{"id":4139,"date":"2021-05-10T12:22:35","date_gmt":"2021-05-10T14:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=4139"},"modified":"2023-02-16T12:52:28","modified_gmt":"2023-02-16T14:52:28","slug":"em-tempo-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/em-tempo-real\/","title":{"rendered":"Em tempo real"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"4139\" class=\"elementor elementor-4139\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-b8a3344 elementor-section-full_width elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"b8a3344\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-c4b5563\" data-id=\"c4b5563\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-f2e74b1 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"f2e74b1\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>Por\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/autor\/ana-paula-orlandi\/\">Ana Paula Orlandi<\/a><\/p><p>\u201cVivemos momentos de tantas incertezas, nos sentimos sufocados e presos em uma am\u00e1lgama de informa\u00e7\u00f5es, sentimentos, ansiedades e esperas. Esperamos que tudo passe logo. Esperamos que n\u00e3o nos infectemos com o v\u00edrus, nem a quem amamos. Esperamos que tudo volte \u00e0 normalidade. Esperamos que nossos governantes possam se solidarizar com a popula\u00e7\u00e3o e agir em favor da vida. Esperamos que as pessoas n\u00e3o morram de fome sem nenhum recurso financeiro.\u201d Assim come\u00e7a o texto\u00a0<em>Reflex\u00f5es em um dia frio<\/em>, assinado por Patricia Fabiana Crosara, moradora da cidade de Ribeir\u00e3o Preto (SP), que pode ser lido na plataforma #Mem\u00f3riasCovid19, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). \u201cTrata-se de um arquivo virtual voltado a\u0300 coleta, identifica\u00e7\u00e3o, processamento e difus\u00e3o de olhares sobre a pandemia\u201d, explica a historiadora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3182773912575792\">Ana Carolina de Moura Delfim Maciel<\/a>, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Multimeios da institui\u00e7\u00e3o e respons\u00e1vel pela iniciativa. \u201cA ideia \u00e9 compor uma \u2018arqueologia\u2019 digital dessa experi\u00eancia para al\u00e9m de dados e n\u00fameros, mas pautada pelas emo\u00e7\u00f5es e percep\u00e7\u00f5es individuais.\u201d<\/p><p>Lan\u00e7ada no ano passado, a plataforma bil\u00edngue (ingl\u00eas e portugu\u00eas), desenvolvida no \u00e2mbito de projeto tem\u00e1tico apoiado pela FAPESP, recebeu at\u00e9 agora 294 relatos, n\u00e3o apenas na forma de textos po\u00e9ticos ou factuais, mas tamb\u00e9m de fotografias, ilustra\u00e7\u00f5es, \u00e1udios e v\u00eddeos oriundos de v\u00e1rias regi\u00f5es brasileiras e de pa\u00edses como Fran\u00e7a, Equador e Canad\u00e1. Depois de terem sido selecionadas por uma equipe de nove curadores de distintas \u00e1reas do saber como antropologia, artes visuais e hist\u00f3ria, cerca de 180 dessas produ\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis no site. Segundo Maciel, o objetivo da curadoria \u00e9, sobretudo, garantir que os relatos veiculados pela plataforma reflitam uma diversidade de experi\u00eancias e contemplem distintos suportes. \u201cQualquer pessoa pode participar: n\u00e3o existe restri\u00e7\u00e3o de idade, escolaridade ou profiss\u00e3o\u201d, afirma a historiadora, que, entretanto, observa no site o predom\u00ednio de testemunhos de mulheres (55%) e estudantes (41,6%). A plataforma, que permanece recebendo relatos, tamb\u00e9m abarca interesses variados. \u201cTem gente que encontra na plataforma um espa\u00e7o para desabafos e confid\u00eancias sobre como est\u00e1 lidando com a ang\u00fastia do isolamento, a dor do luto ou mesmo com abusos, visto que os \u00edndices de viol\u00eancia dom\u00e9stica cresceram muito na pandemia. \u00c9 poss\u00edvel, inclusive, manter o anonimato do relato. Outros utilizam a plataforma para expressar posicionamentos pol\u00edticos ou ent\u00e3o para compartilhar produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas\u201d, conta Maciel.<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-8610eb6 elementor-section-full_width elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"8610eb6\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-3602f48\" data-id=\"3602f48\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ce34a2f elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"ce34a2f\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"514\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140-1024x731.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-4141\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140-1024x731.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140-300x214.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140-768x548.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140-400x286.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-2-1140.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Foto de Guarabira Gra\u00e7a Dias, morador de Natal (RN), integra o projeto pessoal Solid\u00e3o compartilhada e pode ser vista na plataforma<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-55eb221 elementor-section-full_width elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"55eb221\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-bb231f8\" data-id=\"bb231f8\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-88b228d elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"88b228d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>Na opini\u00e3o da historiadora Katia Couto, do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e uma das curadoras da plataforma, o conte\u00fado do site perpassa v\u00e1rios momentos hist\u00f3ricos. \u201cEle serve tanto para conectar indiv\u00edduos em meio a\u0300 pandemia quanto para criar um espa\u00e7o de mem\u00f3ria coletiva, que pode se configurar em fonte de pesquisa no futuro\u201d, observa. O escritor Daniel Munduruku, tamb\u00e9m curador da plataforma, completa: \u201cN\u00e3o estamos reunindo os registros oficiais, produzidos pelos governantes, mas, a meu ver, um registro muito mais potente, que \u00e9 a mem\u00f3ria de pessoas comuns que est\u00e3o sentindo na pele o drama da pandemia em seu dia a dia. A mem\u00f3ria serve para nos lembrar quem somos, o que vivemos e o que fazemos neste mundo. Ela se constr\u00f3i no presente e nos d\u00e1 for\u00e7a para resistir\u201d.<\/p><p>Um mapeamento divulgado em agosto do ano passado pelo blog da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Hist\u00f3ria P\u00fablica (IFPH) listou cerca de 500 iniciativas no mundo que buscavam reunir relatos pessoais sobre a pandemia da Covid-19. Oito delas estavam no Brasil, a exemplo do projeto Testemunhos do Isolamento, desenvolvido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) e inspirado em experi\u00eancias internacionais como da Associa\u00e7\u00e3o P\u00fablica dos Historiadores de Nova York e do Arquivo Municipal de Barcelona. \u201c\u00c9 uma mem\u00f3ria produzida em tempo real durante esse momento traum\u00e1tico de alcance global\u201d, constata Maciel, que atualmente prepara um livro com a meta de reunir parte dos relatos recebidos pelo projeto #Mem\u00f3riasCovid19. \u201cMesmo que n\u00e3o seja interativo como a plataforma digital, o livro \u00e9 um registro perene. J\u00e1 estamos refletindo como salvaguardar esse conte\u00fado virtual reunido pela plataforma em raz\u00e3o das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas cada vez mais \u00e1geis.\u201d<\/p><p>Para o historiador Ricardo dos Santos Batista, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), o cen\u00e1rio interconectado impacta o papel do historiador contempor\u00e2neo. \u201cO historiador n\u00e3o pode ser apenas aquele intelectual que se refugia nos arquivos documentais, e a chegada da Covid-19 deixou isso claro. Com a pandemia, houve a necessidade de revisitar hist\u00f3rias sobre epidemias para iluminar o presente e questionar as\u00a0<em>fake news<\/em>, como tamb\u00e9m para entender uma hist\u00f3ria do tempo presente, que pode ser conhecida pelos relatos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, como jornais, sites e redes sociais\u201d, analisa Batista, autor de artigo a respeito do tema, publicado no livro\u00a0<em>Sobre a pandemia: Experi\u00eancias, tempos e reflex\u00f5es<\/em>\u00a0(editora Hucitec, 2021). Tal percep\u00e7\u00e3o, diz, vai ao encontro do conceito de hist\u00f3ria p\u00fablica, que surgiu nos Estados Unidos, na d\u00e9cada de 1970. \u201cA hist\u00f3ria p\u00fablica reconhece que os historiadores n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos construtores e divulgadores da disciplina. Os indiv\u00edduos aprendem hist\u00f3ria em suas rela\u00e7\u00f5es familiares, no ambiente escolar e pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, por exemplo.\u201d<\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-aed5d40 elementor-section-full_width elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"aed5d40\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-4aa62ed\" data-id=\"4aa62ed\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2a696b9 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"2a696b9\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figure class=\"wp-caption\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"514\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140-1024x731.jpg\" class=\"attachment-large size-large wp-image-4140\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140-1024x731.jpg 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140-300x214.jpg 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140-768x548.jpg 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140-400x286.jpg 400w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2021\/05\/032-035_covid_memoria-e-luto_303-1-1140.jpg 1140w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<figcaption class=\"widget-image-caption wp-caption-text\">Desenho feito por Eduarda Prado, que vive em Fortaleza (CE), encaminhado \u00e0 plataforma. Segundo a autora, a inspira\u00e7\u00e3o veio do livro Eu me chamo Ant\u00f4nio, de Pedro Gabriel (Intr\u00ednseca, 2013)<\/figcaption>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/figure>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-1e1a739 elementor-section-full_width elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"1e1a739\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-5d4fb0f\" data-id=\"5d4fb0f\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-662fda4 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"662fda4\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p>Embora a internet tenha impulsionado a dissemina\u00e7\u00e3o de relatos em tempo real, n\u00e3o vem de hoje a necessidade de registrar as experi\u00eancias pessoais perante um trauma coletivo, como guerras e crises sanit\u00e1rias. \u201cNo in\u00edcio do s\u00e9culo passado, as perdas, medos e anseios eram, em geral, compartilhados de forma restrita e particular\u201d, conta Batista. Na pesquisa de p\u00f3s-doutorado que desenvolve na Faculdade de Medicina Preventiva da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ele investiga o surto de febre amarela na Bahia e a atua\u00e7\u00e3o do laborat\u00f3rio criado, em Salvador, pela Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller na d\u00e9cada de 1920. \u201cDurante a pesquisa encontrei di\u00e1rios em que os cientistas anotavam as dificuldades e os conflitos vividos em seu cotidiano\u201d, prossegue Batista. \u201cA quantidade de registros pessoais que temos daquela \u00e9poca \u00e9 infinitamente menor em rela\u00e7\u00e3o aos dias de hoje, acelerados e abarrotados de informa\u00e7\u00e3o. Resta saber como n\u00f3s, historiadores, vamos conseguir lidar com esse gigantesco volume de relatos produzidos durante a pandemia da Covid-19.\u201d<\/p><p>H\u00e1 cerca de um ano, o psicanalista\u00a0<strong>Paulo Cesar Endo, do Instituto de Psicologia (IP) da USP<\/strong>, desenvolve juntamente com outros seis pesquisadores o \u201cInvent\u00e1rio de sonhos 2 \u2013 Sonhos de pandemia\u201d, investiga\u00e7\u00e3o vinculada a projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP. Desde mar\u00e7o de 2020, o levantamento j\u00e1 reuniu 1.200 relatos de sonhos pand\u00eamicos, sempre na forma de texto, que devem ser publicados anonimamente no site do Museu da Pessoa. \u201cA ideia n\u00e3o \u00e9 interpretar esses sonhos, porque, como dizia Freud, o melhor int\u00e9rprete do sonho \u00e9 o pr\u00f3prio sonhador\u201d, explica Endo. \u201cO que o acervo pretende \u00e9 reunir formas criativas de pensamento sobre essa dura experi\u00eancia que estamos vivendo e mostrar como os sonhos podem ampliar nossa percep\u00e7\u00e3o sobre o momento atual, al\u00e9m de criar um banco de dados in\u00e9dito que possa ser acessado por interessados em investigar o contexto da pandemia. Os sonhos s\u00e3o sism\u00f3grafos do tempo presente, como j\u00e1 definiu a jornalista Charlotte Beradt, autora do livro\u00a0<em>Sonhos no Terceiro Reich<\/em>\u00a0[editora Tr\u00eas Estrelas, 2017].\u201d Outro objetivo do projeto \u00e9 mostrar que cada indiv\u00edduo \u00e9 um ser \u00fanico, com suas mem\u00f3rias, sonhos e expectativas. \u201cA morte n\u00e3o pode ser banalizada. Quando uma pessoa morre leva com ela esse reposit\u00f3rio particular e irreprodut\u00edvel de significados\u201d, observa o psicanalista.<\/p><p>Em raz\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias impostas pela pandemia, morrer se tornou um ato mais solit\u00e1rio. Sem os ritos, as despedidas ficaram incompletas e dram\u00e1ticas, sublinha o pesquisador. \u201cA pandemia vem deixando um rastro de perdas, lutos inconclusos e saudades repletas de vazios. Estamos passando por uma s\u00e9rie imensur\u00e1vel de processos muito lesivos e com potencial altamente traum\u00e1tico em nossas vidas\u201d, aponta. O luto constitui aspecto fundamental da elabora\u00e7\u00e3o de perdas significativas, corrobora a psic\u00f3loga\u00a0<strong>Maria J\u00falia Kov\u00e1cs, do IP-USP e fundadora do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte (LEM)<\/strong>, daquela institui\u00e7\u00e3o. \u201cE n\u00e3o estamos falando apenas da morte de pessoas queridas. Circunst\u00e2ncias que desorganizam nossa rotina, como adoecer, ficar desempregado ou precisar abandonar a p\u00e1tria, tamb\u00e9m trazem grande sofrimento ps\u00edquico\u201d, observa. Nesses momentos, registrar as pr\u00f3prias mem\u00f3rias, sonhos e experi\u00eancias pode ser uma forma de processar a situa\u00e7\u00e3o vivida. \u201cA imagina\u00e7\u00e3o que se exerce na escrita nunca foi t\u00e3o necess\u00e1ria\u201d, conclui Endo.<\/p><hr \/><p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><strong>Projetos<\/strong><br \/><strong>1.<\/strong>\u00a0Coletar, identificar, processar, difundir: O ciclo curatorial e a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/98722\/coletar-identificar-processar-difundir-o-ciclo-curatorial-e-a-producao-do-conhecimento\/?q=17\/07366-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 17\/07366-1<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Projeto Tem\u00e1tico;\u00a0<strong>Pesquisadora respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Ana Gon\u00e7alves Magalh\u00e3es;\u00a0<strong>Investimento<\/strong> R$ 3.598.403,24.<\/p><p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><br \/><strong>2.<\/strong>\u00a0Sonhar o trauma, sobreviver \u00e0s cat\u00e1strofes, resistir ao desaparecimento: Um estudo comparativo sobre os sonhos de ex-prisioneiros do campo de Auschwitz e dos sonhos das v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado durante a ditadura civil-militar no Brasil (<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/106145\/sonhar-o-trauma-sobreviver-as-catastrofes-resistir-ao-desaparecimento-um-estudo-comparativo-sobre-os\/?q=19\/10946-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00ba 19\/10946-5<\/a>);\u00a0<strong>Modalidade<\/strong>\u00a0Aux\u00edlio \u00e0 Pesquisa \u2013 Regular;\u00a0<strong>Pesquisador respons\u00e1vel<\/strong>\u00a0Paulo Cesar Endo;\u00a0<strong>Investimento<\/strong>\u00a0R$ 95.044,34.<\/p><p class=\"bibliografia\"><strong>Livro<\/strong><br \/>MOTA, A. (org.) Sobre a pandemia: Experi\u00eancias, tempos &amp; reflex\u00f5es. S\u00e3o Paulo:\u00a0<strong>Hucitec<\/strong>, 2021.<\/p><p>Publicado originalmente em<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/em-tempo-real-2\/\">\u00a0Pesquisa FAPESP<\/a><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciativas acad\u00eamicas recolhem relatos pessoais sobre mem\u00f3rias e lutos vivenciados ao longo da pandemia. Entre os entrevistados, est\u00e3o os professores Paulo C\u00e9sar Endo e Maria J\u00falia Kov\u00e1cs, do IPUSP, os quais falam sobre sonhos e luto durante a pandemia, respectivamente. <\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":4140,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[427],"tags":[429],"class_list":["post-4139","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-covid-19","tag-painel-o-ipusp-e-a-covid-19"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4139"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4139\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4836,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4139\/revisions\/4836"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}