{"id":2329,"date":"2018-09-26T14:32:51","date_gmt":"2018-09-26T16:32:51","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=2329"},"modified":"2023-02-23T12:31:08","modified_gmt":"2023-02-23T14:31:08","slug":"suicidio-e-os-profissionais-desafios-e-dilemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/suicidio-e-os-profissionais-desafios-e-dilemas\/","title":{"rendered":"Suic\u00eddio e os profissionais \u2013 desafios e dilemas"},"content":{"rendered":"<p><em><strong><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3630610578226144\">Maria J. Kov\u00e1cs<\/a> \u00e9 profa. do depto. de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da USP<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0<span class=\"vcard author author_name\"><a title=\"Posts de Reda\u00e7\u00e3o\" href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/author\/redacao\/\" rel=\"author\">Reda\u00e7\u00e3o<\/a> &#8211;\u00a0<\/span>Jornal da USP &#8211; 26\/9\/2018<\/p>\n<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2330\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/24678415.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/24678415.jpg 660w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/24678415-300x200.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/24678415-272x182.jpg 272w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2018\/09\/24678415-400x266.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/>S<\/span>etembro Amarelo \u00e9 tempo de falar sobre suic\u00eddio, um tema tabu que agora tem voz, principalmente no que concerne \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero do mesmo, envolvendo diversas modalidades de campanhas. Mas precisamos focalizar tamb\u00e9m na esfera dos cuidados com quem tem idea\u00e7\u00e3o, tentou suic\u00eddio uma ou mais vezes, aos familiares impactados por essas tentativas ou pela morte de seus entes queridos. Cuidados tamb\u00e9m aos profissionais que perdem seus pacientes, apesar do seu esfor\u00e7o, sentindo-se fracassados e culpados pela morte deles.<\/p>\n<p>Muitos profissionais se perguntam o que fazer diante de uma pessoa com idea\u00e7\u00e3o ou tentativa de suic\u00eddio. Como mecanismo de prote\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o se confrontar com sua incerteza, se negam a atender pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o, utilizando manobras defensivas. Observamos que alguns falam mais do que ouvem, julgam clientes e em atitude contratransferencial descontam neles sua incapacidade, d\u00favida, incompet\u00eancia, raiva e outros sentimentos, perdendo a possibilidade de escuta. Essa atitude precisa ser revista.<\/p>\n<p>H\u00e1 profissionais que se negam a receber pessoas que tentam suic\u00eddio afirmando que n\u00e3o podem perder seu tempo t\u00e3o corrido atendendo pessoas que querem morrer, j\u00e1 que precisam se dedicar \u00e0queles que preferem viver. \u00c9 muito categ\u00f3rico dizer que todas as pessoas que n\u00e3o suportam mais viver a vida atual querem de fato morrer. H\u00e1 aqueles que n\u00e3o desejam mais viver essa vida, mas aceitariam continuar vivendo, se pudessem eliminar sua dor, sofrimento, humilha\u00e7\u00e3o, vergonha, incapacidade, e tantas outras raz\u00f5es. Tratar todos os pacientes, que chegam aos seus cuidados, como se fossem realizar o ato suicida para morrer \u00e9 escutar os seus pr\u00f3prios pensamentos e ideias preconcebidas, sem conseguir entrar em contato com quem est\u00e3o buscando cuidar.<\/p>\n<p>Tentativas de suic\u00eddio podem ser vistas como a\u00e7\u00f5es que t\u00eam como objetivo chamar aten\u00e7\u00e3o, enfatizando seu aspecto manipulador. Se vistas como a\u00e7\u00f5es\u00a0<u>somente<\/u>\u00a0para atrair aten\u00e7\u00e3o, podem conduzir a um n\u00e3o cuidado, j\u00e1 que o aspecto manipulador \u00e9 o que predomina. Entretanto, sob uma outra vis\u00e3o, o ato suicida tem o objetivo\u00a0<u>sim<\/u>\u00a0de chamar aten\u00e7\u00e3o para algo que n\u00e3o vai bem na vida da pessoa e, nesse caso, seu aspecto de comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 o que fica ressaltado, demandando escuta e cuidados.<\/p>\n<p>Encontramos essas dificuldades mais frequentemente em profissionais que atendem pessoas que buscam os prontos-socorros com sequelas do ato suicida. Chegam assustados, impactados pelo seu ato, ambivalentes por vezes, com profundo sentimento de fracasso, afirmando que n\u00e3o t\u00eam capacidade nem para se matar. Ao receber desprezo, preconceito, pessoas que se questionam se vale a pena viver ter\u00e3o mais uma raz\u00e3o para desistir da vida. Trata-se de iatrogenia, formas de atendimento que aumentam o sofrimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 hospitais em que n\u00e3o h\u00e1 atendimento de profissionais de sa\u00fade mental, sem proposta de continuidade dos cuidados a quem chega ap\u00f3s tentativa de suic\u00eddio. Pessoas que realizam o ato suicida voltam ao seu ambiente sem respaldo ou cuidados de sa\u00fade mental, desgastados, o que pode estimular a recorr\u00eancia de tentativas que podem ser letais. Infelizmente a proposta de continuidade de atendimento de sa\u00fade mental, como proposto pela agenda de preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio e diminui\u00e7\u00e3o de danos de 2006, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 colocada em pr\u00e1tica.<\/p>\n<blockquote><p>Muitos profissionais se perguntam o que fazer diante de uma pessoa com idea\u00e7\u00e3o ou tentativa de suic\u00eddio. Como mecanismo de prote\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o se confrontar com sua incerteza, se negam a atender pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o, utilizando manobras defensivas<\/p><\/blockquote>\n<p>O projeto da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) denominado Estudo Multic\u00eantrico de Interven\u00e7\u00e3o ao Comportamento Suicida (SUPRE-MISS) demonstrou como \u00e9 importante ajudar pessoas que tentam suicidar-se. No Brasil o projeto foi coordenado por Neury Botega, da Unicamp, com resultados significativos na preven\u00e7\u00e3o da reincid\u00eancia de tentativas de suic\u00eddio. Pessoas que tentaram suic\u00eddio foram convidadas a participar da pesquisa. Houve uma divis\u00e3o em dois grupos, no primeiro dos quais foram avaliados e encaminhados a servi\u00e7os na rede de sa\u00fade. No segundo grupo, al\u00e9m do encaminhamento, os pacientes tamb\u00e9m receberam informa\u00e7\u00f5es sobre suic\u00eddio e fatores que podem levar \u00e0 tentativa de suic\u00eddio. Al\u00e9m disso, o grupo 2 recebeu nove liga\u00e7\u00f5es da equipe que os atendeu no hospital, com intervalos crescentes durante um ano e meio e nessas liga\u00e7\u00f5es havia est\u00edmulo para que procurassem ajuda. Ao fim do estudo no primeiro grupo 2,2% morreram de suic\u00eddio e no segundo 0,2 % (Zorzetto e Fioravanti, 2009). \u00c9 uma diferen\u00e7a muito significativa, que deve ser considerada nos atendimentos para pessoas que tentam suic\u00eddio em servi\u00e7os de pronto socorro. Al\u00e9m de cuidados humanizados, o encaminhamento e continuidade de cuidados parecem ser a melhor combina\u00e7\u00e3o para ajudar pessoas com idea\u00e7\u00e3o e tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Para um bom cuidado a pessoas com idea\u00e7\u00e3o e tentativas de suic\u00eddio precisamos nos dedicar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade com especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea. S\u00e3o poucas as disciplinas que se prop\u00f5em a discutir o tema do suic\u00eddio nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o na USP. No Instituto de Psicologia, a disciplina Psicologia da Morte (PSA 3512), aborda o tema suic\u00eddio em tr\u00eas aulas. Em 2018 observamos uma grande procura da disciplina por estudantes de v\u00e1rias unidades da USP, chegando ao n\u00famero de 333 intera\u00e7\u00f5es no sistema J\u00fapiter da USP, o que demonstra o quanto estudantes de v\u00e1rias \u00e1reas se interessam ou precisam discutir o tema. Pudemos acomodar 100 estudantes na maior sala do IP. Cabe ressaltar tamb\u00e9m que o maior interesse dos estudantes \u00e9 sobre o tema do suic\u00eddio, o que ficou confirmado pelas respostas sobre a motiva\u00e7\u00e3o para frequentarem a disciplina e pela escolha do tema suic\u00eddio para realizar o trabalho de conclus\u00e3o do curso. A partir desses dados, apontamos a import\u00e2ncia de desenvolver o tema nas disciplinas em v\u00e1rios cursos da USP, enfatizando uma perspectiva multidisciplinar. Al\u00e9m da gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso desenvolver o tema tamb\u00e9m na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e estimular pesquisas na \u00e1rea. Oferecemos a disciplina \u201cA Quest\u00e3o da Morte nas Institui\u00e7\u00f5es de Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o\u201d (PSA 5861) no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano, em que o tema suic\u00eddio comparece em v\u00e1rias aulas. Temos ainda orientado disserta\u00e7\u00f5es e teses sobre o tema. \u00c9 um gr\u00e3o de areia na tarefa essencial de oferecer forma\u00e7\u00e3o na maior universidade de nosso pa\u00eds. Ainda ampliando esse gr\u00e3o, em 2016 oferecemos a disciplina \u201cSuic\u00eddio: Preven\u00e7\u00e3o e Luto\u201d (PSA 5921-1) no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia USP na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o a partir do P\u00f3s-doutorado de Karina Fukumitsu (Bolsista PNPD\/CAPES) \u201cCuidados e Interven\u00e7\u00f5es para Sobreviventes Enlutados\u00a0por Suic\u00eddios\u201d. Foi oferecida uma vez, pois era uma das atividades do p\u00f3s-doutorado de Karina.<\/p>\n<blockquote><p>Para um bom cuidado a pessoas com idea\u00e7\u00e3o e tentativas de suic\u00eddio precisamos nos dedicar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de profissionais de sa\u00fade com especializa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea. S\u00e3o poucas as disciplinas que se prop\u00f5em a discutir o tema do suic\u00eddio nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o na USP<\/p><\/blockquote>\n<p>Ressaltamos que o cuidado a pessoas com idea\u00e7\u00e3o e tentativas de suic\u00eddio e a familiares enlutados \u00e9 tarefa para profissionais especializados numa perspectiva multidisciplinar. \u00c9 importante que o pa\u00eds, nas suas diversas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade constitua um corpo de profissionais, que possa coordenar as propostas de cuidados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o com sofrimento existencial nas suas necessidades espec\u00edficas. Juntamente com as campanhas que desenvolvem atividades para a preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, utilizando cartilhas, e programas de valoriza\u00e7\u00e3o da vida. \u00c9 necess\u00e1rio o mesmo empenho para compor equipes multidisciplinares de cuidados nas v\u00e1rias inst\u00e2ncias de sa\u00fade mental em nosso pa\u00eds, a destacar os ambulat\u00f3rios de sa\u00fade mental, os CAPS e UBS em todo pa\u00eds. Essa \u00e9 a meta proposta pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na sua Agenda Estrat\u00e9gia em 2016. Quanto \u00e0 USP, espera-se que possa compor um grupo de especialistas que teria para si a tarefa de empreender a forma\u00e7\u00e3o de estudantes de gradua\u00e7\u00e3o, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e profissionais para estabelecer discuss\u00f5es e reflex\u00f5es sobre o tema. E tamb\u00e9m para elaborar programas de cuidados para a popula\u00e7\u00e3o de estudantes, funcion\u00e1rios e docentes da pr\u00f3pria universidade, mas, e principalmente, tamb\u00e9m oferecer subs\u00eddios para muito al\u00e9m da USP, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira, subsidiando pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o s\u00f3 de preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio, mas tamb\u00e9m da posven\u00e7\u00e3o, entendida como cuidados que se prop\u00f5em a diminuir o impacto das tentativas de suic\u00eddio para quem consuma o ato e para familiares que vivem o processo de perda de pessoas pelo suic\u00eddio.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>ZORZETTO R, FIORAVANTI C (2009). \u201cPor um fio\u201d. Pesquisa Fapesp, Edi\u00e7\u00e3o Impressa, 158.<\/p>\n<p>BOTEGA N J (2006).\u00a0<em>Pr\u00e1tica psiqui\u00e1trica no hospital geral: interconsulta e emerg\u00eancia<\/em>. 2. ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2006.<\/p>\n<p>WERLANG BG, BOTEGA NJ. (2004).\u00a0<em>Comportamento suicida<\/em>. Porto Alegre: Artmed Editora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria J. 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