{"id":5246,"date":"2023-05-05T14:52:59","date_gmt":"2023-05-05T16:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/?p=5246"},"modified":"2023-05-05T14:53:23","modified_gmt":"2023-05-05T16:53:23","slug":"e-preciso-estudar-a-violencia-escolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/e-preciso-estudar-a-violencia-escolar\/","title":{"rendered":"\u00c9 preciso estudar a viol\u00eancia escolar"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 vinte e quatro anos, as not\u00edcias do massacre na\u00a0<i>Columbine High School<\/i>, no Colorado, Estados Unidos, chocavam o mundo, provocando rea\u00e7\u00f5es que colocaram a viol\u00eancia escolar no centro das discuss\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses de forma definitiva. Desde ent\u00e3o, o contexto, as raz\u00f5es e modos de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia entre jovens, em particular nas escolas, t\u00eam sido temas de debates e de estudos. Recentemente, novos casos de viol\u00eancia e de amea\u00e7as em escolas brasileiras intensificaram a argumenta\u00e7\u00e3o acerca desses assuntos no pa\u00eds, deixando pais, m\u00e3es, professores, crian\u00e7as e adolescentes assustados e exigindo a\u00e7\u00f5es efetivas de gestores das \u00e1reas de educa\u00e7\u00e3o e de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/q.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5247 aligncenter\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/q.png\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"777\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/q.png 577w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/q-223x300.png 223w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/q-400x539.png 400w\" sizes=\"(max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><\/a>O contexto em que ocorre a viol\u00eancia escolar e suas causas foram tema de ampla pesquisa, desenvolvida entre 2018 e 2021, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq)\u00a0 e que envolveu pesquisadores de oito estados brasileiros das regi\u00f5es Sul, Sudeste, Norte, Nordeste e Centro-Oeste, bem como estudiosos da Argentina, da Espanha, do M\u00e9xico e de Portugal. Ao todo, as equipes coletaram dados de mais de 3 mil estudantes, de 89 escolas. Coordenado pelo bolsista de Produtividade em Pesquisa deste Conselho, professor s\u00eanior do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade na Inf\u00e2ncia e na Adolesc\u00eancia da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP),\u00a0<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5516424346600815\">Jos\u00e9 Leon Crochick<\/a>, o estudo\u00a0<b>Viol\u00eancia Escolar: discrimina\u00e7\u00e3o, bullying e<\/b>\u00a0<b>responsabilidade\u00a0<\/b>avaliou a rela\u00e7\u00e3o entre a educa\u00e7\u00e3o inclusiva, o preconceito e a viol\u00eancia e<b>\u00a0<\/b>tratou de um dos pontos mais relevantes quando se fala no assunto: a discrimina\u00e7\u00e3o e o bullying entre os alunos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de entrevistas com alunos, coordenadores e diretores das escolas, os pesquisadores levantaram dados junto aos professores de Artes, de L\u00edngua Portuguesa e de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica das escolas pesquisadas. A escolha por entrevistar os professores dessas mat\u00e9rias se justificou, segundo Crochick, devido \u00e0 distin\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o de conte\u00fado entre elas. \u201cO motivo mais importante \u00e9 que a disciplina de L\u00edngua Portuguesa tem o objetivo de transmitir um conte\u00fado; a disciplina de Artes de incentivar a criatividade, e a de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica o exerc\u00edcio corporal, mas tamb\u00e9m a competi\u00e7\u00e3o por meio de jogos esportivos, que conforme mostram algumas pesquisas, e a nossa pesquisa confirmou a tend\u00eancia, pode levar os que mais se destacam a ser autores do bullying e os que t\u00eam piores rendimentos, sofrer\u00a0o\u00a0bullying\u201d, afirma o professor. A pesquisa tamb\u00e9m resultou na cria\u00e7\u00e3o de Observat\u00f3rios sobre Viol\u00eancia Escolar, instalados\u00a0nas universidades e institui\u00e7\u00f5es dos pesquisadores que participaram do projeto, que ser\u00e3o.alimentados com novos dados sobre o assunto e que t\u00eam o objetivo de dar continuidade ao estudo.<\/p>\n<p>O estudo verificou que a rela\u00e7\u00e3o entre o bullying e o preconceito existe, mas, em geral, essa correla\u00e7\u00e3o \u00e9 de magnitude pequena ou moderada. Embora tenham pontos em comum, o bullying e o preconceito se distinguem por envolver motiva\u00e7\u00f5es diversas. Estudantes alvo de preconceito podem sofrer bullying. Quem \u00e9 o alvo do bullying, por\u00e9m, n\u00e3o necessariamente \u00e9 v\u00edtima de preconceito. \u201cUma das formas de manifesta\u00e7\u00e3o do preconceito, al\u00e9m da segrega\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o bullying, que envolve uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e de longo prazo\u201d, diz o professor Jos\u00e9 Crochick. Segundo ele, um alvo do preconceito pode sofrer as mesmas formas de agress\u00e3o que a v\u00edtima do bullying, como ser xingado, sofrer viol\u00eancia f\u00edsica e ter apelidos ofensivos. \u201cO motivo dessas agress\u00f5es \u00e9 pela perten\u00e7a a uma minoria social\u201d, esclarece o professor. J\u00e1 para ser alvo do bullying n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio pertencer a uma minoria social. O enfrentamento do bullying necessita de medidas que v\u00e3o al\u00e9m da proposta de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisa aponta, ainda, que o conv\u00edvio com as diferen\u00e7as, proposto pela educa\u00e7\u00e3o inclusiva, contribui para a diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia escolar, por oferecer aos estudantes possibilidades para refletirem sobre os impulsos agressivos expressos pelo preconceito. De acordo com os resultados finais do projeto, ao pensar sob a \u00f3tica inclusiva, os alunos conseguem refrear arroubos que poderiam lev\u00e1-los a praticar atos violentos.<\/p>\n<p>Na entrevista que se segue, o professor Crochick comenta os resultados do estudo e analisa o fen\u00f4meno em que a viol\u00eancia escolar se transformou no Brasil nos anos recentes. Al\u00e9m de falar sobre\u00a0 o assunto e de sua rela\u00e7\u00e3o com a incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e o culto \u00e0s armas, que testemunhamos no per\u00edodo recente, o professor Crochick trata da diferen\u00e7a entre bullying e preconceito no \u00e2mbito das escolas, analisa os dois lados do bullying e o papel da inclus\u00e3o nas escolas, al\u00e9m de falar dos Observat\u00f3rios sobre Viol\u00eancia Escolar e de examinar o chamado \u201cefeito cont\u00e1gio\u201d, ocasionado pela divulga\u00e7\u00e3o de not\u00edcias acerca da viol\u00eancia nas escolas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w.png\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-5248 aligncenter\" src=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w.png\" alt=\"\" width=\"1015\" height=\"244\" srcset=\"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w.png 1015w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w-300x72.png 300w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w-768x185.png 768w, https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-content\/uploads\/sites\/340\/2023\/05\/w-400x96.png 400w\" sizes=\"(max-width: 1015px) 100vw, 1015px\" \/><\/a><\/p>\n<p><b>CNPq &#8211; Sua pesquisa trata muito da viol\u00eancia escolar no que envolve o bullying e o preconceito. Por\u00e9m, nos \u00faltimos anos, vivemos um contexto no Brasil de incita\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0 viol\u00eancia e de culto \u00e0s armas, que podem ter levado ao aumento da viol\u00eancia escolar. Esse ambiente de est\u00edmulo \u00e0 viol\u00eancia\u00a0 e de valoriza\u00e7\u00e3o de armamentos, inclusive entre a popula\u00e7\u00e3o civil, contribuiu, de fato, para o aumento da viol\u00eancia escolar?<\/b><\/p>\n<p><b>Jos\u00e9 Leon Crochick &#8211;\u00a0<\/b>A pesquisa n\u00e3o trouxe dados diretos para responder a esta quest\u00e3o, mas \u00e9 poss\u00edvel inferir, pelos resultados encontrados, que se os autores do bullying se ressentem por n\u00e3o serem destacados ou por se julgarem exclu\u00eddos do que \u00e9 valorizado e se isso conduz \u00e0 viol\u00eancia, o incentivo a \u201cfazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d, o descr\u00e9dito da justi\u00e7a socialmente organizada, a valoriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a, da virilidade, devem incrementar a viol\u00eancia que j\u00e1 existia, inclusive a viol\u00eancia contra as escolas.<\/p>\n<p>Um dos resultados que encontramos foi a rela\u00e7\u00e3o entre os estudantes que n\u00e3o se destacam nas disciplinas ministradas em sala de aula, mas se destacam na disciplina de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e, por serem populares, serem autores do bullying. Isso implica um contraste entre o que \u00e9 valorizado oficialmente pela escola \u2013 a incorpora\u00e7\u00e3o da cultura, por meio do aprendizado de disciplinas escolares \u2013 e o que \u00e9 valorizado fora e dentro dos muros escolares: a for\u00e7a, a virilidade. Dessa forma, aqueles que na escola e fora dela se sentem exclu\u00eddos ou malsucedidos nos caminhos usuais oferecidos pela sociedade, podem tentar ser valorizados por essa forma alternativa, que \u00e9, ao mesmo tempo, criticada e valorizada socialmente.<\/p>\n<p>O culto \u00e0 for\u00e7a e o incentivo ao armamento que assistimos nos \u00faltimos tempos fortalecem os \u00edmpetos de destrui\u00e7\u00e3o presentes no bullying, e isso pode estar presente nos tristes epis\u00f3dios que t\u00eam ocorrido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas.<\/p>\n<p><b>CNPq &#8211; Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre bullying e preconceito no contexto da escola? Por que o bullying ainda permanece em escolas de educa\u00e7\u00e3o inclusiva, que oferecem possibilidades para os alunos refletirem acerca dos impulsos agressivos expressos pelo preconceito?<\/b><b><\/b><\/p>\n<p><b>Jos\u00e9 Leon Crochick &#8211;<\/b>\u00a0O preconceito envolve um indiv\u00edduo espec\u00edfico que \u00e9 discriminado, quer por a\u00e7\u00f5es ofensivas, protetivas ou indiferentes; esse indiv\u00edduo pertence a um grupo, em geral, uma minoria culturalmente constitu\u00edda: judeus, negros, pessoas com defici\u00eancia, mulheres. Expressa estere\u00f3tipos, dados pela cultura, para ser justificado; o sentimento pode ser hostil, demasiado afetivo (para algumas pessoas, \u00e9 dif\u00edcil suportar que n\u00e3o se goste de algu\u00e9m, para evitar o mal estar, esse sentimento se converte no oposto, pelo mecanismo que a psican\u00e1lise nomeia de forma\u00e7\u00e3o reativa) ou indiferente; manifesta-se em a\u00e7\u00f5es como marginaliza\u00e7\u00e3o, segrega\u00e7\u00e3o e por formas de agress\u00e3o tamb\u00e9m presentes no bullying. Trata-se de proje\u00e7\u00e3o, no sentido psicanal\u00edtico, sobre outros do que n\u00e3o se pode aceitar em si mesmo.<\/p>\n<p>O bullying \u00e9 uma forma de hostilidade mais primitiva. N\u00e3o tem um objeto espec\u00edfico, visa quem n\u00e3o pode se defender suficientemente. As formas de hostilidades podem ser verbais, corporais, psicol\u00f3gicas; o desejo do autor da agress\u00e3o \u00e9 o de destruir o outro ou se destacar dos demais colegas.<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o inclusiva, atua-se em rela\u00e7\u00e3o ao respeito \u00e0s diferen\u00e7as, \u00e0s minorias, mas n\u00e3o com o desejo de destrui\u00e7\u00e3o ou com o desejo de ser mais forte, mais esperto do que os outros. Neste sentido, o respeito \u00e0s minorias pode ser fortalecido, mas a necessidade de competir, se destacar, ser melhor do que os outros pela for\u00e7a \u2013 f\u00edsica ou ps\u00edquica \u2013 n\u00e3o \u00e9 superada. Para enfrentar o bullying, esses desejos individuais, incentivados pela cultura e tamb\u00e9m pela escola, deveriam ser compreendidos e direcionados para a incorpora\u00e7\u00e3o da cultura, no que essa traz de democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\/assuntos\/noticias\/cnpq-em-acao\/e-preciso-estudar-a-violencia-escolar\"><strong>Leia mais&#8230;<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Pelo site CNPq, 02\/05\/2023<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o professor s\u00eanior do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (IPUSP), Jos\u00e9 Leon Crochick sobre o estudo Viol\u00eancia Escolar: discrimina\u00e7\u00e3o, bullying e responsabilidade. <\/p>\n","protected":false},"author":610,"featured_media":5247,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4,1],"tags":[],"class_list":["post-5246","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5246","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/610"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5246"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5246\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5250,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5246\/revisions\/5250"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5246"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5246"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.usp.br\/psicousp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5246"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}