{"id":485,"date":"2016-07-06T14:50:36","date_gmt":"2016-07-06T16:50:36","guid":{"rendered":"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=485"},"modified":"2018-08-06T14:44:34","modified_gmt":"2018-08-06T16:44:34","slug":"485-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/485-2\/","title":{"rendered":"Hoje eu quero ficar sozinho"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/1_AC.png\" alt=\"1 AC\" width=\"640\" height=\"352\" \/><\/p>\n<p>Cena comum no cotidiano das grandes metr\u00f3poles do s\u00e9culo XXI: um grupo de amigos se re\u00fane para um \u201chappy hour\u201d, mas todos perdem grande parte da conversa postando fotos ou \u201cconversando\u201d pelo celular. Ou ainda, s\u00e1bado \u00e0 noite e o sujeito em casa, atualizando seu \u201cstatus\u201d pelo computador em uma rede social na qual tem quase mil amigos, mas nenhum para dividir o final de semana, nenhum ao seu lado \u2013 realmente \u2013 para compartilhar as novidades dos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es sociais seguem na contram\u00e3o da tecnologia: enquanto a m\u00eddia \u00e9 cada vez mais avan\u00e7ada e fervilha novidades em segundos, o contato humano \u00e9 escasso e se d\u00e1 \u2013 muitas vezes \u2013 apenas na esfera virtual, onde muitos sabem onde voc\u00ea est\u00e1, o que comeu, ao que assistiu ou qual o \u00faltimo aparato tecnol\u00f3gico que adquiriu, sem nem mesmo conhec\u00ea-lo. O \u201ccompartilhar\u201d \u00e9 agora mera g\u00edria da rede, se restringe ao n\u00e3o palp\u00e1vel dos smartphones, tablets e computadores.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">..<\/span><br \/>\nEssa \u00e9 a ideia de\u00a0<em>Her<\/em>, longa-metragem lan\u00e7ado em 2013, em que o diretor Spike Jonze traz para as telas a ret\u00f3rica dos sentimentos vazios da contemporaneidade, travestida de hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/Captura_de_Tela_2016-07-03_%C3%A0s_01.12.56.png\" alt=\"Captura de Tela 2016 07 03 \u00e0s 01.12.56\" width=\"640\" height=\"295\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/Captura_de_Tela_2016-07-03_%C3%A0s_01.14.17.png\" alt=\"Captura de Tela 2016 07 03 \u00e0s 01.14.17\" width=\"300\" height=\"303\" \/><\/p>\n<p>Por\u00e9m, o casal que protagoniza o envolvimento amoroso \u00e9 at\u00edpico: um homem, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), e um sistema operacional de nome Samantha (voz de Scarlett Johansson). Para enfatizar a solid\u00e3o dos indiv\u00edduos na p\u00f3s-modernidade, as imagens futur\u00edsticas ganham destaque. Inspirada nelas, Anna Paula Zanoni, pesquisadora do IPUSP, desenvolveu &#8220;Imagens da solid\u00e3o na contemporaneidade: a contribui\u00e7\u00e3o do filme Her em umas perspectiva Junguiana&#8221;, sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado para o IP.<\/p>\n<p>A pesquisa aborda a solida\u0303o dos indivi\u0301duos na po\u0301s-modernidade por meio do ponto de vista de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia anali\u0301tica. A plasticidade do filme serviu como objeto de ana\u0301lise feita por meio do conceito de imagem junguiano. Segundo a conceituac\u0327a\u0303o do teo\u0301rico, os feno\u0302menos da psique sa\u0303o vistos como plurais e relacionados a aspectos individuais e coletivos dos sujeitos. Com origem nos processos psi\u0301quicos (e na fantasia), as imagens aparecem como elementos ba\u0301sicos, criadores de toda realidade, seja ela simbo\u0301lica ou metafo\u0301rica.<\/p>\n<p>De acordo com a psico\u0301loga, elas, as imagens, \u201csa\u0303o perspectivas psicolo\u0301gicas repletas de uma mu\u0301ltipla relac\u0327a\u0303o de significados, disposic\u0327o\u0303es histo\u0301ricas e possibilidades capazes de produzir reflexa\u0303o, sentido, aproximac\u0327o\u0303es com a morte, e segundo Hillman] de \u2018transformar aconte cimentos em experie\u0302ncias\u2019\u201d.<em>Her<\/em>\u00a0prima por explorar as imagens, tanto arti\u0301sticas como psicolo\u0301gicas, notabilizando a solida\u0303o de Theodore. O futurismo \u2013 para ale\u0301m do cliche\u0302 de carros voadores \u2013 amplifica e complexifica o cena\u0301rio da contemporaneidade e faz com que, se em um primeiro momento a narrativa parec\u0327a absurda \u2013 com posic\u0327o\u0303es de ca\u0302mera e escolhas de perspectivas que causam estranhamento \u2013, em outro, parec\u0327a cri\u0301vel e, ate\u0301 mesmo, uma inevita\u0301vel conseque\u0302ncia do que e\u0301 esse apartamento do personagem do mundo, da sua relac\u0327a\u0303o com outras pessoas. Cre\u0301ditos para Austin Gorg, diretor de arte do filme, e para Hoyte van Hoytema, diretor de fotografia, que, com a escolha de cena\u0301rios e de imagens de baixo contraste, permitiram a fluidez do clima, do movimento, representando um sentimento com os quais todos se identificam: a solida\u0303o que, de proveitosa, pode tornar-se a pior das companhias, porta de entrada para muitas enfermidades do homem moderno.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"column\">\n<p style=\"text-align: right;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/Captura_de_Tela_2016-07-03_%C3%A0s_01.14.03.png\" alt=\"Captura de Tela 2016 07 03 \u00e0s 01.14.03\" \/>Um homem\u00a0sozinho\u00a0no meio da multida\u0303oDesde a Revoluc\u0327a\u0303o Industrial, nos se\u0301culos XVIII e XIX, o homem pode perceber a influe\u0302ncia das ma\u0301quinas na vida da sociedade. Se a\u0300 e\u0301poca a tecnologia substituiu o trabalho artesanal como conseque\u0302ncia do progresso cienti\u0301fico e da busca por mais lucros em menor tempo, hoje ela subtrai o tempo dos indivi\u0301duos, ao mesmo tempo em que promete facilidades para a vida moderna.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ha\u0301 uma dicotomia em que, de um lado, se diminui as jornadas de trabalho, o que garantiria mais momentos de sociabilidade, e, de outro, se compromete a liberdade com dispositivos que prendem a atenc\u0327a\u0303o e segregam o indivi\u0301duo no mundo.Ja\u0301 em 1930, Sigmund Freud, quando da publicac\u0327a\u0303o de\u00a0<em>Mal-Estar na Civilizac\u0327a\u0303o<\/em>, discorria sobre como a tecnologia na\u0303o e\u0301 certificadora de felicidade. As te\u0301cnicas cienti\u0301ficas que modernizaram as etapas do trabalho na\u0303o conseguem, com o toque do controle remoto, tornar o homem feliz. \u201cA felicidade humana, por conseguinte, parece na\u0303o ser a finalidade do universo, e as possibilidades de infelicidade realizam-se mais prontamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essas possibilidades esta\u0303o centralizadas em tre\u0302s fontes: o sofrimento fi\u0301sico, corporal; perigos advindos\u00a0\u2013\u00a0talvez a fonte mais penosa de todas\u201d, escreveu o psicanalista.E assim, cercado de gente \u2013 e de ma\u0301quinas \u2013 o homem se ve\u0302 cada vez mais desamparado em uma solida\u0303o, na\u0303o so\u0301 temporal, mas tambe\u0301m atemporal, como enfatiza Zanoni em seu trabalho. Em entrevista a\u0300\u00a0psico.usp.\u00a0a pesquisadora explicou a escolha por essa tema\u0301tica, hoje ja\u0301 ta\u0303o presente em discusso\u0303es e opinio\u0303es na mi\u0301dia, assim como em conversas de pessoas comuns e especialistas que preveem as conseque\u0302ncias de um infrene contato com a conectividade. Ela elucida que \u201co tema da solida\u0303o e\u0301 universal, esta\u0301 presente nas inquietac\u0327o\u0303es pessoais, nas falas dentro do consulto\u0301rio, nas artes e em infinda\u0301veis reflexo\u0303es sobre o humano\u201d.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><br \/>\nE foi esse cena\u0301rio que Jonze captou por meio das lentes da ca\u0302mera, o indivi\u0301duo consigo mesmo, que \u201cpensa com seus boto\u0303es\u201d. Assim e\u0301 Theodore Twombly, um homem despovoado da metro\u0301pole que trabalha em uma age\u0302ncia escrevendo cartas que se notabilizam pelo teor sentimental. Ou seja, ele e\u0301 pago para emocionar um destinata\u0301rio substituindo um remetente ina\u0301bil na descric\u0327a\u0303o dos pro\u0301prios sentimentos, em uma produc\u0327a\u0303o em larga escala dos sentimentos alheios. No entanto, ha\u0301 aqui um paradoxo: Theodore esta\u0301 longe de dominar as emoc\u0327o\u0303es como o ofi\u0301cio pressupo\u0303e, e\u0301 ni\u0301tida sua inabilidade de trato pessoal.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">.<\/span><br \/>\nVive a\u0300 sombra de dramas do passado e sua vida parece na\u0303o fluir. Pore\u0301m, o diretor na\u0303o apresenta a imagem arqueti\u0301pica de um perdedor amargurado, mas sim um sujeito comum, em busca de sua identidade e, no mesmo caminho, de alguma felicidade. \u201cUma imagem muito comum da solida\u0303o na po\u0301s-modernidade e\u0301 a do indivi\u0301duo que se sente solita\u0301rio em meio a\u0300 multida\u0303o ou conectado a\u0300s redes sociais. Theodore pode ser representado de ambas as formas. Oportunidades e riscos tambe\u0301m fazem parte de sua condic\u0327a\u0303o, o que poderia situa\u0301-lo na po\u0301s-modernidade\u201d, verificou Zanoni.<\/p>\n<div class=\"page\" style=\"text-align: left;\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\" style=\"text-align: right;\">Nesse entremeio surge Samantha, que literalmente surge quando se da\u0301 um comando. Theodore, enta\u0303o, se apaixona por um \u201cSO\u201d, o primeiro \u201cSistema Operacional com Intelige\u0302ncia Artificial\u201d no mercado, que se adapta a\u0300s caracteri\u0301sticas do usua\u0301rio. Dessa forma, ao configurar e nomear seu sistema, Samantha \u201cganha vida\u201d e Theodore uma namorada. Em determinado momento da narrativa, ele vislumbra a possibilidade de um relacionamento real, mas diante do cao\u0301tico do outro, se refugia novamente no virtual, como se a bagunc\u0327a pessoal que anteve\u0302 o repelisse.Zanoni nos fala dessa inseguranc\u0327a ta\u0303o comum em uma po\u0301s-modernidade conflituosa.<\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: right;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\">Segundo ela, esse medo do desconhecido, e do estranhamento que isso causa, e\u0301 uma reac\u0327a\u0303o humana comum. Entretanto, a rapidez da mudanc\u0327a na po\u0301s-modernidade provoca uma falta de aprofundamento das experie\u0302ncias humanas. E esse processo \u201cpode gerar\u00a0indivi\u0301duos inseguros, com dificuldade de\u00a0lidar com frustrac\u0327o\u0303es e de estabelecer relac\u0327o\u0303es mais i\u0301ntimas, pois a intimidade requer que sejam percorridos os caminhos mais sombrios da alma humana\u201d, expo\u0303e a pesquisadora, para a qual o personagem na\u0303o \u201copta\u201d pelo virtual, em detrimento do real, mas se sente conforta\u0301vel com aquilo que pode prever, do qual conhece o funcionamento.<\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\">Todavia, em uma relac\u0327a\u0303o amorosa que\u00a0inclui sexo, o corpo comec\u0327a a fazer falta. A voz na\u0303o basta quando os carinhos faltam, e\u00a0Theodore comec\u0327a a se afastar de Samantha.\u00a0Esse processo na\u0303o se da\u0301 por acaso, e esse aspecto foi analisado por Zanoni, que ve\u0302 no protagonista de\u00a0<em>Her\u00a0<\/em>um conti\u0301nuo processo de reconhecimento e transformac\u0327a\u0303o. Com o desencadear da trama, ele consegue elaborar seu luto, ganhando conscie\u0302ncia de si mesmo e do mundo, tornando-se mais capaz e preparado para amar. E isso se da\u0301 pela relac\u0327a\u0303o com o \u201cSO\u201d ja\u0301 que essa interac\u0327a\u0303o possibilita que ele entre em contato com elementos psicolo\u0301gicos essenciais a ele.Imagens\u00a0da solida\u0303oE por que analisar a solida\u0303o por meio das imagens de um filme?\u00a0Muitos estudiosos do cinema ja\u0301 relacionaram as imagens da psique e dos sonhos com as imagens fi\u0301lmicas. Em ambas, ha\u0301 possibilidades\u00a0de significados\u00a0complexos e independentes. Por meio das imagens, toda a experie\u0302ncia se torna possi\u0301vel. Sa\u0303o perspectivas psicolo\u0301gicas sobre percepc\u0327o\u0303es das coisas do mundo.<\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\">A pesquisadora Anna Paula Zanoni\u00a0observou que a fotografia do filme e\u0301 umaspecto marcante na ana\u0301lise das imagens da solida\u0303o. Ainda que a produc\u0327a\u0303o utilize cores neutras nos cena\u0301rios, ha\u0301 sempre algum objeto marcadamente destacado em vermelho, laranja, azul e amarelo. Segundo ela, as cores e o olhar cinematogra\u0301fico\u00a0sugerem um \u201ctermo\u0302metro emocional\u201d. Ale\u0301m disso, enfatiza a simbologia da solida\u0303o\u00a0no filme, por meio de um cena\u0301rio intimista\u00a0com enquadramento no personagem, seja em sua casa ou no meio da multida\u0303o.<\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\"><\/div>\n<div class=\"column\" style=\"text-align: left;\">Essas imagens colaboraram para a idealizac\u0327a\u0303o de um Theodore que elabora seuluto de uma separac\u0327a\u0303o conjugal. Ele tem experie\u0302ncias e comportamentos descritosna literatura acade\u0302mica e identificados\u00a0em indivi\u0301duos que se sentem solita\u0301rios, tais como: maior movimento de interiorizac\u0327a\u0303o, personificac\u0327a\u0303o de objetos e coisas,\u00a0sentimento de inadequac\u0327a\u0303o e tristeza, esquiva de contatos sociais etc.Outros personagens da histo\u0301ria tambe\u0301m podem ser pensados em suas solido\u0303es particulares por meio das imagens. Nesse sentido, o filme e\u0301 um amontoado de emoc\u0327o\u0303es\u00a0brandas, neutras, como as nulidades das relac\u0327o\u0303es ra\u0301pidas da contemporaneidade. Sa\u0303o poucos \u2013 e raros \u2013 os momentos de explosa\u0303o, talvez o maior deles venha do pro\u0301prio sistema operacional. Ao sentir-se em segundo plano na vida do protagonista, Samantha sente ciu\u0301mes e, ate\u0301 mesmo, se desespera.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<h6><span style=\"color: #993366;\">\u00a0Das\u00a0muitas formas\u00a0de estar sozinho<\/span><\/h6>\n<p>Viver momentos de solida\u0303o pode ser\u00a0bene\u0301fico para o ser humano, especialmente em tempos de automatizac\u0327a\u0303o\u00a0de func\u0327o\u0303es \u2013 e sentimentos. Ter tempo\u00a0para o autoconhecimento e estudo de suas emoc\u0327o\u0303es se faz urgente e imprescindi\u0301vel em uma e\u0301poca em que \u201cparar\u201d e\u0301 palavra proibida. Mas perceber a linha te\u0302nue que separa a solida\u0303o que favorece da que degrada pode na\u0303o ser um processo muito claro.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 6\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.ip.usp.br\/revistapsico.usp\/images\/6_AC.png\" alt=\"6 AC\" width=\"350\" height=\"901\" \/>Em sua pesquisa, Zanoni identificou uma solida\u0303o bene\u0301fica e prazerosa, chamada solitude, sensac\u0327a\u0303o de que em \u201cuma pitada de solida\u0303o conte\u0301m algo de liberdade\u201d. A solitude e\u0301 um processo a\u0301rduo de transformac\u0327a\u0303o em que se consegue atingir as camadas mais essenciais do indivi\u0301duo. E tomar conhecimento do que se tem de mais intri\u0301nseco, sem se deixar perder e mantendo a conscie\u0302ncia dessa interac\u0327a\u0303o, e\u0301 um mergulho profundo no autoconhecimento.A ideia de solitude, segundo a pesquisadora, \u201cesta\u0301 relacionada a um estado de plenitude, conscie\u0302ncia, alteridade e espiritualidade. E\u0301 um tipo de solida\u0303o conquistada por meio de um grande desenvolvimento pessoal em que ha\u0301 um sentimento profundo de conexa\u0303o consigo mesmo e com os outros\u201d. Esse momento de conhecimento interiorizado na\u0303o caracteriza uma patologia, na\u0303o exige preocupac\u0327a\u0303o ou tratamento, pois e\u0301 um momento de plenitude em um contato consigo mesmo.<\/p>\n<p>A solida\u0303o potencialmente criativa permite que o indivi\u0301duo pare, altere seu ritmo, percebendo suas necessidades primeiras e urgentes. A psico\u0301loga elucida que, \u201ca solida\u0303o e\u0301 um elemento precioso na transformac\u0327a\u0303o alqui\u0301mica da alma humana, mas precisa da troca com outros elementos, como o amor, a morte, a dor e o miste\u0301rio, e de cuidados, como um recipiente adequado, para na\u0303o se volatilizar e se tornar um isolamento empobrecido\u201d, o que o distanciaria de\u00a0sua capacidade reflexiva.<\/p>\n<p>Theodore e\u0301 apresentado inicialmente\u00a0como um solita\u0301rio que vivencia momentos alternados de dor, tristeza, luto por uma separac\u0327a\u0303o conjugal e de vazio existencial. Esta\u0301 preso ao passado e se isola das possibilidades de relacionamentos. Dentro de seu luto, parece estar fechado para outras experie\u0302ncias e trocas que possam envolver intimidade. Com o desenrolar da trama, ele comec\u0327a a se permitir se envolver novamente, a elaborar sua separac\u0327a\u0303o, e a reconhecer e assumir as suas escolhas e desejos. A maneira\u00a0como Theodore vivenciou os novos relacionamentos, a partir dai\u0301, contribuiu para a sai\u0301da de um estado de isolamento para a de uma interiorizac\u0327a\u0303o criativa e conectada a\u0300 intimidade.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 7\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\"><a href=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/7_AC.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-530 size-full\" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/7_AC.png\" alt=\"\" width=\"766\" height=\"946\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/7_AC.png 766w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/7_AC-243x300.png 243w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/12\/7_AC-400x494.png 400w\" sizes=\"(max-width: 766px) 100vw, 766px\" \/><\/a>A pesquisadora afirma que, diferentemente da ideia de solitude, a solida\u0303o e\u0301 geralmente reconhecida como Robert\u00a0Hobson a definiu: \u201cuma dor provinda\u00a0do sentimento de inabilidade para satisfazer a necessidade urgente de relac\u0327a\u0303o com outras pessoas\u201d. Nas situac\u0327o\u0303es mais graves, ela pode levar a um estado de estagnac\u0327a\u0303o psi\u0301quica, em que se tolhem as possibilidades de uma ligac\u0327a\u0303o mi\u0301nima necessa\u0301ria com os outros. O isolamento cro\u0302nico que limita precisa ser cuidado quando percebido, pois pode subtrair do indivi\u0301duo suas necessidades psi\u0301quicas mais essenciais.<\/div>\n<div class=\"column\">Todavia, quando\u00a0questionada sobre uma relac\u0327a\u0303o entre a depressa\u0303o e a solida\u0303o desenfreada, Zanoni afirmou que na\u0303o ve\u0302 uma ligac\u0327a\u0303o\u00a0necessariamente direta entre ambas. \u201cNa\u0303o acredito que seja possi\u0301vel pensar na solida\u0303o como um u\u0301ltimo esta\u0301gio da depressa\u0303o ou como uma depressa\u0303o desenfreada. A depressa\u0303o e\u0301 um feno\u0302meno complexo e possui manifestac\u0327o\u0303es diversas. Os principais pontos de associa\u00e7\u00e3o entre a solida\u0303o e a depressa\u0303o sa\u0303o a dor que o indivi\u0301duo sente quando passa por qualquer um desses estados da alma e o grande movimento de interiorizac\u0327a\u0303o que acontece nessas situac\u0327o\u0303es\u201d.Em seu trabalho, a pesquisadora identificou em Robert Weiss \u2013 autor, educador e especialista em sexualidade \u2013 uma diferenciac\u0327a\u0303o para esses dois esta\u0301gios\u00a0da alma. De acordo com Zanoni, Weiss afirma que na solida\u0303o existe uma tentativa de superac\u0327a\u0303o da angu\u0301stia gerada por um impulso de se integrar a um novo relacionamento ou de resgatar um outro relacionamento acabado. Por esta raza\u0303o, \u201cos solita\u0301rios querem encontrar outros e, se encontram os \u2018outros certos\u2019, mudam e deixam de se sentir solita\u0301rios\u201d, argumenta a psico\u0301loga. Por outro lado, esse impulso na\u0303o costuma ocorrer com aqueles que vivenciam a\u00a0depressa\u0303o, que, normalmente, relutam em compartilhar sua infelicidade, \u201cpois entendem que seus sentimentos na\u0303o podem ser alcanc\u0327ados atrave\u0301s dos relacionamentos, sejam eles novos ou antigos\u201d, completa.<\/div>\n<div class=\"column\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">A ideia de solitude esta\u0301 relacionada a um estado de plenitude, conscie\u0302ncia, alteridade e espiritualidade. E\u0301 um tipo de solida\u0303o conquistada por meio de um<br \/>\ngrande desenvolvimento pessoal em que ha\u0301 um sentimento profundo de conexa\u0303o consigo mesmo e com os outrosA maneira de compreender essas ideias e\u0301 amparada pela teoria de Jung, uma dasprincipais influe\u0302ncias no trabalho da psico\u0301loga. Segundo ela, o fundador da psicologia anali\u0301tica tem a preocupac\u0327a\u0303o de na\u0303o limitar as psicopatologias a perspectivas reducionistas. Em sua perspectiva, procura-se entende\u0302-las como movimentos da psique que precisam ser analisados simbo\u0301lica e culturalmente. Dessa forma, Zanoni justifica que em cada enfermidade\u00a0psicolo\u0301gica e\u0301 levado em considerac\u0327a\u0303o \u201co que ha\u0301 de potencialidade e de risco. Na solida\u0303o, por exemplo, pode haver tanto um movimento de maior interiorizac\u0327a\u0303o e espiritualidade quanto um risco de isolamento e estagnac\u0327a\u0303o psi\u0301quica. Se na\u0303o aprendemos a lidar com a nossa solida\u0303o, dissolvemo-nos na inconscie\u0302ncia da coletividade\u201d.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Texto: por Aryanna Oliveira<br \/>\nEdi\u00e7\u00e3o por Islaine Maciel<br \/>\nRevis\u00e3o por Maria Isabel da Silva Leme<\/p>\n<p>Clique nas imagens para folhear as revistas\u00a0<strong>psico.<\/strong>usp<\/p>\n<div id=\"attachment_935\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 152px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n1_2015\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-935 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png\" alt=\"\" width=\"142\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2.png 307w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-2-226x300.png 226w\" sizes=\"(max-width: 142px) 100vw, 142px\" \/><\/a>Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u2013 2015, n. 1<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"attachment_933\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"width: 150px;\">\n<p class=\"wp-caption-text\"><a href=\"https:\/\/issuu.com\/psicologia_usp\/docs\/revista_psico.usp_n._2-3_2016\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-933 \" src=\"http:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png\" alt=\"\" width=\"140\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1.png 305w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2017\/11\/revista-1-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/><\/a>\u00c9 hora de falar sobre G\u00eanero \u2013 2016, n.2\/3<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cena comum no cotidiano das grandes metr\u00f3poles do s\u00e9culo XXI: um grupo de amigos se re\u00fane para um \u201chappy hour\u201d,&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":509,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[3],"tags":[138,137,17,139,22],"class_list":["post-485","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-e-cultura","tag-her","tag-cinema","tag-psicologia","tag-spike-jonze","tag-usp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=485"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2090,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/485\/revisions\/2090"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/509"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}