{"id":264,"date":"2016-07-06T16:15:20","date_gmt":"2016-07-06T18:15:20","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=264"},"modified":"2023-04-13T13:38:40","modified_gmt":"2023-04-13T15:38:40","slug":"falando-de-morte-com-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/falando-de-morte-com-criancas\/","title":{"rendered":"Falando de morte com crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1673\" style=\"width: 307px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1673\" class=\"size-medium wp-image-1673\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/maria-julia-kovacs2-297x300-297x300.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/maria-julia-kovacs2-297x300.jpg 297w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2016\/07\/maria-julia-kovacs2-297x300-45x45.jpg 45w\" sizes=\"(max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><p id=\"caption-attachment-1673\" class=\"wp-caption-text\">Maria J\u00falia K\u00f3vacs<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">As perdas e a morte fazem parte do desenvolvimento humano desde o nascimento at\u00e9 o fim da vida. A crian\u00e7a pequena pode viver experi\u00eancias de morte, mas ainda n\u00e3o sabe que da morte ningu\u00e9m volta, e que essa acontece com pessoas queridas (pais, av\u00f3s, amiguinhos, animais de estima\u00e7\u00e3o). Por isso s\u00e3o importantes esclarecimentos e a acolhida dos sentimentos. Os adultos familiares (pais, tios, av\u00f3s, professores) s\u00e3o modelos para crian\u00e7a, um porto seguro. Essas primeiras experi\u00eancias deixar\u00e3o marcas profundas na vida de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No est\u00e1gio pr\u00e9-operacional, segundo Piaget, a crian\u00e7a percebe a morte como um acontecimento tempor\u00e1rio, que pode ser revertido, que \u00e9 poss\u00edvel morrer \u201cs\u00f3 um pouquinho\u201d. Filmes, revistas e desenhos refor\u00e7am esse conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as apresentam pensamentos m\u00e1gicos, acreditando que o que pensam ou desejam pode ocorrer. Se ocorrer uma morte, podem ter a id\u00e9ia de que esse fato est\u00e1 relacionado com seu desejo ou pensamento. Se pais ou irm\u00e3os morrem, a crian\u00e7a pode se culpar. Elas ainda n\u00e3o sabem que da morte n\u00e3o h\u00e1 volta. Fazem perguntas sobre onde est\u00e1 a pessoa morta, se podem encontr\u00e1-la e tamb\u00e9m se v\u00e3o morrer. Para os pais, que vivem seus processos de luto, ouvir e responder a essas perguntas pode ser uma tarefa dif\u00edcil. Tentam evit\u00e1-la, afirmando que a crian\u00e7a vai sofrer ou n\u00e3o entender. A maneira de lidar com o sofrimento de forma construtiva n\u00e3o \u00e9 evit\u00e1-lo, e sim favorecer a conversa, compartilhando os sentimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crian\u00e7a percebe quando ocorreu uma morte, e n\u00e3o falar sobre ela pode provocar medo, inseguran\u00e7a. O uso de met\u00e1foras para explicar a morte deve ser evitado. Exemplificando: falar da morte como \u201csono eterno\u201d pode causar incompreens\u00e3o, porque se confunde com o sono di\u00e1rio, o mesmo ocorre quando se fala da morte como \u201cviagem eterna\u201d, comparada com as viagens de fim de semana, com ida e volta. O que tem como objetivo diminuir a dor pode causar dificuldades de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as mais velhas j\u00e1 compreendem que a morte \u00e9 irrevers\u00edvel e universal principalmente se j\u00e1 viveram experi\u00eancias pessoais.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Crian\u00e7as vivem processos de luto como os adultos,<br \/>\nnecessitam de acolhimento e cuidado<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luto \u00e9 definido com processo de elabora\u00e7\u00e3o de perdas vividas e faz parte da exist\u00eancia humana desde o seu in\u00edcio. A m\u00e3e \u00e9 a principal figura de apego do beb\u00ea, e a crian\u00e7a a procura quando est\u00e1 com fome, cansada, com medo ou quando se sente insegura. Existem rela\u00e7\u00f5es m\u00e3e-beb\u00ea em que h\u00e1 confian\u00e7a e carinho, e a crian\u00e7a explora o ambiente, tendo a m\u00e3e como base segura. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es em que a m\u00e3e tem dificuldades de atender \u00e0s necessidades do seu beb\u00ea, sem contato carinhoso e sem expressar suas emo\u00e7\u00f5es. Os beb\u00eas choram, ficam irritados nessa condi\u00e7\u00e3o. Essas experi\u00eancias se tornar\u00e3o presentes quando ocorrerem as primeiras perdas do desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as vivem processos de luto como os adultos, necessitam de acolhimento e cuidado. Podem apresentar dist\u00farbios de alimenta\u00e7\u00e3o, sono e altera\u00e7\u00f5es de comportamentos na escola. \u00c9 um erro considerar que crian\u00e7as n\u00e3o percebem quando ocorrem mortes e que por isso se deve agir como se nada tivesse acontecido. Outra falsa cren\u00e7a \u00e9 a de que as crian\u00e7as superam facilmente as perdas, distraindo-se com brincadeiras. Assim, a crian\u00e7a aprende que deve ocultar seus sentimentos. Falar, explicar, esclarecer n\u00e3o retira a dor, mas permite que a crian\u00e7a possa recorrer \u00e0quelas pessoas com as quais se sente mais segura. Crian\u00e7as podem participar de vel\u00f3rios e enterros como membro integrante da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que dizer quando a crian\u00e7a pergunta se vai morrer, o que dizer quando est\u00e1 doente e observa que companheiros de quarto ou enfermaria desaparecem e n\u00e3o voltam? \u00c9 importante clareza e sensibilidade para perceber as necessidades de acolhimento e cuidados e o que a crian\u00e7a est\u00e1 pedindo nesse momento.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Crian\u00e7as \u00e0 morte querem ser asseguradas de<br \/>\nque n\u00e3o ser\u00e3o esquecidas,\u00a0<\/span><span style=\"color: #008000;\">que permane\u00e7am na<br \/>\nlembran\u00e7a de quem amam, principalmente<br \/>\nquando n\u00e3o estiverem entre eles<\/span><\/h4>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo mostra sinais, e as mudan\u00e7as no comportamento trazem ind\u00edcios do que est\u00e1 ocorrendo. A crian\u00e7a preocupada com o que percebe, busca nas pessoas \u00e0 sua volta a confirma\u00e7\u00e3o de suas impress\u00f5es. Fingir que est\u00e1 tudo bem fazendo com que as palavras comuniquem uma coisa, e o corpo expresse outra, pode instalar um sentimento de incerteza, d\u00favida e isolamento. Tampouco o sil\u00eancio permite que se compartilhem os sentimentos, as d\u00favidas e as quest\u00f5es de quando a morte se aproxima. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 conhecida como conspira\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de \u201cteatro de m\u00e1 qualidade\u201d, no qual o conte\u00fado expresso em palavras n\u00e3o \u00e9 consistente com o que o corpo e os olhos manifestam, j\u00e1 que esses s\u00e3o mais dificilmente controlados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as \u00e0 morte querem ser asseguradas de que n\u00e3o ser\u00e3o esquecidas, que permane\u00e7am na lembran\u00e7a de quem amam, principalmente quando n\u00e3o estiverem entre eles. Mais do que a morte, existe o medo da separa\u00e7\u00e3o e do abandono, nessas situa\u00e7\u00f5es buscam a presen\u00e7a constante da m\u00e3e ou pessoas familiares. Crian\u00e7as enfermas necessitam de explica\u00e7\u00f5es claras sobre o que est\u00e1 sendo feito no hospital, j\u00e1 que a interna\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com afastamento da fam\u00edlia e de amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando pensamos em cuidado, devemos considerar a comunica\u00e7\u00e3o, escutar as necessidades da crian\u00e7a enlutada de forma atenta, facilitar a express\u00e3o de sentimentos sem censura e julgamentos pr\u00e9vios, incluindo os irm\u00e3os saud\u00e1veis na comunica\u00e7\u00e3o, nos cuidados com as crian\u00e7as doentes. Elas precisam ser ouvidas nos seus medos, possibilidades de identifica\u00e7\u00e3o, culpa, sentimentos ambivalentes em rela\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o enfermo, entre os desejos de recupera\u00e7\u00e3o e de morte, j\u00e1 que frequentemente o irm\u00e3o enfermo rouba a aten\u00e7\u00e3o dos pais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/sampledata\/fruitshop\/comm.jpg\" alt=\"comm\" width=\"640\" height=\"915\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gostar\u00edamos de destacar a import\u00e2ncia da escola no cuidado dispensado \u00e0s crian\u00e7as que sofreram perdas de pessoas pr\u00f3ximas. Cada vez mais a morte \u00e9 assunto tamb\u00e9m na escola, j\u00e1 que a morte faz parte do cotidiano das crian\u00e7as, ela est\u00e1 presente na comunidade, em casos de homic\u00eddios, acidentes e suic\u00eddios, casos de morte \u201cescancarada\u201d que n\u00e3o podem passar despercebidos no di\u00e1logo do ambiente escolar.\u00a0 Esse tipo de morte ocupa espa\u00e7os, penetra na vida das pessoas a qualquer hora, dificultando a prote\u00e7\u00e3o e controle das consequ\u00eancias, as pessoas ficam expostas e sem defesas, al\u00e9m de ser brusca, inesperada e invasiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra forma de morte escancarada ocorre em programas de audit\u00f3rio, novelas, notici\u00e1rios, invadindo lares a qualquer hora, inclusive durante as refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia. S\u00e3o cenas chocantes, repetidas com textos superficiais e depoimentos emocionados, acompanhados de not\u00edcias amenas ou de propaganda. Filmes, desenhos animados trazem imagens fant\u00e1sticas de viol\u00eancia, de morte como se essa fosse espet\u00e1culo.<br \/>\nA psicoterapia para crian\u00e7as, tamb\u00e9m conhecida como ludoterapia, utiliza desenhos e atividades l\u00fadicas, j\u00e1 que a fala ainda \u00e9 dif\u00edcil para que elas expressem seus sentimentos. Os livros tamb\u00e9m s\u00e3o importantes para ajudar a elaborar o luto. Em muitas hist\u00f3rias, a crian\u00e7a pode se identificar com os processos vividos pelos personagens. A indica\u00e7\u00e3o deve ser feita com cuidado e n\u00e3o substitui o contato com pessoas, mas podem ser excelentes complementos, principalmente quando as hist\u00f3rias s\u00e3o lidas e compartilhadas com outras crian\u00e7as e adultos como aponta Rubem Alves na introdu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios dos livros que escreveu para crian\u00e7as. Filmes que abordam o tema da morte e do adoecimento podem ser utilizados nas escolas e pelas fam\u00edlias. H\u00e1 cl\u00e1ssicos como <em>Bambi<\/em>, <em>Rei Le\u00e3o<\/em> e Rochedo Gibraltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estas s\u00e3o algumas das propostas que permitem que a morte, numa sociedade que a nega, possa ser mais bem compreendida por crian\u00e7as vivendo situa\u00e7\u00f5es de perda e morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Mariana Julia Kov\u00e1cs<br \/>\nProfessora do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade (PSA) e coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte (LEM)<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n._2-3_2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><\/a>\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As perdas e a morte fazem parte do desenvolvimento humano desde o nascimento at\u00e9 o fim da vida. 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