 \u00e9poca ingressante no curso de T\u00eaxtil e Moda da EACH-USP, sofreu uma s\u00e9rie de ofensas em sua p\u00e1gina pessoal no Facebook. O epis\u00f3dio foi motivado pelo traje que o estudante usou na faculdade: uma saia. Um dos agressores ironizava, grosseiramente, o fato de o aluno ter um p\u00eanis e usar saia, como se a vestimenta s\u00f3 pudesse ser usada por pessoas com a genit\u00e1lia feminina.<\/div>\n<div>\u00a0<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>\n<div>Em entrevista \u00e0 psico.usp, Vitor conta que a escolha da saia foi natural, por\u00e9m n\u00e3o aleat\u00f3ria. Ele relembra que estava em um brech\u00f3 procurando roupas para a festa dos calouros do cursoque aconteceria na faculdade, quando viu a saia e achou que poderia us\u00e1-la. \u201cEsse pensamento de usar uma roupa feminina sempre me acompanhou, desde pequeno, porque eu visto o que considero bonito e vejo muita beleza na roupa tida como feminina\u201d, contou o aluno, que optou por \u201cestrear\u201d a saia em um dia que teria aula de \u201cArte e Cultura Contempor\u00e2nea\u201d, uma disciplina que o fazia sentir-se confort\u00e1vel.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Por\u00e9m, para a surpresa do estudante, quando ele respondeu ao \u201cataque virtual\u201d notou que recebeu muito mais apoio do que poderia imaginar. \u201cEu li coment\u00e1rios como \u2018que bobagem, saia n\u00e3o tem g\u00eanero, roupa n\u00e3o tem g\u00eanero&#8230;\u2019, eram muitas pessoas me apoiando\u201d, relata. O epis\u00f3dio culminou no evento \u201cUSP de Saia\u201d, que aconteceu dias depois e foi criado pelos alunos do campus Butant\u00e3, espalhando-se pelos outros campi.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>O evento convidava todos os alunos da universidade a usarem suas roupas como uma forma de linguagem, como liberdade de express\u00e3o. J\u00e1 na chamada se via: \u201cesse evento \u00e9 uma forma de demonstrar apoio a qualquer forma de transgress\u00e3o aos padr\u00f5es que a sociedade nos imp\u00f5e\u201d. Durante um dia inteiro, os estudantes da USP foram convidados a repensar o preconceito e a intoler\u00e2ncia que os LGBTs sofrem todos os dias, especialmente no tocante \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es di\u00e1rias da sociedade, muitas delas veladas. \u201cEu via tudo aquilo e pensava \u2018que bobagem fazer tudo isso pra mim, eu n\u00e3o fiz nada demais, eu n\u00e3o lutei por nenhuma causa, s\u00f3 tive<\/div>\n<div>coragem de sair de casa como eu sou\u2019\u201d. Mas hoje, o aluno de t\u00eaxtil e moda reflete melhor sobre o que aconteceu.\u00a0 \u201cA\u00e7\u00f5es pequenas s\u00e3o importantes porque a atitude simples de um pode mudar o outro. Eu sempre lutei por mim, desde pequeno, sempre soube o que queria, e percebi que ali as pessoas n\u00e3o lutavam por mim, elas estavam lutando por elas mesmas\u201d.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>A repercuss\u00e3o de todo o epis\u00f3dio envolvendo Vitor foi muito grande. De um dia para o outro o aluno foi convidado a dar entrevistas para grandes jornais e programas de televis\u00e3o. \u201cO apoio foi muito grande, precisei selecionar onde iria para n\u00e3o desvirtuar minha a\u00e7\u00e3o. O objetivo n\u00e3o era aparecer na televis\u00e3o, mas foi muito bacana ter sido citado por pessoas como o Pascoale e ver o que aconteceu comigo virar charge da Laerte\u201d, relembra.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Como uma pessoa que estuda moda e acredita no poder que ela tem, Vitor criou a p\u00e1gina \u201cHomens de saia\u201d, logo ap\u00f3s o epis\u00f3dio, com o intuito de compartilhar fotos e hist\u00f3rias de celebridades que usam ou j\u00e1 usaram saias. Hoje, a p\u00e1gina \u00e9 acompanhada por homens e mulheres. \u201cMeu objetivo com esse projeto sempre foi receber e apoiar esses homens que querem usar saias, porque, afinal, roupa n\u00e3o tem g\u00eanero\u201d, explica.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Vitor n\u00e3o foi o primeiro aluno a usar no campus. Augusto Paz, que na \u00e9poca tamb\u00e9m era aluno da EACH e viu de perto as agress\u00f5es e a repercuss\u00e3o do caso, usou a pe\u00e7a do vestu\u00e1rio pela primeira vez em 2011, como parte de uma atividade proposta pela professora de sociologia. \u201cDever\u00edamos usar uma pe\u00e7a de roupa que nos causasse desconforto. E a saia me trazia desconforto psicol\u00f3gico. A partir de ent\u00e3o, peguei gosto e hoje uso com frequ\u00eancia\u201d, conta Augusto. A atitude gerou rea\u00e7\u00f5es diversas, de curiosidade a abuso. \u201cDesde gente me parando para elogiar, at\u00e9 uns caras que tentaram tirar uma foto por debaixo da minha saia\u201d, completa.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>O ex-aluno acredita que o incidente foi importante n\u00e3o s\u00f3 pessoalmente como tamb\u00e9m socialmente, porque \u201ctrouxe a pauta do g\u00eanero \u00e0 tona e inevitavelmente gerou discuss\u00f5es\u201d. Hoje, mais do que nunca, ele se sente \u201cempoderado o bastante para zombar desses padr\u00f5es que a gente aceita sem nem saber o porqu\u00ea\u201d.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Vitor tamb\u00e9m se v\u00ea mais engajado ap\u00f3s o ocorrido, \u201cmas no limite\u201d. Ele acredita ser necess\u00e1rio educar as pessoas sobre g\u00eanero, ainda que seja dif\u00edcil em um pa\u00eds como o Brasil, por conta de sua multicultura e extens\u00e3o territorial. \u201cTalvez a melhor forma de coibir o preconceito seja refor\u00e7ar o objeto dele. Ah, n\u00e3o gosta de quem usa saia? Ent\u00e3o use saia! As pessoas se acostumam com o que veem sempre e esse h\u00e1bito de tudo virar moda \u2013 que muitas vezes \u00e9 bem ruim, ali\u00e1s \u2013 pode ser bom se gerar essa aceita\u00e7\u00e3o\u201d, reflete o estudante. Para ele, o maior lucro do epis\u00f3dio foi o fato de ter evolu\u00eddo como pessoa e poder mostrar-se ao mundo e ser apoiado por isso.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>\n<div>\n<h6><strong><span style=\"color: #008000;\">Me deixa ver como viver \u00e9 bom<\/span><\/strong><\/h6>\n<div>Uma viol\u00eancia como a que \u00e9 praticada contra mulheres e LGBTs n\u00e3o \u00e9 banida por leis. \u00c9 preciso uma mobiliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e extrajur\u00eddica maior. Segundo a soci\u00f3loga Judith Butler, em depoimento dado no I Semin\u00e1rio Queer \u2013 realizado pelo SESC SP e mediado por Vladimir Safatle, Prof. Dr. da FFLCH-USP \u2013, \u201cdeve haver uma cr\u00edtica institucional sobre esse tipo de problema\u201d, visto que \u201ca vulnerabilidade tem uma dimens\u00e3o que n\u00f3s buscamos valorizar e preservar, e que \u00e9 importante para n\u00f3s, como criaturas sexuadas. N\u00f3s podemos ser explorados com base em nossa vulnerabilidade. Somos criaturas que precisam de abrigo e rela\u00e7\u00f5es sociais. N\u00e3o podemos ser entendidos como autossuficientes\u201d.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>Mas essa m\u00faltipla discuss\u00e3o que vem sendo feita sobre o g\u00eanero, especialmente nos espa\u00e7os universit\u00e1rios, deixa pessoas como o professor universit\u00e1rio Emerson In\u00e1cio otimistas. Para ele, ainda que esse amontoado de \u201ccaixas\u201d e \u201cr\u00f3tulos\u201d \u2013 que s\u00e3o utilizados para \u201cdefinir\u201d pessoas \u2013 possa causar muita confus\u00e3o e possa coibir a compreens\u00e3o, os r\u00f3tulos devem ser vistos como um passo para a aceita\u00e7\u00e3o e uma consequente naturaliza\u00e7\u00e3o das identidades e sexualidades, de modo que, muito em breve os trans, pansexuais, bissexuais, gays ou l\u00e9sbicas ser\u00e3o vistos como devem ser: como pessoas. \u201cN\u00e3o deve demorar para acontecer que as meninas que sofreram discrimina\u00e7\u00e3o nos banheiros do IP se tornem invis\u00edveis; n\u00e3o pejorativamente, mas no sentido de que haver\u00e1 uma naturaliza\u00e7\u00e3o, elas ser\u00e3o s\u00f3 mais uma pessoa, simplesmente, e n\u00e3o mais a pessoa trans, na caixa. Ou seja, \u00e9 uma invisibilidade produtiva\u201d, explica.<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div>O futuro promissor continua num horizonte long\u00ednquo. Para alcan\u00e7\u00e1-lo, \u00e9 necess\u00e1ria a elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es sociais e educativas que desconstruam as no\u00e7\u00f5es de que a n\u00e3o-heterossexualidade ou a n\u00e3o-cisgeneridade \u00e9 uma doen\u00e7a, um desvio de car\u00e1ter ou, ainda, um pecado. E \u00e9 para esse objetivo que caminha a luta dos LGBTs, visto que \u201cas pessoas n\u00e3o querem ser identificadas porque s\u00e3o gays, l\u00e9sbicas, trans, ab\u00f3boras ou jatob\u00e1s. No final das contas, elas querem apenas ser pessoas\u201d, finaliza o professor.<\/div>\n<\/div>\n<div><span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><\/div>\n<div><strong><span style=\"color: #800000;\">\u00a0Veja tamb\u00e9m:<\/span><\/strong><\/div>\n<div><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/psicanalise-armario\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1367\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-psican\u00e1lise-sai-do-arm\u00e1rio1-300x265.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"265\" \/><\/a><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/954-2\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1369\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-300x271.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/elas-querem-voz-300x271.png 300w, 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href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/importancia-de-espacos-para-discussao\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1373\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-import\u00e2ncia-de-espa\u00e7os-300x297.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-import\u00e2ncia-de-espa\u00e7os-300x297.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-import\u00e2ncia-de-espa\u00e7os-150x150.png 150w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-import\u00e2ncia-de-espa\u00e7os-45x45.png 45w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/a-import\u00e2ncia-de-espa\u00e7os.png 317w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p>Por Aryanna Oliveira, An\u00e1tale Garcia e Carolina Sasse<br \/>\nColabora\u00e7\u00e3o de Tatiana Iwata, Sofia Mendes e Islaine Maciel<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n._2-3_2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><\/a>\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores do IPUSP analisam as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade, em conformidade com a crescente necessidade de uma\u00a0discuss\u00e3o mais 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