{"id":4632,"date":"2022-12-06T11:52:52","date_gmt":"2022-12-06T13:52:52","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=4632"},"modified":"2023-02-16T11:46:59","modified_gmt":"2023-02-16T13:46:59","slug":"maria-cristina-kupfer-desvendando-a-mente-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/maria-cristina-kupfer-desvendando-a-mente-infantil\/","title":{"rendered":"Maria Cristina Kupfer: Desvendando a mente infantil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_4633\" style=\"width: 1148px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4633\" class=\"wp-image-4633 size-full\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer.png\" alt=\"\" width=\"1138\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer.png 1138w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer-300x167.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer-1024x571.png 1024w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer-768x429.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer-310x174.png 310w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2022\/12\/kupfer-400x223.png 400w\" sizes=\"(max-width: 1138px) 100vw, 1138px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4633\" class=\"wp-caption-text\">L\u00e9o Ramos Chaves \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/p><\/div>\n<p><strong>Idade:<\/strong> 71 anos<br \/>\nEspecialidade: Psicologia e psican\u00e1lise<br \/>\n<strong>Institui\u00e7\u00e3o:<\/strong> Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<br \/>\n<strong>Forma\u00e7\u00e3o:<\/strong> Gradua\u00e7\u00e3o (1974), mestrado (1982) e doutorado (1990) em psicologia na USP<br \/>\n<strong>Produ\u00e7\u00e3o:<\/strong> 88 artigos cient\u00edficos, 3 livros, 17 obras organizadas e 66 cap\u00edtulos de livros. Orientou e supervisionou mais de 80 projetos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutorado. Fundou o Lugar de Vida, refer\u00eancia em atendimentos para crian\u00e7as autistas e psic\u00f3ticas.<\/p>\n<p>Por: Christina Queiroz<\/p>\n<p>Em uma trajet\u00f3ria constru\u00edda entre o universo da pesquisa acad\u00eamica e atendimentos cl\u00ednicos, a psic\u00f3loga e psicanalista <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6538542826518180\">Maria Cristina Machado Kupfer<\/a>, do Instituto de Psicologia e da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (IP-FE-USP), desenvolveu na d\u00e9cada de 1990 o conceito de educa\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, que tem propiciado a inclus\u00e3o de crian\u00e7as psic\u00f3ticas e autistas na sociedade por meio de atendimentos em grupo, conjugados com atividades escolares. Perseguida durante a ditadura militar (1964-1985) por sua atua\u00e7\u00e3o no movimento estudantil, Kupfer, que foi professora convidada na Universit\u00e9 Paris Nanterre, na Fran\u00e7a, levou sua preocupa\u00e7\u00e3o com o social e o coletivo para o trabalho na psicologia.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas, a base de suas pesquisas e atendimentos cl\u00ednicos envolve o trabalho em grupo com crian\u00e7as de distintas faixas et\u00e1rias e quest\u00f5es ps\u00edquicas. Ao enxergar o autismo como um modo de ser, e n\u00e3o um transtorno, a pesquisadora trata das diverg\u00eancias existentes, no Brasil, entre psican\u00e1lise e disciplinas como a neuroci\u00eancia e a psiquiatria. Em alguns casos, defende ela, a busca por estrat\u00e9gias que propiciem aos autistas o estabelecimento de la\u00e7os sociais pode ser mais eficiente do que o uso de medicamentos.<\/p>\n<p>Paulistana, m\u00e3e de dois filhos e av\u00f3 de quatro netas, ao coordenar o desenvolvimento de indicadores para padronizar atendimentos psicanal\u00edticos, Kupfer estabeleceu pontes entre o conhecimento acad\u00eamico e a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 sa\u00fade mental infantil. Nesta entrevista, concedida para\u00a0<em>Pesquisa FAPESP<\/em>\u00a0em duas sess\u00f5es, uma presencial e outra por videoconfer\u00eancia, ela fala sobre a import\u00e2ncia do desenvolvimento de pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es que permitam ampliar a inser\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com defici\u00eancia em escolas regulares.<\/p>\n<h3>De onde vem seu interesse por crian\u00e7as?<\/h3>\n<p>Sou filha de professores ligados \u00e0 cultura francesa. Minha m\u00e3e era professora de franc\u00eas e meu pai pianista e professor de hist\u00f3ria da arte. Eu e duas das minhas quatro irm\u00e3s estudamos em escola francesa. Isso foi marcante, porque me trouxe um modo espec\u00edfico de estruturar o pensamento e a escrita. O fato de sermos cinco mulheres e de termos vivido em grupo durante a inf\u00e2ncia tamb\u00e9m foi importante. A inf\u00e2ncia marca as escolhas e a vida futura. Tive uma forma\u00e7\u00e3o que privilegia o coletivo, o social, a igualdade. O gosto que tenho por desenvolver trabalhos em grupo, na psican\u00e1lise, vem desse legado familiar. Outra experi\u00eancia marcante foi a conviv\u00eancia, durante a inf\u00e2ncia, com um menino autista, filho de uma amiga de minha m\u00e3e. Eu n\u00e3o entendia o que acontecia com aquele menino, que tinha a mesma idade que eu, mas n\u00e3o brincava com a gente. Tenho clareza de que foi ele quem despertou em mim a curiosidade e, de alguma forma, mais tarde influenciou meus interesses de pesquisa. H\u00e1 60 anos, n\u00e3o se viam autistas na rua, diferentemente dos tempos atuais. Eles costumavam ficar dentro de casa.<\/p>\n<h3>A senhora tem filhos?<\/h3>\n<p>Sim. Conheci meu marido, o jornalista Jos\u00e9 Paulo Kupfer, em um passeio pelo rio S\u00e3o Francisco, no Nordeste. Nos casamos em 1972, temos dois filhos que nos deram quatro netas. Em 1973, quando eu estava no pen\u00faltimo ano da gradua\u00e7\u00e3o no Instituto de Psicologia da USP, fomos morar do lado de uma colega de faculdade. Eu n\u00e3o sabia, mas ela estava sendo procurada por agentes do governo militar, por causa de sua participa\u00e7\u00e3o na luta armada. Acabamos presos.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Na ditadura, fui presa e torturada. Meu pai me mandou uma rosa, porque n\u00e3o queria que eu esquecesse da civilidade humana.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3>Voc\u00eas tinham alguma milit\u00e2ncia pol\u00edtica?<\/h3>\n<p>Meu marido tinha tido alguma atividade pol\u00edtica no Rio de Janeiro, mas n\u00e3o na luta armada, e eu frequentava o movimento estudantil. Um dia, agentes da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes [Oban] levaram n\u00f3s tr\u00eas presos. Ficamos encarcerados durante semanas na sede da Oban, em S\u00e3o Paulo. Passei por choques e outras coisas. Mesmo depois de j\u00e1 ter sido submetida ao terror, demorei a ser liberada porque achavam que eu poderia avisar outras pessoas que estavam sendo procuradas. Um dos torturadores que comandavam as sess\u00f5es era um homem supostamente crist\u00e3o, porque assim se declarava. Crist\u00e3o e torturador, ao mesmo tempo, como se isso fosse poss\u00edvel. Quando meus pais descobriram onde eu estava presa, minha m\u00e3e enviou coisas que achava importantes, como itens de higiene pessoal e roupas. Meu pai me mandou uma rosa. Ao tomar conhecimento desse fato, esse torturador se sentiu profundamente tocado. Depois disso, durante todo o tempo em que permaneci presa, ele passou a recitar poemas diariamente para mim. Eu tinha 21 anos e sentia uma raiva imensa de ter de ouvir o homem que, dias antes, havia comandado as sess\u00f5es em que fui torturada com choques el\u00e9tricos. A entrada de uma flor naquele cen\u00e1rio de terror, persegui\u00e7\u00f5es e pessoas morrendo foi muito marcante. A gente n\u00e3o come nem veste uma rosa, mas meu pai n\u00e3o queria que eu esquecesse da civilidade humana. Com esse gesto, ele indicou um caminho para me fortalecer diante do horror que foram os anos da ditadura. Essa hist\u00f3ria me marcou muito. Esta \u00e9 a primeira vez que falo publicamente sobre isso.<\/p>\n<h3>Quanto tempo ficou presa?<\/h3>\n<p>Duas semanas. Meu marido ficou um pouco mais. Os agentes da repress\u00e3o estavam interessados em \u201cinvestigar\u201d as guerrilhas e os movimentos armados. Minha vizinha ficou muito mais tempo e apanhou muito. Quando saiu, foi direto para o ex\u00edlio. Nunca mais voltou para o Brasil.<\/p>\n<h3>Quando a senhora descobriu sua voca\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise e a educa\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p>Conclu\u00ed a gradua\u00e7\u00e3o em psicologia no Instituto de Psicologia da USP em 1974. Logo em seguida houve um concurso para professor na \u00e1rea de psicologia escolar no IP. N\u00e3o tinha muita clareza se gostaria de ser pesquisadora porque havia tido uma experi\u00eancia negativa com a coordena\u00e7\u00e3o de um grupo durante a faculdade. Poderia ter desistido da carreira acad\u00eamica depois de me formar, mas n\u00f3s sabemos que a verdadeira voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquela em que necessariamente voc\u00ea se sai melhor, mas aquele terreno que apresenta obst\u00e1culos, enigmas e desafios. Fui aprovada no concurso em 1975, mas levei anos para me enxergar como pesquisadora e ser reconhecida como tal. Quando realizei um semin\u00e1rio para a Associa\u00e7\u00e3o Analyse Freudienne, de Paris, da qual sou membro, o diretor disse: \u201cTemos diante de n\u00f3s uma verdadeira pesquisadora\u201d. Sempre quis trabalhar com educa\u00e7\u00e3o e acabei indo para a psicologia porque pensava que ela me daria mais instrumentos para lidar com crian\u00e7as. Em 1998 fundei, com o psicanalista Leandro de Lajonqui\u00e8re, o Laborat\u00f3rio de Estudos e Pesquisas Psicanal\u00edticas e Educacionais sobre a Inf\u00e2ncia [Lepsi], na USP. Desde ent\u00e3o, esse campo de estudo n\u00e3o parou de crescer.<\/p>\n<h3>A senhora tem trabalhos de refer\u00eancia com crian\u00e7as autistas. Como definir o autismo?<\/h3>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Americana de Psiquiatria define os autistas como pessoas com problemas de comunica\u00e7\u00e3o, inclus\u00e3o social e padr\u00f5es restritos e repetitivos de comportamento. O autismo tem origem neurol\u00f3gica. Geralmente psiquiatras e neurologistas entendem os autistas de forma determinista. Ou seja, para grande parte deles, a partir do momento em que a crian\u00e7a apresenta esse transtorno em seu neurodesenvolvimento, seu destino como autista est\u00e1 selado. Eles enxergam o autismo como um transtorno, uma doen\u00e7a, que deve ser tratada com rem\u00e9dios e reeduca\u00e7\u00e3o. Os psicanalistas concordam que o autismo \u00e9 um transtorno envolvendo o desenvolvimento neurol\u00f3gico. Mas, a partir dessa defini\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, acrescentamos uma dimens\u00e3o a mais: a ps\u00edquica. Afirmamos que todo ser humano tem um corpo que se desenvolve e um psiquismo que se constr\u00f3i nesse corpo.<\/p>\n<h3>Psiquiatras e neurologistas refutam essa abordagem?<\/h3>\n<p>Alguns argumentam que pesquisas relacionadas \u00e0 mente n\u00e3o s\u00e3o claras e oferecem poucas evid\u00eancias que permitam afirmar que constru\u00edmos um aparelho mental, ou a mente. A psican\u00e1lise se dedica h\u00e1 mais de 100 anos a estudar a constru\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico e tentamos entender como ele se desenvolve em um autista. \u00c9 um desenvolvimento diferente do modo como estamos acostumados a ver em pessoas n\u00e3o autistas. Os psicanalistas entendem que o autismo \u00e9 um modo de ser e n\u00e3o uma doen\u00e7a. A psican\u00e1lise compreende que a constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica \u00e9 feita a partir da rela\u00e7\u00e3o com o outro, ou seja, ela n\u00e3o \u00e9 determinada apenas por aspectos biol\u00f3gicos. Isso significa que o autismo n\u00e3o adv\u00e9m somente de problemas no desenvolvimento neurol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m decorre dos desafios relacionados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Entendemos o autismo como um modo de ser e n\u00e3o uma doen\u00e7a. Ele tem origem neurol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m decorre da constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3>Como o aparelho ps\u00edquico se desenvolve em uma pessoa autista?<\/h3>\n<p>A psican\u00e1lise trabalha com a ideia de que o psiquismo do ser humano se constr\u00f3i por meio da rela\u00e7\u00e3o com o outro. E os problemas no desenvolvimento neurol\u00f3gico em autistas atrapalham a rela\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a com o outro. Por isso, essa rela\u00e7\u00e3o precisa se constituir de um modo diferente daquele que funciona com outras crian\u00e7as. Os autistas recebem est\u00edmulos sem filtro, n\u00e3o conseguem se integrar a grupos e t\u00eam dificuldades de linguagem. Eles est\u00e3o no mundo, querem estar, mas n\u00e3o podem e fogem dele o tempo todo. Com isso, as trocas s\u00e3o falhas e a crian\u00e7a autista n\u00e3o consegue entrar em contato ativo com outras pessoas, n\u00e3o responde nem oferece est\u00edmulos aos outros. Sua constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica se baseia na repeti\u00e7\u00e3o, regularidade, mesmice ou imutabilidade. Eles criam um mundo inflex\u00edvel e tudo o que desarranja a ordem os incomoda muito. Por isso, sua constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica \u00e9 fruto da dificuldade de estar com os outros no mundo. E, se eu entendo o autismo como uma constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, n\u00e3o posso cham\u00e1-lo de doen\u00e7a.<\/p>\n<h3>Se n\u00e3o se trata de uma doen\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel falar em cura?<\/h3>\n<p>A psican\u00e1lise trabalha com a ideia de que o autista elabora seu aparelho ps\u00edquico para se defender da grande dificuldade que tem de estar com os outros e busca fazer com que a pessoa crie la\u00e7os sociais sem sofrer. N\u00e3o se trata de uma busca pela cura, ou seja, n\u00f3s n\u00e3o buscamos tirar uma crian\u00e7a do autismo. A estrutura do autismo vai prosseguir por toda a vida, mas pode ficar mais leve por meio de tratamentos terap\u00eauticos que ajudem o indiv\u00edduo a melhorar sua defesa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ang\u00fastia de estar com os outros.<\/p>\n<h3><strong>Quem foram os pioneiros na pesquisa sobre o autismo?<\/strong><\/h3>\n<p>No s\u00e9culo XIX, quando a psiquiatria se desenvolveu, ainda n\u00e3o se falava em autismo porque as pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o eram colocadas de forma gen\u00e9rica no rol de pessoas com defici\u00eancia. Em 1846, foram feitos os primeiros estudos para identificar diferencia\u00e7\u00f5es entre as defici\u00eancias. Foi s\u00f3 em 1943, com os estudos do austr\u00edaco Leo Kanner [1894-1981], que se come\u00e7ou a falar em autismo. Radicado nos Estados Unidos, Kanner foi um psiquiatra com forte influ\u00eancia psicanal\u00edtica e descreveu os primeiros 11 casos conhecidos de autismo. O psicanalista austr\u00edaco Bruno Bettelheim [1904-1990] tamb\u00e9m fez contribui\u00e7\u00f5es nesse sentido ao estabelecer conex\u00f5es entre o autismo e as rela\u00e7\u00f5es familiares. No entanto, Bettelheim ficou conhecido como aquele que acusou as m\u00e3es de serem respons\u00e1veis pelo autismo dos filhos, por causa de uma interpreta\u00e7\u00e3o um tanto equivocada de suas ideias. Ele disse, no final de sua obra, que \u00e9 a n\u00e3o rea\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a que leva a m\u00e3e, ao final do primeiro ano, a se distanciar dela.<\/p>\n<h3><strong>Por que essa aten\u00e7\u00e3o sobre as m\u00e3es?<\/strong><\/h3>\n<p>A m\u00e3e \u00e9 respons\u00e1vel pelo estabelecimento das primeiras rela\u00e7\u00f5es do beb\u00ea com o mundo externo. Um beb\u00ea de 6 meses j\u00e1 responde aos est\u00edmulos de sua m\u00e3e, ao sorrir para ela quando a v\u00ea, ou rir quando faz c\u00f3cegas em sua barriga. Ou mesmo mais tarde, quando a crian\u00e7a est\u00e1 na rua e aponta para um cachorro para mostr\u00e1-lo \u00e0 sua m\u00e3e. Chamo essas rela\u00e7\u00f5es de prazer compartilhado. Para os psicanalistas, o prazer compartilhado \u00e9 a base de toda a constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. E beb\u00eas com risco de evolu\u00e7\u00e3o de autismo n\u00e3o reagem a esses est\u00edmulos.<\/p>\n<h3>Hoje h\u00e1 mais autistas na sociedade ou o diagn\u00f3stico \u00e9 mais preciso?<\/h3>\n<p>No fim do s\u00e9culo XX, a propor\u00e7\u00e3o era de quatro autistas para cada 4 mil pessoas. Mas atualmente, nos Estados Unidos, por exemplo, os Centros de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as [CDC] estimam que h\u00e1 um autista para cada grupo de 60 pessoas. \u00c9 uma diferen\u00e7a astron\u00f4mica. Sabemos diagnosticar melhor, mas os diagn\u00f3sticos tamb\u00e9m cresceram de forma desmesurada. Muitos m\u00e9dicos se apressam em propor o diagn\u00f3stico de autismo logo na primeira inf\u00e2ncia, para que a crian\u00e7a comece a tomar rem\u00e9dios o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Na pandemia, por exemplo, o n\u00famero de diagn\u00f3sticos de autismo aumentou muito, quando na verdade as crian\u00e7as estavam simplesmente mais quietas.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Quanto mais diverso o ambiente, melhor para o autista. Ao perceber a diferen\u00e7a com os outros, ele constr\u00f3i a consci\u00eancia sobre si mesmo.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3><strong>A senhora desenvolveu diferentes estudos envolvendo psican\u00e1lise e educa\u00e7\u00e3o. Poderia falar sobre eles?<\/strong><\/h3>\n<p>Desde que comecei a lecionar na USP, queria trazer para o Brasil um modelo franc\u00eas de atendimento em grupo, para crian\u00e7as psic\u00f3ticas e autistas, que \u00e9 associado \u00e0 inclus\u00e3o escolar. Nos anos 1990, o movimento de inclus\u00e3o escolar estava come\u00e7ando no Brasil. Apoiada nesse modelo franc\u00eas, criamos em 1992 um grupo de trabalho no IP que oferecia atendimento a crian\u00e7as de diferentes idades com problemas de aprendizagem, autistas e psic\u00f3ticos. Nosso tratamento tinha base psicanal\u00edtica, mas tamb\u00e9m contava com a participa\u00e7\u00e3o de pedagogos e fonoaudi\u00f3logos. O objetivo era fazer com que essas crian\u00e7as estabelecessem la\u00e7os com o outro sem as ang\u00fastias e defesas que costumam ter. O atendimento era conjugado com a ida \u00e0 escola, que tamb\u00e9m produz efeitos na reestrutura\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Chamamos essa proposta de educa\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, no\u00e7\u00e3o desenvolvida por mim.<\/p>\n<h3><strong>Foi esse trabalho que deu origem ao Lugar de Vida, o espa\u00e7o que se tornou uma refer\u00eancia no tratamento e acompanhamento escolar de crian\u00e7as e jovens com diferentes tipos de problemas ps\u00edquicos?<\/strong><\/h3>\n<p>Sim. Em 2017, os atendimentos deixaram de acontecer na USP e o trabalho passou a ser desenvolvido no Lugar de Vida, que funciona como uma cl\u00ednica particular em S\u00e3o Paulo e busca possibilitar a inclus\u00e3o na vida escolar e cotidiana dessas crian\u00e7as. Seguimos atendendo a grupos heterog\u00eaneos e nossos profissionais estabelecem di\u00e1logos com as escolas, cuidando para que elas recebam de forma adequada pessoas com quest\u00f5es ps\u00edquicas, que muitas vezes podem ser agressivas ou apresentar dificuldades severas de aprendizagem. A escola faz a educa\u00e7\u00e3o regular, e no Lugar de Vida fazemos educa\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. A escola regular colabora com a constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica em v\u00e1rias dimens\u00f5es, ajudando crian\u00e7as a organizar sua vis\u00e3o de mundo. Por meio desse trabalho conjunto, muitas crian\u00e7as come\u00e7aram a adquirir conhecimento, se alfabetizaram. No Lugar de Vida, trabalhamos com linhas de interven\u00e7\u00e3o precoce que permitem interferir no desenvolvimento de beb\u00eas autistas a partir dos 6 meses, fazendo frente \u00e0 dificuldade de estar com os outros e de se relacionar. A ideia \u00e9 que esse beb\u00ea seja apoiado desde o in\u00edcio para n\u00e3o criar defesas t\u00e3o duras. Atendemos crian\u00e7as de 4 anos que come\u00e7am a buscar prazer compartilhado, a construir rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o atravessadas pelo prazer. Claro, \u00e0 maneira delas. Tamb\u00e9m contamos com o projeto Escolas Protagonistas, que envolve a participa\u00e7\u00e3o de 10 escolas particulares e com quem temos um trabalho conjunto de educa\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Com apoio da FAPESP, editamos dois livros sobre pr\u00e1ticas inclusivas nessas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3><strong>Qual a import\u00e2ncia da escola na vida de uma crian\u00e7a autista?<\/strong><\/h3>\n<p>Antes se pensava que as outras crian\u00e7as atrapalhavam as autistas, porque traziam est\u00edmulos com os quais os autistas n\u00e3o conseguiam lidar. Aos poucos, pesquisas evidenciaram que crian\u00e7as autistas est\u00e3o atentas \u00e0s outras crian\u00e7as. No in\u00edcio, de maneira obl\u00edqua, mas sempre interessadas em observar o que as outras fazem. Com essa conviv\u00eancia, em um segundo momento, os autistas fazem um movimento de imitar gestos de outros alunos. Percebemos que essa imita\u00e7\u00e3o poderia se transformar em identifica\u00e7\u00e3o, que as crian\u00e7as autistas estavam construindo sua subjetividade na rela\u00e7\u00e3o com os outros alunos. Nesse sentido, quanto mais diverso e heterog\u00eaneo o ambiente, melhor para o autista porque, ao perceber a diferen\u00e7a com os outros, ele consegue constituir a consci\u00eancia sobre si mesmo. Hoje, sabemos que \u00e9 muito mais f\u00e1cil uma crian\u00e7a aprender com outra do que aprender com um adulto.<\/p>\n<h3><strong>A senhora realizou estudos que permitiram ampliar a presen\u00e7a da psican\u00e1lise em pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 sa\u00fade mental. Como isso se deu?<\/strong><\/h3>\n<p>Uma dessas pesquisas foi realizada entre 2000 e 2008 e envolveu a cria\u00e7\u00e3o dos Indicadores de Risco para Desenvolvimento Infantil [Irdi]. Por sugest\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, apresentamos um projeto, que foi aceito, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico [CNPq] e \u00e0 FAPESP. Estruturamos um grupo de trabalho coordenado por mim que envolveu especialistas em 10 capitais. Nos baseamos em pressupostos te\u00f3ricos psicanal\u00edticos sobre a constitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica de crian\u00e7as com at\u00e9 36 meses para elaborar 31 indicadores cl\u00ednicos aptos \u00e0 detec\u00e7\u00e3o de sinais iniciais de problemas ps\u00edquicos do desenvolvimento infantil, que podem ser observados nos primeiros 18 meses de vida. A ideia do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade era incorporar esses indicadores na caderneta de sa\u00fade da crian\u00e7a, para servirem de apoio a pediatras. Um dos indicadores que utilizamos envolve a ideia do prazer compartilhado. Por meio dele, conseguimos identificar se o beb\u00ea est\u00e1 em processo de retraimento relacional. Alguns indicadores passaram a compor a caderneta da crian\u00e7a em 2017. Tamb\u00e9m com financiamento da FAPESP, entre 2017 e 2019, elaboramos um outro instrumento, chamado de Acompanhamento Psicanal\u00edtico de Crian\u00e7as em Escolas, Grupos e Institui\u00e7\u00f5es [Apegi]. No Apegi, sistematizamos metodologias de diagn\u00f3stico e acompanhamentos da psican\u00e1lise com crian\u00e7as a partir de 4 anos e propusemos leituras, por interm\u00e9dio dos diferentes fen\u00f4menos observados pelo psicanalista, do processo de constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, que \u00e9 articulado ao desenvolvimento da crian\u00e7a.<\/p>\n<h3><strong>Por que \u00e9 importante contar com instrumentos como esses?<\/strong><\/h3>\n<p>O protocolo Irdi pode ser utilizado por m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, fonoaudi\u00f3logos e outros profissionais das \u00e1reas da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para acompanhar o desenvolvimento ps\u00edquico. No caso do Apegi, somente profissionais que conhecem bem a psican\u00e1lise podem utiliz\u00e1-lo. Para ambos, \u00e9 necess\u00e1rio um treinamento, dispon\u00edvel em cursos oferecidos por profissionais credenciados. Infelizmente, o poder p\u00fablico n\u00e3o assumiu ainda treinamentos gratuitos para eles. Essa \u00e9 uma batalha a ser travada. Esses instrumentos permitem criar um meio caminho entre a metodologia da psican\u00e1lise, que se baseia em um caso \u00fanico, depende de cada psicanalista e de cada paciente, e uma metodologia como a da medicina.<\/p>\n<blockquote><p><strong>A psican\u00e1lise brasileira \u00e9 hoje reconhecida. Temos mais psicanalistas na academia aqui do que a Fran\u00e7a.<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<h3><strong>Que avalia\u00e7\u00e3o a senhora faz sobre o desenvolvimento da psican\u00e1lise no Brasil, desde o seu ingresso na carreira?<\/strong><\/h3>\n<p>Circulei muito por universidades francesas, por causa de diferentes projetos de coopera\u00e7\u00e3o, especialmente entre 2000 e 2015. Sempre observei uma postura at\u00e9 certo ponto colonialista por parte dos franceses. Isso significa que eles, em alguma medida, se consideravam a institui\u00e7\u00e3o-mestre da psican\u00e1lise. Mas isso mudou e hoje o trabalho dos psicanalistas brasileiros \u00e9 reconhecido, especialmente por pesquisas desenvolvidas em universidades. No come\u00e7o da minha carreira, tamb\u00e9m me lembro que se dizia que os psicanalistas n\u00e3o sabiam elaborar projetos para buscar financiamento. Tinham dificuldade de adequar sua linguagem \u00e0 linguagem de pesquisa. Isso mudou. Atualmente, vemos psicanalistas operando em diferentes vertentes de investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Inclusive temos hoje mais psicanalistas trabalhando em universidades do que a Fran\u00e7a.<\/p>\n<h3><strong>Para quais quest\u00f5es suas pesquisas ainda n\u00e3o encontraram respostas?<\/strong><\/h3>\n<p>Estou iniciando estudos sobre a sexualidade dos Asperger, que s\u00e3o os autistas de alto rendimento. Para mim, \u00e9 um grande enigma como eles conseguem se relacionar. Tamb\u00e9m sigo com trabalhos com os instrumentos, porque o Apegi \u00e9 voltado para crian\u00e7as a partir de 4 anos e o Irdi para 1,5 ano. Temos uma lacuna no meio. Com apoio da FAPESP e coordena\u00e7\u00e3o de Rinaldo Voltolini, meu colega na FE, estou desenvolvendo uma nova pesquisa sobre instrumentos que possibilitem analisar crian\u00e7as de 18 meses a 4 anos. Ainda n\u00e3o temos protocolos estabelecidos para trabalhar com crian\u00e7as de 18 a 24 meses, ent\u00e3o esse \u00e9 outro campo que permanece em aberto.<\/p>\n<h3><strong>O que levou a senhora a escrever um romance sobre o autismo ambientado no s\u00e9culo XIX?<\/strong><\/h3>\n<p>Temos grandes dificuldades de estabelecer conversas entre a psican\u00e1lise e as correntes das ci\u00eancias baseadas em evid\u00eancias, como a medicina. Tamb\u00e9m h\u00e1 um movimento de pais que condena e combate a psican\u00e1lise. Ent\u00e3o eu pensei em escrever sobre autismo, mas em uma outra \u00e9poca, distanciando-me das querelas contempor\u00e2neas e me apoiando na linguagem do romance. Arthur, personagem principal do meu livro, \u00e9 um autista que come\u00e7a a escrever. Para criar o personagem, me baseei no modelo dos autistas escritores. Meu objetivo foi apresentar um modo de ver o autista para essas fam\u00edlias e para pessoas que t\u00eam uma vis\u00e3o mais fechada, comportamental e determinista dessa condi\u00e7\u00e3o. Sempre gostei muito das l\u00ednguas portuguesa e francesa, ent\u00e3o foi um exerc\u00edcio prazeroso.<\/p>\n<h3><strong>Como est\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade mental para autistas?<\/strong><\/h3>\n<p>No come\u00e7o do mil\u00eanio, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade fez tentativas de construir manuais apoiados em uma vis\u00e3o psicanal\u00edtica e progressista, que pensava no autismo como um modo de ser, mais do que como uma doen\u00e7a. Entre 2011 e 2016 foi elaborado um outro manual, pautado em uma vis\u00e3o mais fechada de que o autista precisa ser reeducado. Depois disso, o desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas para o autismo foi interrompido, assim como os investimentos para que escolas regulares adotassem pr\u00e1ticas inclusivas. Em 2020 chegou a ser decretada a matr\u00edcula de crian\u00e7as e adolescentes com defici\u00eancia em classes e institui\u00e7\u00f5es especializadas, mas tal pol\u00edtica acabou sendo considerada inconstitucional e foi suspensa pouco tempo depois pelo Supremo Tribunal Federal. H\u00e1 quatro anos, t\u00ednhamos 80% das crian\u00e7as brasileiras com defici\u00eancia matriculadas em escolas regulares. N\u00e3o temos dados atuais, mas muito provavelmente esse n\u00famero decaiu. Na pandemia, elas foram as primeiras a sair das escolas.<\/p>\n<h3><strong>Qual o impacto da pandemia de Covid-19 na sua vida?<\/strong><\/h3>\n<p>Eu nunca deixei de me ocupar com aquilo em que acredito. A hist\u00f3ria da pris\u00e3o s\u00f3 refor\u00e7ou minha preocupa\u00e7\u00e3o com o coletivo, com o social, com o grupo. Na psican\u00e1lise, quando a gente faz um apontamento \u00e0 resist\u00eancia ps\u00edquica, a tend\u00eancia de quem o recebe \u00e9 resistir ainda mais. Hoje, eu me sinto um pouco longe da luta pol\u00edtica, ent\u00e3o procurei manter essa posi\u00e7\u00e3o em todas as discuss\u00f5es das quais participo no mundo acad\u00eamico. Minha posi\u00e7\u00e3o dentro da universidade sempre foi combativa. Na pandemia, organizei a distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas com um grupo de 120 pessoas. Fazemos uma m\u00e9dia de 500 cestas e distribu\u00edmos em 12 pontos da cidade todos os meses. Isso, para mim, \u00e9 um pouco de resist\u00eancia pol\u00edtica. Porque, claro, as pessoas precisam das cestas, mas com essa iniciativa eu tamb\u00e9m me sinto fazendo parte da sociedade civil e me opondo \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo atual. Temos a esperan\u00e7a de que o pr\u00f3ximo governo cuidar\u00e1 melhor do emprego e da fome da nossa popula\u00e7\u00e3o. Com isso, queremos utilizar essa mesma rede para fazer a distribui\u00e7\u00e3o de livros e criar pequenas bibliotecas nos lugares em que hoje levamos comida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transitando entre a psican\u00e1lise e a educa\u00e7\u00e3o, pesquisadora elabora estudos e tratamentos pioneiros para crian\u00e7as autistas<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":4633,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[13],"tags":[108,277,182,17],"class_list":["post-4632","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-perfil","tag-educacao","tag-neurociencia","tag-politicas-publicas","tag-psicologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4632","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4632"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4632\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4785,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4632\/revisions\/4785"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4633"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}