{"id":2684,"date":"2019-06-27T10:55:25","date_gmt":"2019-06-27T12:55:25","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=2684"},"modified":"2019-11-21T14:50:49","modified_gmt":"2019-11-21T16:50:49","slug":"o-que-e-criatividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/o-que-e-criatividade\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 criatividade?"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2689\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1.png\" alt=\"\" width=\"1074\" height=\"833\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1.png 1074w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1-300x233.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1-768x596.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1-1024x794.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/Untitled-1-400x310.png 400w\" sizes=\"(max-width: 1074px) 100vw, 1074px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O pesquisador Rafael de Santis Bastos defendeu sua disserta\u00e7\u00e3o\u00a0\u201cNascedouro no sert\u00e3o: um estudo sobre criatividade\u201d a partir de registros do percurso criativo do escritor Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa e da psicologia de Carl Gustav Jung, orientado pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/site\/sandra-maria-patricio-ribeiro\/\">Profa. Sandra Maria Patr\u00edcio Ribeiro<\/a>, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do IPUSP.<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2920\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/DSC_0159-e1561987586214.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"338\" \/>A disserta\u00e7\u00e3o, pautada na quest\u00e3o: o que \u00e9 criatividade?, foi constru\u00edda com base em um estudo dial\u00f3gico entre a teoria do psiquiatra Carl Gustav Jung (1875-1961) e registros do escritor Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa (1908-1967).<\/p>\n<p>O interesse de Rafael pelo tema surgiu quando estava na gradua\u00e7\u00e3o, estudando psicologia anal\u00edtica e a quest\u00e3o da criatividade em Jung. O pesquisador participou da organiza\u00e7\u00e3o do II Semin\u00e1rio \u201cCaminhos Junguianos: \u201ca Travessia do Sussuar\u00e3o\u201d, que o levou a ler <i>Grande sert\u00e3o: veredas<\/i>\u00a0e a pesquisar mais sobre a vida de Rosa.<\/p>\n<p>Durante esses estudos, Rafael notou a poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre as viagens etnogr\u00e1ficas do autor pelo sert\u00e3o de Minas e algumas teoriza\u00e7\u00f5es de Jung: \u201cRosa recolhia esses materiais e os utilizava em suas obras. Esse movimento, de ir ao sert\u00e3o, conhecer a mat\u00e9ria prima do trabalho, vivenci\u00e1-la, me parecia materializar algumas teoriza\u00e7\u00f5es do Jung sobre a ideia de criatividade. E a partir desse momento, pareceu existir uma possibilidade de estudar a criatividade, em um di\u00e1logo te\u00f3rico entre Rosa e Jung\u201d.<\/p>\n<p>O objetivo de sua pesquisa foi estudar o conceito de criatividade na psicologia anal\u00edtica e elaborar, com base nas formula\u00e7\u00f5es junguianas e do estudo dos registros do processo criativo de Guimar\u00e3es Rosa, uma compreens\u00e3o sobre o processo criativo.<\/p>\n<h3><b>Similaridades entre Jung e Rosa<\/b><\/h3>\n<p>Em sua disserta\u00e7\u00e3o, Rafael encontrou afinidades entre Jung e Rosa no uso da objetividade e da fantasia, apesar da dist\u00e2ncia cultural. Al\u00e9m disso, percebeu que ambos guiam-se pela ideia de concord\u00e2ncia entre discurso e objeto.<\/p>\n<p>Por exemplo, quando Jung escreve a respeito da alma, para ele algo vivo, busca tornar a linguagem que se refere a ela tamb\u00e9m viva. Guimar\u00e3es Rosa, por sua vez, utiliza-se do mesmo recurso para falar da vida, um dos objetos centrais do seu projeto de literatura. Considerando que a vida n\u00e3o cabe na palavra formatada, o escritor mineiro interv\u00e9m sobre a l\u00edngua de modo a restituir a sua vitalidade original.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi poss\u00edvel observar que ambos, escritor e psic\u00f3logo\/psiquiatra, cada qual em seu campo de atua\u00e7\u00e3o, ao abordarem conte\u00fados simb\u00f3licos, t\u00eam o cuidado de adequar a l\u00edngua \u00e0 natureza de tais conte\u00fados.<\/p>\n<p>Jung, apesar de estar familiarizado com a conceitua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancia, preferiu buscar na nomenclatura do folclore medieval, da alquimia e dos mitos, os nomes para muitos de seus conceitos e proposi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, enquanto Guimar\u00e3es Rosa criou uma linguagem liter\u00e1ria com caracter\u00edsticas peculiares, que se afasta da l\u00edngua padr\u00e3o a ponto de estudiosos se referirem \u00e0 \u201cl\u00edngua de Guimar\u00e3es Rosa\u201d. Para Rafael, o autor parece colocar os significantes em um caleidosc\u00f3pio, onde eles podem continuamente se desmembrar e reorganizar em novos arranjos, permitindo ao leitor vislumbrar quadros variados.<\/p>\n<p>O pesquisador conclui em sua disserta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cPoder\u00edamos arriscar um paralelo: se, na abordagem junguiana, o conte\u00fado \u00e9 apreciado e reapreciado em diferentes n\u00edveis, o escritor de Minas, por sua vez, cria condi\u00e7\u00e3o para o leitor observar os significantes, \u00e0 cada \u00e2ngulo, sob nova perspectiva, em uma crescente descoberta de seus potenciais sem\u00e2nticos. O leitor de Rosa, deste modo, pode sonhar a palavra, e acordar pela palavra\u201d.<\/p>\n<p>Se Jung e Rosa n\u00e3o dialogaram diretamente, suas obras, contudo, dialogam temas e quest\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<h3><b>A criatividade em Jung<\/b><\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2691 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/stock-vector-major-personality-archetypes-diagram-vector-illustration-680524249-e1561639755489.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p>A disserta\u00e7\u00e3o \u00e9 dividida em tr\u00eas cap\u00edtulos. O primeiro cap\u00edtulo \u00e9 uma revis\u00e3o cronol\u00f3gica do conceito de criatividade na obra de Jung, buscando entender como este\u00a0 foi elaborado e como se relaciona com outras formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas fundamentais ao pensamento junguiano.<\/p>\n<p>O pesquisador cita um trabalho intitulado\u00a0<i>Determinantes Psicol\u00f3gicas do Comportamento Humano<\/i> (1936\/2016),\u00a0 no qual Jung sugere que os instintos no ser humano podem ser classificados em cinco grupos b\u00e1sicos: fome, sexualidade, atividade, reflex\u00e3o e criatividade. Juntos, estes instintos formariam a base do psiquismo. Todavia, diferente dos demais animais, o homem teria seus instintos psiquificados, isto \u00e9, o instinto permaneceu como for\u00e7a geratriz, mas perdeu seu car\u00e1ter de compulsividade.<\/p>\n<p>Contudo, no que tange \u00e0 criatividade, apesar de inseri-la neste modelo dos cinco instintos b\u00e1sicos, Jung acaba pontuando que, talvez, este n\u00e3o seja o conceito mais adequado. A criatividade seria an\u00e1loga ao instinto, mas, diferindo deste, a for\u00e7a criativa n\u00e3o teria dire\u00e7\u00e3o pr\u00e9-definida, sendo capaz de rearranjos, e mais, podendo reprimir todos os instintos.<\/p>\n<p>Para complementar a defini\u00e7\u00e3o sobre criatividade, Rafael enfatiza a rela\u00e7\u00e3o entre esta e um dos conceitos fundamentais da psicologia junguiana,\u00a0<b>arqu\u00e9tipo<\/b>. Este conceito pode ser explicado, segundo a psicologia junguiana, se considerarmos que h\u00e1 imagens formadas da viv\u00eancia de cada um, que apresentam estruturas semelhantes. Por exemplo, todo ser humano tem pai e m\u00e3e. Ent\u00e3o todos t\u00eam a possibilidade de formar uma imagem de um pai e uma de m\u00e3e. O arqu\u00e9tipo \u00e9 semelhante ao instinto, mas n\u00e3o \u00e9 instinto. Os arqu\u00e9tipos condicionam a vida ps\u00edquica, mas est\u00e3o sempre, com maior ou menor intensidade, sob interfer\u00eancia da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O impulso criativo, ent\u00e3o, teria a sua sede na psique arquet\u00edpica. Desse modo, conclui o pesquisador em sua disserta\u00e7\u00e3o: \u201cpodemos dizer que a criatividade \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria cuja natureza assenta na psique arquet\u00edpica.\u201d\u00a0 Al\u00e9m disso, salienta que \u201ca criatividade det\u00e9m certa autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais fun\u00e7\u00f5es da psique, podendo suplantar outras disposi\u00e7\u00f5es e mesmo necessidades humanas.\u201d<\/p>\n<h3><b>Um estudo sobre Guimar\u00e3es Rosa<\/b><\/h3>\n<p>O segundo cap\u00edtulo, por sua vez, estuda a po\u00e9tica de Guimar\u00e3es Rosa. Rafael utiliza como fonte para este cap\u00edtulo entrevistas do escritor, cadernetas de campo de viagens de pesquisa, di\u00e1rios, rascunhos, capas intermedi\u00e1rias de sua obra, a pr\u00f3pria obra e, principalmente, cartas.<\/p>\n<p>A expectativa do pesquisador era que \u201ca leitura dos documentos sobre o percurso criativo de Rosa viesse a fertilizar a compreens\u00e3o da teoria junguiana sobre a criatividade. Ao mesmo tempo, esperamos que a teoria junguiana nos auxilie a compreender algo do mist\u00e9rio criativo de Guimar\u00e3es Rosa\u201d.<\/p>\n<p>O recorte de documentos \u00e9 composto pelas correspond\u00eancias entre Rosa e seu tradutor italiano, Bizzarri; correspond\u00eancias entre Rosa e seu tradutor alem\u00e3o, Meyer-Classon; a entrevista realizada em 1965 com G\u00fcnter Lorenz; o conjunto de cartas variadas e dados biogr\u00e1ficos reunidos no livro organizado por sua filha, Vilma G. Rosa:\u00a0<i>Relembramentos<\/i>; e os quatro pref\u00e1cios de \u201cTutam\u00e9ia\u201d, nos quais o escritor fala sobre cria\u00e7\u00e3o de modo geral e, de modo particular, sobre o seu pr\u00f3prio processo criativo.<\/p>\n<div id=\"attachment_28657\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_2687\" style=\"width: 2252px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2687\" class=\"size-full wp-image-2687\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri.jpg\" alt=\"\" width=\"2242\" height=\"945\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri.jpg 2242w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri-300x126.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri-768x324.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri-1024x432.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/carta-de-guimar\u00e3es-a-bizzarri-400x169.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 2242px) 100vw, 2242px\" \/><p id=\"caption-attachment-2687\" class=\"wp-caption-text\">Carta de Guimar\u00e3es Rosa ao tradutor Bizzarri<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Rafael explica que, no in\u00edcio do projeto, a inten\u00e7\u00e3o era utilizar as cadernetas de campo de Guimar\u00e3es Rosa, por\u00e9m, o pesquisador percebeu que as cartas do autor eram mais significativas quanto \u00e0 quest\u00e3o do processo criativo, e justifica a decis\u00e3o pelo pr\u00f3prio m\u00e9todo junguiano: \u201cJung nos habilita a trabalhar de uma forma intuitiva, prestando aten\u00e7\u00e3o em elementos que s\u00e3o evocados, para depois trabalhar com eles.\u201d<\/p>\n<h3><b>O criar rosiano<\/b><\/h3>\n<p>Ainda no segundo cap\u00edtulo, Rafael explora v\u00e1rias caracter\u00edsticas da cria\u00e7\u00e3o rosiana. Trata-se de um cap\u00edtulo mais t\u00e9cnico, baseado em estudos cl\u00e1ssicos de escritores como\u00a0 Haroldo de Campos, Eduardo Coutinho, Antonio Candido e outros te\u00f3ricos.<\/p>\n<p>O pesquisador evoca uma das caracter\u00edsticas centrais da obra de Guimar\u00e3es Rosa: as interven\u00e7\u00f5es criativas na l\u00edngua. Muitos cr\u00edticos consideram que Rosa criou uma l\u00edngua nova. Por\u00e9m, destaca o pesquisador, o que Rosa faz \u00e9 manejar as pot\u00eancias e recursos de sua l\u00edngua, transgredindo o seu uso comum, mas n\u00e3o ultrapassando as barreiras impostas por sua estrutura.<\/p>\n<div id=\"attachment_28658\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<div id=\"attachment_2688\" style=\"width: 979px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2688\" class=\"size-full wp-image-2688\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1.jpg\" alt=\"\" width=\"969\" height=\"1600\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1.jpg 969w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1-182x300.jpg 182w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1-768x1268.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1-620x1024.jpg 620w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/manuscrito-grande-sert\u00e3o-1-363x600.jpg 363w\" sizes=\"(max-width: 969px) 100vw, 969px\" \/><p id=\"caption-attachment-2688\" class=\"wp-caption-text\">Manuscrito de \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>O autor cria neologismos e interv\u00e9m em senten\u00e7as inteiras, alterando clich\u00eas e prov\u00e9rbios para que adquiram um novo significado inesperado. Do todo de sua linguagem, a sintaxe \u00e9 o aspecto que mais se diferencia do padr\u00e3o da l\u00edngua portuguesa. Um exemplo de processo sint\u00e1tico \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o el\u00edptica, que consiste na supress\u00e3o de palavras ou partes inteiras. Por exemplo: \u201c\u2018Uma porteira. Mais porteiras. Os currais. Vultos de vaca, debandando. A varanda grande. Luzes. Chegamos. Apear\u201d (Sagarana).<\/p>\n<p>Todos esses procedimentos est\u00e3o a servi\u00e7o de duas inten\u00e7\u00f5es que movem o criar liter\u00e1rio de Guimar\u00e3es Rosa: a constru\u00e7\u00e3o de uma express\u00e3o concisa e a busca por integra\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado. A concis\u00e3o na express\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada por meio de ora\u00e7\u00f5es condensadas, constru\u00e7\u00f5es el\u00edpticas e pontua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a busca pela integra\u00e7\u00e3o entre forma e conte\u00fado alcan\u00e7ou altos n\u00edveis em\u00a0<i>Grande Sert\u00e3o: veredas<\/i>.<\/p>\n<h3><b>Jung e o Grande Sert\u00e3o<\/b><\/h3>\n<p>Ao final do cap\u00edtulo, Rafael estabelece a rela\u00e7\u00e3o entre a leitura de\u00a0<i>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/i>, como meio de se experienciar a ambiguidade, e o conceito junguiano de unilateralidade ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Citando Antonio Candido, no livro \u201cO homem dos avessos\u201d, o pesquisador diz que a ambiguidade \u00e9 apontada como tema e t\u00f4nica fundamental em <i>Grande Sert\u00e3o<\/i>, uma vez que coexiste na sem\u00e2ntica e na estrutura do romance. O escritor Paulo R\u00f3nai explica em sua obra \u201cTr\u00eas motivos em Grande sert\u00e3o: veredas\u201d, que o pr\u00f3prio t\u00edtulo j\u00e1 antecipa a experi\u00eancia amb\u00edgua: \u201c\u00c0 esquerda do sinal \u2018:\u2019 temos Grande Sert\u00e3o (masculino, amplitude, singular) e, \u00e0 direita, veredas (feminino, pequeno, plural). O sinal de dois pontos, a um s\u00f3 tempo, distingue e separa, como identifica e assimila e os termos\u201d.<\/p>\n<p>Rafael aponta que o leitor n\u00e3o apenas realiza uma leitura psicol\u00f3gica sobre a ambiguidade, como a experimenta na rela\u00e7\u00e3o com o texto. Tal experi\u00eancia pode atuar sobre uma problem\u00e1tica amplamente estudada por Jung:\u00a0<i>a unilateraliza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.\u00a0<\/i><\/p>\n<p>Para o pesquisador, no livro \u201cO homem e seus s\u00edmbolos\u201d, Jung esclarece que este fen\u00f4meno ocorre quando uma das quatro fun\u00e7\u00f5es naturais da psique (pensamento, sentimento, intui\u00e7\u00e3o e sensa\u00e7\u00e3o) assume uma superatua\u00e7\u00e3o, ou seja, torna-se mais integrada \u00e0 consci\u00eancia do que as demais, inibindo o desenvolvimento das outras.<\/p>\n<p>Ao longo da vida, o ideal \u00e9 que as fun\u00e7\u00f5es menos integradas encontrem meios de integrar-se. Por\u00e9m, se o indiv\u00edduo negligencia continuamente a express\u00e3o de uma das quatro fun\u00e7\u00f5es, esta passa a perturbar sintomaticamente todo o desempenho ps\u00edquico. Assim, a pessoa intensifica o uso de sua fun\u00e7\u00e3o ps\u00edquica principal, na esperan\u00e7a de controlar as rea\u00e7\u00f5es da fun\u00e7\u00e3o regredida, por\u00e9m, reproduz um ciclo vicioso.<\/p>\n<p>Rafael destaca que \u201cUm arranjo ps\u00edquico unilateralizado \u00e9, de certo modo, o oposto de uma postura que abarque ambiguidades e paradoxos. Conforme nos parece, a leitura de\u00a0<i>Grande Sert\u00e3o: veredas\u00a0<\/i>propicia ao leitor um campo em que se pode experienciar a ambiguidade da exist\u00eancia, a tens\u00e3o natural \u00e0 dualidade da vida.\u201d<\/p>\n<p>Para concluir, Rafael diz que \u201cO leitor tem, assim, oportunidade de encontrar um aspecto da psique humana, logo, um aspecto seu, encarnado sem\u00e2ntica e estruturalmente na narrativa de Riobaldo, e de se relacionar com tal aspecto materializado fora de si mesmo. H\u00e1 nisto um aprender e um apreender a ambiguidade: uma experi\u00eancia.\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_28660\" class=\"wp-caption alignnone\">\n<div id=\"attachment_2686\" style=\"width: 1034px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2686\" class=\"size-full wp-image-2686\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576-300x169.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576-768x432.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576-310x174.jpg 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/20160604_122720-1024x576-400x225.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><p id=\"caption-attachment-2686\" class=\"wp-caption-text\">Adapta\u00e7\u00e3o em quadrinhos Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa. Texto: Guazzelli, editora: Globo<\/p><\/div>\n<p id=\"caption-attachment-28660\" class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<h3><b>Brincadeira, pacto e luta<\/b><\/h3>\n<p>\u00c0 medida que os registros de Guimar\u00e3es Rosa eram estudados, tr\u00eas palavras-imagens foram suscitadas ao pesquisador:\u00a0<i>brincadeira, pacto\u00a0<\/i>e\u00a0<i>luta<\/i>. Rafael afirma que o pr\u00f3prio Jung sugere ao pesquisador em Psicologia um m\u00e9todo mais compreensivo e menos explicativo\/interpretativo. Valendo-se desse procedimento, os tr\u00eas grandes temas foram evocados.<\/p>\n<p>O pesquisador percebeu que havia algo de l\u00fadico no percurso criativo de Rosa: o brincar. O escritor brinca com seus amigos, tradutores, e sobretudo, com as palavras. Rafael, ent\u00e3o, apresenta diferentes defini\u00e7\u00f5es complementares sobre o tema. Entre essas, afirma que\u00a0 brincar \u00e9 fazer v\u00ednculos, assim como ser\/estar crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Considerando o brincar um ato de extrema import\u00e2ncia na exist\u00eancia humana, Jung diz que para a crian\u00e7a, brincar \u00e9 o meio de desenvolver a capacidade imaginativa criativa, e por isso, no adulto, a criatividade guarda resqu\u00edcios de brincadeira. Tamb\u00e9m afirma que \u201cH\u00e1 bem poucas pessoas criativas que n\u00e3o foram acusadas de brincarem\u201d.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo trata tamb\u00e9m da quest\u00e3o do pacto, a segunda palavra-imagem que foi evocada. Rafael percebe que o termo pacto est\u00e1 presente de maneiras diferentes no processo criativo de Rosa, desde a amizade at\u00e9 a viv\u00eancia religiosa.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre pacto e amizade \u00e9 evidenciada nas cartas que Rosa trocava com seus tradutores, Bizarri e Meyer-Clason. Sem mesmo se conhecerem profundamente, as cartas criaram afinidades entre eles. Os criadores, portanto, passam a criar a partir desse pacto. Sobre esse assunto, Rafael conclui que a amizade ocupa um lugar de central import\u00e2ncia no processo criativo de Rosa.<\/p>\n<p>Rafael aponta uma faceta do fen\u00f4meno da criatividade que \u00e9 oposta \u00e0 que foi proposta anteriormente: a cria\u00e7\u00e3o pela sa\u00edda do pacto. Jung vivenciou essa situa\u00e7\u00e3o quando necessitou romper com Freud \u201cQuando eu estava quase acabando de escrever <i>Metamorfoses e s\u00edmbolos da libido,<\/i>\u00a0eu sabia de antem\u00e3o que o cap\u00edtulo \u2018O sacrif\u00edcio\u2019 me custaria a amizade de Freud. [\u2026] Durante dois meses n\u00e3o consegui escrever, de tal modo me sentia atormentado por esses conflitos. Deveria calar meu modo de pensar ou arriscar nossa amizade? Finalmente decidi escrever; isso custou-me a amizade de Freud\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_28664\" class=\"wp-caption alignleft\">\n<div id=\"attachment_2690\" style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2690\" class=\"size-full wp-image-2690\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"1079\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho.jpg 900w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho-250x300.jpg 250w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho-768x921.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho-854x1024.jpg 854w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2019\/06\/p\u00e1gina-de-o-livro-vermelho-400x480.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><p id=\"caption-attachment-2690\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o retirada de \u201cO Livro Vermelho\u201d, de Jung<\/p><\/div>\n<p id=\"caption-attachment-28664\" class=\"wp-caption-text\">\n<\/div>\n<p>Sobre a criatividade, Jung tamb\u00e9m aponta que todo processo criativo envolve sempre algum afastamento das tend\u00eancias gerais. O artista, em sua busca criativa, pode despactuar com os padr\u00f5es coletivos.<\/p>\n<p>Para finalizar o cap\u00edtulo, \u00e9 abordada a dimens\u00e3o de luta presente na cria\u00e7\u00e3o rosiana. Uma forma de luta est\u00e1 relacionada ao momento hist\u00f3rico vivido pelos autores: Rosa e Jung viveram durante o per\u00edodo da Segunda Guerra Mundial, evento que deixou rastros na cria\u00e7\u00e3o de ambos.<\/p>\n<p>Por outro lado, diferentes tipos de luta s\u00e3o destacadas ao longo do cap\u00edtulo, como a luta de Rosa e seus tradutores contra o tempo. Enquanto os tradutores evidenciam a dificuldade em fazer boas tradu\u00e7\u00f5es dentro de um prazo apertado, Rosa afirma em suas correspond\u00eancias que muitas tarefas cotidianas tiravam-lhe o tempo de produzir suas obras: \u201cFoi uma absurda e terr\u00edvel \u00e9poca, de trabalho sem parar [\u2026]. V\u00e1rias vezes, tive de trabalhar aqui no Itamaraty at\u00e9 \u00e0s 5 horas da manh\u00e3\u2026 e comparecer no outro dia j\u00e1 \u00e0s 9, para reuni\u00f5es que duravam o dia inteiro [\u2026] Assim, fiquei fora e longe de tudo o mais, nem me lembrava que eu era Guimar\u00e3es Rosa\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, Rafael aponta que, para o irromper do tempo criativo, aquele de que Rosa necessitava para escrever, \u00e9 preciso conseguir algum espa\u00e7o no tempo cotidiano \u201cO que n\u00e3o raro constitui uma luta, pois, o tempo cronol\u00f3gico tende a devorar o que estiver pela frente e, se puder, arrebata-nos de n\u00f3s mesmos.\u201d<\/p>\n<h3><b>Para concluir<\/b><\/h3>\n<p>Finalizando a defesa, realizada em 14\/05\/2019, no IPUSP, a orientadora, Prof. Sandra Maria Patr\u00edcio se pronunciou: \u201cAlguns podem perguntar, por que Psicologia Social? Porque \u00e9 um trabalho objetivo e profundo que traz, mesmo que de forma n\u00e3o expl\u00edcita, mas com conte\u00fado, temas que s\u00e3o, neste momento, fundamentais para o mundo: a brincadeira, o pacto e a despactua\u00e7\u00e3o, e a luta.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es:\u00a0rafasreis@uol.com.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por Caroline C. N. da Silva<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o: Islaine Maciel<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pesquisador Rafael de Santis Bastos defendeu sua disserta\u00e7\u00e3o\u00a0\u201cNascedouro no sert\u00e3o: um estudo sobre criatividade\u201d a partir de registros do&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":2689,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2684","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2684"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3217,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2684\/revisions\/3217"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2689"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}