{"id":3873,"date":"2020-09-22T13:20:24","date_gmt":"2020-09-22T15:20:24","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=3873"},"modified":"2023-02-17T11:30:58","modified_gmt":"2023-02-17T13:30:58","slug":"luto-na-pandemia-ausencia-do-ritual-de-despedida-gera-traumas-e-ate-patologias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/luto-na-pandemia-ausencia-do-ritual-de-despedida-gera-traumas-e-ate-patologias\/","title":{"rendered":"Luto na pandemia: Aus\u00eancia do ritual de despedida gera traumas e at\u00e9 patologias"},"content":{"rendered":"<p>A imagem de um jovem palestino que, em julho, escalava diariamente a fachada de um hospital para ver a m\u00e3e infectada com Covid-19, na cidade de Hebron, na Cisjord\u00e2nia, correu o mundo por meio das redes sociais. O rapaz n\u00e3o pode se despedir dela, que morreu, assim como os parentes das mais de 947 mil v\u00edtimas do novo coronav\u00edrus pelo mundo. A despedida de um corpo, por meio de um vel\u00f3rio, \u00e9 considerada essencial em algumas culturas \u2014 e algumas pessoas, independente da cren\u00e7a, precisam desse momento para racionalizar a morte do ente querido.\u00a0\u201cO vel\u00f3rio \u00e9 um ritual muito importante, que ajuda a trazer um ambiente de seguran\u00e7a no meio de\u00a0uma crise \u2014 que \u00e9 a perda de uma pessoa significativa.\u00a0O momento \u00e9 o espa\u00e7o de despedidas, de ver o corpo pela \u00faltima vez e de ter pessoas queridas por perto. A elabora\u00e7\u00e3o das perdas atualmente, durante a pandemia,\u00a0sofreu grandes interfer\u00eancias\u201d, explica<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3630610578226144\"> Maria Julia Kov\u00e1cs<\/a>, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos Sobre a Morte (LEM), do Instituto de Psicologia da USP.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, vel\u00f3rios e cerim\u00f4nias est\u00e3o proibidos por conta do risco de contamina\u00e7\u00e3o pelo novo coronav\u00edrus. Em geral, o caix\u00e3o \u00e9 lacrado e levado diretamente ao t\u00famulo ou \u00e0 crema\u00e7\u00e3o acompanhado por poucos familiares \u2014 no m\u00e1ximo 10. \u201cPodemos dizer que h\u00e1 s\u00e9rias perturba\u00e7\u00f5es nos\u00a0processos de luto e isso pode dificultar a elabora\u00e7\u00e3o das perdas. H\u00e1 uma previs\u00e3o de que muitas pessoas tenham seu sofrimento intensificado e dificuldade de se adaptar \u00e0 nova realidade sem a pessoa querida\u201d, completa Maria Julia. De acordo com ela, a perda est\u00e1 no n\u00edvel da consci\u00eancia e por isso traz tanto sofrimento.<\/p>\n<p>Segundo o m\u00e9dico psiquiatra Ewerton Teixeira, a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de rituais de despedida pode acarretar numa dificuldade tanto do processo de morrer, pelo doente, quanto \u00e0 experi\u00eancia e elabora\u00e7\u00e3o do luto. \u201cO vel\u00f3rio \u00e9 um espa\u00e7o seguro de express\u00e3o do sofrimento, al\u00e9m de um momento em que se pode receber afago de pessoas queridas e realizar a\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas de despedida. Os rituais s\u00e3o atos simb\u00f3licos que nos ajudam a expressar nossas emo\u00e7\u00f5es diante de uma perda, \u00e9 uma forma saud\u00e1vel de organizar nossas emo\u00e7\u00f5es, que est\u00e3o todas bagun\u00e7adas naquele momento. Portanto, todas essas limita\u00e7\u00f5es certamente t\u00eam um impacto negativo.\u201d<\/p>\n<p>Teixeira explica que, fora do contexto da pandemia, o ritual de despedida pode acontecer ainda antes do \u00f3bito. \u201c\u00c9 estimulada a resolu\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es mal resolvidas, compartilhamento de bons momentos vividos e pedidos de perd\u00e3o ou agradecimentos. Todo esse ritual auxilia tanto no processo de morrer quanto na elabora\u00e7\u00e3o do luto. Apesar do esfor\u00e7o dos profissionais de sa\u00fade em promover despedidas entre doentes e familiares atrav\u00e9s de videochamadas, por exemplo, muitos pacientes acabam morrendo sozinhos e sedados, conectados a dispositivos.\u201d Ele destaca a import\u00e2ncia de tentar, dentro das possibilidades, manter os rituais de alguma forma. \u201cUma sugest\u00e3o para aqueles que n\u00e3o puderem comparecer ao enterro \u00e9 pedir aos presentes, ou at\u00e9 mesmo \u00e0 funer\u00e1ria, que realize uma videochamada do momento \u2014 ou que alguma m\u00fasica seja tocada, alguma declara\u00e7\u00e3o lida e at\u00e9 algum objeto seja deixado.\u201d<\/p>\n<h3>Import\u00e2ncia dos ritos<\/h3>\n<p>No Brasil, um pa\u00eds com dimens\u00f5es continentais e tantas cren\u00e7as, cada religi\u00e3o dita rituais diferentes para o processo do vel\u00f3rio. Todas elas, sem exce\u00e7\u00f5es, tiveram que se readaptar ao contexto da Covid-19 e aprender a lidar com a morte de maneira diferente. \u201cOs ritos funer\u00e1rios existem em todas as culturas e s\u00e3o maneiras que n\u00f3s, como humanos, encontramos para enfrentar a finitude do corpo. Os rituais v\u00e3o ser diferentes de uma cultura pra outra, porque as maneiras de se expressar, os costumes, a hist\u00f3ria, s\u00e3o muito distintas\u201d, explica a antrop\u00f3loga e historiadora Andreia Vicente, professora da Unioeste. Segundo ela, de maneira geral, pode-se dizer que um funeral tem tr\u00eas objetivos: fazer o vivo entender a perda e dar descanso ao morto, ajudar a expressar os sentimentos e mostrar que, atrav\u00e9s de um ritual, a sociedade vence aquilo que \u00e9 invenc\u00edvel \u2014 a morte. Criar maneiras de entender que aquela pessoa n\u00e3o desapareceu, mas est\u00e1 em outro lugar.<\/p>\n<p>No catolicismo, religi\u00e3o de cerca de 50% dos brasileiros, de acordo com uma pesquisa do Datafolha divulgada no in\u00edcio de 2020, os vel\u00f3rios s\u00e3o marcados pela presen\u00e7a de velas, ter\u00e7os, rezas e hist\u00f3rias sobre o ente falecido \u2014 al\u00e9m da realiza\u00e7\u00e3o de missa de 7 \u00ba dia e de um m\u00eas, que tem o objetivo de auxiliar na passagem do esp\u00edrito para o c\u00e9u ou inferno, e a ida aos t\u00famulos no dia de Finados. \u201cVoc\u00ea homenageia o morto e d\u00e1 aos vivos o momento de tomar consci\u00eancia de que aquela morte aconteceu\u201d, explica Andreia. No entanto, para outros crist\u00e3os \u00e9 um processo distinto. Para os protestantes e evang\u00e9licos, por exemplo, as ora\u00e7\u00f5es feitas s\u00e3o para os vivos aceitarem a perda \u2014 n\u00e3o ao morto \u2014 e velas n\u00e3o costumam ser acesas.<\/p>\n<p>J\u00e1 para os esp\u00edritas, que acreditam na reencarna\u00e7\u00e3o, o morto sempre vai estar no entorno dos vivos. \u201cEm geral, nessas cerim\u00f4nias, \u00e9 trabalhada a serenidade, a paz e o desapego, para que a pessoa falecida possa encontrar o caminho da luz e renascer. Os ritos visam dar ao morto a condi\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o esteja apegado ao mundo dos vivos e aceite seu novo lugar. Isso se expressa na conten\u00e7\u00e3o dos sentimentos. Por isso vemos um sofrimento entre os vivos que, apesar de existir, \u00e9 mais contido\u201d, explica a antrop\u00f3loga e historiadora.<\/p>\n<p>Se no universo urbano o ritual funer\u00e1rio \u00e9 curto \u2014 dura, em m\u00e9dia, 24 horas entre morte, vel\u00f3rio, prociss\u00e3o e enterro \u2013, para os ind\u00edgenas, o rito \u00e9 totalmente diferente. Entre os boror\u00f3s, no Mato Grosso, por exemplo, o vel\u00f3rio pode durar tr\u00eas meses e se divide em v\u00e1rias partes. \u201cAntes mesmo da pessoa estar fisicamente morta, os familiares j\u00e1 pintam o rosto, cabelo e corpo do moribundo na prepara\u00e7\u00e3o para a nova posi\u00e7\u00e3o dele. Ap\u00f3s a morte, o corpo \u00e9 enterrado em cova rasa \u2014 e um bom tempo depois, quando os ossos est\u00e3o limpos, eles s\u00e3o lavados em um rio e jogados em uma ba\u00eda. S\u00f3 assim, conforme a cultura, o morto est\u00e1 definitivamente enterrado. O \u2018segundo enterro\u2019 \u00e9 muito comum nas comunidades ind\u00edgenas porque marca a transforma\u00e7\u00e3o de pessoa em ancestral\u201d, conta Andreia Vicente.<\/p>\n<p>J\u00e1 em religi\u00f5es afro-brasileiras, como o candombl\u00e9, o momento do vel\u00f3rio \u00e9 marcado por desfazer o ritual de feitura do santo \u2014 que acontece na inicia\u00e7\u00e3o da pessoa na religi\u00e3o. \u201c\u00c9 um ritual muito importante; retirar o santo que foi colocado da cabe\u00e7a do morto. Para isso voc\u00ea corta o cabelo, lava a cabe\u00e7a e, na cerim\u00f4nia, transfere o santo para alguns objetos\u201d, explica a professora. Em geral, o ritual afro-brasileiro \u00e9 mais complexo, porque depende de quanto tempo a pessoa \u00e9 iniciada na religi\u00e3o e da gradua\u00e7\u00e3o dentro do terreiro. As cerim\u00f4nias internas continuam e v\u00e1rias festas s\u00e3o realizadas ap\u00f3s meses e at\u00e9 anos depois do \u00f3bito.<\/p>\n<h3>O Luto<\/h3>\n<p>Para explicar o luto, \u00e9 importante destacar que ele, em si, n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a \u2014 mas pode se tornar patol\u00f3gico a depender da hist\u00f3ria pr\u00e9via do indiv\u00edduo e do contexto. Nesses casos, s\u00e3o esperados quadros de estresse cr\u00f4nico, que pode culminar em doen\u00e7as ps\u00edquicas como ansiedade e depress\u00e3o, e at\u00e9 levar a patologias cl\u00ednicas, como: taquicardia, sensa\u00e7\u00e3o de aperto no peito, tonturas, altera\u00e7\u00e3o no humor e dificuldades de concentra\u00e7\u00e3o. \u201cCada pessoa assimila perdas e traumas de uma forma diferente, e isso \u00e9 extremamente individual. N\u00e3o existe uma regra, e depende muito de caracter\u00edsticas pr\u00f3prias ligadas \u00e0 personalidade, resili\u00eancia e ao tipo e intensidade do trauma vivido\u201d, diz o psiquiatra.<\/p>\n<p>Em 1969, a psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross publicou um livro chamado <em>Sobre a morte e o morrer<\/em>, onde descreveu cinco est\u00e1gios do luto. S\u00e3o eles: nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se fala mais neles, porque o processo \u00e9 visto de forma individual. \u201cN\u00e3o trabalhamos mais com eles porque acabam sendo vistos como um modelo que todos t\u00eam que passar. Quem n\u00e3o passa, \u00e9 considerado como tendo um luto anormal. \u00c9 mais importante ver como cada pessoa vive o seu processo de luto, como lida com seus sentimentos e como organiza a vida sem a pessoa querida. \u00c9 um processo que segue um caminho pr\u00f3prio para cada pessoa\u201d, diz Maria Julia, coordenadora do LEM.<\/p>\n<p>O psiquiatra refor\u00e7a: \u201cO luto n\u00e3o pode ser encarado como um processo linear e ocorre de maneira muito particular em cada indiv\u00edduo, que pode passar por todas as fases ou por nenhuma, ou por alguma fase mais de uma vez. Portanto, faz mais sentido se pensar nele como um processo adaptativo do que dividi-lo em est\u00e1gios. \u00c9 importante vivenciar o processo como um todo da forma como ele se apresentar. N\u00e3o necessariamente o indiv\u00edduo vai passar por todas as fases \u2014 e n\u00e3o h\u00e1 problema nisso. O luto chamado normal n\u00e3o tem um tempo espec\u00edfico de dura\u00e7\u00e3o, e sua resolu\u00e7\u00e3o necessariamente envolve algumas ressignifica\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 perda, aceita\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o ao novo contexto.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por Camila Corsini<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A imagem de um jovem palestino que, em julho, escalava diariamente a fachada de um hospital para ver a m\u00e3e&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":3877,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-3873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3873"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4860,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3873\/revisions\/4860"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}