{"id":5101,"date":"2023-03-20T14:48:20","date_gmt":"2023-03-20T16:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=5101"},"modified":"2023-03-20T14:48:20","modified_gmt":"2023-03-20T16:48:20","slug":"ha-luta-de-classe-na-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/ha-luta-de-classe-na-psicanalise\/","title":{"rendered":"H\u00e1 luta de classe na Psican\u00e1lise?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/03\/iqq.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5102 aligncenter\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/03\/iqq.png\" alt=\"\" width=\"675\" height=\"374\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/03\/iqq.png 675w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/03\/iqq-300x166.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/03\/iqq-400x222.png 400w\" sizes=\"(max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-background\">Este \u00e9 o pref\u00e1cio de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.ubueditora.com.br\/historia-psicanalise-popular.html\">Uma hist\u00f3ria da psican\u00e1lise popular<\/a><\/em>, livro de Florent Gabarron-Garcia rec\u00e9m-publicado no Brasil pela editora Ubu, parceira de\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>. Quem apoia nosso jornalismo de profundidade tem desconto de at\u00e9 30% neste e em outros livros da editora.<\/p>\n<p>Esta pequena hist\u00f3ria da psican\u00e1lise popular n\u00e3o poderia vir em melhor hora. Mais que uma contra-hist\u00f3ria que toma o modelo hagiogr\u00e1fico de Ernest Jones como antimomodelo ideol\u00f3gico, o trabalho de Gabarron-Garcia permite mostrar como desde o in\u00edcio, na Viena dos anos 1920, a psican\u00e1lise jamais se reduziu a uma cl\u00ednica das elites para as elites. Parte desta hist\u00f3ria esquecida j\u00e1 havia sido refeita, em detalhes, para as cl\u00ednicas p\u00fablicas europeias,\u00a0<em>(1)<\/em>\u00a0para os casos suprimidos da hist\u00f3ria de sua dissemina\u00e7\u00e3o cultural\u00a0<em>(2)<\/em>\u00a0e tamb\u00e9m, em esbo\u00e7o, para a situa\u00e7\u00e3o brasileira.\u00a0<em>(3)<\/em>\u00a0Contudo, a s\u00e9rie de casos aqui apresentados n\u00e3o pode ser reduzida a uma vers\u00e3o menor ou dissidente do que, afinal, seria \u201ca psican\u00e1lise\u201d. O trajeto vai do fecundo experimento h\u00fangaro e dos lares escolares para crian\u00e7as de Vera Schmidt na Moscou bolchevique (remetendo ao trabalho de Sabina Spielrein e Tatiana Rosenthal em Petrogrado), passa pela expans\u00e3o massiva das cl\u00ednicas populares da Viena Vermelha dos anos 1920\u201330 e pelas experi\u00eancias de Wilhelm Reich \u00e0 frente da Associa\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 por uma Pol\u00edtica Sexual Prolet\u00e1ria (Sexpol), e chega aos grupos de interven\u00e7\u00e3o social de Fran\u00e7ois Tosquelles na guerra civil espanhola e de Marie Langer no entreguerras vienense. Acompanhamos no p\u00f3s-guerra o pioneirismo da cl\u00ednica francesa de La Borde, com Jean Oury e F\u00e9lix Guattari, e nos anos 1970 assistimos \u00e0 apari\u00e7\u00e3o do Coletivo Socialista de Pacientes (SPK) em Heidelberg e das comarcas de sa\u00fade mental na Argentina.<\/p>\n<p>Ignorando o testemunho hist\u00f3rico de que sempre houve uma esp\u00e9cie de luta de classes dentro da psican\u00e1lise,\u00a0<em>(4)<\/em>\u00a0tornaram-se lugar-comum ju\u00edzos globais sobre seu conformismo, adaptativo e segregacionista, bem como sobre sua ret\u00f3rica patriarcal, androcentrista e familiarista. De fato, a hist\u00f3ria oficial, acompanhada por hagiografias heroicas de seus personagens e institui\u00e7\u00f5es, buscou apagar a sistem\u00e1tica importa\u00e7\u00e3o de conceitos entre a psican\u00e1lise e as teorias sociais cr\u00edticas, assim como silenciar suas experi\u00eancias pol\u00edticas de resist\u00eancia e engajamento direto na transforma\u00e7\u00e3o social concreta.<\/p>\n<p>Os coletivos brasileiros,\u00a0<em>(5)<\/em>\u00a0que, desde os anos 2010, candidatam-se a ser o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo desta hist\u00f3ria, podem encontrar aqui algumas condi\u00e7\u00f5es precedentes para sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, mas tamb\u00e9m antecipar a regularidade de certos problemas e desafios a serem enfrentados. A primeira li\u00e7\u00e3o \u00e9 que nossos antecedentes enfrentaram recep\u00e7\u00f5es igualmente oscilantes. A pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o textual de Freud sobre as rela\u00e7\u00f5es entre pol\u00edtica e psican\u00e1lise vai do intervencionismo claro e direto na sa\u00fade mental das popula\u00e7\u00f5es, esbo\u00e7ado em seu trabalho de 1908 sobre a \u201cMoral sexual \u2018cultural\u2019 e o nervosismo moderno\u201d, at\u00e9 o desejo de universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 psican\u00e1lise, na confer\u00eancia em Budapeste de 1918, e percorre as considera\u00e7\u00f5es de Freud desde sua perspectiva do comunismo como \u201cgrande experimento cultural\u201d, em\u00a0<em>O futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>, em 1927, at\u00e9 seu indiferentismo pol\u00edtico em \u201cAcerca de uma vis\u00e3o de mundo\u201d, de 1932.<\/p>\n<p>A pergunta sobre o car\u00e1ter pol\u00edtico ou apol\u00edtico da psican\u00e1lise n\u00e3o resolve por si como a pol\u00edtica da psican\u00e1lise, entendida como movimenta\u00e7\u00e3o coordenada de suas escolas, discursos e praticantes, se comportar\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de regress\u00e3o, anomia ou regress\u00e3o democr\u00e1tica?<\/p>\n<p>O caso modelo nesta mat\u00e9ria \u00e9 representado de forma contundente pela pol\u00edtica de salvamento da psican\u00e1lise, capitaneada por Ernest Jones durante o nazismo na Alemanha. Arianiza\u00e7\u00e3o de comit\u00eas de dire\u00e7\u00e3o, exclus\u00e3o de judeus, at\u00e9 mesmo persegui\u00e7\u00e3o autossegregativa de todos os que se relacionam com a milit\u00e2ncia pol\u00edtica, seja eles analistas ou analisantes. A resolu\u00e7\u00e3o afeta, entre outros, Ernst Simmel, presidente da Sociedade dos M\u00e9dicos Socialistas; Helene Deutsch, figura pr\u00f3xima de Rosa Luxemburgo; e Erich Fromm e Karl Landauer, fundadores da Comunidade Oper\u00e1ria em prol da psicoterapia popular. Resolu\u00e7\u00e3o que faz Otto Fenichel organizar uma rede secreta de psicanalistas de esquerda nos Estados Unidos que terminam por \u201cneutralizar\u201d a tonalidade pol\u00edtica das interven\u00e7\u00f5es de Siegfried Bernfeld no universo educativo e August Aichhorn no judici\u00e1rio. Resolu\u00e7\u00e3o que deixar\u00e1 um saldo hist\u00f3rico de pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias, colaboracionistas, disciplinares e acr\u00edticas no interior da pr\u00f3pria transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise, sobretudo no modelo de forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas.<\/p>\n<p>Quando cotejamos as pol\u00edticas da psican\u00e1lise com a pol\u00edtica em sentido mais geral de ocupa\u00e7\u00e3o institucional do espa\u00e7o p\u00fablico, podemos perder de vista que as sociedades e escolas de psican\u00e1lise nem sempre s\u00e3o a express\u00e3o monol\u00edtica de um pensamento \u00fanico, longe disso: tendem a compor um campo de for\u00e7as formado por interesses distribu\u00eddos e nem sempre constantes ao longo do tempo. Basta registrar aqui a posi\u00e7\u00e3o de Freud tentando administrar conflitos entre diversas associa\u00e7\u00f5es nacionais<br \/>\nde psican\u00e1lise, contra a perspectiva global de um processo pol\u00edtico, relativamente impensado e impens\u00e1vel, pela pr\u00f3pria psican\u00e1lise, no quadro de ascens\u00e3o dos fascismos. Neste caso, seria importante rever o mito, propugnado pela pr\u00f3pria historiografia psicanal\u00edtica, sobre o car\u00e1ter unit\u00e1rio, homog\u00eaneo e hegem\u00f4nico dentro da psican\u00e1lise, como se o c\u00edrculo dos an\u00e9is de confian\u00e7a tivesse realmente se consagrado em uma pol\u00edtica una baseada na regra simples da submiss\u00e3o ou exclus\u00e3o. Neste ponto, talvez tenha ficado ausente nesta breve hist\u00f3ria a pr\u00f3pria emerg\u00eancia do lacanismo, como insurrei\u00e7\u00e3o institucional interna \u00e0 psican\u00e1lise. Independentemente de seus desdobramentos mais ou menos regressivos, resguardado seu programa de renova\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, s\u00e3o ineg\u00e1veis suas conex\u00f5es com as cr\u00edticas feminista, antirracista e marxista. Ademais, isso deixar\u00e1 marcas seja na experi\u00eancia francesa de Fran\u00e7ois Tosquelles, Frantz Fanon e Jean Oury, seja nos desdobramentos da experi\u00eancia argentina do grupo Plataforma, com Marie Langer.<\/p>\n<p>Aqui se interp\u00f5e a variedade das formas da sustenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em contexto cultural de marginalidade ou de centralidade, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s disciplinas universit\u00e1rias e diante das pr\u00e1ticas psiqui\u00e1tricas ou de sa\u00fade mental, bem como suas diferentes t\u00e1ticas de ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos, para al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es. Diante desse contexto, parece \u00f3bvio que o comunismo seja criticado depois de Stalin perseguir os psicanalistas russos e decretar a psican\u00e1lise uma ci\u00eancia burguesa, ele mesmo propondo-se o pai dos povos e mobilizando a fam\u00edlia para justificar a autocracia. Tamb\u00e9m \u00e9 compreens\u00edvel que Marie Langer, depois de ser impedida de retornar \u00e0 \u00c1ustria p\u00f3s-Anschluss \u2013 perseguida por sua origem judaica e sua luta ao lado das Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola \u2013, tivesse que esconder sua milit\u00e2ncia no ex\u00edlio na Argentina, cuja cultura psicanal\u00edtica era ainda incipiente. No entanto, quando a pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o cultural da psican\u00e1lise muda, quando seus filhos n\u00e3o est\u00e3o mais em perigo imediato e quando a mesma Argentina \u00e9 tomada pela ditadura militar, ela n\u00e3o hesita em partir para uma alian\u00e7a com o movimento oper\u00e1rio a fim de lutar pela amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 sa\u00fade mental, terminando por ser novamente exilada, desta vez na Nicar\u00e1gua.<\/p>\n<p>Ou seja, nas experi\u00eancias aqui selecionadas n\u00e3o h\u00e1 nada que se pare\u00e7a com uma posi\u00e7\u00e3o fixa \u2013 elitista ou revolucion\u00e1ria \u2013 imune \u00e0s circunst\u00e2ncias. Isso sugere que a psican\u00e1lise se politiza ou se despolitiza conforme sua reatividade contingente ao modo como a pol\u00edtica em geral afeta as pol\u00edticas de sofrimento. \u00c9 nas horas mais cr\u00edticas que ela deve ser capaz de se lembrar de sua hist\u00f3ria, de resgatar seus sil\u00eancios, de refazer seus modelos e antimodelos, mostrando que \u201ca cura pela fala permanece, gra\u00e7as a seu alcance revolucion\u00e1rio, eminentemente preciosa para os tempos presentes\u201d (p. 26).<\/p>\n<p>Seja o cooperativismo do Coletivo Socialista de Pacientes (spk) em Heidelberg dos anos 1970, sejam as experi\u00eancias institucionais na pequena vila de Saint-Alban ou no castelo de La Borde, em que a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e enfermeiros parece ser crucial, sejam, ainda, os coletivos argentinos, vienenses, russos e sua rela\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel com as pol\u00edticas de sa\u00fade mental, a linha de continuidade das experi\u00eancias relatadas mostra-se uma quest\u00e3o problem\u00e1tica. At\u00e9 que ponto as comunidades aqui discutidas deixam legados, para al\u00e9m das lideran\u00e7as fundadoras, quando estas se dissolvem no complexo de administra\u00e7\u00e3o da sa\u00fade? Novamente, em vez da oposi\u00e7\u00e3o polar entre cultura erudita da elite psicanal\u00edtica e cultura popular dos pacientes, devemos lembrar que as experi\u00eancias perif\u00e9ricas do centro europeu, aqui relatadas, criam culturas perif\u00e9ricas, e que nessas periferias h\u00e1 tamb\u00e9m centros de irradia\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o cultural da psican\u00e1lise. Uma dificuldade recorrente nas experi\u00eancias aqui trazidas, desde o \u201csemin\u00e1rio das crian\u00e7as\u201d em Berlim, \u00e9 que a elite da periferia tende a esquecer a excepcionalidade que a tornou poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria marginal da psican\u00e1lise faz parte do sistema de institui\u00e7\u00f5es com suas regras geneal\u00f3gicas de reconhecimento, ele mesmo nunca exatamente um campo pac\u00edfico. Ela compreende pol\u00edticas espec\u00edficas de interpreta\u00e7\u00e3o internalista de fatos sociais: a revolu\u00e7\u00e3o como simples caso edipiano de retorno ao mesmo lugar, as revoltas \u00e1rabes como demanda de consumo, o comunismo como regress\u00e3o materna ou masoquista dos militantes. Lembremos que, na \u00c1ustria dos anos 1930, qualquer movimento te\u00f3rico,<br \/>\nest\u00e9tico, moral ou pol\u00edtico que comportasse participantes com uma \u201cvis\u00e3o n\u00e3o ariana de mundo\u201d corria o s\u00e9rio risco de ver estes perseguidos. A leni\u00eancia de Freud com a dupla Felix Boehm e Carl M\u00fcller-Braunschweig, interessada na \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise\u201d e na cria\u00e7\u00e3o de um rosto \u201crealmente alem\u00e3o\u201d para ela, pode ter levado ao pior. O erro foi confiar na ideia de que se a psican\u00e1lise se apresentasse como uma ci\u00eancia, acima das opini\u00f5es e alinhamentos, isso a protegeria das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de governos, Estados e na\u00e7\u00f5es. Essa ideia se desdobraria na suposi\u00e7\u00e3o de que apesar de participar da circula\u00e7\u00e3o do capital, como servi\u00e7o em sa\u00fade mental e como pr\u00e1tica liberal, ela ficaria isenta e a salvo de cr\u00edticas na disputa pela justifica\u00e7\u00e3o e por legitimidade como forma de tratamento do sofrimento ps\u00edquico. Finalmente, isso levaria a uma posi\u00e7\u00e3o de retirada ou exclus\u00e3o gradual da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, seja como discurso, seja como pr\u00e1tica cl\u00ednica, seja como saber, o que veio a ocorrer principalmente nos pa\u00edses onde esta estrat\u00e9gia se mostrou dominante.<\/p>\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o da controv\u00e9rsia sobre a an\u00e1lise do car\u00e1ter e, talvez, de alguns apontamentos de Guattari, as experi\u00eancias hist\u00f3ricas parecem estar marcadas por abertura na conceitua\u00e7\u00e3o e baixo apelo normativo. A demarca\u00e7\u00e3o da fronteira entre psicoterapia e psican\u00e1lise torna-se uma quest\u00e3o menor ou posterior, mais ou menos irrelevante para os envolvidos \u00e0 \u00e9poca dos acontecimentos. As policl\u00ednicas com \u201ci\u201d de pol\u00edtica, e n\u00e3o com \u201cy\u201d como no termo franc\u00eas polycliniques \u2013 que exprime multidisciplinaridade \u2013, fazem parte da hist\u00f3ria dos desejos da psican\u00e1lise \u2013 alguns deles, in\u00e9ditos na edi\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>\u00a0em 1900: redu\u00e7\u00e3o da pobreza, adapta\u00e7\u00e3o e reconhecimento das condi\u00e7\u00f5es materiais da vida dos pacientes, problematiza\u00e7\u00e3o da incorpora\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica da lei, cr\u00edtica da repress\u00e3o diferencial das mulheres, direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o sexual, direito ao aborto, descriminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade, resist\u00eancia \u00e0s pol\u00edticas de viol\u00eancia, segrega\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma excepcionalidade moral inerente aos psicanalistas em mat\u00e9ria de pol\u00edtica, mas afinidade pr\u00e1tica, como sism\u00f3grafos do sofrimento social e cr\u00edticos do psicanalismo que ataca a profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria de nossa ancestralidade, como se avizinha no cap\u00edtulo brasileiro em forma\u00e7\u00e3o, das cl\u00ednicas livres, p\u00fablicas, pol\u00edticas ou polivalentes, o compromisso pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 \u00e1libi formativo nem carteirinha de independ\u00eancia, muito menos anel de superioridade moral, mas ajuste de contas e fidelidade a um passivo hist\u00f3rico de luta social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas de rodap\u00e9:<\/strong><\/p>\n<p><em>(1)<\/em>\u00a0Elizabeth Ann Danto, Cl\u00ednicas p\u00fablicas de Freud: psican\u00e1lise e justi\u00e7a social: 1918-1938, trad. Margarida Goldsztajn. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2019.<\/p>\n<p><em>(2)<\/em>\u00a0Ian Parker, Cultura psicanal\u00edtica, trad. Saulo Krieger. Aparecida: Ideias e Letras, 2006.<\/p>\n<p><em>(3)<\/em>\u00a0Christian I. L. Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2015.<\/p>\n<p><em>(4)<\/em>\u00a0I. Parker e David Pav\u00f3n-Cu\u00e9llar, Psican\u00e1lise e revolu\u00e7\u00e3o: psicologia cr\u00edtica para movimentos de libera\u00e7\u00e3o, trad. Luis Reyes Gil. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2022.<\/p>\n<p><em>(5)<\/em>\u00a0Ver Ilana Katz e Em\u00edlia Broide (orgs.), Psican\u00e1lise nos espa\u00e7os p\u00fablicos. S\u00e3o Paulo: ip-usp, 2019. Dispon\u00edvel em: latesfip.com.br\/psicanalise-nos-espacos-publicos<\/p>\n<p>Por: Christian Dunker, para <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/haluta-de-classe-na-psicanalise\/\">Outras Palavras<\/a>, 14\/03\/23.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novo livro analisa a hist\u00f3ria (e pot\u00eancias) das cl\u00ednicas populares. Sob o conforto da \u201cobjetividade\u201d, a \u201ccura\u201d dos sofrimentos apartou-se da pol\u00edtica. V\u00ea-los tamb\u00e9m como engrenagens da opress\u00e3o \u00e9 essencial para uma terapia emancipadora<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":5102,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-5101","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5101"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5103,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5101\/revisions\/5103"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}