{"id":4769,"date":"2023-02-13T10:38:25","date_gmt":"2023-02-13T12:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=4769"},"modified":"2023-02-16T11:34:02","modified_gmt":"2023-02-16T13:34:02","slug":"uma-marcha-da-insensatez-revisitada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/uma-marcha-da-insensatez-revisitada\/","title":{"rendered":"Uma marcha da insensatez revisitada"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 exatamente um m\u00eas, a nau dos insensatos atracou na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, em Bras\u00edlia, e despejou pelas ruas uma massa de gente que, depois de esperar por eternas 72 horas que nunca chegaram, cantar o hino nacional para pneu e aguardar a\u00e7\u00f5es de um general improv\u00e1vel, resolveu atacar a democracia por conta pr\u00f3pria. Naquele dia 8 de janeiro \u2013 como todos infelizmente sabem \u2013, milhares de pessoas em um transe que pode at\u00e9 ser explicado, mas nunca se justificar\u00e1, abandonaram absurdos acampamentos em frente a quart\u00e9is Brasil afora, invadiram o Pal\u00e1cio do Planalto, o Congresso e o STF e destru\u00edram o que viram pela frente. Esfaquearam Di Cavalcanti, destru\u00edram o mobili\u00e1rio e pe\u00e7as expostas e afanaram uma c\u00f3pia da Constitui\u00e7\u00e3o, deixando um preju\u00edzo de milh\u00f5es de reais e uma na\u00e7\u00e3o em estado de choque. Nesse \u00faltimo m\u00eas, muito se falou e se analisou sobre os nefastos atentados daquele aziago dia 8. Mas ainda h\u00e1 muito a se falar e a se analisar \u2013 e a se entender. Afinal, querendo-se ou n\u00e3o, aquelas a\u00e7\u00f5es de in\u00edcio de ano n\u00e3o foram um ponto fora da curva nem as consequ\u00eancias de uma conflu\u00eancia astral perniciosa, um Merc\u00fario retr\u00f3grado, ou o que seja. N\u00e3o. Aqueles atos antidemocr\u00e1ticos, com vi\u00e9s de golpe \u2013 mesmo num domingo de pal\u00e1cios vazios \u2013, s\u00e3o a consequ\u00eancia de um ovo da serpente que h\u00e1 muito chocou. E espalhou seus filhotes alucinados por todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Aquela marcha da insensatez de janeiro talvez possa ser tomada como o ato mais recente de uma \u00f3pera bufa \u2013 mas extremamente perigosa \u2013 que vem sendo encenada nos \u00faltimos anos. Uma pe\u00e7a alimentada por discursos e a\u00e7\u00f5es de gente que tinha o poder e uma caneta Bic na m\u00e3o, mas tamb\u00e9m de in\u00fameros atores que, pelos mais variados meios \u2013 principalmente as redes sociais, mas n\u00e3o s\u00f3 elas \u2013 invadiram cora\u00e7\u00f5es e mentes de uma parcela da popula\u00e7\u00e3o que, pelos mais variados motivos, achavam que acampar ao relento, clamar, com celular na testa, por ETs salvadores e achar que Lady Gaga era ministra da Corte Internacional de Haia fazia sentido. Tudo, pode-se tentar entender, em busca de uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, de preencher algum \u201cvazio existencial\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/dunker.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4772 alignleft\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/dunker.png\" alt=\"\" width=\"328\" height=\"355\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/dunker.png 328w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/dunker-277x300.png 277w\" sizes=\"(max-width: 328px) 100vw, 328px\" \/><\/a>\u201cEssa ideia de uma marcha insensata combina muito com o que aconteceu no dia 8 de janeiro. A gente n\u00e3o tem ali um abaixo-assinado, um l\u00edder disposto a negociar alguma coisa, uma demanda. Ali, cada um fez o que quis, empreendeu a sua pr\u00f3pria marcha da insensatez. E a exposi\u00e7\u00e3o disso, me parece, vai ter um efeito dramaticamente desconstrutivo em rela\u00e7\u00e3o a esse discurso, porque revela algo sobre a sua subst\u00e2ncia, sobre sua desorganiza\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o psicanalista, escritor e professor do Instituto de Psicologia da USP (IP-USP) <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9092763119565269\">Christian Dunker<\/a>.\u00a0 \u201cRevela algo tamb\u00e9m sobre sua vulgaridade, o que para os ide\u00f3logos conservadores de classe m\u00e9dia \u00e9 extremamente problem\u00e1tico. Essa parcela da sociedade n\u00e3o quer ser confundida com pessoas enroladas na bandeira nacional, sem articula\u00e7\u00e3o discursiva, berrando slogans e destruindo o patrim\u00f4nio cultural. Isso d\u00e1 uma forma, uma face a um golpe que tanto se esperou, que tanto habitou a fantasia \u2013 e os temores \u2013 de muitas pessoas nos \u00faltimos anos. A gente consegue perceber agora do que ele \u00e9 feito: um golpe rodovi\u00e1rio, feito por pessoas comuns, sem grande organiza\u00e7\u00e3o \u2013 apesar de estar sendo financiado. Isso \u00e9 muito perigoso. Hordas sem ordem levam \u00e0 barb\u00e1rie\u201d, afirma Dunker, autor de\u00a0<i>Lacan e a Democracia<\/i>, no qual analisa a articula\u00e7\u00e3o entre psican\u00e1lise e pol\u00edtica.<\/p>\n<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Realidades paralelas<\/h2>\n<p>Mas o que leva essas \u201chordas sem ordem\u201d a querer assumir um protagonismo tosco e perigoso no cen\u00e1rio democr\u00e1tico brasileiro e participar,\u00a0<i>in extremis<\/i>, da tal \u201cFesta de Selma\u201d, codinome que os golpistas deram \u00e0 invas\u00e3o da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes? Em reportagem recente sobre o rescaldo do 8 de janeiro, o jornal\u00a0<i>Valor Econ\u00f4mico<\/i>\u00a0mencionou uma situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica chamada de\u00a0<i>folie a deux<\/i>\u00a0\u2013 uma loucura a dois, mas que pode ser elevada \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia de uma multid\u00e3o fazendo parte de uma festa estranha com gente esquisita. Devem todos ser tratados como psic\u00f3ticos? N\u00e3o necessariamente. Mas haja div\u00e3 para entender como essa massa de gente acabou por escolher viver naquilo que se tem chamado de \u201crealidade paralela\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA ideia de uma realidade paralela \u00e9 uma boa express\u00e3o porque sugere que em algum momento, mesmo que no infinito, em um ponto indefinido, ela se toca com a outra. Mas \u00e9 necess\u00e1rio criar paralelas \u00e0s paralelas. Criar tamb\u00e9m perpendiculares, transversais. E quando algu\u00e9m come\u00e7a a se mudar para uma realidade paralela? Em geral, \u00e9 porque a realidade original se encontra muito indeterminada, incerta ou pouco relevante, muito mon\u00f3tona e muito tediosa. Incapaz, ent\u00e3o, de propor um horizonte de expectativas\u201d, come\u00e7a a explicar Dunker. \u201cEsses fatores convergiram para uma realidade paralela bastante organizada que exprime movimentos sociais e que vai nos dar trabalho para criar essas tais transversais\u201d, afirma ele, para continuar: \u201cA express\u00e3o \u2018realidade paralela\u2019 tamb\u00e9m \u00e9 conhecida na psicopatologia a partir de algumas vers\u00f5es poss\u00edveis. A vers\u00e3o mais grave da realidade paralela \u00e9 o del\u00edrio. Mas antes temos o devaneio, o sistema de ilus\u00e3o e, num processo inicial, as conjecturas. E a organiza\u00e7\u00e3o do bolsonarismo explora esse conjunto de vers\u00f5es paralelas \u2013 s\u00e3o v\u00e1rias, poder\u00edamos dizer \u2013, que s\u00e3o constru\u00eddas pacientemente ao longo do tempo, principalmente com a chegada da linguagem digital. Qualquer nova forma de linguagem, historicamente \u2013 livro, tv, r\u00e1dio \u2013, sempre, ao longo dos tempos, esteve ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de realidade paralela\u201d, afirma o psicanalista.<\/p>\n<p>Dentro desse contexto de uma outra realidade, h\u00e1 outros conceitos que tamb\u00e9m precisam ser vistos com aten\u00e7\u00e3o. Afinal, uma pessoa n\u00e3o embarca nessa viagem para um mundo alheio \u00e0quele de fato do nada, sem motiva\u00e7\u00e3o. Como explicou Dunker h\u00e1 pouco, essa motiva\u00e7\u00e3o pode sair de uma realidade mon\u00f3tona, que n\u00e3o oferece perspectiva. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. H\u00e1 aquilo que pode ser chamado de sentimento de \u201cvazio interior\u201d ou \u201cvazio existencial\u201d \u2013 que pode levar ao paralelismo do real mas tamb\u00e9m direciona para a necessidade de pertencimento a um grupo que defende valores semelhantes \u2013 a cria\u00e7\u00e3o de um inimigo e a famosa luta contra o comunismo, por exemplo, ou a defesa de coisas difusas como \u201cum pa\u00eds melhor\u201d \u2013 mesmo que para isso se pratique atitudes extremas, em uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia preventiva \u2013 \u201cse eu n\u00e3o fizer, o outro vai fazer pior\u201d, pode-se pensar. \u00c9 nesse ponto que se forma o que Christian Dunker chama de \u201ccren\u00e7a delirante artificialmente produzida\u201d. S\u00e3o essas pessoas \u2013 milhares, milh\u00f5es delas, na verdade \u2013 que acabam sendo alvo f\u00e1cil para posts tendenciosos (na maioria das vezes radicais) nas redes sociais e a desinforma\u00e7\u00e3o via canais extremistas.<\/p>\n<p>\u201cO vazio existencial \u00e9 uma das vers\u00f5es poss\u00edveis para a gente detalhar o que seria essa perda de rela\u00e7\u00e3o com a comunidade, com as institui\u00e7\u00f5es, com o mundo, seja na rela\u00e7\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o, seja na rela\u00e7\u00e3o de pertencimento ou na de reconhecimento. O vazio existencial depende exatamente de que planos de exist\u00eancia estamos falando. De fato, o Brasil passou, antes do bolsonarismo, por um per\u00edodo de grande reformula\u00e7\u00e3o social. Muita mobilidade, muito conflito, muitas decep\u00e7\u00f5es para determinadas pessoas. Uma forma de pensar o vazio existencial \u00e9 que ele aparece em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa insufici\u00eancia para enfrentar situa\u00e7\u00f5es, formas de mundo, que se tornaram exponencialmente complexas\u201d, afirma o professor do Instituto de Psicologia. \u201cQuando eu entendo que o espa\u00e7o pol\u00edtico se tornou t\u00e3o complicado que eu n\u00e3o consigo mais interpret\u00e1-lo, quando vejo que a vida social se transformou de tal forma que tenho que pensar e entender novos c\u00f3digos \u2013 de ra\u00e7a, g\u00eanero, credo, de orienta\u00e7\u00e3o sexual \u2013, isso gera incertezas, inseguran\u00e7a\u201d, explica Dunker.<\/p>\n<div id=\"attachment_4773\" style=\"width: 958px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4773\" class=\"size-full wp-image-4773\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao.png\" alt=\"\" width=\"948\" height=\"502\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao.png 948w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao-300x159.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao-768x407.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/invasao-400x212.png 400w\" sizes=\"(max-width: 948px) 100vw, 948px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4773\" class=\"wp-caption-text\">Janelas danificadas no Pal\u00e1cio do Planalto ap\u00f3s atos terroristas. Foto: F\u00e1bio Rodrigues-Pozzebom\/ Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-de583a3 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"de583a3\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Narrativa messi\u00e2nica<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-31fdef9 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"31fdef9\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div class=\"elementor-text-editor elementor-clearfix\">\n<p>Para Christian Dunker, a produ\u00e7\u00e3o artificial de determinada cren\u00e7a delirante \u2013 e o \u201cartificial\u201d a\u00ed serve para diferenciar da somat\u00f3ria dos transtornos individuais, dos transtornos ps\u00edquicos que porventura existam em uma comunidade \u2013 pode se basear em posi\u00e7\u00f5es institucionais comunit\u00e1rias, de linguagem, de trabalho, de vida. \u201cPotencialmente, qualquer um de n\u00f3s pode se entregar a uma cren\u00e7a delirante. Mas isso envolve certas condi\u00e7\u00f5es, como voc\u00ea se ilhar, se distanciar de seus grupos de refer\u00eancia em sua comunidade de base. De fato, o bolsonarismo fez isso: ele dividiu fam\u00edlias, criou pessoas que entraram em isolamento, ele articulou pessoas que j\u00e1 estavam isoladas\u201d, considera Dunker. \u201cUm outro ponto \u00e9 produzir uma narrativa messi\u00e2nica, que n\u00e3o precisa ser uma narrativa transcendente, mas pode ser uma grande cruzada, uma grande aventura em que n\u00f3s, pessoas comuns, vamos tomar o poder. Essa \u00e9 uma ideia que, de tempos em tempos, ressurge no mundo. Ent\u00e3o, voltando \u00e0 realidade paralela, podemos entender que ela se mostra capaz de vencer a realidade usual, ordin\u00e1ria. As pessoas entram em um processo em que a vida se intensifica, voc\u00ea tem um prop\u00f3sito, voc\u00ea tem um grupo de refer\u00eancia. Voc\u00ea tem certeza de que vai transformar o mundo. Para aquele que tem pouca autoestima, para quem tem poucas perspectivas, para quem tem o valor da vida rebaixado, entrar em um empreendimento como esse \u00e9, de fato, uma alternativa bem atraente.\u201d<\/p>\n<p>Porque, segundo o psicanalista \u2013 e isso explica muita coisa \u2013, no momento em que algu\u00e9m envereda por esse caminho, lutando contra o inimigo imagin\u00e1rio, quase moinhos de vento socialistas e perigosos que s\u00f3 existem no discurso radical, \u00e9 premiado com um efeito ps\u00edquico adicional, um b\u00f4nus: o empoderamento, a sensa\u00e7\u00e3o plena de pertencimento. \u201cA pessoa se sente mais corajosa, mais relevante no mundo, ela est\u00e1 atuando mais do que na sua condi\u00e7\u00e3o anterior. H\u00e1 um ato performativo que vai se confirmando. No momento em que a gente atua essa cren\u00e7a, ela ganha realidade. E esse \u00e9 um elemento importante da cren\u00e7a delirante, porque ela sempre se confirma. N\u00e3o por seu teor de realidade ou irrealidade, nem por seu teor de verdade ou falsidade, mas pelo seu teor de convic\u00e7\u00e3o. Ou seja, a certeza no estado psicol\u00f3gico do sujeito de que aquele engajamento se justifica. E essa certeza faz com que a individualidade e a racionalidade sejam substitu\u00eddas por uma racionalidade maior, por uma racionalidade de grupo. E \u00e9 a\u00ed que ele adquire um sentimento de prote\u00e7\u00e3o, de confian\u00e7a, de coragem para fazer o que faz\u201d, analisa Christian Dunker.<\/p>\n<p>A realidade imita a arte ou vice-versa? Nesse caso de sentimento de prote\u00e7\u00e3o, de confian\u00e7a, de coragem \u2013 como o que, de v\u00e1rias maneiras, inspirou as massas extremistas no 8 de janeiro e em outros atos nos \u00faltimos anos \u2013, talvez a polaridade pouco importe. Porque ambas chamam por demais a aten\u00e7\u00e3o \u2013 e fic\u00e7\u00e3o e realidade se confundem.\u00a0 N\u00e3o \u00e0 toa pode-se encontrar exemplos nas plataformas de streaming que referendam as ideias e a\u00e7\u00f5es discutidas neste texto. Tanto no filme de fic\u00e7\u00e3o alem\u00e3o\u00a0<i>A Onda<\/i>, de 2009, como no document\u00e1rio americano\u00a0<i>A Terra \u00e9 Plana<\/i>\u00a0(2018), a necessidade de pertencer a um grupo, de ser acolhido, \u00e9 palp\u00e1vel. E n\u00e3o importa se as ideias que levam a isso sejam as mais estapaf\u00fardias ou perigosas \u2013 no filme alem\u00e3o, a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento em um grupo de alunos que se deixa seduzir por ideais neonazistas \u00e9 o rastilho de p\u00f3lvora. O que come\u00e7a como um exerc\u00edcio para mostrar os riscos e horrores do extremismo de direita se torna o motor para a\u00e7\u00f5es cada vez mais violentas. Mas tudo em nome do grupo.<\/p>\n<p>J\u00e1 no document\u00e1rio terra-planistas, o que se v\u00ea como pessoas que n\u00e3o encontram seu lugar no mundo sens\u00edvel, que s\u00e3o praticamente invis\u00edveis em sua vida sem perspectiva e sensaborona, ganham notoriedade e seguidores pelo absurdo de suas teorias \u2013 no caso, a defesa inconteste de que a Terra \u00e9 t\u00e3o plana quanto uma bolacha de chopp. Nos dois casos, est\u00e3o aqueles elementos que Christian Dunker apontou: a falta de perspectiva, a baixa autoestima, o descolamento com a realidade. E o levantar de bandeiras que pouco ou nada coadunam com o mundo real. Exemplos n\u00e3o faltam.<\/p>\n<div id=\"attachment_4774\" style=\"width: 959px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas.png\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4774\" class=\"size-full wp-image-4774\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas.png\" alt=\"\" width=\"949\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas.png 949w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas-300x159.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas-768x408.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/02\/bolsonaristas-400x212.png 400w\" sizes=\"(max-width: 949px) 100vw, 949px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4774\" class=\"wp-caption-text\">Acampamento de manifestantes antidemocr\u00e1ticos em frente ao Pal\u00e1cio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste do Ex\u00e9rcito Brasileiro, no Rio de Janeiro &#8211; Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cA democracia precisa oferecer uma alternativa aos extremistas\u201d<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/cultura\/uma-marcha-da-insensatez-revisitada\/\">Leia mais&#8230;<\/a><\/p>\n<p>Por: Marcello Rollemberg, para o Jornal da USP, 10\/02\/2023<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um m\u00eas, Bras\u00edlia foi cen\u00e1rio do pior ato antidemocr\u00e1tico do Pa\u00eds. \u201cHordas sem ordem levam \u00e0 barb\u00e1rie\u201d, afirma o psicanalista e professor da USP Christian Dunker a respeito do 8 de janeiro<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":4771,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[430,1],"tags":[171],"class_list":["post-4769","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticia","category-sociedade","tag-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4769"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4782,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4769\/revisions\/4782"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}