{"id":5145,"date":"2023-04-10T15:39:42","date_gmt":"2023-04-10T17:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=5145"},"modified":"2023-04-12T10:34:28","modified_gmt":"2023-04-12T12:34:28","slug":"violencia-as-escolas-reflexoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/violencia-as-escolas-reflexoes\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia \u00e0s escolas: reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Entre o final de mar\u00e7o e in\u00edcio de abril de 2023, duas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia ocorreram em escolas.\u00a0 Na primeira, em uma Escola Estadual de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, na cidade de S\u00e3o Paulo, uma professora foi morta, outras pessoas foram feridas e um menino, adolescente de 13 anos, tornou-se r\u00e9u por homic\u00eddio, agress\u00e3o, porte de faca e amea\u00e7a. Nove dias depois, outro ato violento se deu, agora em uma escola de Educa\u00e7\u00e3o Infantil na cidade de Blumenau, Santa Catarina: um homem matou quatro crian\u00e7as e feriu outras quatro.<\/p>\n<p>O fato desses eventos ocorrerem em escolas merece aten\u00e7\u00e3o. A escola \u00e9, em nossa sociedade, espa\u00e7o de transmiss\u00e3o do legado humano, de cuidado e forma\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es e de manuten\u00e7\u00e3o da cultura humana. Quando se ataca uma escola s\u00e3o esses princ\u00edpios que est\u00e3o sendo destru\u00eddos. <strong>A escola \u00e9 nossa resposta social \u00e0 barb\u00e1rie; um ataque \u00e0 escola serve \u00e0 barb\u00e1rie<\/strong>.<\/p>\n<p>Muita coisa aconteceu e acontece para que uma situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia se formalize. Essa trama de fatores se refere \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas de exist\u00eancia, \u00e0s pol\u00edticas de gest\u00e3o da vida em sociedade e \u00e0s formas de cuidado (ou aus\u00eancia delas). <strong>A banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia nega essa produ\u00e7\u00e3o<\/strong> e atua como uma camada de poeira que turva tudo, t\u00e3o insidiosamente, chegando a se misturar na invisibilidade do pr\u00f3prio ar. O medo e o receio se tornam cotidianos e se materializam, por exemplo, na experi\u00eancia de pais e m\u00e3es de adolescentes quando seus filhos e filhas circulam pela cidade &#8211; principalmente pais e m\u00e3es de meninos adolescentes negros e de meninas adolescentes.<\/p>\n<p>Algumas reflex\u00f5es a destacar:<\/p>\n<ul>\n<li>A ESCOLA \u00c9 ALVO DA AGRESS\u00c3O<\/li>\n<\/ul>\n<p>A escola foi alvo de viol\u00eancia e, rapidamente, o foco recai em indaga\u00e7\u00f5es sobre o que a escola fez ou deixou de fazer, o que cada um(a) l\u00e1 fez ou deixou de fazer. Ocorre que uma das artimanhas na produ\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia \u00e9, exatamente, negar a multiplicidade de fatores que a constitui e <strong>tornar o momento e o motivo da viol\u00eancia como causados por quem a sofreu<\/strong> &#8211; como quando se culpa a escolha de uma roupa ou a atitude de uma mulher pelo ass\u00e9dio sexual e estupro em que ela foi a v\u00edtima.<\/p>\n<ul>\n<li>A ESCOLA \u00c9 ESPA\u00c7O DE VIDA DIVERSA<\/li>\n<\/ul>\n<p>A escola \u00e9 espa\u00e7o de disputa, nela se vivem as contradi\u00e7\u00f5es sociais de nosso tempo. Ela \u00e9 territ\u00f3rio de mistura e diversidade, nela qualquer crian\u00e7a ou jovem tem o direito a ser estudante:\u00a0 pessoas negras, brancas, amarelas, ind\u00edgenas, crian\u00e7as, adolescentes, adultos, pessoas com defici\u00eancia, pessoas bin\u00e1rias, n\u00e3o bin\u00e1rias, l\u00e9sbicas, trans, gays, pessoas de diferentes classes sociais e vinculadas a diversas religiosidades e cren\u00e7as. <strong>Os ataques contra a escola s\u00e3o contra a vida diversa e o direito comum.<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>MODELO DE VIDA E DE CONVIV\u00caNCIA<\/li>\n<\/ul>\n<p>H\u00e1 um modelo de vida e de conviv\u00eancia produzido em pol\u00edticas de <strong>isolamento, individualismo, competitividade e medo.<\/strong> Pol\u00edticas que produzem vidas em que m\u00e3es e pais pouco podem acompanhar o que ocorre com seus filhos e suas filhas; em que adultos n\u00e3o dividem suas d\u00favidas com outras pessoas adultas; em que n\u00e3o temos tempo, enquanto educadoras(es), para analisar e pensar a\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos acontecimentos cotidianos. Vida-tarefeira, sem garantia das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para aquilo que nos \u00e9 cobrado fazer e, assim, <strong>o tempo de encontro, conversa e organiza\u00e7\u00e3o coletiva, se esvai.<\/strong> Vida em que professoras(es) \u2013 e as pr\u00f3prias escolas &#8211; s\u00e3o amea\u00e7adas(os) quando fazem aquilo que \u00e9 fun\u00e7\u00e3o de seu trabalho: produzir reflex\u00e3o. O isolamento, o individualismo, a competitividade e o medo s\u00e3o mat\u00e9ria desse modelo de vida e de conviv\u00eancia e <strong>impedem a possibilidade do exerc\u00edcio do pensamento para combater e enfrentar as pr\u00e1ticas machistas, racistas, mis\u00f3ginas e preconceituosas em que nos forjamos. <\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>COMPLEXIDADES DE UM TEMPO<\/li>\n<\/ul>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es cotidianas em que pessoas adultas &#8211; pais, m\u00e3es e professores(as) &#8211; se percebem distantes e perdendo o acesso \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes, incita reflex\u00f5es sobre: <strong>(a)<\/strong> as condi\u00e7\u00f5es de vida, trabalho e moradia que causam sufoco f\u00edsico, ps\u00edquico e material, e enfraquecem a possibilidade de agir no mundo; <strong>(b)<\/strong> o contexto em que vivem e se constituem as diferentes inf\u00e2ncias e adolesc\u00eancias; <strong>(c)<\/strong> a for\u00e7a das m\u00eddias, das plataformas e dos aplicativos que divulgam informa\u00e7\u00f5es e socializam vidas em que h\u00e1 o dom\u00ednio dessa l\u00f3gica individualista e competitiva; <strong>(d)<\/strong> o modelo de vida e de conviv\u00eancia que\u00a0 fortalece uma <strong>l\u00f3gica punitivista<\/strong> <strong>que dispensa a reflex\u00e3o sobre o processo de produ\u00e7\u00e3o dos fatos.<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>A DOR E O DISCURSO DO \u00d3DIO<\/li>\n<\/ul>\n<p>Quando as ang\u00fastias, incertezas, dores, tristezas e frustra\u00e7\u00f5es ocorrem sem sustenta\u00e7\u00e3o coletiva de vida partilhada, <strong>h\u00e1 uma quebra na experi\u00eancia humana, facilitando a captura exercida por discursos do \u00f3dio que defendem a destrui\u00e7\u00e3o de pessoas e institui\u00e7\u00f5es. <\/strong>A captura, que se intensificou nos \u00faltimos anos com a presen\u00e7a do extremismo de direita, foi analisada em <a href=\"https:\/\/ponte.org\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Relatorio_ExtremismoDeDireitaAtaquesEscolasAlternativasParaAcaoGovernamental_RelatorioTransicao_2022_12_10.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> realizado por um grupo de pesquisadoras e ativistas coordenado pelo Professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP, Daniel Cara. Esse extremismo de direita recruta adolescentes e adultos para o crime utilizando plataformas virtuais prenhes de posi\u00e7\u00f5es machistas, mis\u00f3ginas e racistas.<\/p>\n<ul>\n<li>ARMA MATA<\/li>\n<\/ul>\n<p>A tend\u00eancia em constranger as causas da viol\u00eancia a quest\u00f5es psicol\u00f3gicas ou psiqui\u00e1tricas individuais \u00e9 um reducionismo cruel que est\u00e1 a servi\u00e7o da artimanha da viol\u00eancia de negar a multiplicidade de fatores que a constitui. Conv\u00e9m afirmar que, nessa multiplicidade, h\u00e1 o que mata e assassina: <strong>arma mata, pol\u00edtica armamentista mata e coopta\u00e7\u00e3o para o crime mata<\/strong>.<\/p>\n<p>Por fim:<\/p>\n<p>As responsabilidades sobre a constru\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es como essa implica todos n\u00f3s, de diferentes maneiras: <strong>quem age<\/strong> de forma violenta ser\u00e1 responsabilizado conforme previsto em lei; <strong>quem sofre<\/strong> a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia demandar\u00e1 cuidado, acolhimento e tratamento; <strong>quem vive<\/strong> em uma sociedade violenta (n\u00f3s) \u00e9 incitado a refletir e se responsabilizar por sua constru\u00e7\u00e3o: n\u00f3s Estado, n\u00f3s m\u00eddia, n\u00f3s educa\u00e7\u00e3o, n\u00f3s pol\u00edcia, n\u00f3s sa\u00fade, n\u00f3s justi\u00e7a, n\u00f3s educadores, n\u00f3s fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>Profissionais da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e da assist\u00eancia social t\u00eam definido a\u00e7\u00f5es de cuidado para as comunidades escolares que vivem situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. Nada f\u00e1cil, pois a precariza\u00e7\u00e3o desses setores tem gerado ac\u00famulo de trabalho e esgotamento. Compreendendo que todos e todas estamos imersas e imersos em um funcionamento desigual e violento que nos diz respeito, esses(as) <strong>profissionais criam, nas a\u00e7\u00f5es de cuidado em rela\u00e7\u00e3o ao processo de viol\u00eancia vivido, momentos de suspens\u00e3o, reflex\u00e3o, proximidade e solidariedade.<\/strong> Ocorre que enfrentar a produ\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia requer a\u00e7\u00f5es da responsabilidade de outros e outras agentes e institui\u00e7\u00f5es: o controle p\u00fablico das plataformas digitais; o desarmamento da popula\u00e7\u00e3o; o fortalecimento de espa\u00e7os coletivos de constru\u00e7\u00e3o de discuss\u00e3o das pol\u00edticas; as melhorias na condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho; o investimento em trabalhadores e trabalhadoras da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e assist\u00eancia social; o fortalecimento da autonomia das escolas; o cuidado f\u00edsico e material das escolas&#8230; Nada f\u00e1cil, nem haveria de ser. Mas, sem isso,\u00a0 <strong>tenderemos a pactuar com um pensamento que torna o alvo da viol\u00eancia, a escola, a respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Servi\u00e7o de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP<br \/>\nPor Adriana Marcondes Machado e Paula Fontana Fonseca<br \/>\nAdriana Marcondes Machado:\u00a0 Professora Livre Docente do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Servi\u00e7o de Psicologia Escolar do IPUSP.<br \/>\nPaula Fontana Fonseca: Doutora pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da USP e psic\u00f3loga no Servi\u00e7o de Psicologia Escolar do IPUSP<br \/>\n10\/4\/2023<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o final de mar\u00e7o e in\u00edcio de abril de 2023, duas situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia ocorreram em escolas.\u00a0 Na primeira,&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4,1],"tags":[],"class_list":["post-5145","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5145","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5145"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5145\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5164,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5145\/revisions\/5164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}